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Setembro Amarelo

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Adriana Rocha: ‘Setembro Amarelo: quando a escuta também pode salvar’ | Uma reflexão profunda sobre como a mediação e a escuta ativa são ferramentas capazes de romper o silêncio e acolher a dor alheia

Adriana Rocha
Adriana Rocha

Há silêncios que não significam ausência de palavras. Às vezes, significam excesso delas — pensamentos que se acumulam, sentimentos que não encontram espaço, dores que não sabem como ser ditas.

É nesse território delicado que o Setembro Amarelo nos convida a permanecer atentos: ninguém deveria precisar gritar para ser ouvido.

Falar sobre prevenção ao suicídio é, antes de tudo, falar sobre humanidade. É compreender que acolher não significa ter respostas prontas, oferecer soluções imediatas ou tentar convencer alguém de que “vai ficar tudo bem”. Acolher pode começar simplesmente pela disposição genuína de estar presente.

E talvez seja justamente aqui que os princípios da mediação nos ofereçam uma importante inspiração, pois na mediação, aprendemos que escutar é muito mais do que ouvir. A escuta ativa pressupõe presença, atenção, respeito e disponibilidade para compreender o que está sendo comunicado — inclusive aquilo que não é dito explicitamente.

O mediador não escuta para julgar ou para disputar razão.
Não escuta para preparar uma resposta.Escuta para compreender!

Essa postura, tão essencial à construção de diálogos qualificados, também pode transformar relações cotidianas. Uma pergunta feita com genuíno interesse, um olhar atento, um espaço sem julgamentos ou simplesmente a disponibilidade para permanecer ao lado de alguém podem representar uma diferença significativa para quem atravessa um momento de sofrimento.

O diálogo qualificado não elimina a dor, mas pode impedir que a dor seja vivida em absoluta solidão.

Na perspectiva da mediação, o conflito não precisa ser compreendido apenas como ruptura. Ele pode também revelar necessidades, sentimentos, interesses e histórias que precisam ser reconhecidos.

Com a vida acontece algo semelhante. Por trás de um comportamento que nos incomoda, de um afastamento repentino, de uma mudança de rotina ou de um silêncio persistente, pode existir uma história que ainda não encontrou espaço para ser contada.

Por isso, prevenir também é perguntar. É perguntar e realmente permanecer para ouvir. “Como você está?” não deveria ser apenas uma pergunta automática, mas ser uma porta. “Quer conversar?” pode ser um convite. “Estou aqui para ouvir você.” pode ser uma forma de dizer: sua existência importa para mim.

A mediação nos ensina o valor de construir espaços nos quais as pessoas possam falar sem serem imediatamente interrompidas, rotuladas ou desqualificadas. Espaços em que diferentes perspectivas possam coexistir e em que a dignidade de cada pessoa seja preservada.

No Setembro Amarelo, essa aprendizagem ganha uma dimensão ainda mais profunda.

Precisamos construir, em nossas famílias, escolas, organizações, instituições e comunidades, uma verdadeira cultura da conversa.

Uma cultura em que pedir ajuda não seja interpretado como fraqueza.Em que demonstrar vulnerabilidade não seja motivo de vergonha. Em que cuidar da saúde emocional seja compreendido como parte do cuidado com a própria vida.

E, sobretudo, uma cultura em que saibamos reconhecer os limites da nossa escuta: acolher não significa substituir o cuidado profissional. Quando há sofrimento intenso ou risco de suicídio, é fundamental buscar ajuda especializada e acionar os serviços de saúde e emergência adequados.

A mediação nos lembra que algumas situações precisam de um espaço protegido para o diálogo.

O Setembro Amarelo nos lembra que algumas dores também precisam de um espaço protegido para existir — e para serem cuidadas.

Talvez o grande convite deste mês seja justamente este: antes de procurar a palavra certa, ofereça presença. Antes de oferecer conselhos, ofereça escuta.
Antes de julgar, procure compreender. Antes de concluir que alguém está bem, pergunte novamente.

Porque existem conversas que não resolvem tudo, mas existem conversas que podem fazer alguém perceber que não está sozinho.

E, às vezes, é nesse pequeno espaço entre uma pergunta e uma escuta verdadeira que nasce uma possibilidade: a possibilidade de pedir ajuda, de ser acolhido, de encontrar cuidado e de continuar.

Setembro Amarelo nos convida a iluminar a vida.
A mediação nos ensina que, para isso, precisamos aprender a escutar.

Que sejamos, portanto, presença onde houver silêncio, diálogo onde houver distância e acolhimento onde alguém estiver precisando encontrar um lugar seguro para dizer:
“Eu preciso conversar.” E ouvir como resposta: “Vamos Conversar!”

Adriana Rocha

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2 thoughts on “Setembro Amarelo

  1. Adriana, num texto irretocável, na forma e, sobretudo, no conteúdo, você destaca que a frase “Como você está?” não deve ser automático, mas sim uma ponte de interligação humana. E coroa o texto quando estabelece o limite ético da escuta, qual seja, o acolher é indispensável, porém, o direcionamento para o cuidado profissional especializado é imprescindível como salvar vidas!

  2. В этом что-то есть. Теперь стало всё ясно, большое спасибо за помощь в этом вопросе.

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