Um estranho no ninho

Sergio Diniz da Costa resgata memórias da infância e reflete sobre o bullying, a intolerância e o burilamento da alma pela vida

Sergio Diniz da Costa
Sergio Diniz da Costa
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Introvertido, introspectivo, fantasioso, contemplativo, afetivo, empático, lírico. Sete adjetivos que descrevem um menino amante dos animais e da natureza, que sonhava brincar nas nuvens, feitas de algodão, e viajar pelas estrelas, nas noites invernais de céu limpo. Um menino-poeta! Um menino que chorava a dor do próximo tanto quanto ria o riso alheio. Uma imagem, a princípio, que transpira sentimentos nobres e felicidade.

Contudo, não era assim que o menino Sergio se sentia, pois era tido por outros meninos e alguns adultos como ‘estranho’. E, não bastasse isso, por ser espírita, sofria bullying. Era chamado de ‘macumbeiro’ e, para alguns católicos e evangélicos, o destino dos espíritas era o Inferno.

No antigo Primário, havia aula de religião, e eu era o único aluno a sair da classe, uma vez que os demais eram católicos e evangélicos. Na primeira vez que saí, os coleguinhas perguntaram à professora por que eu precisava deixar a sala. Eu tinha apenas oito anos de idade, mas senti, pela maneira como ela respondeu, que também havia preconceito em relação ao espiritismo.

Como não poderia deixar de ser, se nas ruas era visto com reservas, a escola representou mais uma das estações da minha via crucis, a ponto de, cumprida a educação básica, minha vontade ear nunca mais sentar num banco escolar.

As estradas da vida, contudo, nos levam por caminhos inimagináveis. Em algum momento, nos deparamos com uma espécie de ‘portal’, a nos conduzir para outra dimensão da vida. Diante dessa passagem, o menino-poeta, agora adulto, percebeu que o sofrimento íntimo não é castigo divino, mas lição, burilamento da alma.

O ser humano é semelhante ao mármore bruto, e a vida é o martelo e o cinzel. Ao contrário, porém, do mármore que, feito matéria, é impotente diante dos golpes do cinzel, o ser humano tem o poder de receber esses golpes não como feridas na alma, mas como preciosas lições de aprendizagem.

Assim, dor e humilhação, transmutadas, passam a ser pilares a sustentar o ‘edifício’ do entendimento de que, na jornada terrena, tudo é efêmero quando os olhos enxergam o horizonte da eternidade!

Sergio Diniz Costa

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O funeral das galinhas – por Bahtiyar Hidayet

Entre a hipocrisia dos valentões e o heroísmo do galinheiro: uma mordaz sátira sobre a dignidade humana

Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
Bahtiyar Hidayet (Bakhtiyar Hasanov)
A fotografia mostra um grupo de homens vestidos com trajes tradicionais e lenços na cabeça, caminhando de costas por uma rua de terra em uma vila humilde. Um dos homens carrega um pequeno embrulho envolvido em um pano verde com contas de oração suspensas, acompanhado por outros que também seguram terços. No chão de cascalho, próximo ao grupo, há uma galinha branca. Ao fundo, vê-se um carro escuro estacionado perto de uma curva na estrada e colinas secas ao longe sob um céu nublado.
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— Você vai ao funeral?

— Não, não é para mim. E você?

— Não, eu também não vou.

— É assustador. Todos os líderes da oposição estarão lá.

Podemos tirar fotos com eles.

— Alguém deveria ter dito: Ahmed…

Afinal, o que você tinha a ver com a oposição?

— Agora ele está morto na prisão.

— Na prisão, ele não tinha respeito algum.

— É verdade. Ele nem sequer tinha um lugar nos escalões mais baixos do mundo do crime.

— Ha, ha, ha… ele trabalhava na biblioteca de lá.

Nesse ponto da conversa dos valentões do bairro,

um galo começou a expulsar as galinhas.

Um carro atropelou a galinha.

Elas se afogaram em um mar de tristeza.

A galinha havia morrido

heroicamente enquanto defendia sua honra.

Foram enterrar a galinha,

girando seus rosários enquanto caminhavam.

Bakhtiyar Hasanov

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Noites de ausência

Karen Iveth Orellana:
Quando a noite acolhe os silêncios da alma

Karen Iveth Orellana
Karen Iveth Orellana
Fotografia intimista e contemplativa de uma mulher com traços semelhantes aos da autora do poema, sentada à noite numa varanda acolhedora. Ela veste um xale escuro com estampas discretas e apoia os braços numa mesa de madeira iluminada pela luz suave de uma vela. Sobre a mesa, veem-se um caderno com caneta e uma xícara. Ao fundo, sob um céu noturno estrelado com uma lua cheia a iluminar a paisagem em tom de mistério, o ambiente transmite um sentimento de profunda calma e reflexão.
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Abraço o silêncio, o mistério e a calma profunda.

A noite não é apenas ausência de luz,

mas um refúgio íntimo onde a alma descansa das

exigências do dia e encontra a sua própria verdade.

Karen Iveth Orellana

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Domingos de outubro

Clayton Alexandre Zocarato: os amores que o tempo não consegue apagar

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Havia domingos que pareciam ter sido inventados somente para lembrar aquilo que a gente jurou esquecer.

            Os domingos de outubro eram assim para Rúbia.

            Não todos. Alguns passavam como qualquer outro dia, com o barulho dos vizinhos, o almoço demorado, a televisão ligada sem ninguém prestar muita atenção, o cheiro de café requentado e aquela preguiça que parecia morar dentro das paredes.

            Mas havia certos domingos de outubro em que a tarde adquiria uma espécie de melancolia própria, como se o tempo, por alguma razão que ela nunca conseguiu compreender, resolvesse abrir uma gaveta antiga da memória.

            Era nesses domingos que Rúbia se lembrava de Renana.

            Não se lembrava apenas dela. Lembrava-se de tudo.

            Do cabelo de Renana preso de qualquer jeito. Do perfume barato que ficava no banco do carro depois que ela ia embora. Das mensagens enviadas pelo celular durante a madrugada. Das conversas no MSN que começavam depois das onze da noite e terminavam quando já era quase manhã. Dos scraps no Orkut que pareciam declarações públicas de sentimentos que nenhum das duas tinha coragem de dizer olhando nos olhos.

            Lembrava-se das danceterias, das filas, das pulseiras de papel, das luzes coloridas, dos CDs riscados, dos amigos que hoje já não sabia onde estavam e das músicas românticas que, naquela época, pareciam falar exatamente sobre elas.

            Era estranho pensar que uma pessoa pudesse desaparecer da vida cotidiana e, mesmo assim, continuar morando em algum lugar dentro da gente.

            Rúbia havia aprendido isso depois dos trinta.

            Na juventude, imaginava que esquecer alguém era apenas uma questão de tempo. Pensava que o coração obedecia à mesma lógica dos calendários. Passariam os meses, depois os anos, e aquilo simplesmente deixaria de doer.

            Não deixou.

            Mudou de lugar.

            Talvez fosse isso que ninguém contasse quando se era jovem. A dor não desaparece necessariamente. Ela aprende a ficar quieta.

            E foi assim que Renana permaneceu dentro de Rúbia.

            Quietamente.

            Naquele outubro, muitos anos depois, Rúbia estava sentada perto da janela, olhando a chuva fina cair sobre a rua. Não era uma chuva forte. Era quase uma garoa, dessas que deixam o mundo com aparência de fotografia antiga. Ela segurava uma xícara de café e observava os carros passando, as pessoas correndo para se proteger, os cachorros procurando abrigo debaixo das marquises.

            Pensou que o mundo havia mudado demais.

            Naquela época, ninguém tinha pressa de responder imediatamente porque ninguém podia responder imediatamente.

            Um celular servia para ligar, mandar uma mensagem curta e, às vezes, tirar uma fotografia de qualidade duvidosa. Não existiam redes sociais ocupando cada minuto do dia. As pessoas ainda desapareciam durante algumas horas.

            E talvez fosse justamente por isso que as saudades eram diferentes.

            Havia tempo para sentir falta.

            Rúbia fechou os olhos.

            E voltou para 2004.

            Naquele tempo, Renana ainda não sabia que seria uma lembrança.

            Era apenas Renana.

            E isso bastava.

            Elas se conheceram numa sexta-feira de outubro, embora Rúbia tivesse a impressão de que tudo havia começado antes. Talvez tivesse começado numa troca de olhares durante uma festa. Talvez numa conversa casual.

            Talvez naquela época em que a vida parecia cheia de acontecimentos insignificantes que, anos depois, se revelariam fundamentais.

            Renana tinha um jeito de sorrir que incomodava Rúbia.

            Não porque fosse desagradável.

            Pelo contrário.

            Era um sorriso que parecia saber alguma coisa que Rúbia desconhecia.

            — Você sempre fica olhando para as pessoas desse jeito?

            — Desse jeito como?

            — Como se estivesse tentando descobrir quem elas são.

            Rúbia riu.

            — Talvez eu esteja.

            — E já descobriu alguma coisa sobre mim?

            — Ainda não.

            — Então você está atrasada.

            A frase ficou na cabeça de Rúbia durante dias.

            Naquela época, elas tinham vinte e poucos anos e acreditavam que a vida era uma coisa que aconteceria depois.

            Depois da faculdade.

            Depois do emprego.

            Depois de ganhar dinheiro.

            Depois de sair da casa dos pais.

            Depois de descobrir quem realmente eram.

            O futuro parecia enorme.

            O passado parecia pequeno.

            E o presente, coitado, quase nunca recebia atenção.

            Era assim que os jovens viviam: sempre esperando o próximo acontecimento, sem perceber que estavam fabricando as próprias lembranças.

            Naquele fim de semana, Rúbia encontrou Renana novamente numa danceteria.

            As danceterias dos anos 2000 tinham uma espécie de inocência que hoje parece quase impossível de explicar. Havia fumaça artificial, luzes giratórias, paredes escuras, caixas de som enormes, DJs que pareciam sacerdotes diante de uma mesa cheia de equipamentos e uma multidão tentando esquecer, por algumas horas, os problemas da segunda-feira.

            As pessoas dançavam.

            Algumas muito bem.

            Outras nem tanto.

            Mas ninguém parecia se importar.

            Naquela noite, tocavam sucessos que vinham do rádio, músicas românticas, pop, dance, aquelas canções que hoje soam como cápsulas de uma época. Havia músicas de James Blunt, Coldplay, Avril Lavigne, Maroon 5, The Calling, Keane, além das canções nacionais que atravessavam as rádios e apareciam nos CDs gravados pelos amigos.

            Rúbia lembrava especialmente de “The Reason”, do Hoobastank.

            Não porque fosse a música favorita de Renana.

            Era porque, naquela noite, Renana segurou sua mão quando a música começou.

            Não disseram nada.

            Talvez porque, naquela idade, algumas coisas fossem mais fáceis de fazer do que de dizer.

            Elas ficaram ali.

            Entre a música alta e as luzes coloridas.

            Entre pessoas desconhecidas.

            Entre uma juventude que ainda não sabia que estava acabando.

            Renana aproximou o rosto e perguntou:

            — Você acredita que algumas pessoas aparecem na nossa vida por acaso?

            Rúbia respondeu:

            — Não sei.

            — Eu acho que não.

            — Então por quê?

            Renana deu de ombros.

            — Porque algumas pessoas parecem que estavam atrasadas para nos encontrar.

            Rúbia sorriu.

            — Você fala umas coisas estranhas.

            — E você gosta.

            Ela gostava.

            Talvez gostasse justamente porque Renana dizia aquilo que ela mesma não sabia dizer.

            Depois daquela noite, começaram a se procurar.

            Primeiro com desculpas.

            Depois sem desculpas.

            Uma mensagem:

            “Você vai sair hoje?”

            Outra:

            “Tá fazendo o quê?”

            Depois:

            “Boa noite.”

            E, finalmente:

            “Saudade.”

            Era impressionante como uma palavra tão pequena podia causar tanto estrago.

            Naquela época, mandar uma mensagem pelo celular ainda tinha algo de ritual.    Não se escrevia qualquer coisa. Era preciso pensar antes. Cada caractere importava. Algumas mensagens precisavam ser reduzidas porque o limite de caracteres obrigava a economizar sentimentos.

            Rúbia ainda guardava um aparelho antigo numa caixa.

            Não funcionava mais.

            A bateria havia inchado.

            A tela estava arranhada.

            Mas, para ela, aquele objeto era quase um túmulo.

            Ali estavam escondidos anos de uma vida que não existia mais.

            Ela sabia que não havia mais mensagens.

            Sabia que o aparelho estava morto.

            Mesmo assim, algumas vezes o segurava nas mãos.

            Era ridículo.

            E profundamente humano.

            Porque nós não guardamos objetos apenas pelo que eles são.

            Guardamos aquilo que eles testemunharam.

            O telefone tinha visto Renana entrar na vida de Rúbia.

            Tinha visto as mensagens de madrugada.

            Tinha ouvido conversas.

            Tinha participado de esperas.

            Tinha acompanhado silêncios.

            Por isso continuava importante.

            Talvez os objetos sejam apenas testemunhas mudas das nossas ilusões.

            O relacionamento cresceu sem grandes promessas.

            Não houve pedido de casamento.

            Não houve juramento diante de testemunhas.

            Não houve aquela cena perfeita que aparece nos filmes.

            Houve coisas pequenas.

            Café.

            Passeios.

            Cinema.

            Danceterias.

            Domingos.

            Chuva.

            Discussões bobas.

            Ciúmes.

            Risos.

            Beijos roubados.

            Mãos dadas dentro do carro.

            Mensagens enviadas quando uma delas já deveria estar dormindo.

            Havia uma felicidade quase doméstica naquilo.

            E talvez justamente por isso tenha sido tão verdadeira.

            Rúbia gostava de observar Renana quando ela não sabia que estava sendo observada.

            Gostava de vê-la arrumar o cabelo diante do espelho.

            Gostava de vê-la escolher uma música.

            Gostava de ouvi-la falar sobre coisas que Rúbia considerava insignificantes.

            Renana falava de roupas.

            De filmes.

            De amigos.

            De músicas.

            De viagens que talvez nunca fizessem.

            Falava sobre ter uma casa com uma varanda.

            Falava que queria morar em um lugar onde pudesse ouvir chuva.

            Rúbia ria.

            — Você quer morar dentro de uma música.

            — Talvez.

            — Isso não existe.

            — Então eu invento.

            Na juventude, tudo parecia possível porque ainda não conhecíamos suficientemente a palavra impossível.

            O amor de Rúbia e Renana foi construído nessa ingenuidade.

            Não era perfeito.

            Nenhum amor é.

            Mas havia sinceridade.

            Elas acreditavam que o sentimento seria suficiente.

            Essa foi talvez a primeira grande ilusão da vida adulta.

            O amor é importante.

            Mas o mundo não para,  para que duas pessoas possam permanecer juntas.

            O tempo não tem delicadeza.

            As circunstâncias também não.

            Vieram empregos.

            Mudanças.

            Família.

            Responsabilidades.

            Problemas financeiros.

            Distâncias.

            A vida começou a cobrar aquilo que a juventude havia deixado para depois.

            E as duas começaram a perceber que amar alguém não significava necessariamente saber permanecer.

            A primeira grande discussão aconteceu numa noite de domingo.

            Renana havia recebido uma proposta de trabalho em outra cidade.

            Era uma oportunidade.

            Boa.

            Talvez excelente.

            Rúbia ficou feliz por ela.

            Ou tentou ficar.

            — Você vai aceitar?

            — Não sei.

            — Você quer?

            — Quero.

            Rúbia respirou fundo.

            — Então aceite.

            Renana ficou olhando para ela.

            — É só isso?

            — O que você quer que eu diga?

            — Não sei.

            — Renana, você sempre disse que queria crescer.

            — E você?

            Rúbia não respondeu.

            Era aí que estava o problema.

            Renana queria ir.

            Rúbia queria ficar.

            Nenhuma das duas estava errada.

            E talvez essa seja uma das maiores tragédias do amor: às vezes não existe culpado.

            Existem apenas direções diferentes.

            Durante algumas semanas, tentaram fazer funcionar.

            Telefonemas.

            Mensagens.

            E-mails.

            Conversas pela internet.

            O MSN aberto durante a noite.

            O famoso aviso “fulano está digitando…” provocava uma ansiedade que hoje parece quase infantil.

            Rúbia esperava.

            Renana escrevia.

            Às vezes demorava.

            Às vezes desaparecia.

            Às vezes uma delas estava online e a outra não dizia nada.

            E aquele silêncio digital tinha um peso enorme.

            A distância começou a transformar pequenas coisas em grandes problemas.

            Um “oi” que demorava.

            Uma ligação não atendida.

            Uma festa.

            Uma amizade.

            Uma fotografia.

            Uma frase mal interpretada.

            Era como se a ausência produzisse fantasmas.

            Quando estavam juntas, bastava um olhar para resolver.

            Quando estavam longe, era preciso explicar tudo.

            E o amor, quando precisa explicar demais a própria existência, começa a ficar cansado.

            Ainda assim, elas tentaram.

            Durante meses.

            Talvez durante mais tempo do que deveriam.

            Talvez durante menos tempo do que poderiam.

            Ninguém sabe.

            O fim não aconteceu de uma vez.

                        Foi acontecendo aos poucos.

            Primeiro diminuíram as mensagens.

            Depois os telefonemas.

            Depois as visitas.

            Depois as promessas.

            Até que um dia perceberam que estavam sustentando mais a lembrança do que o relacionamento.

            Foi numa tarde de outubro.

            Sempre outubro.

            Rúbia jamais conseguiu descobrir por que a vida escolheu outubro para lhe ensinar algumas das suas maiores tristezas.

            Renana estava sentada diante dela.

            As duas tinham ido a um café.

            Havia pouco movimento.

            A televisão estava ligada sem som.

            Do lado de fora, algumas folhas secas eram levadas pelo vento.

            — Você ainda me ama? — perguntou Rúbia.

            Renana demorou.

            — Amo.

            — Então por que está indo embora?

            Renana abaixou os olhos.

            — Porque às vezes amar não resolve.

            A frase ficou entre elas.

            Era cruel.

            E verdadeira.

            Rúbia queria odiá-la.

            Não conseguiu.

            Queria gritar.

            Também não conseguiu.

            Queria pedir que ficasse.

            Mas alguma coisa dentro dela percebeu que certas pessoas não podem ser mantidas pela força de uma súplica.

            Renana segurou sua mão.

            — Eu não quero que você pense que foi mentira.

            Rúbia respondeu:

            — Eu sei que não foi.

            — Então?

            — Então é pior.

            Renana chorou.

            Rúbia também.

            E ali terminou uma história que, para elas, ainda não tinha terminado.

            Porque os relacionamentos acabam antes das lembranças.

            Essa talvez seja uma das crueldades do tempo.

            O corpo aprende a continuar.

            A memória não.

            Depois daquele dia, Rúbia voltou para casa sozinha.

            Entrou no quarto.

            Sentou na cama.

            Pegou o celular.

            Abriu as mensagens.

            Leu tudo.

            Não apagou nada.

            Durante aquela noite, ouviu músicas antigas.

            Uma atrás da outra.

            Canções que tinham sido trilha sonora de uma juventude que agora parecia pertencer a outra pessoa.

            “Apologize”, “Because of You”, “I’m Yours”, “Chasing Cars”, “She Will Be Loved”.

            Cada música parecia carregar um pedaço de Renana.

            Rúbia descobriu naquele momento que as músicas não guardam apenas sons.

            Guardam versões de nós mesmos.

            Quando uma música antiga volta a tocar depois de muitos anos, não ouvimos somente a canção.

            Ouvimos quem éramos quando a escutamos pela primeira vez.

            E isso pode ser devastador.

            Anos passaram.

            A década mudou.

            Os celulares ficaram inteligentes.

            As redes sociais se multiplicaram.

            As fotografias deixaram de ser raras.

            As pessoas passaram a fotografar tudo.

            Comida.

            Viagens.

            Aniversários.

            Tristezas.

            Felicidades.

            Até a solidão começou a ser publicada.

            Rúbia observava tudo aquilo,  com uma espécie de espanto.

            Na época dela, uma fotografia podia ficar dentro de uma carteira durante anos.

            Agora milhares delas desapareciam na velocidade de um toque.

            O mundo havia ficado mais conectado.

            Mas Rúbia não tinha certeza de que as pessoas estavam mais próximas.

            Às vezes parecia exatamente o contrário.

            Havia milhares de formas de encontrar alguém.

            E cada vez menos maneiras de realmente permanecer.

            Ela se casou.

            Teve uma vida.

            Trabalhou.

            Mudou de casa.

            Perdeu pessoas.

            Ganhou outras.

            Aprendeu a pagar contas.

            A resolver problemas.

            A fingir que estava tudo bem quando não estava.

            Aprendeu que ser adulta é, em grande parte, aprender a continuar mesmo quando alguma coisa dentro da gente ficou parada em determinado lugar.

            Renana também seguiu sua vida.

            Rúbia soube disso por acaso.

            Anos depois, encontrou seu nome em uma rede social.

            Ficou alguns segundos olhando para a fotografia.

            Renana havia mudado.

            Ou talvez fosse apenas a, fotografia que mostrasse aquilo que o tempo havia feito.

            Rúbia não enviou mensagem.

            Fechou a página.

            Passou a noite pensando nisso.

            Na manhã seguinte, continuou a vida.

            Mas a memória havia sido acordada.

            E certas memórias, uma vez acordadas, nunca voltam completamente a dormir.

            Foi em outro domingo de outubro que Rúbia decidiu visitar a antiga danceteria.

            Ela ainda existia.

            Mas estava diferente.

            O letreiro havia mudado.

            A fachada parecia menor.

            Talvez porque Rúbia tivesse crescido.

            Entrou.

            O lugar já não tinha o mesmo movimento.

            As luzes pareciam menos intensas.

            As paredes pareciam menores.

            O som era diferente.

            As músicas eram outras.

            Rúbia ficou parada durante alguns segundos.

            Foi tomada por uma sensação estranha.

            Não era exatamente tristeza.

            Era algo mais complexo.

            Era perceber que um lugar pode permanecer de pé depois que tudo aquilo que lhe dava significado desaparece.

            Ela caminhou até o salão.

            Ali havia dançado com Renana.

            Ali haviam se beijado.

            Ali tinham discutido.

            Ali tinham prometido coisas que o tempo não permitiria cumprir.

            Rúbia sorriu.

            Não porque estivesse feliz.

            Mas porque finalmente conseguia lembrar sem querer voltar.

            Talvez esse fosse o sinal de que havia amadurecido.

            Durante muito tempo, pensou que superar fosse apagar.

            Depois entendeu que superar talvez fosse conseguir lembrar sem desejar modificar o passado.

            A vida não é uma máquina de escrever onde podemos voltar e corrigir uma frase.

            Ela é mais parecida com uma fotografia antiga.

            Podemos olhar.

            Podemos ampliar.

            Podemos lembrar.

            Mas não podemos entrar novamente naquele instante.

            Rúbia saiu da danceteria.

            A noite estava começando.

            Outubro tinha aquele cheiro de chuva que ela conhecia desde criança.

            Andou pela rua sem pressa.

            Pensou em Renana.

            Pensou em si mesma.

            Pensou naquela garota de vinte e poucos anos que acreditava que o amor poderia derrotar o tempo.

            Hoje sabia que não.

            O amor não derrota o tempo.

            Talvez o amor seja justamente aquilo que o tempo não consegue destruir completamente.

            Porque, se o amor pudesse vencer o tempo, ninguém precisaria sentir saudade.

            E a saudade existe porque alguma coisa sobreviveu.

            Talvez fosse isso que Renana havia deixado.

            Não uma ferida.

            Não exatamente.

            Uma presença.

            Uma espécie de sombra luminosa.

            Algo que aparecia em determinadas músicas, em certos domingos, em algumas ruas, em outubro.

            Rúbia voltou para casa.

            Abriu uma caixa antiga.

            Dentro havia fotografias.

            Ingressos.

            Papéis.

            Um cartão.

            Um CD gravado.

            Ela encontrou uma fotografia das duas.

            Estavam sorrindo.

            Rúbia olhou durante muito tempo.

            Depois colocou a fotografia sobre a mesa.

            Não chorou.

            Pela primeira vez, não chorou.

            Pegou o celular moderno e procurou uma música antiga.

            “The Reason”.

            A canção começou.

            Rúbia fechou os olhos.

            E por alguns minutos voltou àquela danceteria.

            Àquela noite.

            Àquelas luzes.

            Àquele cheiro de perfume.

            Àquela mão segurando a sua.

            Àquela mulher que ainda era jovem.

            Àquele amor que ainda não sabia que teria fim.

            E, por alguns segundos, o tempo pareceu não existir.

            Foi então que Rúbia compreendeu uma coisa simples.

            O passado não volta.

            Mas também não desaparece.

            Ele muda de forma.

            Às vezes vira fotografia.

            Às vezes vira música.

            Às vezes vira uma rua.

            Às vezes vira um cheiro.

            Às vezes aparece num domingo de outubro, quando a chuva cai devagar e a casa parece grande demais.

            E, às vezes, o passado vira uma pessoa que já não está mais ao nosso lado, mas que continua existindo em alguma região secreta daquilo que fomos.

            Renana não fazia mais parte da vida de Rúbia.

            Mas fazia parte da história dela.

            E talvez essa fosse a única maneira verdadeira de permanecer.

            Não como promessa.

            Não como possibilidade.

            Não como alguém esperando voltar.

            Mas como lembrança.

            Uma lembrança que não precisava mais pedir licença.

            Rúbia terminou o café.

            A música acabou.

            Por alguns segundos, ficou apenas o silêncio.

            Depois começou outra.

            Ela sorriu.

            Não sabia qual seria o próximo domingo.

            Não sabia o que ainda aconteceria.

            Não sabia quantos outubros teria pela frente.

            Mas havia aprendido alguma coisa com o tempo.

            A juventude acredita que precisa possuir o futuro.

            A maturidade descobre que basta estar presente.

            E talvez o amor seja isso também: não a promessa de ficar para sempre, mas a capacidade de fazer com que um instante seja tão verdadeiro que nem mesmo o tempo consiga apagá-lo.

            Rúbia levantou-se.

            Foi até a janela.

            A chuva havia parado.

            A rua estava molhada.

            As luzes dos postes refletiam no asfalto como pequenas estrelas quebradas.

            Ela pensou em Renana uma última vez naquela noite.

            Não com tristeza.

            Com ternura.

            Porque algumas pessoas não permanecem na nossa vida.

            Permanecem em nós.

            E isso, por mais doloroso que seja, também é uma forma de eternidade.

            Naquela noite, Rúbia guardou novamente a fotografia.

            Fechou a caixa.

            Apagou a luz.

            E antes de dormir pensou que talvez os domingos de outubro nunca deixassem de trazer Renana de volta.

            Talvez nem precisassem.

            Há lembranças que não querem ser esquecidas.

            Querem apenas ser compreendidas.

            E, depois de tantos anos, Rúbia finalmente compreendia.

            Renana não havia sido o amor que ficou.

            Havia sido o amor que passou.

            E justamente por ter passado, havia deixado atrás de si aquilo que o tempo jamais conseguiu levar completamente.

            Uma música.

            Uma fotografia.

            Uma danceteria.

            Alguns domingos.

            E a certeza estranha, quase dolorosa, de que houve uma época em que duas pessoas acreditaram, com toda a inocência do mundo, que poderiam impedir o tempo de separá-las.

            Não conseguiram.

            Mas, durante algum tempo, foram felizes.

            E talvez seja isso que realmente importa.

            Porque a felicidade não precisa durar para sempre para ter sido verdadeira.

            Às vezes, basta ter existido.

            E Rúbia sabia que, quando outubro voltasse novamente, em algum domingo qualquer, talvez ela ouvisse uma música antiga e se lembrasse de Renana.

            Talvez sorrisse.

            Talvez sentisse saudade.

            Talvez olhasse pela janela.

            E deixasse a lembrança passar.

            Como quem abre uma porta para alguém que já foi embora.

            Sem pedir que volte.

            Sem perguntar por quê.

            Apenas reconhecendo, em silêncio, que um dia aquela pessoa esteve ali.

            E que, durante algum tempo, o mundo foi mais bonito por causa disso.

Clayton Alexandre Zocarato

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O amor não terminou no adeus

Em versos profundamente comoventes, o poeta Guilherme Machado canta a saudade, a herança dos gestos e o amor eterno que transcende a partida de um pai

Guilherme Cesar Machado de Araújo
Guilherme Machado
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O tempo é cruel
Deus é soberano
Me perdoe, pai
Por nunca ter dito eu o amo

Eu queria que você tivesse visto
O homem que me tornei.
Talvez eu nunca possa saber,
Mas acho que você teria orgulho de mim.

Eu queria ter jogado futebol com você.
Já adulto, vi tantos pais jogando com seus filhos
E, em silêncio, imaginava que éramos nós dois,
Enquanto escondia a emoção para ninguém perceber.

Hoje entendo que nunca foi sobre o jogo.
Era apenas um filho, mesmo depois de adulto,
Desejando ter vivido com o pai
Um momento que nunca aconteceu.

Eu evitava lhe contar meus problemas,
Talvez para não lhe dar mais um para carregar.
Mas bastava deixar alguma coisa nas entrelinhas
E você percebia o que eu tentava esconder.

Às vezes, meses depois, o telefone tocava.
Você ainda estava pensando naquilo que eu havia deixado escapar.
Sempre aparecia com alguma solução.
É um traço seu que hoje reconheço em mim.
Talvez essa fosse a sua maneira de dizer que me amava.

Nas sextas-feiras, muitas vezes falei de você.
Contei aos meus alunos sobre os seus erros,
Não para que pensassem menos de você,
Mas para que não precisassem cometer os mesmos erros.

Falei de um homem bom, de coração bom,
Que algumas vezes tomou decisões ruins.
E cada vez que sua história ensinou alguém,
Eu tive a certeza de que honrei a sua memória.

Demorei muitos anos para entender
Que algumas coisas não precisam ser ditas para serem verdade.
Talvez tenha faltado um “eu o amo” entre nós,
Mas nunca faltou amor.

Hoje encontro você em algumas partes de mim,
Em gestos que repito sem perceber,
Na vontade de cuidar de quem está ao meu lado,
Nos exageros que também herdei de você,
E até nessa mania de querer encontrar uma solução para tudo.

Mas se o tempo foi cruel,
O amor não terminou no adeus
O que eu não pude dizer em vida,
Hoje entrego nas mãos de Deus.

E se existe um lugar
Onde o amor alcança quem partiu,
Que você saiba, pai
Seu filho sempre o amou.

Uma homenagem a Clovis Cesar Machado de Araujo Sobrinho.

Guilherme Machado

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Outubro Rosa: o primeiro diálogo é com você, mulher!

A mediadora e colunista Adriana Rocha propõe uma reflexão sensível sobre empatia, autocuidado e a importância da prevenção na saúde feminina

Adriana Rocha
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Há diálogos que transformam relações, mas há um diálogo que não pode ser adiado: aquele que cada mulher estabelece consigo mesma.

No cotidiano, aprendemos a escutar tantas pessoas, acolher tantas histórias, cuidar de tantos outros… que, algumas vezes, deixamos a nossa própria voz para depois. 

O Outubro Rosa nos convida a inverter essa lógica.  Olhar para si também é uma forma de amor. Perceber o próprio corpo. Respeitar seus sinais.   Conhecer sua história. Fazer seus exames preventivos. Buscar orientação profissional quando necessário. E, sobretudo, não tratar o autocuidado como luxo ou egoísmo.

Na mediação, aprendemos que a escuta atenta é uma expressão de empatia. Talvez seja exatamente isso que precisamos praticar conosco:                       uma escuta sem julgamento, sem negligência e sem adiamentos.

Empatia também é perguntar a si mesma: como eu estou? O que meu corpo está tentando me dizer? Quando foi a última vez que cuidei de mim com a mesma dedicação com que cuido dos outros?

Prevenção é uma escolha de presença. Autocuidado é um exercício de responsabilidade afetiva consigo mesma. E empatia começa quando reconhecemos que nossa própria vida também merece atenção.

Neste Outubro Rosa, que o convite não seja apenas para cuidar da saúde, mas para reestabelecer o diálogo com a mulher que existe em cada uma de nós. Porque cuidar de si não é pensar menos nos outros: é lembrar que você, mulher,  também faz parte daquelas pessoas que precisam do seu cuidado.

Vamos em frente! Vamos conversar!

Adriana Rocha

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O gosto do Marcos Rey

Bastou um gesto de gentileza espontânea para desarmar o homem mais temido do bairro e abrir as portas de um mundo inesquecível

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Fotografia realista de um bairro residencial brasileiro. Em primeiro plano, um menino está sentado num degrau de pedra a ler atentamente um livro antigo de capa gasta. Ao seu lado, um homem idoso de expressão séria, vestindo camisa xadrez e calças escuras, segura uma sacola de compras e observa-o. Ao fundo, numa rua residencial com carros antigos estacionados e uma grande amendoeira, outras crianças jogam futebol. A iluminação é natural sob um céu parcialmente nublado.
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Nunca imaginei que eu teria nem um minuto sequer com o Seu Urias, um tipo que sempre me pareceu a própria expressão de carranca. E era, pelo menos aos olhos de todos ali na rua, especialmente para as crianças e adolescentes.

    — Mamãe, por que ninguém gosta do Seu Urias?

    — Carlinho, isso não é verdade.

    — A senhora gosta dele?

    — Eu?

    — É.

    — De jeito nenhum! Que velho mais desagradável.

    Aconteceu numa manhã, talvez de domingo ou feriado. Sei apenas que não era dia de escola. Seu Urias vinha da quitanda da dona Lúcia, carregava duas sacolas abarrotadas. Quando ele estava a poucos metros, nossos olhares se cruzaram. Eu, por impulso, me ofereci para ajudá-lo. Coisa toda que fazemos quando deixamos o raciocínio de folga.

    — Muita gentileza sua. Carlinho, né?

    — Sim, senhor.

    — Filho da dona Joana, né?

    — Sim.

    — Boa mulher. Você é um menino de sorte.

    Seu Urias, assim que deixei a sacola na cozinha, tirou a carteira do bolso e sacou uma nota de cinco reais. Recusei.

    — Ah, entendi. Hombridade, né?

    Sem entender o que aquilo significava, assenti com a cabeça. Seu Urias me observou por um momento e, em seguida, foi até a sala, de onde retirou um livro da estante.

    — Gosta do Marcos Rey?

    — Quem?

    — Marcos Rey. Ele escreveu este livro maravilhoso. Conhece?

    Seu Urias me entregou aquele exemplar de “O mistério do cinco estrelas”. Um tanto gasto, para dizer a verdade.

    — Carlinho, livro bom é livro carcomido.

    Mais uma palavra que eu precisaria descobrir o significado.

    — Sim, senhor.

    — É seu, mas tem uma condição.

    Olhei desconfiado para aquele homem, praticamente um estranho.

    — E qual é a condição, senhor?

    — Que leia e depois me conte se gostou. Combinado?

    — Combinado.

    Apertamos as mãos como dois cavalheiros e corri de volta para a rua, onde os meus amigos continuavam jogando bola. Preferi me sentar debaixo da amendoeira. Abri o livro e, pela primeira vez, me embrenhei no mundo do Marcos Rey.

    Perdi a hora, mamãe me gritou:

    — Carlinhos, o almoço tá pronto!

    Nem estava com fome, mas sempre soube que não era de bom tom desobedecer a dona Joana. Corri em sua direção e entrei esbaforido.

    — Ei, o que é isso aí nas suas mãos?

    — Marcos Rey, mamãe.

    — O quê?

    — Foi o Seu Urias que me deu.

    — E o que aquele velho queria com você?

    — Nada, mamãe. Eu me ofereci para ajudar a carregar as compras. Então, ele me deu o Marcos Rey.

    — Hum!

    Talharim à bolonhesa. Até hoje é o meu prato favorito. Mesmo assim, as páginas do Marcos Rey me pareceram muito mais saborosas.

    Terminei de ler “O mistério do cinco estrelas” na madrugada. Adormeci e, não duvido, devo ter sonhado com a trama. Pena que nunca me lembro dos sonhos, deve ser coisa de família. Minha mãe sempre me disse que sonhos são coisas de grã-fino.

    Quando acordei, já era quase meio-dia. Havia um movimento estranho na rua. Assustado, fui até a minha mãe, que me contou o motivo:

    — Foi pra onde, mamãe?

    — Morreu, Carlinhos. Morreu.

   Seu Urias, soube mais tarde, enfrentava uma doença terrível há anos: câncer nos pulmões. Resistiu o quanto pôde. Não teve velório, não teve enterro nem despedida. A única filha, Lorena, honrou o pedido do pai: viajou para o Rio de Janeiro e jogou as cinzas na praia de Copacabana. 

Eduardo Cesario-Martínez

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