A comunhão dos ímpios

Ramos António Amine: ‘A comunhão dos ímpios’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagem criada por IA do Grok – 08 de fevereiro de 2026, às 10:19 PM – https://grok.com/imagine/post/1d467e89-a828-4fc3-992e-b7cc41062106

Comungam
no altar da hipocrisia
os que atiram pedras à luz do dia
e à noite compram o mesmo corpo
que fingem não desejar.

Comungam
os que escrevem leis
com a tinta do cálice alheio
e as cumprem
de olhos baixos
e consciência muda.

Comungam
os que nunca tocaram a ferida
mas repartem o pão
feito do sangue que não lhes pertence.

Comungam
os que se ajoelham
não para pedir perdão
mas para rir
com os lábios ainda húmidos de vinho.

Comungam
os que chamam a prostituta de terreno baldio
e nunca perguntam
quem a devastou primeiro.

Comungam
os que veem o mal passar
e desviam o olhar
como quem observa a chuva
sem sentir frio.

Comungam
os que oferecem um cálice amargo
e exigem silêncio
enquanto ela bebe.

Comungam
os que cavam fossos
e depois condenam
quem cai neles.

Comungam
os que nunca perguntaram
como ela chegou ali
mas perguntam todos os dias
por que ainda não saiu.

Comungam
os que acreditam
que sair é vontade
e não oportunidade.

Comungam
os que creem
que a fome escolhe
e que a miséria não empurra.

Comungam
os que chamam prostituição de causa
e nunca de consequência
de um mundo
que aprendeu a vender tudo,
até o que não tem preço.

Comungam
os que aplaudem a exclusão
e depois fogem dos seus efeitos.

Comungam
os que exigem pureza
de quem nunca teve escolha.

Comungam
os que pagam para olhar
e chamam isso de normalidade.

Comungam
os que dizem que a prostituta está morta
sem perceber
que o cadáver é outro:
a sensibilidade coletiva,
a ética moldada à conveniência.

Comungam
os que pensam que ela pede salvação
quando o que pede
é humanidade.

Comungam
os que a sacrificam todos os dias
para que a sociedade
continue limpa por fora.

Comungam
os que normalizam a dor
para vender facilidade.

Comungam
os que acreditam
que o altar da hipocrisia é eterno.

Mas não sabem
que ele não cai pela força,
nem pelo fogo,
nem pelo grito

basta
retirar-lhe
o silêncio cúmplice
que o alimenta.

Ramos António Amine

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O cálice da prostituta

Ramos António Amine: Conto ‘O cálice da prostituta’

Ramos António Amine
Ramos António Amine
Imagen criada por IA da Meta
Imagem criada por IA da Meta – 27 de janeiro de 2026, às 20h04

A sociedade oferece à prostituta um cálice amargo e exige que ela o beba em surdina. Não se interessa em saber se ela tem sede, nem se é o vinho que ela prefere. Apenas a observa, de longe, e moraliza o acto. O cálice é pesado, mas a sentença é suave demais para quem nunca escolheu tocá-lo.

Esse cálice não ostenta prazer, como gostam de insinuar os hipócritas que a condenam. Contém medo, fome, dívidas, violência, abandono e um futuro hipotecado antes mesmo de ser sonhado. É o cálice da sobrevivência num mundo que transforma aflições em crimes e vítimas em estúpidas.

Quando a prostituta bebe o cálice, a sociedade lava as mãos. Afirma-se pura, intacta, moralmente superior. Mas esquece que foi ela quem preparou o vinho, quem forjou o copo, quem empurrou a mão trêmula que o ergueu. O cálice nunca foi escolha individual; foi imposição histórica.

Há uma feia liturgia nesse ritual. A prostituta é sacrificada diariamente para que a ordem social continue ostentando pureza. O cliente chupa das tetas de quem a sociedade finge desprezar; a autoridade sobrevive de impostos, fecha os olhos e prega bons costumes; a retórica pública condena aquilo que o desejo privado sustenta.

O cálice da prostituta denuncia, assim, uma verdade incômoda: a moral dominante não é ética, é opulência. Julga o corpo exposto, mas protege as estruturas que o expõem. Escandaliza-se com a carne da prostituta estendida no altar da hipocrisia, mas normaliza a dignidade roubada.

Beber esse cálice não inocenta ninguém. Apenas evidencia a brutalidade de um sistema que exige sacrifícios humanos para manter intacta a sua opulenta civilizada. A prostituta não é vítima por vocação divina, mas por abandono social. Não é pecadora por escolha, mas por coerção social.

E, ainda assim, ela resiste. Cada vez que a prostituta recusa a culpa que lhe foi imposta, o cálice treme. Cada vez que transforma dor em voz, sobrevivência em denúncia, o vinho derrama-se. O ritual falha. A hipocrisia expõe-se.

O cálice da prostituta não precisa ser bebido para sempre. Ele pode ser quebrado. Mas isso exigiria que a sociedade olhasse para si mesma sem perucas, admitisse a própria participação no sacrifício e aceitasse que a salvação, caso exista, não virá da condenação dos corpos vulneráveis, mas da transformação das estruturas que os tornam repulsivas.

No fim, o cálice permanece sobre o altar da hipocrisia, não como símbolo de culpa da prostituta, mas como prova da decadência moral de quem o colocou ali.

Ramos António Amine

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