Despedida
Ella Dominici: Poema ‘Despedida’


Na estrada,
a lua envelhece.
Olhos cansados
de tantos milênios
perdem-se
nas curvas do tempo.
E despedem-se
as palavras.
Uma a uma,
recolhem-se
ao longo corredor da espera,
onde o silêncio
é terra,
é semente,
é repouso.
Abre-se então o mistério
para além da noite fria.
Ali,
os olhos fincados no céu
aguardam que a poeira assente,
que o rumor dos dias se dissolva,
que a memória do sol
abandone suas últimas cinzas.
Tudo se distancia.
Tudo regressa.
E o que parecia fim
desata-se em horizonte.
Há um deslumbre
na alva que raia,
um clarão sem nome
entre a ausência e o retorno,
como se a eternidade
respirasse devagar
atrás das manhãs.
Na estrada,
a lua continua.
E nós,
feitos luz desprendida do instante,
seguimos
para dentro do infinito.