Nós, elas e todas as outras
Elaine dos Santos: ‘Nós, elas e todas as outras’


A história da humanidade, pelo menos, no Ocidente legou à figura feminina algumas responsabilidades que talvez não fossem, assim, tão obrigatórias.
Na Grécia antiga, berço da nossa cultura letrada, Pandora foi forjada pelos deuses do Olimpo que queriam vingar-se de Prometeu, o semideus que lhes roubara uma centelha de fogo. Enviaram-lhe Pandora, que portava uma caixa com todos os sentimentos existentes, mas, precavido, Prometeu não a abriu. O irmão dele o fez.
Quando a caixa foi aberta, escaparam o ódio, a inveja, a tristeza, a calúnia, o amor, a alegria. Prometeu conseguiu fechá-la, lá dentro, porém, restara apenas a esperança. À mulher atribuiu-se as responsabilidades pelas dores do mundo.
A tradição cristã e a ideia do pecado original têm a figura principal centrada em Eva. O ser humano perdeu o direito ao paraíso e, nisso, se resume praticamente todos os erros do mundo, que Eva e as mulheres que a sucederam devem purgar.
Com a sociedade burguesa, a mulher ganhou função mercantilizada. O pai e o novo marido tornam-se sócios em empreendimentos diversos, o dote oferecido pelo pai no casamento e a própria noiva são a materialidade dessa sociedade.
A noiva, por sua vez, dependente do pai e, depois, do marido, deveria ser bonita, de preferência tocar piano e, se possível, ter noções de língua francesa (o que se dava no contexto brasileiro, em particular), sabendo comportar-se em sociedade etc.
Parece claro que esses valores se fixaram no imaginário popular. Uma mulher deve casar-se, deixar de ser protegida pelo pai, passar pela proteção do marido e, se necessário, do filho mais velho. Daí, a ‘importância’ de ter filhos, segundo concepção ainda vigente.
Gosto desse termo, ela deve ser ‘prendada’ ou, como prefere Augusto Comte, pai da doutrina Positivista, ser anjo tutelar e rainha do lar: cuidar do marido, dos filhos, da casa.
Como afirma Camões em um conhecido soneto ‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades‘, as demandas do mundo capitalista e a necessidade da sobrevivência financeira da família exigiram que a mulher entrasse no mercado do trabalho, se profissionalizasse.
Muitas mulheres abriram mão do casamento, outras tantas tentaram conciliar os afazeres domésticos com as atividades laborais em escritórios, em grandes empresas ou mesmo nas tarefas mais comuns, em que elas buscam colaborar com o sustento da família ou responsabilizam-se pelo próprio sustento.
É possível compreender a lógica que está por trás da sociedade ocidental – entenda-se Europa e Américas -, mas por mais que estudiosos da área tenham tentado elucidar a onda de ódio e violência postas contra mulheres, ainda é assustador o número de feminicídios, associado às agressões físicas.
Ser mulher no Brasil parece ser um risco diário. Por quais caminhos andar? Quais os melhores horários para sair de casa? Aliás, é preciso mesmo sair de casa que não seja para trabalhar?
A pergunta maior – para a qual não tenho respostas – é como nós e todas as demais mulheres podemos nos sentir em segurança nesse cenário?
A minha perplexidade advém de um fato corriqueiro na região em que resido, sul do Brasil: as mulheres que defendem o comportamento dos homens, as atitudes dos homens. Como professora, eu sei que a educação pode salvar as novas gerações, mas e nós, mulheres adultas, e tantas outras, inseridas nessa sociedade e submetidas a essa lógica?