Getúlio andava com a pulga atrás da orelha, desconfiado de Laís, a noiva de feições faceiras e curvas de parar o trânsito. Talvez fosse apenas impressão ou, ao menos, era isso que dona Felícia, a quase sogra, tentava incutir na mente do sujeito.
— Mas, dona Felícia, a senhora tem certeza?
— Getúlio, meu rapaz, você acha que uma filha consegue esconder alguma coisa da mãe?
— Bem… Ela mentiu pra mim, e não foi só uma vez.
Dona Felícia se espichou que nem girafa, lançou sobre o jovem aquele olhar de coruja ressabiada, rodeou-o por duas, três vezes, enquanto Getúlio começou a esperar por um ataque pelas costas. Do nada, a mulher saiu da sala, foi até a cozinha. O homem não entendeu tal atitude, talvez ele tivesse dito coisa que não devia.
Os minutos seguintes duraram uma eternidade, embora, na conta do relógio na parede, não tivessem chegado a meia hora. De repente, lá estava a anfitriã, café e bolinhos de chuva em uma bandeja de plástico simples, porém honesta. Ela ajeitou o lanche da tarde sobre a mesa e, logo em seguida, ordenou.
— Venha se sentar.
Getúlio nem titubeou. Era homem de enfrentar qualquer um, até cachorro bravo se fosse necessário. Todavia, a coragem se acanhava diante daquela mulher.
— O café tá do seu agrado?
— Tá sim, senhora.
— E os bolinhos?
— Os melhores que já provei.
Dona Felícia pareceu satisfeita, apesar de não acreditar por completo nas respostas. Seja como for, regozijou-se por dentro sem deixar transparecer os sentimentos para o futuro genro. De súbito, a dona da casa, dedo em riste, ergueu a voz.
— Pois vou lhe dizer uma coisa muito séria!
Getúlio, olhos do tamanho de jabuticaba madura, ficou diante da mulher aguardando a grande explicação, que acabou por deixá-lo ainda mais confuso.
— A Laís não mentiu porque simplesmente nunca aprendeu a mentir. Ela é moça direita, que você precisa confiar. A minha filha só sabe dizer verdades, mesmo aquelas que ainda não chegaram a acontecer.
Eduardo Cesario-Martínez: Conto ‘O destino de Perfídia’
Eduardo Cesario-MartínezImagemcriada pela GeminiIA- 22 de fevereiro, às 01:26
Não sei se o que me aguarda é o Céu ou o Inferno, mas, confesso, continuo dormindo tranquilamente, apesar de malfalada há décadas. E tudo por conta de um ciúme tolo, quase infantil, do meu então marido, o senhor Bento Santiago, vulgo Bentinho. Talvez você ainda não esteja ligando o nome à pessoa. Pois bem, fui honestamente batizada de Capitolina, mas foi como Capitu que caí na boca do povo. Seja como for, posso lhe garantir que não fui a única. Duvida? Então, preste atenção na história que irei lhe contar.
Perfídia ganhou esse nome pela sonoridade que tanto agradou sua mãe, fã de Altemar Dutra. Cresceu sem entender as risadinhas de alguns quando descobriam como a garota se chamava. A mãe, por sua vez, nunca se deu conta de que havia traçado o destino da filha assim que a registrou no cartório.
A menina cresceu mais formosa do que a maioria naquela cidade. Tão bela se tornou, que logo atraiu os olhares mais sortidos. Obviamente que os olhos que a fitavam não eram apenas os de desejos, mas também os de inveja. Alguns até ambíguos, onde esses sentimentos se misturavam.
A jovem, bem cedo, causou discórdias inconciliáveis. Tanto é que até o padre foi chamado para resolver tais pendengas, já que os pastores não se entendiam, pois todos pareciam desejar aquele pitéu para si. Diante de tamanha hipocrisia, juntou-se uma pequena quantia, que foi entregue à mãe de Perfídia, com a condição de irem embora daquela cidade.
Sem maiores perspectivas, as duas compraram passagens pro próximo ônibus e, antes que a primavera terminasse, rumaram para a capital. Mal chegaram, a velha morreu de disenteria, coisa comum naqueles tempos. Sozinha, Perfídia, apesar da tristeza de ter que enterrar sua própria mãe, se sentiu livre pela primeira vez na vida.
A mulher usou preto por alguns dias, mas logo percebeu que havia nascido para as cores vivas. E foi assim que resolveu procurar pelo primeiro emprego, já que o dinheiro andava ainda mais curto do que a sua saia. E lá foi a moça de pernas torneadas em direção à padaria da esquina, onde não havia cartaz de procura-se funcionário. E daí? Isso não foi empecilho para Perfídia.
O velho Joaquim, que nem era tão velho assim, foi chamado pela balconista, a Doroteia. Uma mulher estava à procura de emprego. Joaquim resmungou algum palavrão e se levantou enfurecido, certo de que aquele dia havia começado pelo avesso. No entanto, assim que bateu os olhos naquela formosura, mudou de ideia e a contratou antes que ela fosse embora.
Viúvo há poucos meses, o dono da padaria se viu apaixonado por Perfídia. Então, assim que as coisas se ajeitaram, ele tomou coragem de propor casamento para a jovem mulher, que mal entrara na casa dos 20. Ela, que estava passando pano sobre o balcão, gostou da proposta e, já no mês seguinte, com toda papelada em mãos, o casório foi realizado.
Perfídia gostou de acrescentar o sobrenome do marido ao seu, já que ela carregava, desde sempre, apenas o da sua falecida mãe. Perfídia da Silva Almeida. Soava respeitoso. A mulher gostou tanto, que fez questão de emoldurar a certidão de casamento e pendurá-la na ampla sala do apartamento, que ficava justamente em cima da padaria.
Agora ela era a patroa e, por isso, não precisava mais se preocupar com a faxina do comércio. Gastava seu tempo entre o salão e algumas compras. Joaquim, mesmo sendo mão de vaca, não se atrevia a contrariar a esposa, pois era muito bem recompensado durante as noites de alcova. O ciúme, todavia, estava sempre presente, pois todos os fregueses da padaria corriam os olhos pelo corpo de Perfídia. Tanto é que ele insistia para que ela não ficasse muito tempo por ali.
Obediente como uma boa esposa que era, Perfídia mal pisava no comércio do esposo. Gastava seu tempo lendo as revistas de fofocas ou, então, batendo perna pelo bairro. Pra quê? Acabou se encantando por Augusto, um belo gajo recém-casado. Apesar dos compromissos firmados, os dois se entregaram às tardes num quarto de motel do outro lado da cidade. Afinal, era necessário manter a seriedade.
Não se sabe se a esposa de Augusto descobriu o entrevero, já que era moça de família e, portanto, sabia que homens dignos também precisavam se divertir. Quanto ao Joaquim, parece que ele andava preocupado com os sumiços da mulher. Tanto é que pensou em dizer para ela passar mais tempo na padaria, mas logo se lembrou dos fregueses atrevidos. Para encurtar a história, eis que era uma quarta-feira, por volta das 14h, quando Joaquim tombou direto no chão da padaria. Clientes e funcionários tentaram acudi-lo, mas já era tarde. O coração do velho havia parado antes mesmo do rosto se esborrachar na cerâmica fria e gasta. Enquanto isso, lá do outro lado da cidade, a agora viúva se divertia com o amado entre os felpudos lençóis da traição. Perfídia!!!
Clayton A. ZocaratoImagem criada por IA da Meta. 11 de dezembro de 2025, às 18:05 PM
A traição tem um gosto curioso. Não é doce, não é amargo — é um tempero proibido que só interessa a quem está espiritualmente subnutrido. Quem trai, muitas vezes, mastiga o mundo como se estivesse saboreando um prêmio, um troféu de vitória pessoal. Mas essa sensação suculenta dura pouco: é como fruta madura demais, que explode na boca e, segundos depois, deixa apenas o cheiro da própria imaturidade.
Pessoas mal resolvidas consigo mesmas encontram na traição um espelho torto. Em vez de enxergarem suas próprias fissuras, veem, por alguns instantes, uma imagem melhorada de si. Lao-tsé alertava que “quem conquista os outros é forte, mas quem conquista a si mesmo é poderoso”. O traidor faz justamente o contrário: tenta conquistar o mundo para não perceber que não conquistou nada dentro de si. Ele se infla, mas continua oco.
Há, na traição, um tipo de euforia infantil. É como se o ego dissesse: “vejam, ainda posso ser desejado!”, enquanto varre para baixo do tapete a própria incapacidade de lidar consigo. O escritor indiano Rabindranath Tagore dizia que “não há óculos capazes de corrigir a visão de quem se recusa a enxergar”. A traição, portanto, é uma tentativa desesperada de ajustar a própria miopia emocional usando lentes emprestadas de outra pessoa.
A música também não perdoa esse tema. Da crueza de ‘Back Stabbers’do The O’Jays às confissões afiadas de Pitty em ‘Me Adora’, a cultura popular vive repetindo a mesma melodia: quem trai não está falando sobre o outro — está, na verdade, tentando berrar alguma verdade sobre si. A traição é o refrão desafinado de quem não aprendeu a se ouvir.
Na literatura, Machado de Assis já sabia disso quando desenhou personagens que se alimentam das próprias contradições. Ele mostrava que o traidor é muitas vezes um autor frustrado escrevendo sua narrativa de poder, tentando compensar a pequena autoridade que tem sobre a própria vida. Não é sobre amor. É sobre vaidade.
O pensamento oriental costuma tratar o ego como um animal inquieto que, quando não treinado, morde a própria cauda achando que captura algo valioso. Buda ensinava que “o desejo é a raiz do sofrimento”. Assim, a traição se revela como um desejo desgovernado que não leva ao prazer duradouro, mas à eterna sensação de vazio — o tipo de vazio que só cresce quanto mais se tenta preenchê-lo com aventuras rápidas e promessas quebradas.
Sandra Albuquerque: Crônica ‘É o dito pelo não dito’
Sandra AlbuquerqueImagem criada por IA no Bing – 14 de março de 2025, às 09:16 PM
Está tudo esquisito. Onde será que este mundo vai parar? O errado é o certo e para o certo não tem explicação.
O amor se envolveu em traição. Valores humanos se perderam e o respeito ao próximo descarrilou.
Nação impiedosa que os animais maltratam, mas sempre há mãos bondosas que os acariciam e os tratam, dando-lhes dignidade.
A natureza se esvai em fogo pelo desrespeito para com o meio ambiente.
Ainda há a violência, a discriminação e a pobreza que assobiam em nossos ouvidos e, ainda, são bem visíveis, enquanto os mais abastados aplaudem o tapete vermelho e dizem que vai tudo bem.
Onde está, oh! Meu Deus, a dignidade que tu deste ao homem?
Se está tudo esquisito e é o dito pelo não dito: ninguém sabe, ninguém viu e não fui eu.
Ah, se eu pudesse mudar o mundo… Pintaria um quadro e colocaria cada um no seu quadrado em seu devido lugar, nem que fosse por um instante só para ter paz, e ainda passava verniz para fixar bem.
Lembranças boas deste mundo nem em peças de museu, pois virou um gigante profundo em suas opiniões.
Porém, apesar dos pesares, a esperança nunca morre. E se cada um fizer a sua parte, este mundo pode mudar e se tornar um mundo bem melhor.
Em “Traição”, segundo livro da série Krios, da doutora em Letras Clássicas Márcia Silva, Dora enfrenta uma aventura para resgatar sua mãe e manter a paz no Universo, acompanhada do seu amado extraterrestre Marvil
Dora Dias é apenas uma garota terráquea que sofre por um amor impossível, mas cabe a ela uma grande responsabilidade: a manutenção da paz interplanetária. A aventura está na obra Traição, segundo livro da trilogia Krios, publicada pela EditoraAutografia para o público jovem adulto. A autoria é da doutora em Letras Clássicas e professora Márcia Silva. No futuro distante em que se passa a trama, a Terra já não é mais a mesma, o Universo está conectado e a comunicação é a chave para a existência pacífica entre humanos e extraterrestres, mas algo ameaça esse equilíbrio.
No primeiro tomo da série, lançado em 2018 sob o título Interferência, o leitor foi apresentado à personagem principal, Dora, e a sua mãe, Dra. Helen Dias – a cientista responsável por um importante aparelho chamado de “Comunicador”. Também conheceu seu amado extraterrestre Marvil e o pequeno planeta Krios.
Agora, em Traição, Dora e Marvil ent que lidar com as diferenças culturais e biológicas interplanetárias que a impedem de ficar com Marvil.
“Os marvilenses [moradores de Krios] são fisicamente iguais aos terráqueos, exceto pela cor dos olhos de alguns, que podem ser de um mel intenso, como o de Marvil, e até lilases, e pela orelha mais fina. Biologicamente, contudo, nos constituíamos em espécies diferentes, o que tornava impossível a concretização do nosso amor. (…) Aceitamos o que o destino nos preparava. Não adiantava lutar contra ele.” (Traição, pág. 11)
Por meio dos olhos de Dora, personagem narradora, o leitor reflete sobre a ambição do homem pelo domínio e seu egocentrismo. Tudo isso com uma linguagem leve e fluida, com certo humor e uma série de referências à literatura, à filosofia, à cultura clássica e à mitologia grega. Em Traição, Márcia Silva, que leciona Língua e Literatura Latina e Cultura Clássica há 20 anos, também recorre a fontes etnográficas romanas, proporcionando ao texto uma leitura enriquecedora no quesito histórico e antropológico.
“Estariam os deuses me dando uma escolha? Mostrando-me que havia outros caminhos? Ou apenas queriam me confundir? Brincar comigo? Fazer com que sofresse ainda mais? Afastar-me de Marvil? Eu seria uma heroína trágica grega? Lembrei-me dos destinos catastróficos de Fedra, apaixonada pelo enteado; (…) de Helena que provocou a guerra de Troia ao seguir sua paixão por Páris.” (Traição, pág. 32)
A série Krios traz à tona, ainda, assuntos extremamente importantes na época atual, como desigualdade, discriminação, preconceito e preservação da natureza, projetados em um futuro em que, aparentemente, essas questões haviam sido superadas e que a humanidade desfruta de tudo o que precisa. Tudo isso em meio a uma história recheada de aventura, ficção científica e amor. Para a felicidade dos leitores, o terceiro livro da trilogia, Transformação, já está sendo escrito pela autora.
Ficha técnica do livro I: Título:Interferência Autora: Márcia Silva Editora: Autografia ISBN-10: 8551814362 ISBN-13: 978-8551814369 Páginas: 272 Altura: 23 cm Largura: 16 cm Preço: 44,80
Em um futuro distante, a Terra muda radicalmente após um longo período de guerras. A unificação proporciona o desenvolvimento de tecnologia suficiente para descobrir vida em outros planetas e viajar até eles, mas o convívio pacífico ente humanos e extraterrestres depende da comunicação. Qualquer interferência é perigosa. Uma série de eventos pode ameaçar a paz. Sua manutenção, agora, depende de uma jovem terráquea que mora em um pequeno planeta. Ela será capaz de desvendar todas as pistas para solucionar os problemas? Poderá confiar em alguém para ajudá-la? Conseguirá aliados entre os terráqueos ou sua vida e seu futuro dependerão de um extraterrestre? Não há tempo para pensar nas respostas. É preciso correr atrás delas.
Sobre o livro II – Traição: A vida de Dora não podia estar mais complicada. Pelo menos era o que ela achava. Depois de chegar a Krios, descobriu uma conspiração, teve sua vida ameaçada, sua mãe sequestrada e passou a viver um complicado e impossível caso de amor com Marvil. Tudo o que ela queria, agora, era um resgate bem-sucedido, mas uma descoberta sobre seu passado complica ainda mais as coisas e faz com que ela repense tudo em que acredita. Os novos acontecimentos têm o poder de mudar seu futuro e podem, até mesmo, provocar uma guerra intergaláctica.
Sobre a autora
Márcia Silva é graduada em Letras com doutorado em Letras Clássicas. Leciona Língua e Literatura Latina e Cultura Clássica há vinte anos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Depois de se dedicar ao ensino, à pesquisa, à extensão e à administração, decidiu realizar o desejo de escrever romances. Como amante da Literatura de todas as épocas e para todas as idades, iniciou sua produção literária com o romance de ficção científica Interferência (2018), primeiro livro da série Krios, uma trilogia para jovens leitores, cuja continuação, Traição, foi lançada em 2019. No momento, compartilha sua dedicação à docência de Língua Latina e Cultura Clássica com a tarefa de escrever o último livro da série Krios.
Márcia Silva está disponível para entrevistas pelo telefone (21) 9.81677993 e pelo e-mail fariamrsilva@gmail.com