{"id":71570,"date":"2025-01-21T08:05:00","date_gmt":"2025-01-21T11:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=71570"},"modified":"2025-01-20T19:40:10","modified_gmt":"2025-01-20T22:40:10","slug":"sob-o-veu-da-chuva","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalrol.com.br\/?p=71570","title":{"rendered":"Sob o v\u00e9u da chuva"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F71570&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F71570&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Nilza Murakawa: Conto &#8216;Sob o v\u00e9u da chuva&#8217;<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"828\" height=\"828\" data-attachment-id=\"71571\" data-permalink=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=71571\" data-orig-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n.jpg\" data-orig-size=\"828,828\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Nilza Murakawa&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Nilza Murakawa&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n.jpg\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n.jpg\" alt=\"Nilza Murakawa\" class=\"wp-image-71571\" style=\"width:96px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n.jpg 828w, http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n-600x600.jpg 600w, http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/370781860_5963273487106014_2665641922467818994_n-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Nilza Murakawa<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" data-attachment-id=\"71601\" data-permalink=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=71601\" data-orig-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/rain-1.jpg\" data-orig-size=\"1024,1024\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"rain (1)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/rain-1.jpg\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/rain-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-71601\" style=\"width:342px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/rain-1.jpg 1024w, http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/rain-1-600x600.jpg 600w, http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/rain-1-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Imagem criada por Ia do Bing &#8211; 20\/01\/2025 \u00e0s 17:57<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Uma fiandeira, sem ser incomodada pela dona da casa, ia fazendo pequenos reparos em seu&nbsp; ref\u00fagio de prote\u00e7\u00e3o e ca\u00e7a em um canto esquecido e mal iluminado da sala. Insoci\u00e1vel, sua&nbsp; morada era apenas para uma. Invasores de teia alheia viravam presas antes de saborearem&nbsp; sobras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas madrugadas, pelas paredes rosa antigo, lobos cinzas dan\u00e7avam uma can\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, arranhavam feridas e mastigavam sonhos furtados dos travesseiros, engolindo-os sem piedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Formigas persistentes, em fila indiana, marchavam no entorno de uma x\u00edcara de caf\u00e9 frio do dia anterior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As cortinas eram pesadas e pendiam das janelas como \u00e1guias guardi\u00e3es, por onde um raio se&nbsp; esfor\u00e7ava para entrar em qualquer c\u00f4modo e desenhar uma linha fina de sol no ch\u00e3o como um&nbsp; pequeno lembrete.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do lado de fora, um gato de olhos ternos e remelentos miava h\u00e1 horas na soleira da porta como&nbsp; uma campainha teimosa. Desistiu e deu meia volta, pois talvez n\u00e3o houvesse realmente ningu\u00e9m&nbsp; na casa. Mas Lara estava ali, dentro de um pijama listrado, ainda envolta em um casulo morno&nbsp; de tramas entrela\u00e7adas de 300 fios, atrasando seu encontro com o dia \u2013 \u201cmais um dia\u201d \u2013 e&nbsp; olhando, indiferente, o sol quadrado timidamente esbo\u00e7ado sobre a mesinha de madeira c\u00e1lida de cabeceira.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Goles solit\u00e1rios, dois cubos de a\u00e7\u00facar em um caf\u00e9 tingido com leite aquietavam, vez ou outra, as mesmas conversas matinais de uma alma ainda sonolenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O espelho nada dizia, nada revelava. \u201cPor que as cicatrizes abertas s\u00e3o assim t\u00e3o invis\u00edveis e eu&nbsp; tenho que diz\u00ea-las, e diz\u00ea-las com hora marcada e boca amarga? Talvez se eu ficasse&#8230; Talvez&nbsp; se chovesse&#8230; Talvez se eu esperasse&#8230; Talvez se eu fugisse para os fundos do quintal&#8230;\u201d Mas os&nbsp; ponteiros apressados e pontuais avisavam-na de que a vida continuaria, mesmo sem ela. Com passos tensos e hesitantes, abriu a porta e saiu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seus olhos, desabituados, rejeitavam a luz deste sol t\u00e3o intenso como p\u00e1ssaros noturnos que&nbsp; encontram conforto e liberdade apenas na escurid\u00e3o. A rua parecia-lhe terminar mais longe. Nesta pris\u00e3o a c\u00e9u aberto, nesse labirinto escaldante cheio de rostos embaralhados e corpos de&nbsp; coreografias confusas e descoordenadas, neste vai-e-vem de cal\u00e7ada, faltava-lhe o ar, os p\u00e9s, o&nbsp; ch\u00e3o. Os ve\u00edculos passavam rapidamente, mas o eco de uma ou outra buzina ficava ali dentro&nbsp; fazendo hora. O cheiro de fuma\u00e7a de motor mesclado ao de comida de rua e de \u00e1gua de tantas&nbsp; col\u00f4nias causava-lhe n\u00e1usea. A rua era longe demais. A cal\u00e7ada estreita demais. N\u00e3o havia&nbsp; atalhos. Uma pris\u00e3o sem chave. Lara queria voltar. Queria desesperadamente voltar. Estava&nbsp; sendo levada por essa multid\u00e3o que sequer conhecia seu local de destino.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de uma eternidade e dez minutos, ela finalmente estava diante do pr\u00e9dio. Era um pr\u00e9dio&nbsp; de incont\u00e1veis andares, com olhos vigilantes de vidro, imponente, por\u00e9m espremido entre outros&nbsp; arranha-c\u00e9us. Entrou e encostou-se em uma das paredes metalizadas do elevador, cuja vista&nbsp; panor\u00e2mica ela fez quest\u00e3o de n\u00e3o olhar. Queria apenas respirar. Confinada e de m\u00e3os \u00famidas,&nbsp; ela queria s\u00f3 respirar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na antessala, o sil\u00eancio combinado seria interrompido logo mais com a chamada de seu nome &nbsp;completo. Lara verificou o rel\u00f3gio repetidamente. Fechou, abriu e fechou novamente a bolsa, &nbsp;apertando-a contra o corpo antes de desenla\u00e7ar as m\u00e3os das al\u00e7as e acomod\u00e1-la ao lado. Seus &nbsp;joelhos balan\u00e7avam involuntariamente, com os p\u00e9s colados no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seus olhos atentos varriam o ambiente e moviam-se inquietos de um objeto para outro,&nbsp; incapazes de se fixarem em um \u00fanico ponto. Ela notara cada imperfei\u00e7\u00e3o ao seu redor como se&nbsp; no ambiente inteiro ali houvesse uma conspira\u00e7\u00e3o silenciosa. As paredes tinham cores p\u00e1lidas e&nbsp; a ilumina\u00e7\u00e3o era fraca e insuficiente. As l\u00e2mpadas fluorescentes emitiam um zumbido baixo que&nbsp; a irritava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um discreto rasgo em uma das poltronas, algumas folhas amareladas e um galho seco entre os&nbsp; outros de uma planta, cujas ra\u00edzes estavam obviamente sufocadas naquele vaso t\u00e3o pequeno, e&nbsp; uma fissura em uma das paredes envolta em manchas abstratas perto do rodap\u00e9 alimentavam um&nbsp; certo desconforto e melancolia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas algo havia momentaneamente quebrado o ritmo dessa inquieta\u00e7\u00e3o. Dois quadros intrigantes &nbsp;pendurados um de cada lado na parede fizeram seus olhos ancorarem ali por mais tempo, &nbsp;fazendo-a esquecer daquele rel\u00f3gio em frente que acelerava o tempo com um tique-taque &nbsp;constante: \u201c<em>Cajonera Doblada<\/em>\u201d, uma imagem de uma c\u00f4moda toda torta com gavetas &nbsp;escancaradas, e \u201c<em>O Gato no Div\u00e3 de Freud<\/em>\u201d, cuja figura de um gato sobre um sof\u00e1, com o &nbsp;retrato de Sigmund Freud ao fundo, fez com que Lara desviasse o olhar rapidamente e se &nbsp;questionasse, duvidosa:<em>\u201c<\/em>E Freud gostava de gatos?\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sil\u00eancio havia sido interrompido finalmente. Seu nome foi chamado em voz alta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Saindo do consult\u00f3rio sem milagres na bolsa, ela ajeitou as al\u00e7as no ombro e alisou a blusa&nbsp; como ferro quente de passar. Um guarda-chuva azul marinho, pegado \u00e0s pressas, foi sua sorte quando uma chuva repentina a surpreendeu na metade do caminho de volta para casa. Com as&nbsp; gotas grossas salpicando o asfalto, formando pequenos an\u00e9is que se expandiam entre os carros&nbsp; lentos de far\u00f3is acesos, a rua estava mais refrescada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na cal\u00e7ada com cheiro de caf\u00e9 e toldos abertos, pessoas desprevenidas e apressadas, desviando se de po\u00e7as aqui e ali, procuravam abrigo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Po\u00e7as&#8230; esses pequenos espelhos que tremem e que podem refletir, de forma invertida, peda\u00e7os &nbsp;do mundo ao redor. Ela encolheu-se ao fundo, debaixo de um toldo compartilhado, esperando&nbsp; em v\u00e3o que a chuva se acalmasse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando menina, com uma capa colorida e botas de pl\u00e1stico, corria escondida pela estradinha de &nbsp;ch\u00e3o batido molhado e quando avistava uma po\u00e7a grande, com um sorriso travesso, pulava com&nbsp; for\u00e7a. \u201cSplash!\u201d A \u00e1gua saltava em todas as dire\u00e7\u00f5es e ela ria alto, encantada com o espet\u00e1culo &nbsp;que acabara de criar, e dava outro salto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela abriu novamente o guarda-chuva, inclinou-o para frente e prosseguiu engolindo o choro,&nbsp; enxugando os pingos insistentes dos olhos e lamentando feito crian\u00e7a que naquela sala onde&nbsp; esteve por mais de uma hora, n\u00e3o tivesse uma bola de cristal sobre a escrivaninha.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao chegar ao port\u00e3o de ferro, meio ofegante e sentindo o peso do dia em seus ombros, ela&nbsp; soltou um suspiro profundo e empurrou-o com for\u00e7a. O rangido agudo, lembrando-a de que ele&nbsp; tamb\u00e9m precisava de manuten\u00e7\u00e3o, cortou a conversa que tivera mais cedo e que ainda ecoava&nbsp; em sua mente. Passou os p\u00e9s no capacho de boas-vindas na porta morosamente, como se&nbsp; quisesse deixar a sujidade da rua e os pensamentos barulhentos todos ali. Girou a chave, fechou&nbsp; o guarda-chuva e a porta atr\u00e1s de si, trancando o mundo l\u00e1 fora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No hall de entrada, as chaves, a bolsa e mais alguns pensamentos foram postos sobre o&nbsp; aparador, e o guarda-chuva molhado ao lado, dentro de um vaso vazio de ch\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia uma conex\u00e3o \u00edntima com seu habitat que lhe proporcionava a sensa\u00e7\u00e3o acalmada de&nbsp; poder mold\u00e1-lo e mant\u00ea-lo sob seu controle. Havia um certo conforto na solid\u00e3o, uma liberdade&nbsp; silenciosa que lhe permitia explorar seus pr\u00f3prios sentimentos sem pressa e fazer escolhas&nbsp; conscientes com as cortinas fechadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, ultimamente, j\u00e1 n\u00e3o havia mais al\u00edvio nos espa\u00e7os desguarnecidos como antes. As caixas&nbsp; empilhadas, que ela sequer abriu, ainda estavam \u00e0 sua espera pelos c\u00f4modos. Tudo ali era&nbsp; motivo de descontentamento: os pratos sobre a pia, a poeira acumulada nos cantos, o ar&nbsp; estagnado, os dias muito longos de ver\u00e3o, as chuvas constantes, o velho guarda-chuva&nbsp; azul-marinho, as sombras acordadas em seu presente triste. \u201cPara onde vai este barco se estou \u00e0 deriva neste mar sem mapa, sem b\u00fassola?\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seus olhos percorreram os quatro cantos dessa vida entre paredes, desse ref\u00fagio minado, dessa&nbsp; falta de pr\u00e1tica de teorias confusas enquanto, entre um desassossego e outro, sentada no sof\u00e1,&nbsp; amassava com raiva as flores j\u00e1 secas da mesinha de canto. \u201cMalditas aranhas invasoras e&nbsp; formigas inconvenientes de trilhas invis\u00edveis! Maldito sol, chuva e este rel\u00f3gio barulhento!&nbsp; Malditos lobos que zombam de mim! Malditas m\u00e3es que v\u00e3o embora sem olhar para tr\u00e1s!\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um \u00edmpeto, ela se levantou e foi at\u00e9 a janela. Abriu bruscamente a cortina espessa e se&nbsp; deparou com um chuvisco manso que batia suave e ritmado contra o vidro, criando pequenas&nbsp; gotas que tamborilavam e escorriam lentamente, calando por ora sua pr\u00f3pria tempestade. Uma&nbsp; gota pingou de uma fenda no teto e ela franziu a testa e suspirou. \u201cAqui tamb\u00e9m necessita de&nbsp; reparos.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rodeada por poucas casas, ali era sua morada, com dualidades e passagens pouco confess\u00e1veis.&nbsp; N\u00e3o se lavava pratos com escumas de l\u00e1grimas, tampouco a chuva fecharia fendas, ela sabia.&nbsp; Refugiar-se em p\u00e1ginas com hist\u00f3rias alheias tamb\u00e9m n\u00e3o lhe preencheria mais as tardes livres.&nbsp; Ela j\u00e1 n\u00e3o se lembrava mais do que gostava, do que fazia, de quem era ela. Tinha medo de&nbsp; voltar \u00e0s suas gavetas e estragar as boas lembran\u00e7as com esta vida sem temperos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, no in\u00edcio da noite em seu quarto, sentada na poltrona ao lado da cama, seus olhos\u00a0 pousaram em uma caixinha antiga de m\u00fasica sobre o toucador, um presente de anivers\u00e1rio que\u00a0 ganhou da av\u00f3 de uma amiga. Ao abri-la, uma melodia leve e familiar transportou-a para uma\u00a0\u00a0tarde ensolarada, onde brincava no quintal da amiga enquanto a av\u00f3 cuidava de seu pequeno jardim e cantava acariciando p\u00e9talas e brotos.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No quarto, a penumbra era atenuada apenas pela claridade suave do abajur na mesinha de&nbsp; cabeceira. Ela se deitou, puxando o cobertor at\u00e9 o queixo. \u201cN\u00e3o sei rezar nem cantar. Meu&nbsp; cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o dan\u00e7a talvez por falta de novos motivos.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sono veio em fragmentos, breves momentos de descanso intercalados por despertares&nbsp; inquietos. Olhou ao redor do quarto, reparando nas sombras definidas das cortinas inertes&nbsp; mesmo com a brisa noturna e no livro aberto na prateleira. Naquela noite, pela primeira vez em&nbsp; muito tempo e sem perceber, ela havia deixado a janela e as cortinas semiabertas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela acordou com os primeiros raios t\u00edmidos de sol entrando pelas frestas. Abriu as janelas de &nbsp;maneira ainda um pouco engessada ap\u00f3s mais uma noite de sono intranquilo, permitindo ao ar &nbsp;fresco invadir seu aposento. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Preparou uma x\u00edcara de caf\u00e9 forte e sentou-se \u00e0 mesa, observando o movimento das silhuetas &nbsp;rendadas das folhas na parede. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O som distante do bairro despertando trouxe \u00e0 mente de Lara as lembran\u00e7as das manh\u00e3s frias &nbsp;em que acordava cedo para ir \u00e0 escola. Era perto de casa, e ela atravessava sozinha um caminho de terra cercado por mato curto e geada antes de chegar \u00e0 rua da escola prim\u00e1ria, onde cursou o &nbsp;terceiro e quarto anos. Feita de madeira bem pintada, assim como muitas casas t\u00edpicas das &nbsp;cidades do Sul onde morava, a escola era um lugar de descobertas, acolhimento e simplicidade. &nbsp;A merenda era uma sopa quente feita com ingredientes que os pr\u00f3prios alunos traziam de suas &nbsp;hortas nos fundos dos quintais, e ela ainda se lembrava do cheiro. Mesmo diante das &nbsp;dificuldades que sua pouca idade n\u00e3o percebia na \u00e9poca, ela tinha no cora\u00e7\u00e3o a alegria da &nbsp;expectativa de mais um dia de aprendizado e recreio com seus coleguinhas de classe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estalido de duas torradas saltando da torradeira a trouxe de volta ao presente. Observar a &nbsp;manteiga derretendo lentamente sobre elas, douradas, com um pingo de mel, poderia ser algo trivial aos olhos de muitos, mas ali, em meio a um turbilh\u00e3o de pensamentos, era um momento &nbsp;singular mesmo de breve contempla\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No quintal dos fundos, recolhendo o que sobrou da chuva de ontem, ela regou as plantas&nbsp; esquecidas em um canto, retirando delas as folhas murchas e ervas daninhas. \u201cAs plantas s\u00e3o&nbsp; como crian\u00e7as; sem cuidador, padecem.\u201d Pisando em folhas secas e grama crescida, notando as &nbsp;nuvens um pouco carregadas e ouvindo ao longe o gorjeio de um p\u00e1ssaro, ela entrou em casa &nbsp;melanc\u00f3lica. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto uma m\u00fasica suave selecionada para preencher o ambiente tocava, ela tomou um &nbsp;banho morno e mais demorado que o de costume, como se desejasse encontrar clareza ali, nas &nbsp;espumas do sabonete. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta ao cora\u00e7\u00e3o chuvoso da cidade, com seus contrastes interessantes que, ora revelavam &nbsp;beleza, sons, aconchego e dinamismo, ora revelavam a aspereza de sua alma pulsante em ruas &nbsp;vazias. Um rel\u00f3gio digital, compondo a paisagem urbana com relev\u00e2ncia no topo de um poste, &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">avisava, al\u00e9m da temperatura e qualidade do ar, que havia vinte e cinco minutos livres. Passando pela mesma cal\u00e7ada de antes, ela n\u00e3o havia reparado ainda o <em>Caf\u00e9 La Vie en Douce<\/em><strong>. <\/strong>Seduzida pelas grandes janelas que permitiam ver o interior atraente e acolhedor, Lara, apesar&nbsp; de oscilante, entrou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Caf\u00e9 La Vie en Douce<\/em><em> <\/em>era um lugar encantador que combinava requinte e conforto, e possu\u00eda&nbsp; uma fachada cl\u00e1ssica com janel\u00f5es de vidro que proporcionava a entrada de luz natural e&nbsp; oferecia uma vista do movimento l\u00e1 fora, onde pessoas e guarda-chuvas coloridos enfeitavam o&nbsp; cen\u00e1rio cinza metropolitano. Ela estava ali, sentada \u00e0 janela, experimentando pela primeira vez&nbsp; um chai latte, cuja mistura de ch\u00e1 preto, especiarias e leite quente parecia perfeita para o clima.&nbsp; Ela ficaria horas contemplando as lumin\u00e1rias vintage que pendiam do teto e o som mel\u00f3dico de&nbsp; uma m\u00fasica francesa. Talvez saborearia um dos doces que o balc\u00e3o exibia e se perderia no&nbsp; aroma morno dos croissants rec\u00e9m-assados, no burburinho e no fluxo constante dos pedestres &nbsp;que cruzavam a cal\u00e7ada ensopada, mas ciente de seu compromisso previamente agendado, &nbsp;resignada, levantou-se, ajeitou o casaco e saiu. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minutos depois, ela chegou ao local onde seria atendida. Ao reparar melhor, percebeu que era &nbsp;um charmoso pr\u00e9dio comercial com sacadas que se destacavam na fachada, projetando-se&nbsp; graciosamente sobre a cal\u00e7ada. Cada uma era adornada com grades de ferro forjado, cujos &nbsp;desenhos intrincados lembravam arabescos antigos. Algumas possu\u00edam vasos de plantas com &nbsp;flores pendentes, trazendo encanto ao cen\u00e1rio citadino e atraindo a aten\u00e7\u00e3o de quem passava &nbsp;pela rua, refletindo um esfor\u00e7o consciente dos propriet\u00e1rios e administradores para criar uma &nbsp;imagem positiva at\u00e9 mesmo em dias nublados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que o elevador panor\u00e2mico subia, ap\u00f3s uma pequena vertigem inicial enquanto olhava&nbsp; o movimento das pessoas l\u00e1 embaixo no \u00e1trio interno, ela se perguntou: \u201cQuantas hist\u00f3rias de &nbsp;vida j\u00e1 passaram por aqui?\u201d&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na antessala, notas frescas e muito leves de bergamota, dispersas por um elegante difusor de &nbsp;\u00f3leos essenciais, preenchiam o ambiente e sopravam \u201cseja bem-vinda\u201d a ela mais uma vez.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A espera era distra\u00edda pelo murm\u00fario suave de uma fonte de \u00e1gua sobre uma mesinha de apoio. &nbsp;Um sof\u00e1 de dois lugares e duas poltronas gordas convidavam propositalmente corpos tensos ao &nbsp;aconchego.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na mesinha de centro, cuidadosamente escolhidos, quatro livros sobrepostos e uma gaiola &nbsp;decorativa de porta aberta com uma pena de colora\u00e7\u00e3o alva em seu interior sugeriam leituras &nbsp;breves e m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma palmeira, de ra\u00edzes bem acomodadas, erguia-se at\u00e9 onde podia, dentro de um vaso alto azul&nbsp; atr\u00e1s de uma lumin\u00e1ria de ch\u00e3o, cujo facho bem dilu\u00eddo, n\u00e3o fazia sombras duras. Afastada do teto o bastante para se notar que estava pendurada, uma lumin\u00e1ria discreta de vidro &nbsp;fosco, espalhava luz suave e uniforme.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A c\u00f4moda distorcida, com tr\u00eas gavetas semiabertas e uma fechada, talvez equilibrando a &nbsp;desordem e a delicadeza com pinceladas na cor rosa, e o gato preferido de Freud, sentado &nbsp;confortavelmente em seu sof\u00e1 com o retrato de seu dono fumando um charuto \u00e0 direita na &nbsp;parede ao fundo: aquelas duas telas, \u201c<em>Cajonera Doblada<\/em>\u201d assinada por Diego Manuel e \u201c<em>O Gato <\/em><em>&nbsp;<\/em><em>no Div\u00e3 de Freud<\/em>\u201d de Maria Luziano, uma de cada lado da parede verde-lavado, contribu\u00edam &nbsp;para um espa\u00e7o \u00fanico de conforto, com toques de personalidade e pontos de reflex\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sala principal, um ambiente equilibrado para conforto e seguran\u00e7a, de onde n\u00e3o se ouvia &nbsp;ru\u00eddo externo algum. Um sof\u00e1 com uma manta dobrada, uma cadeira acolchoada ao lado, al\u00e9m &nbsp;de uma mesa de madeira quente pequena que encurtava dist\u00e2ncias e outra cadeira com bra\u00e7os. &nbsp;Sem a presen\u00e7a da cor branca, as cores past\u00e9is davam-lhe a impress\u00e3o agora de que o espa\u00e7o era &nbsp;maior e se espalhavam pelas paredes e mob\u00edlia de forma aconchegante. Desta vez, ela optou &nbsp;pelo sof\u00e1, ajeitando a manta pr\u00f3xima a si.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tr\u00eas diplomas emoldurados na parede, atestavam a compet\u00eancia e a dedica\u00e7\u00e3o do profissional &nbsp;que ali a atendia. Uma foto discreta de fam\u00edlia que n\u00e3o dizia muito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s 1 hora e 15 minutos, ela atravessou a antessala, despedindo-se da recepcionista com um&nbsp; aceno simp\u00e1tico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lara j\u00e1 n\u00e3o era mais o centro de sua pr\u00f3pria aten\u00e7\u00e3o. Em sua bolsa a tiracolo trazia sugest\u00f5es e &nbsp;possibilidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia que se observar o velho jornal ou a pasta executiva abrigando da chuva ternos-e-gravatas, &nbsp;tailleurs. A marquise do outro lado da cal\u00e7ada abra\u00e7ando um m\u00fasico solit\u00e1rio com seu violino &nbsp;nost\u00e1lgico. A m\u00e3e apressada empurrando um carrinho de beb\u00ea bem protegido. As folhas &nbsp;grudadas no asfalto, um selo discreto de l\u00e1bios enamorados. Um vendedor ambulante cobrindo &nbsp;com lona suas mercadorias, enquanto um bra\u00e7o infantil esticado ia colhendo pingos com a m\u00e3o. &nbsp;Um cachorro min\u00fasculo, com uma capa imperme\u00e1vel de super-her\u00f3i, descansando no colo de &nbsp;algu\u00e9m. Os \u201cpeixes-fora-d\u2019\u00e1gua\u201d saindo de t\u00e1xis ou coletivos, pisando nas pontas dos p\u00e9s como&nbsp; dan\u00e7arinos que se desequilibram sem suas sombrinhas de apoio. Uma madame com cara de &nbsp;enjoada, protegida por um enorme guarda-chuva marrom com a marca em dourado de um hotel&nbsp; cinco estrelas, se dirigindo apressada, guiada pelo concierge que segurava o acess\u00f3rio com &nbsp;destreza e garbo, ao seu carro de luxo, ignorando esse caos po\u00e9tico ao seu redor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste lugar, nesta cidade de mais encontros do que desencontros, de massa variada, com &nbsp;hist\u00f3rias id\u00eanticas e perspectivas de mudan\u00e7a, na esquina da Rua das Rosas com a Avenida &nbsp;Louis Lafayette, enquanto Lara atravessava, por iniciativa do c\u00e9u e de alguma divindade, &nbsp;come\u00e7ou a chover mais grosso. Uma rajada de vento brincalh\u00e3o soprou-lhe o guarda-chuva &nbsp;marinho do avesso e o arrancou de suas m\u00e3os. Ela riu, a princ\u00edpio timidamente, sem jeito, sem &nbsp;olhar para os lados. Molhada at\u00e9 os ossos e encharcada de riso, ela engoliu a chuva, colheu os &nbsp;pingos com as m\u00e3os em concha e jogou-os no ar sem sentir vontade de apressar os passos ao ver &nbsp;seu velho guarda-chuva azul, com duas ou tr\u00eas varetas bem tortas, bicando desajeitado o asfalto &nbsp;j\u00e1 longe. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO cora\u00e7\u00e3o daquela menina, com botas e capa de chuva, que sempre brincava escondida na &nbsp;estradinha enlameada e pulava em po\u00e7as, bateu feliz em mim. Estamos seguras agora,\u201d pensou, &nbsp;enquanto sacudia a cabe\u00e7a e ajeitava os cabelos molhados com um gesto gracioso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Horas depois, j\u00e1 em casa, entrou em seu pequeno est\u00fadio onde tr\u00eas telas \u00e0 \u00f3leo, inacabadas,&nbsp; aguardavam finaliza\u00e7\u00f5es para remessa. Em breve, retomaria.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apenas apanhou dois potes pequenos de tinta, algumas lixas e rolinhos para pintura, deixando os separados para amanh\u00e3. Repaginar\u00e1 uma antiga c\u00f4moda com tr\u00eas gavetas, faltando-lhe um&nbsp; puxador, que havia adquirido recentemente em um mercado de pulgas, e trocar\u00e1 todos os&nbsp; puxadores j\u00e1 que n\u00e3o encontrou um igual aos outros dois.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O in\u00edcio da noite ia assim correndo, toda cheia de lembran\u00e7as, outros confrontos e inten\u00e7\u00e3o de &nbsp;ressignifica\u00e7\u00f5es. Lara percorria a sala de estar agradavelmente iluminada, ajustando a luz &nbsp;amarelada dos abajures, lembrando-se de palavras desidratadas, de olhares amea\u00e7adores, &nbsp;castigos e aus\u00eancias que a acompanharam na inf\u00e2ncia. Pensava em seus primeiros \u00f3culos aos &nbsp;sete anos cuja arma\u00e7\u00e3o era em forma de olhos de gato com tr\u00eas pedrinhas em cada lado das &nbsp;hastes. Tamb\u00e9m pensava nos amores de escola, na vizinha de porta que fazia p\u00e3o caseiro toda &nbsp;semana em forno \u00e0 lenha, na vitrola tocando <em>The Hollies <\/em>e nas tardes em que se embonecava \u00e0 &nbsp;sua maneira de menina-mo\u00e7a para os bailinhos com as amigas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De uma brecha \u00e0 direita da janela, um pequeno inseto espreitava, mas logo foi espantado e &nbsp;desaparece. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Flor de maracuj\u00e1 em saquinho dentro de uma x\u00edcara quente come\u00e7a a encerrar a noite ali na &nbsp;cozinha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parir novas mem\u00f3rias para dissipar marcas profundas seria uma tarefa \u00e1rdua e sem anestesias. &nbsp;Havia que se esquecer delas propositalmente e \u00e0 conta-gotas para que seu passado n\u00e3o definisse &nbsp;seus dias correntes. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tr\u00eas meses, uma esta\u00e7\u00e3o inteira, as feridas tinham sido reabertas, as m\u00e1goas remo\u00eddas e &nbsp;cuspidas sobre aquela escrivaninha pequena sem bolas de cristal, que encurtava dist\u00e2ncias, olho &nbsp;no olho e ouvidos atentos, com hora marcada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deitou-se, deixando o dia se dissolver gradualmente na maciez dos len\u00e7\u00f3is, enquanto se &nbsp;aconchegava na lembran\u00e7a de que costumava dormir agarrada a uma boneca de pano de vestido &nbsp;rosa com rendinha na gola que ganhou da madrinha quando era crian\u00e7a. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que se pode fazer quando o mundo parece ter mudado durante uma noite dessas? Talvez, &nbsp;abra\u00e7ar as imperman\u00eancias da vida, reconhecendo que cada amanhecer traz novas paisagens e &nbsp;surpresas?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As manh\u00e3s j\u00e1 n\u00e3o nasciam tardes ultimamente. A mansid\u00e3o de sua casa, de paredes curvas, e a &nbsp;familiaridade dos objetos ao redor, acolhiam-na. Ali era o \u00fatero, as asas, os bra\u00e7os, a m\u00e3o, o &nbsp;abrigo. Cada detalhe e canto da casa foram escolhidos e arranjados de uma maneira que refletia &nbsp;suas prefer\u00eancias pessoais e sua compreens\u00e3o do que era reconfortante e seguro, apesar das &nbsp;sombras que \u00e0s vezes ainda perpassavam seus pensamentos, mas ela os desafiava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reaprendendo a capturar a ess\u00eancia com olhos contempladores, Lara absorvia o que via no&nbsp; entorno da casa, nas ruas, nas lojas e caf\u00e9s, cal\u00e7adas e canteiros centrais: o movimento, os &nbsp;aromas, as quietudes, as cores, ver\u00e3o chuvoso e os contrastes do dia a dia. &nbsp;Elementos inspirados nesse mundo ao seu redor eram trazidos para dentro de casa \u2014 uma flor &nbsp;colhida no caminho ou comprada no mercado local enfeitava a mesa da sala, uma fotografia tirada de um p\u00f4r do sol recente sobre a prateleira, um tom diferente de tinta que lembrava o c\u00e9u &nbsp;ap\u00f3s a chuva. Uma conex\u00e3o entre ela e seu lar com a energia ora vibrante, ora serena da vida l\u00e1 &nbsp;fora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A luz do sol, filtrada pelas cortinas, lan\u00e7ava padr\u00f5es dourados pincelados sobre as paredes rec\u00e9m-pintadas, maravilhando Lara.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 as pequenas pedras, encontradas em breves passeios, al\u00e9m de acrescentar um charme \u00fanico &nbsp;ao espa\u00e7o, n\u00e3o estavam ali por acaso. Diziam dos desafios e obst\u00e1culos inerentes aos &nbsp;contratempos da vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lara se sentia quase pronta para uma nova esta\u00e7\u00e3o, novas fases. Foi como ver as bordas de uma &nbsp;fotografia indesejada come\u00e7arem a se enrolar e ficarem pretas pela a\u00e7\u00e3o do fogo que ela pr\u00f3pria &nbsp;ateou, at\u00e9 se desfazer em cinzas &#8211; como um desejo, uma urg\u00eancia, um ato de coragem para&nbsp; deixar ir as lembran\u00e7as amargosas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas janelas, abertas todas, as cortinas rec\u00e9m-instaladas de voil rendado tinham um bailado &nbsp;lento, pregui\u00e7oso, vinham alisar molemente c\u00e1 os m\u00f3veis e depois espiar l\u00e1 fora curiosa. A incompreendida rosa do deserto, que por excesso de \u00e1gua e pouca luz, teve alguns galhos &nbsp;amputados, afetados por fungos, mas logo surgiram outros brotos. O espelho lascado do&nbsp; corredor e o bolo que queimou \u00e0 tarde no forno n\u00e3o tiveram salva\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre o aparador, as chaves, um p\u00e1ssaro em quartzo rosa, a bolsa, e, acima dele, um painel sem &nbsp;moldura de tintas frescas e abstratas assinado pela dona da casa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rel\u00f3gio da parede mostrava as horas, minutos e segundos que seriam lembrados por aquele &nbsp;instante especial, marcado pelo toque da campainha. Um entregador, previamente autorizado &nbsp;pela portaria, com um pacote estreito, comprido e etiquetado: &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Remetente: Dr. Santiago Johansson&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Rua das Rosas, 621 &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Edif\u00edcio Imperium. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Destinat\u00e1rio: Lara Dubois&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Rua Muriel Gardiner, 17A&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Condom\u00ednio Residencial Excellence. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um guarda-chuva novo e um bilhete: &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cQuerida Lara, <\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Para que voc\u00ea nunca deixe de ver os dois mundos, mesmo sob a chuva. <\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Com carinho, <\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Santiago\u201d <\/em><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela noite, as borboletas em seu est\u00f4mago engoliram finalmente o \u00faltimo lobo que se &nbsp;debatia raivoso, h\u00e1 minutos, pelas paredes rosa antigo do quarto. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ar tarde, come\u00e7ar de novo\u2026 &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que n\u00e3o?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre, um cora\u00e7\u00e3o acordado enquanto Lara seguia pela &nbsp;cal\u00e7ada movimentada da cidade, dividida para mil p\u00e9s, quando ent\u00e3o se deparou com a estranha, &nbsp;mas encantadora combina\u00e7\u00e3o de sol e garoa branda, um momento em que a natureza parecia &nbsp;brincar com contrastes e paradoxos. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A chuva em riscas finas, demarcando a linha de despedida do ver\u00e3o, ia destapando o c\u00e9u sob seu guarda-chuva transparente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTalvez se eu ficasse&#8230; Talvez se eu esperasse&#8230; Talvez se eu fugisse&#8230;\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cora\u00e7\u00e3o desacostumado de Lara pulsava sem jeito, sem maestro, acelerado, enquanto ela se &nbsp;aproximava do caf\u00e9. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cQuem \u00e9 voc\u00ea? Quem \u00e9 voc\u00ea que invade assim os meus dias sem hora marcada, desarrumando &nbsp;gavetas e fazendo p\u00e1ssaros cantarem fora das gaiolas? Quem \u00e9 voc\u00ea que rasga nuvens, acorda &nbsp;s\u00f3is e me faz dar nomes novos \u00e0s minhas flores e me desenhar em peda\u00e7os de papel?\u201d&nbsp; Ela estava ali, do lado de fora, tr\u00eamula diante de um dos janel\u00f5es do <em>Caf\u00e9 La Vie en Douce<\/em>,&nbsp; olhando para aquele homem l\u00e1 dentro, que acenava para ela com o sorriso mais lindo e sem&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">porqu\u00eas que ela j\u00e1 viu, sentado \u00e0 mesa, com dois chai lattes bem quentes e uma rosa vermelha \u00e0 &nbsp;sua espera. Naquele instante, o mundo se aquietou, ajeitando-se naquele caf\u00e9, cujas grandes &nbsp;janelas revelavam um universo interno e externo, ambos repletos de hist\u00f3rias, para aconchegar &nbsp;um novo cap\u00edtulo que se iniciava entre os dois&#8230; Dr. Santiago Johansson e Lara Dubois. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E aquele gato mirradinho de olhos ternos e remelentos que costumava miar na soleira da porta de Lara como uma campainha teimosa? Ganhou um nome e um cantinho ali dentro. \u201cBem vindo, Phoenix Dubois.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que fazer quando o mundo parece ter virado do avesso tal qual um guarda-chuva ao vento,&nbsp; sob o v\u00e9u da chuva?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><br><strong>Nilza Murakawa&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-luminous-vivid-amber-to-luminous-vivid-orange-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/nilza.murakawa?locale=pt_BR\" title=\"FACEBOOK\">FACEBOOK<\/a><\/h4>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-luminous-vivid-amber-to-luminous-vivid-orange-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/nilza_mura\/\" title=\"INSTAGRAM\">INSTAGRAM<\/a><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/\" title=\"Voltar\">Voltar<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/JCulturalRol\/\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma fiandeira, sem ser incomodada pela dona da casa, ia fazendo pequenos reparos em seu  ref\u00fagio de prote\u00e7\u00e3o e ca\u00e7a em um canto esquecido e mal iluminado da&#8230; <\/p>\n","protected":false},"author":123,"featured_media":71601,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[9607,9285],"tags":[13653,13652,13651,13650],"class_list":["post-71570","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contos","category-literatura","tag-cafe-frio","tag-cancao-imaginaria","tag-fiandeira","tag-veu-da-chuva"],"aioseo_notices":[],"views":1811,"jetpack_featured_media_url":"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/rain-1.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":72319,"url":"http:\/\/jornalrol.com.br\/?p=72319","url_meta":{"origin":71570,"position":0},"title":"Minha crian\u00e7a interior","author":"Nilza Murakawa","date":"6 de mar\u00e7o de 2025","format":false,"excerpt":"Cantei a can\u00e7\u00e3o crian\u00e7a guardada na mem\u00f3ria. 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