{"id":74239,"date":"2025-07-11T08:00:00","date_gmt":"2025-07-11T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=74239"},"modified":"2025-07-16T15:30:12","modified_gmt":"2025-07-16T18:30:12","slug":"a-velha-dos-saltos-vermelhos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalrol.com.br\/?p=74239","title":{"rendered":"A velha dos saltos vermelhos"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F74239&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F74239&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Marta Oliveri<br><br> A velha dos saltos vermelhos<br><br> Parte um &#8211; Nos port\u00f5es da R\u00e1bida<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1321\" height=\"1241\" data-attachment-id=\"74240\" data-permalink=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=74240\" data-orig-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/7722496c-0514-4717-b3ea-b8c7ac88c96e.jpg\" data-orig-size=\"1321,1241\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"7722496c-0514-4717-b3ea-b8c7ac88c96e\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Marta Oliveri&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Marta Oliveri&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/7722496c-0514-4717-b3ea-b8c7ac88c96e.jpg\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/7722496c-0514-4717-b3ea-b8c7ac88c96e.jpg\" alt=\"Marta Oliveri\" class=\"wp-image-74240\" style=\"width:143px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/7722496c-0514-4717-b3ea-b8c7ac88c96e.jpg 1321w, http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/7722496c-0514-4717-b3ea-b8c7ac88c96e-1200x1127.jpg 1200w, http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/7722496c-0514-4717-b3ea-b8c7ac88c96e-768x721.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1321px) 100vw, 1321px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Marta Oliveri<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"675\" height=\"449\" data-attachment-id=\"74246\" data-permalink=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=74246\" data-orig-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/4795b33d-2374-4ec0-8e35-e818c3b8b7e6.jpg\" data-orig-size=\"675,449\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"4795b33d-2374-4ec0-8e35-e818c3b8b7e6\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/4795b33d-2374-4ec0-8e35-e818c3b8b7e6.jpg\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/4795b33d-2374-4ec0-8e35-e818c3b8b7e6.jpg\" alt=\"Imagem do saite Pixabay\" class=\"wp-image-74246\" style=\"width:553px;height:auto\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Imagem do saite Pixabay<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Desde a primeira vez que a vi, sentada num resto de cadeira, envolta num xale pu\u00eddo, soube que n\u00e3o era coincid\u00eancia, que entre as muitas quest\u00f5es que os acontecimentos nos contam, havia tamb\u00e9m causalidades. Como posso dizer\u2026 de vez em quando, algum personagem de uma hist\u00f3ria at\u00e1vica se desfaz do tempo e sai dos limites de sua \u00e9poca para aparecer, por algum motivo, no presente. Foi o que imaginei no dia em que a encontrei pela primeira vez na esquina da minha casa, como uma imagem repentina do passado, mas bem camuflada em seus trajes de velha, \u00e0s portas da igreja da R\u00e1bida.<br>Saltos vermelhos, sapatinhos, ela vendia com dois ou tr\u00eas pares de saltos castanho-avermelhados que a observavam de uma mesinha fr\u00e1gil. <br><br>&#8220;Que frio.&#8221; Arrisquei-me a sugerir: &#8220;Precisa de alguma coisa? Vou ao mercado, entende?&#8221;<br><br>&#8220;N\u00e3o\u2026 minha filha, aperta bem esse chap\u00e9u, est\u00e1 frio.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>-Mas\u2026 <\/p>\n\n\n\n<p>A velha olhou-me com do\u00e7ura. E que Deus a aben\u00e7oe\u2026 Oh, oh. E logo em seguida, vi-a virar o rosto, olhando para algum lugar (que, na verdade, n\u00e3o era lugar nenhum), como acontece quando os horizontes do passado nos deslumbram.<br><br>Muitas coisas podem acontecer se prestarmos aten\u00e7\u00e3o aos menores sinais que a realidade nos d\u00e1. \u00c0s vezes me pergunto se n\u00e3o s\u00e3o, na verdade, met\u00e1foras, subvers\u00e3o infiltrada que se instala clandestinamente no tecido \u00e1spero da vida cotidiana, para nos dizer sabe-se l\u00e1 qual mensagem. Uma mensagem que n\u00f3s, talvez, sobrecarregados por acontecimentos triviais, deveres tediosos, correria sem sentido, infelizmente esquecemos, como os adultos esquecem o mundo das fadas e da mediocridade, a bendita loucura dos anjos. <br><br>Eu me lembro (talvez fosse um irm\u00e3o da velha que comecei a relatar).<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitos anos, eu estava prestes a atravessar a rua quando um homem apareceu do nada e parou na minha frente. Era um velho gigantesco, de cabelos longos e barba branca. Acho que ele estava sussurrando um c\u00e2ntico, e de repente houve um sil\u00eancio absoluto, como se tudo tivesse parado sob seu feiti\u00e7o, mas eu n\u00e3o conseguia entender direito o que ele estava dizendo. Aquele tempo pareceu uma eternidade, e como tudo o que era eterno parecia simultaneamente ef\u00eamero, logo desapareceu como fuma\u00e7a, sem deixar rastros. <br><br>Eu s\u00f3 vi o sem\u00e1foro e a rua subitamente lotada de pessoas se aglomerando na cal\u00e7ada oposta: algu\u00e9m havia ca\u00eddo do outro lado da rua. &#8220;Um acidente de carro&#8221;, eu disse a mim mesmo. Talvez o velho fosse um aviso, ou n\u00e3o. Eu n\u00e3o conseguia imaginar tal erro; no entanto, se n\u00e3o fosse pelo &#8220;acostamento&#8221;, eu teria me jogado na rua no exato momento em que o carro passou e atingido aquele pobre coitado que agora estava deitado r\u00edgido contra o meio-fio na cal\u00e7ada oposta.<br><br>As coisas s\u00e3o assim\u2026 Como diria uma certa personagem, de quem n\u00e3o consigo me lembrar agora por causa da amn\u00e9sia. E neste per\u00edodo de dor e alegria que \u00e9 a exist\u00eancia, pelo milagre de quem sabe qual musa, surgem de tempos em tempos, como as pontas de um iceberg, pequenas f\u00e1bulas que parecem querer nos dizer que h\u00e1 algo profundo dentro de n\u00f3s, que sob o asfalto polido dos dias outra trama se desenrola, e talvez a\u00ed resida a origem da esperan\u00e7a que incendeia os cora\u00e7\u00f5es mais aflitos.<br><br>Aos poucos, aquela caminhada pela esquina tornou-se um h\u00e1bito, e a velha, sempre como se tivesse algum dever sagrado a cumprir, firme no frio e na nevasca, proclamava: &#8220;Saltos altos, para dan\u00e7ar, pequenos saltos vermelhos&#8221;. Eu disse um t\u00edmido &#8220;Boa tarde&#8221;, ao que a velha respondeu apesar da minha voz quase inaud\u00edvel, e novamente me senti compelido a perguntar-lhe: &#8220;Tem certeza de que n\u00e3o quer que eu lhe compre alguma coisa? Vou ao mercado?&#8221;<br><br>&#8220;N\u00e3o, querida&#8221;, e ela me olhou com um olhar c\u00famplice. &#8220;Diga-me, voc\u00ea gosta de p\u00e3ezinhos frescos?&#8221; <\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Claro&#8221;, assenti, sem entender aquela reviravolta sem sentido. &#8220;\u00c9 que do outro lado da rua, perto da lixeira, sabe? Deixaram uma cesta cheia de p\u00e3o fresco. D\u00e1 para comer, parece que acabou de sair do forno.&#8221; <br><br>&#8220;Claro\u2026 muito obrigada&#8221;, respondi, sem lev\u00e1-la a s\u00e9rio. Era l\u00f3gico, pensei, &#8220;velhas sem-teto est\u00e3o delirando&#8221;, j\u00e1 devastadas pela fome e pelo frio, embora, por algum motivo que eu n\u00e3o conseguia entender, a velhinha n\u00e3o parecesse sofrer de nenhum dos dois.<br><br>&#8220;Ponha bem essa touca.&#8221; Ela me aconselhou novamente, para eu n\u00e3o passar frio. Continuei meu caminho e, na volta, tentando n\u00e3o ser vista, atravessei a rua e olhei atr\u00e1s da lixeira. Sim, de fato, envolto em uma rede vermelha brilhante, mais de um metro de p\u00e3o fresco em perfeito estado, espreitando por entre toda a polui\u00e7\u00e3o que os cercava. &#8220;Essas coisas que as pessoas boas fazem.&#8221; Eu disse a mim mesmo: &#8220;Algum restaurante que deixou esmola para os mendigos.&#8221; <br><br>Mas n\u00e3o, aquilo n\u00e3o era esmola; parecia mais um presente: o man\u00e1 de alguma a\u00e7\u00e3o rara e ben\u00e9fica. Talvez a velha\u2026 esse pensamento surgiu em minha mente, completamente fora do meu controle. &#8220;Absurdo&#8221;, disse a mim mesmo. Mas a imaculada bolsa de rede vermelha brilhante que os envolvia n\u00e3o deixou de me chamar a aten\u00e7\u00e3o. T\u00e3o vermelha quanto os saltos, como se aquele vermelh\u00e3o, agora estendido \u00e0 bolsa de rede, brilhasse com uma limpeza atemporal que se esquivava da imund\u00edcie daquelas ruas cheias de sacos de lixo rasgados, excrementos de cachorro pisoteados, esgotos imundos e pombos doentes esfolando, agora, seus semelhantes. <br><br>Fome, sim, a grande praga de todos os s\u00e9culos que abandona seus filhos. E por um instante, instigado pelos meus pensamentos, pensei ver uma n\u00e9voa de contornos, uma prociss\u00e3o fantasmag\u00f3rica de crian\u00e7as famintas atravessando a Avenida Belgrano sem serem vistas, entrando na minha rua, exalando o cheiro da morte. <br><br>Ser\u00e1 que a loucura desta cidade de incongru\u00eancias agora me contagiava tamb\u00e9m? N\u00e3o sei por que me senti incomodado com a velha. Como se ela tivesse me dado a capacidade de ver as mis\u00e9rias do mundo. Tudo por causa daqueles p\u00e3es deixados ali, s\u00f3 Deus sabe que estranho feiti\u00e7o o mendigo havia lan\u00e7ado.<br>Mais uma vez, fiquei surpreso. Eu n\u00e3o era um ser irracional; eu tinha bastante clareza sobre a linha entre o que \u00e9 e o que \u00e9 imaginado. E &#8220;aquela velha&#8221;, eu disse a mim mesmo, parecia ter emaranhado meus pensamentos e colocado em risco a delicada sanidade que tanto nos esfor\u00e7amos para construir neste mundo t\u00e3o completamente al\u00e9m de qualquer coer\u00eancia. <br><br>Voltei para casa, tentando n\u00e3o olhar para tr\u00e1s. Mas a velha sibilou para mim. <br><br>&#8220;Voc\u00ea viu, minha filhinha, como eles estavam deliciosos?&#8221; <br><br>Eu queria acrescentar, ressentida: &#8220;Por que voc\u00ea n\u00e3o os come ent\u00e3o?&#8221;<br><br>&#8220;Ah, eles s\u00e3o para os outros; eu n\u00e3o preciso de um filho.&#8221; <br><br>&#8220;Um filho, eu?&#8221; E essa vontade de me tratar como crian\u00e7a quando j\u00e1 estou quase na casa dos sessenta?&#8221;<br>Mas, evidentemente, aquela velha n\u00e3o via as coisas como elas eram. Seu olhar parecia imerso em um territ\u00f3rio distante, quem sabe se eram lembran\u00e7as ou simplesmente um daqueles devaneios que um longo per\u00edodo de solid\u00e3o e dorm\u00eancia nos traz. <br><br>A partir daquele incidente, para dizer o m\u00ednimo, resolvi prestar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher. Ela estava est\u00e1tica. Como uma imagem do passado, como uma velha \u00e1rvore que suportou os estragos de todas as esta\u00e7\u00f5es, sem se curvar diante do frio, do vento e da garoa. E o que era ainda mais inaceit\u00e1vel, ela nem sequer se abalou com a fome, a ponto de n\u00e3o haver um pingo de queixa ou tristeza em sua voz. <br><br>Voltei para casa, pensativa. Eu tinha acordado com alguma coisa, mas n\u00e3o sabia bem o qu\u00ea\u2026 Preparei um ch\u00e1 quente e depois desabei exausta no sof\u00e1. Ent\u00e3o tive um sonho. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>DE SONHOS E SUB\u00daRBIOS<\/strong> <br><strong>Imagem Um<\/strong> <br><strong>I<\/strong><br>Uma p\u00e1lpebra emba\u00e7ada se ergueu pesadamente, abrindo o olho do sonho para uma Buenos Aires deserta. Ela, isto \u00e9, eu, a mulher envolta em seu gorro de l\u00e3 e cachecol, carregava desordenadamente sua sacola de compras. <br><br>L\u00e1 em cima, as \u00e1rvores se erguiam com suas copas enevoadas, e um c\u00e9u azul lhes dava um ar desolado. As ruas estavam completamente vazias e estranhamente limpas, como se algu\u00e9m tivesse cuidadosamente arranjado aquele cen\u00e1rio on\u00edrico. <br><br>Em meio ao sil\u00eancio pesado, ouvi um sussurro. Aproximei-me sem saber exatamente como me orientar; a neblina era t\u00e3o forte que s\u00f3 se viam as cal\u00e7adas e a n\u00e9voa abundante das \u00e1rvores acima.<br>A poucos metros de dist\u00e2ncia, percebi que eram vozes e risos estridentes. Mais alguns passos e pude ver \u00e0 minha frente a mesa bamba e quatro sapatinhos de salto vermelho tagarelando enquanto pulavam, para dizer o m\u00ednimo, aquele bater nas t\u00e1buas. <br><br>E o que aconteceu com a Srta. Koket? Ouviu-se uma risada zombeteira, e servimos bem a velha bruxa. <br><br>&#8220;Mais respeito!&#8221; disse outro. N\u00e3o se esque\u00e7am de que a chamavam de Princesa dos Sub\u00farbios. <br><br>&#8220;E da\u00ed?&#8221; &#8220;Ha ha.&#8221; &#8220;Que princesa, n\u00e3o havia uma noite em que ela n\u00e3o estivesse bebendo.&#8221; &#8220;Bem&#8221;, sugeriu ele, um sapatinho do outro par. &#8220;Vamos ajudar ou n\u00e3o?&#8221; &#8220;N\u00e3o dan\u00e7amos em seus p\u00e9s quando suas pernas eram bem torneadas e seus p\u00e9s leves como asas?&#8221; &#8220;Madame Koket ou Srta\u2026.&#8221; &#8220;De qualquer forma, n\u00e3o serei rude.&#8221; <br><br>Olhei para aquela cena com espanto. Os saltos, movendo-se ao ritmo de antigos passos de tango, discutiam acaloradamente como se fossem pessoas pequenas. <br><br>E sua amante?, perguntei, e a &#8220;sua&#8221; viera de algum lugar remoto, onde, eu tamb\u00e9m me lembrava, havia damas de peruca como Madame Pompadour que usavam aqueles trajes desonrosos em seus p\u00e9s de cortes\u00e3. &#8220;Ah, claro&#8221;, ouvi outra voz apressar-se a esclarecer, &#8220;nossa linhagem vem de muito longe, como a senhora \u00e9 s\u00e1bia!&#8221; <br><br>Mas nossa senhora n\u00e3o est\u00e1 aqui, ou\u2026 Quem lhe disse que ela existe?&#8221; <br><br>Respondi, um tanto intimidada. &#8220;Mas eu a vi ontem, e ela me ofereceu um peda\u00e7o de p\u00e3o, e\u2026&#8221;<br>Ouvi um coro de risadinhas. &#8220;Eles ter\u00e3o que lhe contar aquela bendita f\u00e1bula sobre o p\u00e3o, mas n\u00e3o ser\u00e1 agora, senhora.&#8221; <br><br>E de repente a p\u00e1lpebra de n\u00e9voa fechou o olho grande de Morfeu, e acordei suando no sof\u00e1.<br>A prop\u00f3sito, admiti, isso me perturbou \u2014 como posso dizer? A linha t\u00eanue da minha realidade estava come\u00e7ando a se afinar, e eu me vi oscilando na corda bamba. Rapidamente peguei um caderno e anotei o restante daquele sonho.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tinha que fazer alguma coisa com aqueles sinais. <br><br>&#8220;Afinal, nada acontece \u00e0 toa&#8221;, disse a mim mesmo. E escrevi cuidadosamente no meu caderno:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<strong>1 de julho de 2022&#8243;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Algo aconteceu desde o meu encontro com a velha dos saltos vermelhos. De fato, como as pontas de um iceberg, como j\u00e1 disse, existem seres na vinha deste senhor que parodiam uma realidade mais ou menos cr\u00edvel para o homem comum. Eles se vestem de mendigos, comerciantes, ladr\u00f5es ou, antigamente, de rainhas, escravas ou cortes\u00e3s. <br><br>Este foi precisamente o caso que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o na estranha hist\u00f3ria de Madame Pompadour, amante de Lu\u00eds XV, possuidora de todos os tipos de talentos e v\u00edtima das fofocas dos mais vulgares. Amante, amante, prostituta para alguns, dama de delicada beleza e talento para outros.<br>No entanto, aquela cortes\u00e3 possu\u00eda uma alma ardente, l\u00facida e sens\u00edvel que fingia ser amante nos aposentos do rei para que seus favores n\u00e3o lhe fossem negados. Uma cortes\u00e3 que se tornou marquesa levou seus saltos \u00e0 imortalidade como prova irrefut\u00e1vel de sua Sensualidade. <br><br>Aquela hist\u00f3ria me fascinava: patrona de grandes pintores, arquiteta de empreendimentos emocionantes.<br>Por que ent\u00e3o ela deveria cumprir o rito de ser amante do rei? E ap\u00f3s uma morte prematura com os pulm\u00f5es extintos, ela recebeu um enterro digno. Assim, entre tantas outras coisas, a moda Pompadour se espalhou pelo mundo e escapou do esquecimento. Seus saltos se tornaram imortais, cruzaram fronteiras e chegaram a Paris, s\u00e9culo ap\u00f3s s\u00e9culo, \u00e0s favelas pat\u00e9ticas daquela Buenos Aires afrancesada, t\u00e3o propensa a exportar modas e costumes independentemente de seu valor. Assim, elas, como joias brilhando com seu misterioso vermelh\u00e3o, se instalaram em favelas onde proliferavam bord\u00e9is. <br><br>E quem sabe? Possivelmente, alguma Margarita Gautier semelhante a Malena &#8220;com olhos da cor do esquecimento&#8221; cantaria ocasionalmente um tango traviata, enquanto &#8220;Os tangos, essas criaturas abandonadas, se perderiam na neblina.&#8221; Atravessando a lama do beco<br><br>Talvez como disse o velho Calder\u00f3n, &#8220;Tudo em A vida \u00e9 um sonho, e sonhos s\u00e3o sonhos.\u201d Ent\u00e3o, como podemos aceitar a trivialidade deste deserto cotidiano onde tudo acontece e nada acontece?<br>Como podemos encarar os dias com responsabilidade e satisfa\u00e7\u00e3o, espalhando gestos de cordialidade que n\u00e3o sentimos, realizando a\u00e7\u00f5es cuja utilidade n\u00e3o compreendemos, falando o c\u00f3digo dos outros, aquela g\u00edria portenha que vai da brincadeira \u00e0 solenidade de uma missa dominical? Sempre entre o solene e o violento, entre o miser\u00e1vel e o banalmente ga\u00facho. Verdadeiramente, eu n\u00e3o gostava de viver neste mundo de portas t\u00e3o estreitas. <br><br>\u00c0s vezes se disse que a fantasia \u00e9 coisa de crian\u00e7as ou de povos ignorantes. E eu, no crep\u00fasculo da minha vida, me pergunto se a fantasia n\u00e3o \u00e9 justamente essa express\u00e3o da exist\u00eancia que nos fala da outra realidade, e a f\u00e1bula e o mito a alegoria mais s\u00e1bia: a pr\u00f3pria inf\u00e2ncia dos povos. A linguagem pura da alma ousada que cruza a linha da sanidade. Para que mundo me levaria, e como eu poderia retornar se quisesse? <br><br>Mas meu destino come\u00e7ava a se revelar, e logo, mais cedo do que tarde, cruzei o limiar entre sonhos e sinais que a realidade escondia sob express\u00f5es sutis. <br><br>Naquela noite, sa\u00ed apenas para confirmar que a velha senhora n\u00e3o poderia estar ali \u00e0quela hora. De fato, meu peito se enchia de ansiedade para olhar as estrelas, para respirar ar puro\u2026 Para saber que, al\u00e9m da luta di\u00e1ria, ainda havia um universo inocente e estelar, t\u00e3o belamente ilimitado quanto o mais insond\u00e1vel dos sonhos que ainda assombram nossas cabe\u00e7as, mesmo anos depois de os termos sonhado. <br><br>De fato. A noite estava silenciosa, o canto estava vazio, n\u00e3o havia vest\u00edgio da velha. Era perfeitamente compreens\u00edvel que fosse esse o caso; ela havia ido dormir em um daqueles lugares que abrigam mendigos, ou talvez tivesse sido h\u00f3spede da mesma igreja. Ent\u00e3o tudo terminaria como um castelo de cartas, porque, talvez, meu anseio por magia e beleza (uma doen\u00e7a que carrego desde a minha juventude) me pregasse uma pe\u00e7a. E tudo terminaria numa teoria v\u00e3, inventada apenas por mim, ainda fervorosa e, diria quase, doentia, \u00e1vida por escapar das cru\u00e9is margens deste mundo. <br><br>Afinal, n\u00e3o fui a \u00fanica, nem jamais serei, a inserir universos paralelos em sua exist\u00eancia para escapar do simples fardo do simples acontecimento. <br><br>&#8220;Solid\u00e3o&#8221;, disse a mim mesma, aquela que ataca o fabricante de utopias. Em tempos de consci\u00eancias fraturadas e da monstruosidade de fatos diante dos quais n\u00e3o podemos fazer nada al\u00e9m de ser mesquinhos espectadores dessa mis\u00e9ria humana. <br><br>Caminhei por um longo tempo, olhando os jacarand\u00e1s ainda abundantes e sem flores, as estrelas e o vento frio que se filtrava por seus galhos. Ah, se isso tamb\u00e9m fosse magia, uma magia simples, sem milagre maior do que olhos sens\u00edveis ao seu espet\u00e1culo; E por um segundo, me senti digna.<br>Ser\u00e1 que eu finalmente ficaria presa naquela plan\u00edcie? Os sinais nunca mais voltariam? <br><br>Dias e dias se passaram sem que a velha aparecesse. Tudo havia retornado a um estado medianamente sinistro, como \u00e9 a vida cotidiana em um mundo que naturalizou o assassinato, a desigualdade, a fome e a bomba. <br><br>Aquele mundo onde xeques jogavam xadrez com as fronteiras de uma terra que nunca conhecera tamanho absurdo. Porque a terra \u00e9 terra e nada mais; a terra n\u00e3o conhece l\u00ednguas nem fronteiras; a terra n\u00e3o entende por que a escavam em busca de sabe-se l\u00e1 qual fetiche do que alguns chamam de ouro negro. <br><br>Ela, como toda m\u00e3e, d\u00e1 sem poder evitar; ela se d\u00e1 e, ao se dar, tamb\u00e9m se exp\u00f5e \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o de seus filhos predadores. Ora, eu perguntava, ah, n\u00e3o, a terra n\u00e3o pergunta, \u00e9 aquela coisa que chamamos de alma que pergunta, se indigna e se alinha com essa nobreza terrena que nada pode fazer al\u00e9m de existir como a inoc\u00eancia de tudo o que simplesmente existe. <br><br>E esse era o mundo em que meus dias se desenrolavam entre pequenas a\u00e7\u00f5es e pensamentos acuados. O caderno foi muito \u00fatil para mim; l\u00e1 eu podia capturar algumas coisas que jamais ousaria contar a ningu\u00e9m. Porque, depois de um per\u00edodo de t\u00e9dio, felizmente, os sinais voltaram. Ou talvez tenha sido eu quem teimosamente insistiu em traz\u00ea-los \u00e0 tona novamente em minha busca pelas fendas ocultas de uma Buenos Aires estranha e at\u00e9 ent\u00e3o nunca bem compreendida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>21 de julho<\/strong><br><br>Desde aquela \u00faltima noite em que sa\u00ed de casa em busca da velha, a p\u00e1lpebra enevoada do sono abriu-se muitas vezes, mas n\u00e3o vi nada, assim como nada mais ou menos extraordin\u00e1rio aconteceu na minha vida de jovem. \u00c9 por isso que insisti em pegar o touro pelos chifres e ser eu a ir procurar os sinais que, fortuitamente ou n\u00e3o, se apresentaram a mim.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, n\u00e3o consigo deixar de me lembrar daquela hist\u00f3ria do homenzarr\u00e3o de barba branca, que ainda n\u00e3o terminei, e de outras que o mito desta estranha cidade nos legou entre os caldeir\u00f5es de f\u00e1bulas de migra\u00e7\u00f5es antigas e n\u00e3o t\u00e3o antigas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje entrei na igreja, em cujas portas a velha n\u00e3o se senta h\u00e1 algum tempo. Fiquei impressionada com a sobriedade da sua arquitetura, os genuflex\u00f3rios, o altar simples e ornamentado, uma imagem de Jesus bastante discreta em compara\u00e7\u00e3o com a igreja do Pilar e tantas outras. Essas caracter\u00edsticas simples me levam a fazer algumas conjecturas, \u00e9 claro, sem qualquer desejo de ser exato, apenas inven\u00e7\u00f5es dedutivas do meu pensamento febril. Por exemplo: eu poderia afirmar que n\u00e3o h\u00e1 fan\u00e1ticos nesses lugares, nem se praticam ritos particularmente extravagantes. <br><br>Creio que essa humildade franciscana bem poderia fazer parte de uma forma de piedade, isto \u00e9, do verdadeiro cristianismo. Portanto, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o estranho que n\u00e3o tenham expulsado a velhinha das portas da igreja. Por outro lado, que ela n\u00e3o tenha sofrido de fome ou frio, porque estavam encarregados de abrigar os sem-teto desta cidade em uma pequena pens\u00e3o, digamos assim. <br><br>Tamb\u00e9m n\u00e3o me parece t\u00e3o extraordin\u00e1rio agora aquele man\u00e1 de um metro de comprimento envolto em uma rede vermelha; n\u00e3o seria estranho se os pr\u00f3prios funcion\u00e1rios da igreja o colocassem l\u00e1. Certamente, nem todos os moradores de rua s\u00e3o f\u00e1ceis de conviver, e poucos est\u00e3o dispostos a deix\u00e1-los para entrar em um abrigo ou em uma cozinha comunit\u00e1ria dentro das portas de uma institui\u00e7\u00e3o, seja uma par\u00f3quia ou um lar. Qualquer coisa que os leve \u00e0 ideia de estar entre quatro paredes os assusta. E \u00e0 menor sugest\u00e3o de &#8220;Voc\u00ea deveria vir conosco&#8221;, eles fogem para o terreno baldio mais remoto para preservar o que chamam de liberdade, mesmo que numa manh\u00e3 de frio polar, a morte os encontre sob seus velhos e amados cobertores, r\u00edgidos em seus colch\u00f5es carcomidos pelas tra\u00e7as. <br><br>Depois de ficar sentado por um longo tempo no genuflex\u00f3rio, vi o padre passar com uma l\u00e2mpada de incenso, vestido para a missa, e as pessoas come\u00e7aram a entrar e se acomodar lentamente, tentando manter a dist\u00e2ncia que estes novos tempos exigem. <br><br>Eu considerei desrespeitoso, sendo um pag\u00e3o incur\u00e1vel, permanecer ali quando o servi\u00e7o religioso come\u00e7asse, ent\u00e3o, cautelosamente, preparei-me silenciosamente para sair. N\u00e3o sei dizer que horas eram, apenas que a garoa come\u00e7ava a fechar as camadas suaves de ar e umedecer as copas dos jacarand\u00e1s. Decidi voltar para casa, mas fui novamente interrompida por uma ideia estranha, ou vis\u00e3o, como voc\u00ea quiser chamar. Dois saltos vermelhos estavam ali, perto do recipiente onde os p\u00e3es haviam aparecido. Estavam em cima de uma caixa de sapatos novinha em folha, coberta com um fino papel celofane. Mais uma vez, notei a limpeza imaculada e aquele brilho irreal que os cercava, assim como havia cercado os p\u00e3es \u2014 uma fonte de luz que vinha de lugar nenhum, exceto daquilo que irradiava deles.<br>Ent\u00e3o, quando cheguei em casa depois do ritual do ch\u00e1, deitei-me no sof\u00e1 e tive o segundo sonho.<br><strong><br>Pequena Koket (Segunda Pintura)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E vi um pequeno quarto com decora\u00e7\u00e3o antiga: papel de parede azul, uma cama com uma fronha de renda branca e, em frente a ela, um quadro com fitas sobre uma penteadeira e, de cada lado, dois pequenos jarros de flores vermelhas. Uma garotinha estava ajoelhada aos p\u00e9s da cama, aparentemente rezando: cabelos escuros, um vestido de cetim rosa e as m\u00e3os entrela\u00e7adas. <br><br>A mulher na pintura era extremamente bonita; parecia uma imagem muito antiga. Observando mais de perto, pude concluir que era a Marquesa de Pompadour. Na verdade, a garota n\u00e3o estava rezando; ela falava com a pintura em um sussurro. <br><br>Na l\u00f3gica dos sonhos, tudo \u00e9 poss\u00edvel, ent\u00e3o n\u00e3o foi surpresa que a senhora respondesse com a boca, selada com uma fina linha de \u00f3leo. <br><br>_Ent\u00e3o \u00e9 assim, minha pequena Koket.<br><br>_Ah\u2026 sim, e de presente, ele me trouxe aqueles saltos.<\/p>\n\n\n\n<p>_Ah, olha que homem generoso! Ela descreveu ironicamente a pintura de sapatos de salto alto para uma menina de 12 anos. <br><br>Uma express\u00e3o de desgosto cruzou o rosto da marquesa. <br><br>&#8220;Hoje, nem os pais respeitam as pequenas cortes\u00e3s como no meu tempo.&#8221; <br><br>&#8220;Mas ele n\u00e3o \u00e9 meu pai&#8221;, disse o pequeno Koket. &#8220;Eles est\u00e3o muito longe, sabe? Me trouxeram da terra deles h\u00e1 muito tempo, eu estava num internato, e depois ele me adotou.&#8221; <br><br>&#8220;E quem \u00e9 ele?&#8221;, perguntou a marquesa. <br><br>&#8220;Eu n\u00e3o sei\u2026 S\u00f3 que ele me d\u00e1 muitos presentes e, em troca, eu tenho que me comportar\u2026&#8221; <br><br>&#8220;Comportar-se?&#8221; <br><br>&#8220;Sim, senhora, a senhora entende&#8221;, perguntou a mo\u00e7a, corando. <br><br>&#8220;E por que estou aqui, ent\u00e3o, neste quarto onde ele foi escolhido para a senhora?&#8221; <br><br>&#8220;Porque ele n\u00e3o a conhece \u2014 eu conhe\u00e7o. Li sobre a sua vida e a amo, mas ele imagina que voc\u00ea \u00e9\u2026 como ele disse uma vez: &#8216;uma esnobe dos tempos de \u00f1aupa&#8217;\u2026 \u00e9 assim que ele fala.&#8221; <br><br>&#8220;Ah&#8221;, suspirou a marquesa delicadamente. &#8220;Como o estilo e as maneiras do meu pequeno Koket se deterioraram.&#8221; <br><br>&#8220;E ele me deu esse nome. N\u00e3o me lembro mais do meu.&#8221; <br><br>Ela olhou para a caixa contendo os sapatos de salto alto. &#8220;Preciso us\u00e1-los esta noite. Ele quer que eu dance para ele. &#8216;Um tango de arrabal'&#8221;, disse ele, brincando. <br><br>&#8220;Mas eu vou fugir primeiro&#8221;, disse a menininha, com a f\u00faria contida na voz. &#8220;A senhora vai me ajudar? N\u00e3o \u00e9 verdade, Madame Pompadour?&#8221; <br><br>&#8220;N\u00e3o sei como, minha querida, sou apenas o meu retrato, uma pequena pintura cercada por\u2026&#8221; Ela parou. <br><br>&#8220;Perdoe meu descuido, eu nunca lhe agradeci pelas flores.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Os quadros que voc\u00ea pintou para o meu f\u00f3rum\u2026 uma verdadeira igualdade. <br><br>&#8220;Voc\u00ea os merece, Marquise, voc\u00ea \u00e9 como minha m\u00e3ezinha ou minha\u2026&#8221; <br><br>&#8220;Seu anjo, oh, seu seguire&#8221;, suspirou a pintura, vendo l\u00e1grimas nos olhos da pequena Koket.<br><br>&#8220;Oh, eu sei o que voc\u00ea receberia, n\u00e3o se preocupe, eu adoro pintura a \u00f3leo, e minha alma estava disposta a ver lugares requintados onde garotas como voc\u00ea s\u00e3o felizes e correm livremente nos Jardins de Versalhes na primavera.&#8221; <br><br>&#8220;Se voc\u00ea pudesse me salvar, Madame Pompadour.&#8221; <br><br>Ao lado da cama, os pequenos saltos vermelhos brilham impass\u00edveis. A menina olhou para eles e, sem conseguir se controlar, deixou-se levar pelo choro. <br><br>&#8220;Ele vir\u00e1, e eu terei que dan\u00e7ar aquela coisa. Ele vir\u00e1\u2026&#8221; <br><br>O quadro parece escurecer, e a pequena Koket desaparece, junto com o quarto e o resto da casa, deixando de ser um sonho que agora toma suas sombras. Antes de concordar, tive a imagem fugaz de uma silhueta alta, como a de um menino inclinado para o lado, caminhando pelas ruas absorvendo um tango desafinado.<br>*<br>Assim, essa realidade me apareceu, deixando-nos suas mensagens, ora com a palma da minha m\u00e3o desde a inf\u00e2ncia, ora com uma menina que se prostitu\u00eda nas ruas de Constituci\u00f3n, com um osso dilapidado nos bra\u00e7os, uma saia clara de lycra e macac\u00f5es vermelhos. Essas meninas que ainda n\u00e3o passaram pela puberdade s\u00e3o objeto de um desejo obscuro como um grande jogo de perversidade monstruosa de ambos os lados. <br><br>Maravilhamo-nos, ent\u00e3o, com as favelas da mis\u00e9ria no cora\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Buenos Aires. De diferentes lugares, ele nos dizia que este mundo n\u00e3o tem mais escapat\u00f3ria, que a m\u00e1scara de todas as formas de absurdo est\u00e1 presente quando o homem est\u00e1 nas ruas, que palavras, poesia e met\u00e1fora s\u00e3o sup\u00e9rfluas quando mal se suporta e, al\u00e9m disso, n\u00e3o vemos, ou melhor, vemos, damos de ombros. E j\u00e1 faz algum tempo que venho percebendo aquele gesto: &#8220;Talvez aquela noite tivesse me despertado da minha letargia para um mundo de sonhos e favelas, de trag\u00e9dias humanas e dois cen\u00e1rios m\u00e1gicos em que se desenrolavam. Ent\u00e3o eu j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo.&#8221; Sentados de pernas cruzadas em frente aos hot\u00e9is. Entramos nos vag\u00f5es escuros ao lado do homem grisalho de terno formal. Aqueles homens de neg\u00f3cios baratos que deixam para tr\u00e1s suas belas roupas, como o ritual das ninfas, que seduzem com palavras graciosas e presentes caros, que n\u00e3o fomos os melhores em dois casos, quando fomos brutais. No piorava. Pequenos Kokets que apareciam mortos na porta de um pub ou numa cama de hotel ou simplesmente numa rua, enquanto cont\u00e1vamos as in\u00fameras hist\u00f3rias do cotidiano que l\u00edamos entre os esbo\u00e7os. <br><br>H\u00e1 algo sinistro que parte o cora\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana e destr\u00f3i mortalmente a terra que habita.<br>Um pequeno Koket \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o que atravessa mundo ap\u00f3s mundo, suportando a impunidade deste perverso Cal\u00edgula que deflora aqueles que se casam. Ele decapita aqueles que nos desobedecem e diz:<br><br>E ele sai com l\u00e1grimas nos olhos porque n\u00e3o conseguiu devorar a lua.<br>Sim, eu disse a mim mesma, aquele espectro de chap\u00e9u de lado que entrava em casa num piscar de olhos enquanto eu dormia, e ali come\u00e7ava sua pe\u00e7a grotesca e tr\u00e1gica, deitada no sof\u00e1, olhando avidamente para a pequena Koket, agora vestida com um vestido justo de lantejoulas e saltos vermelhos. E enquanto ele a manda se despir, ainda dan\u00e7ando, e sorrindo ao se levantar, tomando-a nos bra\u00e7os, a menina desmaia em dire\u00e7\u00e3o ao quartinho azul dos meus sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Prociss\u00e3o das Crian\u00e7as, Cena Tr\u00eas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>23 de julho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><br>Aprendi a escrever neste di\u00e1rio o que j\u00e1 disse, e n\u00e3o ousaria confessar a nenhum mortal, pois as imagens destes \u00faltimos tempos, como eu temia, abalam o delicado fio da sanidade. <br><br>Como explicar? Vis\u00f5es se apresentam a mim em meio \u00e0 correria do dia a dia! Inesperadamente, tudo para, e elas aparecem. Primeiro, o sil\u00eancio, um sil\u00eancio estranho que me leva a um estado como se tudo o que eu considerava habitual se retirasse para que, neste oco de sons, se expressasse o doloroso pulsar da terra. Um cora\u00e7\u00e3o exangue na pausa, pre\u00e2mbulo do que em breve surgir\u00e1 em forma de n\u00e9voa que se espalha pelas avenidas mais populosas. <br><br>E s\u00e3o elas que retornam. Uma prociss\u00e3o de crian\u00e7as com seus rostos ossudos, seus corpos quebrando nas costelas, suas barrigas inchadas, nuas, pequenas. Ent\u00e3o ou\u00e7o um acorde mon\u00f3tono; \u00c9 o seu lamento, emitido num sussurro, eles n\u00e3o falam, \u00e9 apenas aquele tipo de grito que nunca existe de fato. E come\u00e7am a vagar pelas ruas, separando-se, irradiando-se como caminhos bifurcados. S\u00e3o tantos que n\u00e3o consigo cont\u00e1-los; alguns vir\u00e3o de longe, outros daqui; est\u00e3o unidos por esta trag\u00e9dia comum: a fome, que espalha sua imagem sepulcral, como uma grande prociss\u00e3o de fantasmas. Deduzo da maior ou menor precis\u00e3o de seus contornos que alguns j\u00e1 pereceram, outros est\u00e3o no limite de suas for\u00e7as. Mas o que poderiam querer de mim, se ningu\u00e9m al\u00e9m de mim os v\u00ea? De que valeria meu testemunho? Algu\u00e9m acreditaria em mim? Por outro lado, ningu\u00e9m ignora, mesmo que apenas como estat\u00edstica, a brutal realidade da fome neste mundo sem Deus nem miseric\u00f3rdia. Eles v\u00eam para dizer o oco, o absurdo. Mesmo assim, uma esperan\u00e7a tr\u00eamula os guiar\u00e1, enquanto seus fantasmas se materializam diante dos olhos de algum mortal.<\/p>\n\n\n\n<p>O ineg\u00e1vel \u00e9 que essa vis\u00e3o ou met\u00e1fora visual \u00e9 a express\u00e3o de uma verdade que, dia ap\u00f3s dia, mina a alma da Terra. Talvez, talvez, a Terra, al\u00e9m do meu ceticismo, tenha alguma estranha forma de alma ou mana que se expressa por meio de sinais erroneamente tomados como simples fatos cient\u00edficos. Pergunto-me, mesmo que n\u00e3o sejam fatos comprovados, como eclipses, por exemplo, ou os aqu\u00edferos da Falha de S\u00e3o Francisco, se isso invalida a outra verdade, a do s\u00edmbolo, que emerge em tais eventos. Erup\u00e7\u00f5es, tsunamis, a f\u00faria da Terra, o afogamento de Pacha Mama diante da impossibilidade de se erguer como \u00c1rtemis sobre o universo, arrancando as ervas daninhas daquela humanidade entorpecida pela tolice de seu orgulho. Aquele medo com que o macaco maltratado nasceu \u00e0s custas de um deus sem inspira\u00e7\u00e3o no momento da concep\u00e7\u00e3o. <br><br>A terra pulsa em un\u00edssono com a trag\u00e9dia de suas criaturas como m\u00e3es se quebram diante de seu filho extinto. E talvez seja esse sil\u00eancio anterior que se instala sobre todas as coisas, diante do batimento fr\u00e1gil de seu cora\u00e7\u00e3o enfraquecido por tantas humilha\u00e7\u00f5es. <br><br>Depois de vagar pelas ruas, elas come\u00e7am a se dissolver lentamente, retornando a um centro difuso, como se retomassem a jornada rumo ao esquecimento. Assim, a n\u00e9voa \u00e9 reabsorvida at\u00e9 se tornar um pontinho min\u00fasculo. Ent\u00e3o, no c\u00e9u, vejo uma p\u00e9tala de fuma\u00e7a como uma estrela que tremula fracamente at\u00e9 se apagar. <br><br>Eis o esbo\u00e7o mais ou menos preciso que consegui fazer da prociss\u00e3o das crian\u00e7as. Esta \u00e9 a segunda vez que isso me aparece, e presumo que seja apenas o come\u00e7o de outras vis\u00f5es que tive e terei antes que meu cora\u00e7\u00e3o idoso decida parar para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Anjo Mendigo. Painel IV<\/strong><br><strong>\u201c25 de Julho\u201d<\/strong> <br><br>Por muitas raz\u00f5es, estas p\u00e1ginas s\u00e3o indispens\u00e1veis \u200b\u200bpara mim.<br>O mais importante \u00e9 que certamente esquecerei em breve essas vis\u00f5es, e \u00e9 de vital import\u00e2ncia para mim deixar um registro delas\u2026 <br><br>J\u00e1 contei um epis\u00f3dio que me aconteceu anos atr\u00e1s. Eu ainda era jovem, por assim dizer, quando aquele fantasma apareceu diante de mim como por milagre. Ali\u00e1s, \u00e9 ele que devo seguir nesta vida, caso contr\u00e1rio, teria sido atropelado. O homem era de estatura enorme, verdadeiramente gigante. Sua barba branca e seus trapos de mendigo lhe davam a apar\u00eancia de um velho hippie dos anos 1960, ent\u00e3o se aproximando do final do s\u00e9culo XX. Ele bem poderia ter sido um daqueles que aprenderam as artes da feiti\u00e7aria nos caminhos de Katmandu, como era moda na \u00e9poca. O que me lembro \u00e9 que ele cantava. <\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria de me deter neste ponto. Eu havia recitado um c\u00e2ntico antes, agora acho que era uma prece em uma l\u00edngua desconhecida, como se estivesse invocando algum deus antigo daquelas terras distantes. O fato \u00e9 que, nos dias que se seguiram \u00e0quele encontro, acontecimentos estranhos gradualmente tomaram forma em minha mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Uma delas foi uma noite em que tudo parecia calmo, excessivamente calmo\u2026 Inesperadamente, os sinos da igreja tocaram. Quem poderia toc\u00e1-los? Levantei-me, olhei para o rel\u00f3gio; era pouco depois da meia-noite. Mesmo assim, sa\u00ed de casa e fui at\u00e9 a igreja de R\u00e1bida. Eu nem me lembrava de ter um campan\u00e1rio; no entanto, como se iluminados por uma constela\u00e7\u00e3o celeste, dois sinos soberbos brilhavam em um antigo campan\u00e1rio; parecia-me semelhante ao de Notre Dame. Pareceu-me vislumbrar a imagem do velho, como se ele fosse agora uma esp\u00e9cie de anjo, o contorno de um anjo de grandes propor\u00e7\u00f5es. Caminhei em frente, atravessando a rua vazia; a igreja estava aberta, e ent\u00e3o o vi claramente.<br>Ele me olhou com um ar um tanto sarc\u00e1stico e cantou novamente. Aquilo era angelical ou sinistro?<\/p>\n\n\n\n<p>O grandalh\u00e3o riu dos meus pensamentos. E disse: &#8220;As palavras dos profetas est\u00e3o escritas no metr\u00f4&#8221;. E desapareceu como fuma\u00e7a diante dos meus olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Acordei com o cora\u00e7\u00e3o disparado e as m\u00e3os tr\u00eamulas; claramente tinha sido um sonho. N\u00e3o conseguia mais dormir. Na manh\u00e3 seguinte, bem cedo, sa\u00ed de casa para tomar caf\u00e9 da manh\u00e3 no bar, como era meu costume no passado. Quando cheguei \u00e0 esquina da San Jos\u00e9, vi um menino correndo, carregando uma cesta vermelha transbordando de p\u00e3o. Agu\u00e7ando os ouvidos, ouvi-o cantar:<br>&#8220;As palavras dos profetas est\u00e3o escritas no metr\u00f4&#8221;. Sentei-me, tremendo, pedi um caf\u00e9 forte para clarear a mente e peguei o jornal: aos poucos, consegui me acomodar. A realidade mais uma vez me distraiu com sua brutalidade, suas humilha\u00e7\u00f5es, suas indignidades e sua eterna banalidade. O emiss\u00e1rio do esquecimento mais uma vez me deu o al\u00edvio do entorpecimento de que eu tanto precisava para n\u00e3o enlouquecer. Embora agora eu me pergunte se eu n\u00e3o teria sido mais digno, ou se esses fantasmas que se aproximavam de mim, como vis\u00f5es ou figuras on\u00edricas, n\u00e3o eram muito menos tem\u00edveis do que os de carne e osso. E se eu n\u00e3o estivesse de fato \u00e0s portas de um lugar que pudesse reivindicar um significado menos cruel, n\u00e3o apenas para mim, mas para tudo ao meu redor.<br>Eles, nascidos de sabe-se l\u00e1 qual camada de nossa consci\u00eancia danificada, v\u00eam nos dizer o que nossa natureza inerentemente indolente se recusa a entender. <br><br>Os sinais, \u00e0s vezes sutis, deixam um rastro para que possamos aprender o caminho que leva \u00e0quele outro lugar, aquele que nunca encontraremos em primeiro lugar. Ah, sim, lembrei-me, segurando o caf\u00e9 nas m\u00e3os enquanto inalava seu vapor reconfortante. Fechei os olhos e disse a mim mesmo: &#8220;Os sons do sil\u00eancio&#8221;. E voc\u00ea ouvir\u00e1 tudo onde os sons do sil\u00eancio ocorrem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Princesa dos Sub\u00farbios<br>Imagem Cinco<\/strong><br><br>N\u00e3o a vi novamente por um longo tempo \u00e0s portas da Igreja da R\u00e1bida, durante o restante de julho. Passei metade do dia a caminho do mercado e nada, nem um tra\u00e7o, nem mesmo aquelas pequenas ideias ou vis\u00f5es que ocasionalmente me atormentavam. N\u00e3o queria que ningu\u00e9m soubesse do meu contato com a velha. Mas a curiosidade aumentou, e n\u00e3o pude deixar de espiar as portas da igreja, finalmente entrar no terreno e perguntar ao jovem na entrada se ele sabia alguma coisa sobre uma velha que costumava sentar-se ali, envolta em um manto de l\u00e3. N\u00e3o mencionei os saltos porque pareciam desproporcionais. O jovem olhou para mim seriamente e disse que nunca tinha visto uma velha \u00e0s portas da igreja. Pedi desculpas pelo inconveniente e sa\u00ed rapidamente. Voltei para casa com uma estranha sensa\u00e7\u00e3o de desconforto e irrealidade. Ao me sentar na cama, senti-me fraco e deitei-me, caindo em um sono profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, a p\u00e1lpebra de n\u00e9voa, mais uma vez atrav\u00e9s do limiar que conduz \u00e0 vig\u00edlia, brandindo as ervas daninhas dos restos do dia, cheguei a um lugar estranho. As luzes estavam acesas, havia fileiras de l\u00e2mpadas de cores. Aos poucos, os contornos se definiram, e eu pude ver a fauna daquele lugar: homens e mulheres com roupas dos anos 50, uma explos\u00e3o de risos, palmas e os acordes do tango reo enchiam o lugar. Arquitetura r\u00fastica, mesas e cadeiras ladeavam uma pista de dan\u00e7a. Ao fundo, em um pequeno palco, um piano e um homem empunhando um bandoneon com ar mal\u00e9volo tocavam ritmos agudos que eram apenas ado\u00e7ados pela cascata de notas que escapavam do piano.<br><br>Em um instante, as luzes se apagaram e um holofote iluminou a pista de dan\u00e7a ao redor das mesas. E ao som de um tango antigo da favela, eles surgiram: a dan\u00e7arina usava um vestido bord\u00f4 justo e saltos vermelhos, o cabelo preso em um coque. Ele, de terno e chap\u00e9u na cabe\u00e7a, a conduzia com passos arrogantes, e ela navegava, \u00e0s vezes parecendo voar em giros ao redor dele. &#8220;O melhor de todos&#8221;, eu os ouvi dizer. Os homens que a elogiavam e diziam algumas frases um tanto lascivas, as mulheres que a olhavam com certa inveja, ainda n\u00e3o conseguiam deixar de admirar sua habilidade.<br>Mas ela \u00e9 apenas uma garotinha. Parecia-me que algu\u00e9m dizia &#8220;e com muita ousadia&#8221;. &#8220;A princesa das favelas&#8221;.<br><br>Eu percebia que aqueles coment\u00e1rios eram apenas ecos na minha cabe\u00e7a. E me lembrei da conversa sobre os pequenos saltos vermelhos do meu primeiro sonho, e depois da garotinha triste do meu segundo sonho ao lado do retrato de Madame Pompadour.<br><br>Ela n\u00e3o devia ter mais de quinze anos, mas n\u00e3o era apenas uma excelente dan\u00e7arina, mas tamb\u00e9m \u2014 e esse era o lado sombrio do qual nenhuma mulher da noite conseguia escapar \u2014 a rainha das casas noturnas. Depois, ela ia de mesa em mesa, e algu\u00e9m, o mais bonito ou o mais rico, era o escolhido para sua noite de amor.<br><br>A bela amante de Pompadour, pensei, a jovem fr\u00edgida que ficou com o rei apenas para poder continuar sendo uma poetisa, uma poetisa de letras, uma amante da vida espiritual. Ela, a pequena Koket, aprendera a arte da dan\u00e7a como ningu\u00e9m, e se entregava a ela todas as noites com a paix\u00e3o de quem deixa a vida num grande e \u00faltimo gesto de beleza.<br><br>Ent\u00e3o seus restos mortais iriam para as mesas, para serem levados pelo destino voraz que ela n\u00e3o conseguira evitar desde a inf\u00e2ncia. Ent\u00e3o, era a isso que se referiam os pequenos saltos? Eram como as asas de Hermes, carregando seus pezinhos pela passarela dos sonhos, como se fosse poss\u00edvel decolar deste mundo, ir al\u00e9m dele at\u00e9 se perder num espa\u00e7o de alegria infinita onde nem a dor nem a sordidez da vida poderiam alcan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>OS SINAIS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De tempos em tempos, essa hist\u00f3ria se desenrola, com a qual assumimos desempenhar algum tipo de papel de lideran\u00e7a no espa\u00e7o astral dos deuses indiferentes que nunca nos nomearam. De tempos em tempos, ouvimos a ferocidade das guerras, a humilha\u00e7\u00e3o cont\u00ednua que a humanidade inflige a si mesma, assumindo-se representante de alguma estranha esp\u00e9cie supra-humana. Ela justifica a humilha\u00e7\u00e3o de povos e indiv\u00edduos, segregando os outros, os mais fracos, em espelhos perigosos nos quais eles evitam se olhar. <br><br>Estabelecendo a miragem da ordem absoluta, seja na forma de deuses ou imperadores, na forma de fetiches, riquezas ou f\u00e1bulas grandiloquentes sobre a grande epopeia da humanidade eleita. De vez em quando, dessa verdadeira fantasmagoria, que s\u00e3o as suposi\u00e7\u00f5es de que fala o homem, nascem esbeltas cachoeiras como o leito puro de um rio sobre as pedras murchas da terra, iniciando a jornada do amor que, interrompida tantas vezes, retorna, ainda assim, das profundezas mais sombrias da hist\u00f3ria para um mito, uma f\u00e1bula, um sonho, um ideal.<br><br>\u00c9 disso que trata esta hist\u00f3ria, em todo caso.<br><br>E, em grande medida, seus personagens, mal esbo\u00e7ados, s\u00e3o precisamente os sinais que a vida ainda nos d\u00e1 para expressar que apenas os desamparados, os filhos mais desprezados deste mundo de T\u00e2natos. No entanto, h\u00e1 in\u00fameras ressurrei\u00e7\u00f5es que carregam um cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o redimido arrancado do peito, para observar os brotos murchos e as fibras pregui\u00e7osas das consci\u00eancias de nossa esp\u00e9cie malfadada.<br><br>\u00c9 por isso que a paix\u00e3o n\u00e3o pode morrer; mesmo na maior humilha\u00e7\u00e3o, a criatura humana se lembra de uma saga, esbo\u00e7a um passo de dan\u00e7a, um anseio de fuga. Uma escrita que submergiu nas areias do tempo e vem \u00e0 luz, silenciosa e cautelosa, para se revelar apenas \u00e0queles que ainda guardam um fio de ternura no centro da verdadeira esperan\u00e7a.<br><br>S\u00e3o os sinais que aparecem de diferentes maneiras, nos lugares mais inesperados, assim como a met\u00e1fora do homem nascido numa manjedoura e o rouxinol da poesia que salvou a vida do imperador numa floresta simples. Os sinais renascem de tempos em tempos para sustentar o cora\u00e7\u00e3o dolorido da terra, para reg\u00e1-lo com suas l\u00e1grimas e acalm\u00e1-lo com seus feiti\u00e7os de boa sorte, lembrando \u00e0 pobre Pacha Mama que eles tamb\u00e9m s\u00e3o seus filhos e que n\u00e3o a abandonaram. Assim, da \u00e1rvore truncada, flores imposs\u00edveis brotam nas ruas de cidades agrestes, e o canto dos p\u00e1ssaros continua a gorjear o senso de inoc\u00eancia.<br><br>Os sinais daqueles como a velha de saltos vermelhos, as crian\u00e7as famintas se rebelando na n\u00e9voa, o anjo mendigo. Eles nos aproximam de um mundo al\u00e9m do mundo, e aqui reside o verdadeiro milagre. Desnecess\u00e1rio dizer, como tantas vezes afirmei, se essa ocorr\u00eancia de s\u00edmbolos vivos \u00e9 uma met\u00e1fora ou n\u00e3o. A verdade \u00e9 que, em certo ponto, ela s\u00f3 \u00e9 verdadeira por sua necessidade, e a\u00ed reside a \u00fanica resposta que podemos dar \u00e0 origem dessas criaturas on\u00edricas que navegam entre a realidade e a fantasia, entre a vig\u00edlia e o sonho, entre a realidade e a loucura. A \u00fanica resposta poss\u00edvel para explicar por que essas trivialidades ou incongru\u00eancias s\u00e3o essenciais para alguns e necessidades vitais para outros.<br>Se as palavras dos poetas s\u00e3o escritas no subterr\u00e2neo, isso significa que algo muito al\u00e9m do que est\u00e1 estabelecido e acordado deve ocorrer. E aqui relatarei essas vis\u00f5es finais; talvez, no final, alguma estranha revela\u00e7\u00e3o perfure os cora\u00e7\u00f5es mais c\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Milagre dos P\u00e3es<\/strong><br><strong>27 de julho<\/strong><br><strong><br><\/strong>J\u00e1 n\u00e3o posso afirmar com certeza, neste momento, se as coisas que relatarei a seguir, que podem dar sentido a esta, por assim dizer, hist\u00f3ria ou conto, fazem parte do mundo dos meus sonhos ou do outro. Como disse no in\u00edcio, a corda fina que nos sustenta nesta miragem de sanidade pode ter-se rompido, e estou navegando como um personagem intermedi\u00e1rio num mundo igualmente intermedi\u00e1rio, onde as coisas acontecem mais por necessidade do que por uma ordem fortuita de acontecimentos.<br>Uma tarde, eu fazia minhas rondas entre o mercado e outras tarefas di\u00e1rias quando vi novamente o Anjo Mendigo. Ele estava sentado perto da lata de lixo em frente \u00e0 igreja da R\u00e1bida. Usava um cobertor pu\u00eddo que o fazia parecer apenas mais um membro da fauna despossu\u00edda que abunda nestes aben\u00e7oados bairros coloniais de Buenos Aires. Aproximei-me dele, mas ele n\u00e3o levantou a cabe\u00e7a; parecia adormecido. Fiquei pensando no que fazer, se conversava com ela ou se seguia adiante, e fiquei ali, indeciso. O vento havia soltado uma rajada fria que fez as folhas e o lixo esvoa\u00e7arem. Uma n\u00e9voa repentina caiu sobre as ruas; percebi que uma tempestade se aproximava. Motivo mais do que suficiente para sair dali, pensei, mas n\u00e3o consegui. A for\u00e7a daquele anjo aparentemente adormecido me segurou como se uma m\u00e3o invis\u00edvel me segurasse. Ent\u00e3o olhei para frente, e a vis\u00e3o me pareceu extraordin\u00e1ria, enquanto uma emo\u00e7\u00e3o me percorria da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Em frente \u00e0 igreja estava a velha. Desta vez, ela foi vista de p\u00e9, sobre suas pernas finas e seus saltos vermelhos. Percebi que ela se movia, abra\u00e7ada por um companheiro invis\u00edvel, dan\u00e7ando sozinha no meio da rua.<br><br>Por que ela havia retornado? E o anjo mendigo, o que ele estava fazendo ali, na frente dela? Ent\u00e3o a nevasca cessou, e o homenzarr\u00e3o, como algu\u00e9m retornando de algum lugar distante, abriu os olhos e sorriu com indulg\u00eancia. Imaginei que deveria dizer algo, mas ele pareceu adivinhar meus pensamentos. Ele se levantou com leveza, deixando cair seu manto de mendigo, e eu pude ver a figura et\u00e9rea de sua t\u00fanica e asas. Era uma n\u00e9voa suave e intang\u00edvel, semelhante a um clar\u00e3o de luz. E o anjo me conduziu a um lugar que eu nunca tinha visto antes, porque, ao chegarmos ao final da Avenida Belgrano, uma cavidade se abriu como a boca de um metr\u00f4. Do nada, degraus surgiram e, com um gesto de m\u00e3o, ele gentilmente me convidou a descer.<br><br>Ent\u00e3o, pude ver a n\u00e9voa invadir a avenida novamente e, pela terceira vez, a prociss\u00e3o de crian\u00e7as famintas apareceu diante de mim. S\u00f3 que, desta vez, elas n\u00e3o flutuaram entre as ruas, mas desceram junto com o anjo pela escada misteriosa, que um milagre, ou quem sabe que truque de percep\u00e7\u00e3o, havia criado.<br>Chegamos a um lugar sombrio. A esta\u00e7\u00e3o estava desabitada; parecia ter desaparecido h\u00e1 muito tempo, mas estava l\u00e1, como se fosse do passado.<br><br>E atrav\u00e9s da brecha onde estavam os trilhos, vi a n\u00e9voa de crian\u00e7as se instalar, um tremor de contornos fr\u00e1geis, uma noite de luas indefesas, ossos de p\u00e1ssaros, fome nas costelas.<br>Essas frases pareciam flutuar na ac\u00fastica daquele limiar on\u00edrico, como coros que mal sussurravam:<br>Quem trouxe esta tristeza aos dias do mundo?<br>Quem deixou os fr\u00e1geis submersos?<br><br>Onde nascer\u00e1 o milagre que salvar\u00e1 esta humanidade extinta, estas almas suicidas que empunham testemunhos de paix\u00f5es jamais reveladas por aqueles que se alimentam de sua dor e inauguram bandeiras e territ\u00f3rios, proclamam p\u00e1trias e cat\u00e1strofes, gl\u00f3rias e deuses vazios?<br>Onde estar\u00e1 aquilo que, se tivesse existido no princ\u00edpio dos tempos, jamais teria causado mis\u00e9ria a estes cora\u00e7\u00f5es submersos?<br><br>E assim vozes e trechos de can\u00e7\u00f5es invadiram o arco c\u00f4ncavo do lugar como se fosse um templo em ru\u00ednas. O anjo mendigo estava diante de mim, sorrindo. Cantou novamente: &#8220;As palavras dos profetas est\u00e3o escritas nos subterr\u00e2neos.&#8221;<br><br>E ent\u00e3o vi a grande muralha: ali estavam os textos de Isa\u00edas, as \u00faltimas palavras de Jesus, os sete selos do apocalipse narrados por S\u00e3o Jo\u00e3o, mas tamb\u00e9m as almas perdidas na indiferen\u00e7a da hist\u00f3ria. Uma delas dizia: &#8220;O mundo n\u00e3o pode ser salvo porque a humanidade fez sua pr\u00f3pria sepultura&#8221;, e assinava abaixo: An\u00f4nimo.<br>&#8220;E os males do mundo cair\u00e3o sobre n\u00f3s at\u00e9 que rompamos o fio da sanidade e retornemos ao lugar dos anjos.&#8221;<br>Palavras e frases embaralhadas, quem eram? Mendigos loucos? Algum poeta que um dia vendeu suas gravuras caseiras no trem?<br><br>Havia tamb\u00e9m estranhos desenhos infantis: um universo de palavras e imagens que narravam, em conjunto, o significado, o horror do que existe, advert\u00eancias apocal\u00edpticas, mas tamb\u00e9m palavras de reden\u00e7\u00e3o e express\u00f5es de amor que selavam uma &#8220;nova alian\u00e7a com a vida de todos os oprimidos do mundo&#8221;.<br><br>E o Anjo Mendigo abriu seu manto, e diante de mim pude ver a cesta de p\u00e3es:<br>&#8220;E multiplicarei os p\u00e3es e os peixes, e n\u00e3o haver\u00e1 mais morte, nem luto, nem gemidos.&#8221;<br>E ele jogou os p\u00e3es como man\u00e1 leve em dire\u00e7\u00e3o ao vale dos trilhos onde a n\u00e9voa de crian\u00e7as famintas se acumulara.<br><br>O som dos sinos voltou a ser ouvido, mas estes vinham dos pequenos, cujos gemidos se transformaram em badaladas, risos t\u00e3o suaves quanto sinos de jingle, pequenos sinos que mais uma vez preencheram o espa\u00e7o ac\u00fastico do lugar.<br>Eu n\u00e3o vi a velha com os saltos vermelhos. Mas eu sabia, sim, que ela fizera parte disso, que nos tempos de suas dificuldades, outrora a princesa das favelas foi descartada por sua idade e \u00e1lcool.<br>Naqueles tempos que duraram anos, talvez muitos, o anjo mendigo tamb\u00e9m lhe apareceu.<br><br>E a partir da\u00ed, sua vida foi o in\u00edcio de um limiar por onde alguns, por compaix\u00e3o ou curiosidade, adentravam aquele outro mundo onde a vida \u00e9 compreendida atrav\u00e9s de seus sinais, seus sil\u00eancios e suas verdades mais ocultas.<\/p>\n\n\n\n<p>A REVELA\u00c7\u00c3O<\/p>\n\n\n\n<p>E eu poderia muito bem dizer que esta hist\u00f3ria termina aqui, naquela \u00faltima vis\u00e3o que tive.<br>No entanto, n\u00e3o \u00e9 bem assim\u2026 Eu descobriria isso no \u00faltimo momento.<br><br>E ent\u00e3o vi aos p\u00e9s da cama uma menininha usando um camafeu de Madame Pompadour. E tamb\u00e9m o anjo acariciando minha m\u00e3o moribunda: era um menino ali. escapavam da n\u00e9voa e agora brilhavam no frescor do milagre dos p\u00e3es. Por que estavam ali, eles e os outros, aqueles que eu vira e sobre os quais escrevera, aqueles que minha caneta outrora tra\u00e7ara sob o abrigo da magia e da loquacidade das musas?<br>E eu sabia que tinham vindo se despedir. Aos p\u00e9s da minha cama estavam meus\u2026 ou seus saltos vermelhos.<br><br>Eu era meus personagens, e eles eram minha encarna\u00e7\u00e3o.<br>Ent\u00e3o era assim que teria que ser?<br>Ela era quem morria, e eu era quem ficava para tr\u00e1s como a voz para narrar sua hist\u00f3ria. Ela havia atravessado todos os picos e todos os abismos, as banalidades da vida e tamb\u00e9m os grandes sonhos. Suas palavras eram criaturas, seu prolongamento, sua raz\u00e3o de ser.<br>E tanto que, ao contr\u00e1rio do que temera em sua juventude, ela n\u00e3o morreria sozinha.<br>Os filhos estavam l\u00e1, dizendo-lhe que n\u00e3o era em v\u00e3o aquele estranho trabalho de ser uma velha, uma criadora de palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Marta Oliveri<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-luminous-vivid-amber-to-luminous-vivid-orange-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/martha.oliveri1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"FACEBOOK\">FACEBOOK<\/a><\/h4>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-luminous-vivid-amber-to-luminous-vivid-orange-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DHTJgSuuaM5\/\" title=\"INSTAGRAM\">INSTAGRAM<\/a><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/\" title=\"\">Voltar<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/JCulturalrol\/\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde a primeira vez que a vi, sentada num resto de cadeira, envolta num xale pu\u00eddo, soube que n\u00e3o era coincid\u00eancia, que entre as muitas quest\u00f5es que os&#8230; <\/p>\n","protected":false},"author":124,"featured_media":74246,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[9607,9285],"tags":[14620,14622],"class_list":["post-74239","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contos","category-literatura","tag-a-velha-dos-saltos-vermelhos","tag-rabida"],"aioseo_notices":[],"views":1301,"jetpack_featured_media_url":"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/4795b33d-2374-4ec0-8e35-e818c3b8b7e6.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":77308,"url":"http:\/\/jornalrol.com.br\/?p=77308","url_meta":{"origin":74239,"position":0},"title":"Rebeld\u00eda 14 &#8211; PEREGRINA","author":"Marta Oliveri","date":"12 de dezembro de 2025","format":false,"excerpt":"Soy la sombra migratoria. Destello oscuro en las ruinas. Soy recuerdo deslumbrando al olvido en las cenizas. 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