{"id":78972,"date":"2026-03-09T09:34:21","date_gmt":"2026-03-09T12:34:21","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=78972"},"modified":"2026-03-09T10:00:30","modified_gmt":"2026-03-09T13:00:30","slug":"o-cara-encostado-dormindo-no-semaforo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jornalrol.com.br\/?p=78972","title":{"rendered":"O cara encostado dormindo no sem\u00e1foro"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F78972&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F78972&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Clayton Alexandre Zocarato<br><br> Conto &#8216;O cara encostado dormindo no sem\u00e1foro&#8217;<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"966\" height=\"1288\" data-attachment-id=\"66477\" data-permalink=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=66477\" data-orig-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b.jpg\" data-orig-size=\"966,1288\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Clayton A. Zocarato&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Clayton A. Zocarato&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b.jpg\" src=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b.jpg\" alt=\"Clayton Alexandre Zocarato\" class=\"wp-image-66477\" style=\"aspect-ratio:0.7500732493407559;width:150px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b.jpg 966w, http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b-900x1200.jpg 900w, http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/6d8a5754-eec0-4de2-a6ee-8187eb15498b-768x1024.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 966px) 100vw, 966px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Clayton A. Zocarato<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1536\" data-attachment-id=\"78984\" data-permalink=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=78984\" data-orig-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/0eee9169-92d1-4a26-8db1-bbdf5da04ec5-1.jpg\" data-orig-size=\"1024,1536\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"0eee9169-92d1-4a26-8db1-bbdf5da04ec5\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/0eee9169-92d1-4a26-8db1-bbdf5da04ec5-1.jpg\" src=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/0eee9169-92d1-4a26-8db1-bbdf5da04ec5-1.jpg\" alt=\"Imagem gerada por IA do ChatGPT - https:\/\/chatgpt.com\/c\/69ae393a-a428-832d-80a5-98b8f6b8081c\" class=\"wp-image-78984\" style=\"aspect-ratio:0.666676475781296;width:382px;height:auto\" srcset=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/0eee9169-92d1-4a26-8db1-bbdf5da04ec5-1.jpg 1024w, http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/0eee9169-92d1-4a26-8db1-bbdf5da04ec5-1-800x1200.jpg 800w, http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/0eee9169-92d1-4a26-8db1-bbdf5da04ec5-1-768x1152.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Imagem gerada por IA do ChatGPT &#8211; https:\/\/chatgpt.com\/c\/69ae393a-a428-832d-80a5-98b8f6b8081c<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">No cruzamento barulhento da cidade, entre buzinas e pressa, havia um homem encostado no poste do sem\u00e1foro, dormindo como quem tinha desistido de disputar lugar no mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os carros aceleravam quando a luz ficava verde, mas ningu\u00e9m parecia notar aquele corpo cansado ali, dobrado sobre si mesmo. Talvez tivesse sido pedreiro, pai, filho, algu\u00e9m com hist\u00f3rias que a cidade esqueceu de ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O sinal mudava de cor como se a vida tivesse regras claras: parar, seguir, esperar. Para ele, por\u00e9m, todos os sinais j\u00e1 pareciam vermelhos h\u00e1 muito tempo. E enquanto a cidade corria atr\u00e1s de seus compromissos, o homem dormia \u2014 n\u00e3o por descanso, mas por falta de onde acordar.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade acordava todos os dias com pressa. Buzinas, motores, passos acelerados, vendedores abrindo as portas met\u00e1licas das lojas, \u00f4nibus lotados cuspindo gente em cada esquina.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;No meio desse turbilh\u00e3o havia um cruzamento comum, daqueles onde quatro avenidas se encontram e a paci\u00eancia das pessoas termina.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali funcionava um sem\u00e1foro antigo, daqueles que demoravam demais para mudar de cor. Os motoristas odiavam aquele sinal.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quase ningu\u00e9m percebia outra coisa naquele lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Encostado no poste do sem\u00e1foro, havia um homem dormindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele se sentava sempre no mesmo ponto, com as costas apoiadas no metal frio do poste, as pernas estendidas e a cabe\u00e7a inclinada para frente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Parecia ter aprendido a dormir no meio do barulho \u2014 habilidade estranha, mas necess\u00e1ria para quem n\u00e3o possui paredes.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns passavam olhando de relance.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros fingiam n\u00e3o ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cidade, ignorar algu\u00e9m \u00e9 uma forma discreta de continuar vivendo sem culpa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m ali sabia o nome dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os motoristas era apenas &#8216;o cara do sem\u00e1foro&#8217;<strong>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ele usava uma camisa desbotada, cal\u00e7a gasta e um bon\u00e9 que j\u00e1 havia perdido a cor original. A barba crescia irregular, como mato abandonado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes ele acordava quando o sinal ficava vermelho e caminhava entre os carros oferecendo balas ou limpando para-brisas. Mas naquela manh\u00e3 ele estava dormindo profundamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O curioso \u00e9 que sua express\u00e3o n\u00e3o era de sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma express\u00e3o estranhamente tranquila.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se o sono fosse um pequeno ref\u00fagio contra o peso da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos imaginavam que, anos antes, aquele homem tinha uma casa pequena, um emprego numa oficina mec\u00e2nica e uma filha que gostava de desenhar p\u00e1ssaros.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as cidades t\u00eam uma capacidade cruel de apagar hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mo\u00e7a dentro de um carro vermelho olhou para ele por alguns segundos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela estava atrasada para o trabalho e tamborilava os dedos no volante com impaci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse sinal demora demais \u2014 murmurou.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou novamente para o homem dormindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um instante breve, pensou em como algu\u00e9m poderia dormir ali, no meio de tanto barulho.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o sinal ficou verde.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela acelerou.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade funciona assim: pequenas curiosidades humanas s\u00e3o rapidamente esmagadas pela urg\u00eancia do rel\u00f3gio.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem continuou dormindo.<\/p>\n\n\n\n<p>O tr\u00e2nsito continuou passando.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida dele n\u00e3o havia desmoronado de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase nunca desmorona.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro veio a demiss\u00e3o da oficina. O dono fechou as portas depois de uma crise econ\u00f4mica. Depois vieram meses de bicos, trabalhos tempor\u00e1rios, pequenas d\u00edvidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A esposa foi embora.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por maldade, mas por cansa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela levou a filha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ficou com as paredes vazias da casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois vieram o aluguel atrasado, a mudan\u00e7a for\u00e7ada, o quarto alugado, a perda de outros empregos.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que um dia percebeu algo estranho: n\u00e3o havia mais lugar para voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>A rua n\u00e3o se torna casa de repente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela vai se aproximando devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele cruzamento passavam milhares de pessoas todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Executivos apressados, estudantes com mochilas, vendedores, motoboys, turistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos carregando suas pr\u00f3prias preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Para eles, o homem no poste era apenas parte da paisagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Como uma placa enferrujada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou uma rachadura no asfalto.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade possui essa estranha habilidade de tornar certas pessoas invis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o porque elas desapareceram.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas porque ningu\u00e9m quer realmente olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto dormia encostado no sem\u00e1foro, o homem sonhava.<\/p>\n\n\n\n<p>No sonho ele estava sentado no quintal de sua antiga casa. A filha corria pelo gramado segurando um desenho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha, pai! \u2014 dizia ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um p\u00e1ssaro enorme, colorido, voando acima de uma cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ria.<\/p>\n\n\n\n<p>No sonho o c\u00e9u estava limpo e o mundo parecia simples.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o uma buzina alta explodiu no cruzamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele abriu os olhos lentamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Por alguns segundos, n\u00e3o sabia onde estava.<\/p>\n\n\n\n<p>O sem\u00e1foro estava vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Carros formavam uma fila longa diante dele.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem se levantou devagar, ainda meio sonolento, e caminhou entre os ve\u00edculos.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns motoristas desviaram o olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros fingiram mexer no celular.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma crian\u00e7a no banco de tr\u00e1s de um carro perguntou \u00e0 m\u00e3e:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Por que aquele homem mora na rua?<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e demorou alguns segundos para responder.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c0s vezes\u2026 a vida fica dif\u00edcil para algumas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O sinal ficou verde.<\/p>\n\n\n\n<p>Os carros partiram novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem voltou a encostar no poste.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou-se no mesmo lugar de antes.<\/p>\n\n\n\n<p>O sem\u00e1foro continuava mudando de cor, obediente \u00e0 l\u00f3gica da cidade: vermelho, amarelo, verde.<\/p>\n\n\n\n<p>Parar.<\/p>\n\n\n\n<p>Esperar.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas para ele o tempo parecia diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele apoiou a cabe\u00e7a no metal e fechou os olhos outra vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez estivesse cansado.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez estivesse apenas tentando sonhar novamente com aquele p\u00e1ssaro desenhado pela filha.<\/p>\n\n\n\n<p>E enquanto a cidade corria para todos os lados, o homem encostado no sem\u00e1foro dormia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o porque quisesse fugir da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas porque, naquele momento, o sono era o \u00fanico lugar onde ela ainda fazia sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>O vento da tarde cortava como l\u00e2mina de navalha. O homem puxou a camisa velha mais para cima, tentando proteger o peito do frio, mas ela n\u00e3o fazia diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Cada rajada de vento parecia atravessar a alma, lembrando-lhe que a cidade jamais se preocupava com quem n\u00e3o tinha endere\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns passantes o olhavam de relance, curiosos, mas rapidamente desviavam o olhar. Ele conhecia bem esse ritual silencioso: ningu\u00e9m quer ser lembrado de que a mis\u00e9ria existe, e ele era apenas um espelho desconfort\u00e1vel de uma verdade que todos fingiam n\u00e3o ver.<\/p>\n\n\n\n<p>A fome apertava. O est\u00f4mago reclamava, mas ele ainda guardava um pouco de dignidade \u2014 aquele pouco que resistia aos dias sem comida, \u00e0 falta de ch\u00e3o, ao desprezo alheio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dignidade, talvez, fosse a \u00fanica coisa que a cidade ainda n\u00e3o conseguira roubar.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem voltou acordar. Olhou para os dois, tentando sorrir, mas seu rosto marcado pela rua n\u00e3o conseguia disfar\u00e7ar a dor.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Por um instante, ele desejou que a menina pudesse entender o que significava perder tudo e ainda ter que existir entre sinais vermelhos e verdes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, como quem toma coragem pela \u00faltima vez, ele se levantou. N\u00e3o para pedir esmola. N\u00e3o para limpar para-brisas. Mas para atravessar o cruzamento e desaparecer nas vielas atr\u00e1s da avenida.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto caminhava, lembrava-se de cada porta fechada, cada olhar desviado, cada noite em que precisou dormir ao relento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E sentiu, finalmente, uma raiva silenciosa crescer dentro dele \u2014 n\u00e3o contra a cidade, nem contra os outros, mas contra si mesmo por aceitar, por tanto tempo, o papel que a vida lhe deu sem lutar por mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas horas depois, o sem\u00e1foro ainda estava l\u00e1, firme, indiferente ao mundo. O cruzamento continuava com seu movimento mec\u00e2nico: parar, esperar, seguir. Mas algo mudara.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os motoristas, nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a cidade, nada. Mas para ele, tudo. Ele sentia que a rua, aquela que antes parecia sufoc\u00e1-lo, agora era apenas um campo de batalha \u2014 o campo onde ele finalmente podia lutar contra suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es, contra sua pr\u00f3pria vaidade de se fazer invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A noite caiu, e a cidade se iluminou com l\u00e2mpadas artificiais. Ele parou em um canto, observando as luzes refletirem nas po\u00e7as de chuva. Sentiu medo, frio, fome\u2026 mas tamb\u00e9m uma centelha de vida que n\u00e3o havia sentido h\u00e1 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>O sem\u00e1foro, vermelho, continuava l\u00e1, mas ele n\u00e3o precisava mais esperar. Ele n\u00e3o era mais apenas o homem encostado dormindo. Ele era algu\u00e9m que havia decidido&nbsp; voltar existir apesar de tudo, mesmo sem endere\u00e7o, sem conforto, sem aplausos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, alguns passantes notaram um bilhete preso ao poste do sem\u00e1foro. Escrito com tinta borrada, dizia apenas:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Acordei. Finalmente. Agora sou meu pr\u00f3prio sem\u00e1foro: vermelho, amarelo, verde\u2026 e sigo quando quiser.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m parou para ler. Mas talvez n\u00e3o importasse. Ele havia desaparecido das ruas, sim, mas n\u00e3o da sua pr\u00f3pria vida. Pela primeira vez, o homem se recusava a ser apenas parte da paisagem.<\/p>\n\n\n\n<p>E enquanto a cidade continuava sua rotina mec\u00e2nica, com buzinas e pressa, ele caminhava para longe, com passos lentos, determinados e furiosos, decidido a lutar contra tudo o que o reduziu \u00e0 invisibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O sem\u00e1foro continuava ali, parado, mas ele sabia que ningu\u00e9m, nem a cidade inteira, poderia mais controlar o ritmo do seu tempo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><br>Clayton Alexandre Zocarato<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-electric-grass-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100092188444999&amp;locale=pt_BR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-electric-grass-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/wa.me\/17992491192\" title=\"WhatsAPP\">WhatsAPP<\/a><\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/\" title=\"Voltar\">Voltar<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/JCulturalrol\/\" title=\"Facebook\">Facebook<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No cruzamento barulhento da cidade, entre buzinas e pressa, havia um homem encostado no poste do sem\u00e1foro, dormindo como quem tinha desistido de disputar&#8230; <\/p>\n","protected":false},"author":58,"featured_media":78973,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[9607,9285],"tags":[16348],"class_list":["post-78972","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contos","category-literatura","tag-cruzamento-de-uma-cidade"],"aioseo_notices":[],"views":233,"jetpack_featured_media_url":"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/0eee9169-92d1-4a26-8db1-bbdf5da04ec5.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":70710,"url":"http:\/\/jornalrol.com.br\/?p=70710","url_meta":{"origin":78972,"position":0},"title":"Amenizando","author":"Clayton Alexandre Zocarato","date":"12 de novembro de 2024","format":false,"excerpt":"Ao dormir, vou sentir o elixir do seu partir. 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