Violência contra a mulher

Renata Barcellos

‘Entrevista com Vania Zanelli sobre violência contra a mulher’

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Vania Zanelli
Vania Zanelli

Minicurrículo: psicóloga clínica, com atuação voltada à escuta do sofrimento psíquico e das dinâmicas relacionais. Trabalha com mulheres em diferentes fases do ciclo de vida, especialmente nos atravessamentos ligados a vínculos, violência simbólica e violência explícita. É comprometida com a promoção da autonomia psíquica e do empoderamento feminino, considerando o contexto histórico e respeitando a linguagem e a singularidade de cada subjetividade – CRP 06/115038.

Entrevista

1. Como surgiu seu interesse pela temática da violência contra a mulher?

Vania Zanelli: Na infância, havia uma casa vizinha a minha de onde, por vezes, vinham barulhos que me intrigavam e me inquietavam. Eu me perguntava quem morava ali. Até que descobri que era uma família e que havia uma menina da minha idade. Na época, eu tinha cerca de seis anos e morava em Campinas, interior de São Paulo. A curiosidade infantil me levou a pedir para brincar com aquela menina e minha mãe articulou a possibilidade de nosso primeiro encontro, com a mãe dela.

A menina vinha brincar comigo, pulando o muro, no horário que o pai estava trabalhando, para que ele não soubesse. Isso sempre me intrigou profundamente. Sobretudo, os gritos quando ela apanhava do pai, o silêncio quase absoluto enquanto brincávamos, poucas palavras, os aparentes hematomas, nenhum sorriso e um olhar triste e distante. A mãe da menina, sempre com medo, permitia que a filha fosse brincar comigo, mas a buscava antes do horário do marido voltar do trabalho, agradecendo a minha mãe, mas deixando sempre transparente seu receio do marido descobrir, como se ela estivesse fazendo algo proibido ou errado.

Essa lembrança me acompanha até hoje, embora seja apenas uma entre tantas outras cenas de violência contra o feminino que presenciei ao longo da vida. No olhar de criança, a elaboração dos fatos não acontece como no olhar de um adulto, contudo, supõe-se que haverá o impacto psíquico dessas lembranças acumuladas, se inscrevendo. Mesmo sem compreender plenamente na época, essa experiência marcou de forma silenciosa meu interesse pelo tema da violência e pelo sofrimento psíquico que se instala quando o medo passa a organizar a vida das mulheres.

2. Em um mundo tão tecnológico, com acesso a tantas informações, como os casos só aumentam e são cada vez mais cruéis?

Vania Zanelli: Muitas vezes me pergunto se os casos estão apenas aumentando ou se estão ganhando mais visibilidade. A violência contra a mulher, tanto simbólica quanto física, não é um fenômeno do tempo atual. Trata-se de uma construção histórica que atravessa gerações e que, por muito tempo, foi naturalizada e silenciada.

Constata-se que a tecnologia vem possibilitando progressivamente a ampliação ao acesso à informação e à denúncia, mas não transforma, por si só, as bases culturais que sustentam a violência. Vivemos em uma sociedade que historicamente objetificou o feminino, reduzindo-o a algo frágil e controlável, como existisse para servir ao masculino. Nesse contexto, a informação circula, mas a elaboração psíquica e a transformação das relações de poder avançam de forma muito mais lenta.

3. A que fatores pode-se atribuir a violência contra a mulher?

Vania Zanelli:  A violência contra a mulher não pode ser explicada por um único fator, pois ela é multifatorial. Ela é o resultado de uma combinação de fatores sociais, culturais e emocionais que se repetem e perpetuam, ao longo da história. Por muito tempo, o feminino foi ensinado a ocupar um lugar de submissão, enquanto o masculino foi associado ao poder e ao controle. Essa lógica ainda atravessa muitas relações contemporâneas.

Um dos pontos centrais nesse processo é a forma como o feminino foi historicamente objetivado. Objetivar o feminino significa deixar de enxergar a mulher como um ser humano, com pensamento, afeto e autonomia, passando a tratá-la como algo que existe para atender as expectativas do masculino. Quando uma pessoa é vista como objeto, sua existência é desconsiderada, sua dor é minimizada e sua voz é desacreditada.

Na clínica, é comum ouvir relatos de mulheres que foram desqualificadas, chamadas de exageradas ou loucas, entre outras palavras violentas, até que conseguissem comprovar que aquilo que percebiam no seu dia a dia estava, de fato, no campo da realidade, como em situações de traição ou manipulação emocional por parte do companheiro. Muitas vezes, a violência começa de forma silenciosa, por meio de humilhações, controle emocional e desqualificações constantes, antes de se tornar física. Em alguns casos, essa escalada chega a desfechos extremos. Os dados sobre feminicídio no Brasil revelam uma realidade alarmante e confrontam nossa própria condição humana de existir perante tais absurdos.

4. De qual forma isto pode ser combatido?

Vania Zanelli: O enfrentamento da violência contra a mulher exige ações em diferentes níveis. Políticas públicas eficazes, redes de proteção fortalecidas e responsabilização legal dos feminicídios são fundamentais. Ainda assim, é indispensável cuidar das mulheres que sofrem violência e, ao mesmo tempo, questionar os modelos de masculinidade que sustentam comportamentos violentos.

Nomear a violência, reconhecê-la, responsabilizar e romper com o silêncio são movimentos essenciais. Percebe-se impacto positivo no uso consciente das redes sociais, onde grupos de mulheres têm se organizado para manifestarem o que antes era silenciado, fortalecendo-se coletivamente e ampliando repertórios para enfim se desvencilharem do cativeiro emocional imposto por muitos agressores.

Conscientizar o masculino para romper com padrões cruéis, aprendidos ao longo do tempo, também é central. A educação das crianças ocupa um lugar decisivo nesse processo. Criar meninas com direito à fala, ao amor-próprio e ao respeito e meninos com espaço para reconhecer seus sentimentos e respeitar a existência do feminino, é um caminho em construção, que exige tempo, cuidado e compromisso. Sou defensora do diálogo como instrumento fundamental de conscientização, educação e transformação.

5. Mensagem às mulheres

Vania Zanelli: Nenhuma forma de violência é pequena ou justificável. Reconhecer isso é romper com o que foi naturalizado, é retirar o véu do que foi ensinado como certo, durante longos anos de nossa história. Aquilo que machuca, diminui, confunde ou silencia não é cuidado, não é amor, não é vínculo. É agressão.

Toda mulher tem o direito de existir sem medo, de sustentar sua voz, de construir relações que não adoeçam e de ocupar seu lugar no mundo com dignidade, inteireza e liberdade.

Renata Barcellos

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