Ella Dominici: ‘Díptico [1] poético da Alma Ferida’


Aos judeus do século XIX Dreyfusards [2] (em ressonância com Yehuda Amichai [3])
Onde a certeza endurece a terra…
Onde a certeza endurece a terra,
nada consente em nascer.
Ali a justiça caminha sem hesitar,
com os olhos fechados à voz humana.
A verdade não ama o solo rígido.
Prefere a terra revolvida
pelas perguntas,
pelas mãos que tremem
antes de condenar.
É no intervalo da dúvida
que o ser humano ainda respira.
E somente ali
algo de justo
ousa permanecer humano.
(em ressonância com Nelly Sachs [4])
Da dor das acusações injustas
As cinzas não desaparecem.
Permanecem suspensas
na memória do mundo.
Dessa poeira ardente
nasce uma vigília silenciosa —
não para acusar os mortos,
mas para impedir que o esquecimento
se torne cúmplice.
A dor não é um peso,
é uma chama frágil
confiada aos vivos.
Algumas perdas exigem fidelidade.
E algumas almas
só encontram repouso
quando a memória
aprende a cuidar
dos que virão
Ella Dominici
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