Díptico poético da alma ferida
Ella Dominici: ‘Díptico poético da Alma Ferida’


Aos judeus do século XIX Dreyfusards (em ressonância com Yehuda Amichai)
Onde a certeza endurece a terra…
Onde a certeza endurece a terra,
nada consente em nascer.
Ali a justiça caminha sem hesitar,
com os olhos fechados à voz humana.
A verdade não ama o solo rígido.
Prefere a terra revolvida
pelas perguntas,
pelas mãos que tremem
antes de condenar.
É no intervalo da dúvida
que o ser humano ainda respira.
E somente ali
algo de justo
ousa permanecer humano.
(em ressonância com Nelly Sachs)
Da dor das acusações injustas
As cinzas não desaparecem.
Permanecem suspensas
na memória do mundo.
Dessa poeira ardente
nasce uma vigília silenciosa —
não para acusar os mortos,
mas para impedir que o esquecimento
se torne cúmplice.
A dor não é um peso,
é uma chama frágil
confiada aos vivos.
Algumas perdas exigem fidelidade.
E algumas almas
só encontram repouso
quando a memória
aprende a cuidar
dos que virão