Paulo Siuves: Conto ‘O Preço da Liberdade’

Nem toda história nasce de uma ideia que insiste enquanto estamos deitados, olhando o teto. Algumas chegam de fora, quase por engano, e ficam. Este conto veio assim. Eu o encontrei já contado, mas malcuidado, atravessado pela pressa. Havia algo ali que me incomodou — e não era a história, era a forma. Então fiz o que pude: fiquei com o que pulsava e deixei o resto cair. Não sei dizer se o reescrevi ou se apenas o acompanhei até um lugar mais silencioso. Sei apenas que, ao final, ele já não me parecia novo — parecia antigo. E talvez por isso tenha ficado.
Vamos ao conto.
Um sultão ouviu dizer que havia, no mercado, uma escrava cujo preço excedia o de cem outras. Intrigado, mandou chamar o mercador responsável pela venda.
— Por que pedes tanto por uma só mulher? — perguntou. — Que qualidade justificaria tal valor?
O mercador respondeu com cuidado, escolhendo as palavras:
— Majestade, dizem que essa mulher carrega algo raro. Pensa antes de falar e fala apenas quando é necessário. Há quem diga que, ao ouvi-la, se aprende mais do que se espera.
O sultão permaneceu em silêncio por um instante.
— Traga-a — ordenou.
Quando a escrava entrou no salão, manteve o olhar baixo apenas o suficiente para cumprir o protocolo. Parou diante dele com uma dignidade incomum àquele lugar. Não havia pressa em seus gestos, nem temor visível em seu corpo.
O sultão observou-a longamente.
— Dizem que há em ti algo que não se mede com moedas — disse. — Veremos.
Fez então a proposta:
— Far-te-ei uma pergunta. Se responderes de modo que me convença, conceder-te-ei a liberdade. Caso contrário, morrerás.
Diz-me: qual é a roupa mais bonita, o perfume mais agradável, a comida mais deliciosa, a cama mais macia e o país mais bonito?
Ela permaneceu em silêncio por um instante. Não era hesitação. Era cuidado.
Depois, respondeu:
— A roupa mais bonita — disse — é aquela que preserva a dignidade de quem a veste. É como a honestidade: não se rasga, não envelhece e sempre enfeita quem se cobre com ela.
Pausou. Olhou para o sultão com firmeza e continuou:
— O perfume mais agradável é o que não anuncia quem chega, mas permanece depois que a pessoa se vai. É como o perdão, que espalha suavidade até mesmo entre inimigos.
Ela pousou a mão sobre o estômago, respirou fundo e prosseguiu:
— A comida mais deliciosa é a que se reparte, porque o sabor cresce quando há outro à mesa. Assim é a sabedoria: alimenta a alma e jamais se esgota.
Abrandou o tom da voz.
— A cama mais macia é aquela onde se dorme com a consciência em paz. Nela, o sono vem sem ser chamado e não há sobressaltos durante a noite.
Por fim, ergueu os ombros e, com o olhar firme, concluiu:
— E o país mais bonito é aquele onde um ser humano não é comprado nem vendido, onde ninguém teme dizer a verdade.
O sultão não respondeu de imediato.
— Pedi coisas que costumam ser escolhidas — disse por fim. — E tu me falaste de estados que não se escolhem com facilidade.
Levantou-se. Caminhou pelo salão. As sedas acompanhavam seus passos, e os anéis pesavam nos dedos.
— Tenho roupas raras.
Perfumes trazidos de longe.
Mesas sempre servidas.
Leitos onde o corpo descansa.
Parou diante dela.
— Ainda assim, não sei onde repousa o que mais me escapa.
Fez um gesto breve. Os guardas soltaram os grilhões.
— Vai.
A escrava inclinou levemente a cabeça e partiu. O sultão permaneceu ali, cercado de ouro, sedas e poder.
Tudo continuava em seu lugar. Ainda assim, sentiu que algo se deslocara — não nos mapas, nem nos cofres, mas em um ponto impreciso onde costumava repousar a certeza.
Paulo Siuves
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