Bruno Marquês Areno: Conto ‘A batalha’


O cheiro do lixo misturava-se com o da roupa húmida, do peixe podre e da lenha mal queimada, um caldo de miséria que o ar se recusava a dispersar, talvez por pena, talvez por costume, e o bairro inteiro respirava aquilo como quem já não sabe distinguir o que é fora e o que é dentro, porque há muito o ar das pessoas se parece com o ar das ruas.
As moscas faziam carreira entre os sacos plásticos rasgados, pousavam no tomate esmagado, na xima fria, na pele dos que dormem de barriga vazia, e voltavam a voar, incansáveis, como se também tivessem fome e destino.
O chão, esse, era barro vermelho, cacos, e cada passo nu deixava atrás de si um rasto de lama e sobrevivência, que é o mesmo que dizer: vida teimosa.
Mano Gito, doze anos contados com má vontade do tempo, parecia ter oito, e talvez fosse o tempo, mais do que a fome, quem o roía por dentro. Era só osso e olho, o peito seco de quem já chorou tanto que desaprendeu o gesto, e no estômago, um batuque fundo, que não era fome, era protesto, era grito que não encontrou boca.
Na mão levava um naco de pão duro, herança da generosidade involuntária da padaria do tio Balta, onde os miúdos aprendem cedo que a esperança é paciente, mas não eterna.
Levou o pão à boca com olhos de quem rouba o próprio destino, rápido, quase pedindo desculpa, como se o mundo o observasse e esperasse o momento certo para lhe tirar o pouco que tem, e tirou.
Um cão saltou das sombras, e o que dizer dele, senão que era um cão como tantos, sem nome, sem dono, com mais cicatriz do que pelo, com olhos fundos, secos, dois caroços de manga deixados ao sol, e o focinho coberto de terra e baba. Agarrou o pão com a fúria de quem já não acredita em justiça, e o Gito, primeiro espanto, depois raiva, depois lágrimas, gritou o que gritam os que não têm mais nada, um simples não, palavra pequena demais para conter tanta miséria.
Atirou-se ao cão. Rolaram na lama, o cão rosnava, o rapaz empurrava, arranhava, tentava abrir com as mãos pequenas a boca que o destino fechara. O cão lutava, mas não mordeu, e talvez soubesse, nas profundezas da sua fome, que aquele miúdo era mais bicho do que ele.
Então o Gito fez o que ninguém, nem Deus, esperava: mordeu o cão. Sim, cravou os dentes no pescoço do animal, como quem decide ser fera para não morrer homem. Sentiu o pelo, o sangue, o sal e o amargo, e por um instante quis cuspir, mas não cuspiu, porque o que é que se cospe quando o mundo inteiro está dentro da boca? O cão uivou, não apenas de dor, mas de espanto, porque até os animais têm o seu código, e naquele código estava escrito que só os homens mordem com vergonha.
O pão caiu, ficou entre os dois, sujo de lama, a tremer como se tivesse medo de ser escolhido.
O cão recuou, lambeu a ferida e desapareceu, sem ódio, sem ruído, talvez com respeito, talvez com cansaço, e o silêncio que ficou pesava mais do que qualquer fome.
Gito ficou parado, trémulo, os lábios vermelhos, as mãos suspensas, e o pão ali, tão perto e tão distante, porque há coisas que, depois de feitas, já não se tocam. Não sabia se o pão estava sujo demais ou sagrado demais, e talvez fosse as duas coisas, porque naquele instante aprendeu o que ninguém lhe ensinara, que há fomes que nem Deus se atreve a contrariar, e que, às vezes, sobreviver é o pecado mais puro que um homem pode cometer.
Bruno Marquês Areno
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