Zekhalifa Successor
“Escolho o som que traduz o que sinto, mesmo quando nem eu sei explicar. A estética, para mim, também é sobrevivência.” (Zekhalifa Successor)

Zekhalifa Successor é um artista moldado cedo pela vida e pela urgência de dizer. Profissional desde a infância, encontrou na música um espaço de resistência, identidade e verdade. Nesta entrevista com Bruno Areno, ele fala sobre origem, silêncio, ruptura estética e a necessidade de criar sem pedir permissão — não para ser famoso, mas para permanecer inteiro.
Entrevista com Zekhalifa Successor.

Bruno Areno: Zekhalifa, você começou cedo demais para o mundo e cedo demais para o sonho. Aos 7 anos já era profissional. Que parte da sua infância você perdeu e qual parte você transformou em música para não enlouquecer?
ZK: Perdi o tempo despreocupado. Aquele tempo em que a infância corre sem saber que corre. Enquanto outros brincavam, eu já aprendia a cair. A escola não me segurou — não por falta de vontade, mas porque a vida me puxava pelo braço. Então entreguei minha confusão à música. Ela virou o lugar onde minha criança ainda respira sem pedir desculpas.
Bruno Areno: Você vem de Nampula, mas sua música não parece pedir permissão a um lugar específico. Quando você canta, você quer representar sua província ou escapar dela?
ZK: Nem sempre canto para representar um chão. Às vezes canto para alargar o chão. Trago sons que não eram esperados, não para negar minha terra, mas para dizer aos meus conterrâneos que o possível é maior do que o hábito. Inovar também é um gesto de amor.
Bruno Areno: Seu pai e sua mãe estiveram fora do mercado de trabalho formal. Isso te ensinou mais sobre fragilidade ou sobre resistência? Onde essa verdade aparece nas suas letras?
ZK: Aprendi resistência. Aprendi que a vida não pede licença. Ter nascido assim me moldou. Se tivesse vindo de um berço confortável, talvez nunca tivesse aprendido a sonhar com fome, nem a investir em mim mesmo. Minhas letras carregam essa verdade: a de quem aprendeu a ficar de pé sem apoio.
Bruno Areno: R&B, trap-melodic, zouk, afrobeat… você mistura gêneros como quem mistura feridas. Essa fusão é escolha estética ou reflexo de uma identidade ainda em construção?
ZK: É escolha. Escolho não caber em um só lugar. Escolho o som que traduz o que sinto, mesmo quando nem eu sei explicar. A estética, para mim, também é sobrevivência.
Bruno Areno: Ser parte do grupo Rich Future foi um abrigo ou uma provocação?
ZK: Foi uma aprovação silenciosa. Como um sinal de que eu podia continuar.
Bruno Areno: Você é mais forte no coletivo ou no silêncio solitário do estúdio?
ZK: No silêncio. É ali que eu me escuto. E quando me escuto, viro música.
Bruno Areno: Você se chama Successor. Sucessor de quem?
ZK: Sou sucessor do rap que não teve medo de dizer. Herdeiro da palavra que insiste.
Bruno Areno: Do que exatamente você sente que precisa continuar, e o que você quer romper definitivamente na música moçambicana?
ZK: Preciso continuar porque isso é o que me escolheu. A música é o lugar onde sou inteiro. Quero ser grande, sim — mas grande pelo diferencial, pela verdade. Romper com a repetição vazia. Permanecer onde há alma.
Bruno Areno: Existe uma dor que você ainda não conseguiu cantar? Algo que fica preso na garganta quando o beat começa?
ZK: As dores nunca acabam. Algumas ainda não sabem virar som. Mas quando encontram espaço, eu deixo que falem. Sempre deixo.
Bruno Areno: A fama é uma promessa perigosa. Você quer ser ouvido ou compreendido? E se o mundo ouvir, mas não entender, isso te basta?
ZK: Quero ser ouvido e compreendido. Mas se o mundo ouvir e não entender, eu continuo. Canto mais. Insisto. Até que sintam — mesmo que não saibam explicar.
Bruno Areno: Se amanhã tudo acabasse: shows, streams, aplausos… quem seria Zekhalifa sem a música? Essa resposta te assusta ou te liberta?
ZK: Me liberta. Porque mesmo sem o palco, a música já mora em mim.