Ella Dominici: ‘O voo do poeta e os telúricos’


às 14:49 PM – https://sl.bing.net/7xVpRp1Um4
O homem de espírito voa como quem pensa: não para fugir, mas para sustentar a contemplação. Nas alturas, a dúvida não é falha — é método. Ali, o pensamento se torna tempestade e constelação, e cada ideia parece um lance lançado ao invisível.
Quando desce, encontra os telúricos. Eles vivem no imediato como se fosse verdade absoluta. Diante do poema, fazem do incompreensível um escândalo e do silêncio uma acusação. O caos nasce menos do texto do que do medo: o medo de que exista algo que não se possa reduzir, medir ou pisar.
O homem de espírito é humilhado não por suas fraquezas, mas por suas asas. E o golpe mais cruel não atinge o corpo: atinge o sentido. Até que, por fim, a cena se desfaz. Já não há ave, nem plateia, nem vaia. Resta apenas o lugar — o branco — onde o voo não precisa ser aceito para existir. Ali, o poema permanece: inteiro no indizível.
Ella Dominici
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