Evani Rocha: Conto ‘A Mulher Flor e a psicóloga Olga’


A Mulher Flor abriu e fechou cuidadosamente a porta do consultório. A psicóloga Olga estava sentada à mesa, com um sorriso enorme no rosto. “Parece que dorme e acorda com esse sorriso amarelo”. Pensou a Flor.
Deitou-se no divã pela enésima vez. A psicóloga chegou mais perto, apenas impulsionando sua cadeira de rodízio.
— Bom dia Flor! Hoje você está especialmente linda, de margarida branca!
“Eu sei que ela quer me fazer a pergunta…preciso contornar o assunto”. Pensou a mulher, respondendo em tom irônico:
— Eu já nasci assim!
— Sobre o que você quer falar hoje, Flor?
— Hummm….Talvez sobre o tempo, o trânsito caótico, o preço do feijão…
A psicóloga já estava impaciente. Segurou a respiração para não ser ríspida.
— Florzinha, nós já estamos conversando a várias seções. Eu já sei que tem uma família linda, já sei onde você nasceu, e blá, blá, blá… – Foi citando as coisas que a mulher já havia lhe contado.
— Mas eu não posso mais adiar essa pergunta: por que você se esconde dentro de uma fantasia de flor?
— Que fantasia? Eu sou uma flor! Você acha que eu seria capaz de me esconder?
A psicóloga Olga ficou quieta, apenas balançando levemente a perna esquerda.
A Mulher Flor pensando:
“Não posso dizer para ela que eu nasci feia, muito feia. Eu ouvia quando criança meus coleguinhas rindo de mim…minha mãe também me falava que eu era feia.”
— Você pode confiar em mim, estou aqui para ajudá-la, não para julgar!
— Eu sei…por isso ainda venho aqui! Tenho muitos afazeres, um jardim inteiro para cuidar…
— Que tipo de flores você cultiva?
— Além de margaridas? Ah…girassóis, rosas, primaveras, cactáceas, folhagens…
A psicóloga afirmava positivamente com a cabeça, fingindo acreditar na conversa da mulher. E a mulher pensava, enquanto estava citando nomes de flores aleatoriamente:
“Eu sei que ela não está acreditando, mas imagina eu ter que falar pra ela que fui uma criança rejeitada. Que tive feridas doloridas que nunca saravam, porque ninguém cuidava, parece que eu não existia. Imagina, se vou abrir a minha vida a uma desconhecida!”
— E o que você faz com tantas plantas?
— Eu as cultivo, porque fazem parte da minha família. Cuido bem delas, dou nutrientes, adubo, rego direitinho, então elas ficam sempre floridas!
A psicóloga cruzou as pernas, pôs a mão no queixo. Parece que ela estava começando a entender.
— Você gosta delas floridas?
— É óbvio! As flores são lindas! Não saem do lugar, não fazem bagunça, aceitam ser manipuladas e nunca reclamam…
A psicóloga Olga, montava uma estratégia mentalmente: “Acho que consigo contornar essa situação. Nunca fracassei com nenhum paciente…”
A Mulher Flor olhava pela vidraça, os pingos grossos da chuva que iniciara lá fora, enquanto alisava com cuidado suas pétalas brancas sedosas.
E a psicóloga Olga, continuou:
— Por que você precisa cuidar da sua família?
— Como assim, por quê? Porque eu sou a flor dominante. Eu cresci mais rápido naquele jardim, produzi mais semestres e consigo me locomover com maior facilidade!
— Você cresceu mais que seus irmãos?
— Sim!!!!
— A que você atribui isso, Florzinha?
“Não vou contar a ela que eu usei meus traumas da vida, como suporte e motivação para vencer, não vou detalhar minha trajetória de vida. Talvez eu consiga convencê-la…”
— Ora! Provavelmente eu fui semeada em solo mais fértil, pura sorte!
“Vou fingir que estou acreditando, só para ver onde ela é capaz de chegar…” – pensava a psicóloga.
— Seus pais devem ter muito orgulho de você, flor. Você é muito generosa…
— Ah, sim! Eles me tratam muito bem. Eu os amo muito!
Florzinha, a sua família parece ser deveras maravilhosa. Eu gostaria muito de conhecê-la!
A Mulher Flor se viu em apuros, pensava:
“Não…não! Ela não pode fazer isso!”
— Vamos fazer uma combinação, Flor?
— Combinação? De que tipo?
— Eu gostaria de conhecer pessoalmente sua família.
A Mulher Flor empalideceu. Suas pétalas ficaram mais brancas que já eram.
Pensou lá com seus botões: “Essa psicóloga pensa que me engana. Eu bem vejo as pontas de suas sépalas e de sua antera, por debaixo desse jaleco branco…”
Respondeu, depois de uma longa pausa:
— Eu posso trazê-los aqui, se a senhora quiser, na próxima seção. Mas já vou lhe adiantando, minha família é grande, tem gente de todas os tipos e cores…ah! E possuem o péssimo hábito de descobrir segredos alheios!”
A psicóloga Olga ajeitou os óculos sobre o nariz, puxou a manga do jaleco e dissimulou.
— Ora, ora, Florzinha! Isso não é defeito, é qualidade! Gosto mesmo de pessoas sagazes e curiosas…
A chuva cessou e a consulta também. A psicóloga agendou o encontro com a família da paciente para a semana seguinte. No fundo, ficou com um frio na barriga. Mas tinha a convicção de que estava fazendo a coisa certa. E quanto ao comentário da mulher? Chegou à conclusão que bastava se proteger bem com um jaleco comprido e folgado. Assim, eles não notariam nada.
A Mulher Flor saiu do consultório com um sorriso sarcástico, de canto de boca. Atravessou a faixa de pedestre e seguiu pela avenida Quinze, a passos largos. No caminho ia matutando: “Vou levar todos eles! Só quero ver a cara da Doutora Olga…”
No dia combinado, a psicóloga estava bem agasalhada, sentada em sua cadeira de rodízio, atrás da mesa. Batia repetidamente a caneta sobre a folha em branco e pensava: “Hoje ela vai ter que falar a verdade…Ah, se vai!”
De repente, a secretária entrou na sala, com cara de susto, e avisou: — A Mulher Flor está aí. Ela não veio sozinha…”
A psicóloga Olga interrompeu-a com um tom de impaciência.
— Sim, sim! Pode mandar entrar!
— Mas senhora… – Tentou explicar a secretária, porém a psicóloga acenava com nervosismo, pedindo urgência.
A secretaria saiu desapontada e chamou:
— Mulher Flor, já podem entrar! – Disse escancarando a porta do consultório. Então, entrou primeiramente o pai, um girassol alto, já um tanto desbotado e corcunda. Depois a mãe – uma senhora margarida vermelha, com suas pétalas sedosas, mas com pouco brilho e vigor. Em seguida vieram os seis irmãos: um cacto espinhudo e muito verde, uma orquídea recém-aberta, era ainda uma mocinha. Atrás dela, se escondia meio tímido um cravinho amarelo-ouro, adolescente, devia ter uns treze ou quatorze anos, e mais três crianças pequenas: Uma rosinha branca, uma margaridinha amarela e um hibisco vermelho. Estes eram protegidos pela Mulher Flor, que estava elegantíssima, de Amarílis.
— Bom dia! – Disseram todos, em forma de coro. A Mulher Flor estava fora, tendo em vista que o resto da família se espremia dentro do consultório. Mas de onde estava, percebeu o desapontamento no rosto da psicóloga Olga.
Pensou: “ué! Cadê o sorriso amarelo que sempre me recebe?”
A psicóloga Olga olhava um por um, dos membros da família. Foi sentindo uma tonteira, suas vistas escureceram, então, caiu desmaiada no seu próprio divã.
Depois de meia hora, foi despertando languidamente, sentindo um cheiro de álcool que exalava de seus pistilos. Viu-se nua. Passou as mãos sobre o corpo à procura do seu jaleco, mas sentiu apenas suas pétalas amassadas e doloridas. Olhou em volta e deu de cara com os olhos grandes daquela Mulher Flor, e de todos os seus parentes, a julgá-la. Quando tentou balbuciar algo, ouviu novamente aquele conjunto de vozes, em coro. Falavam alto e gesticulavam para ela:
— E então, poderá nos dizer por que você se esconde dentro de uma fantasia de psicóloga?
Evani Rocha
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