Tempo regressivo?
Milton Gaspar Domingos: Conto ‘Tempo regressivo?’


Estavam todos sentados à mesa, depois do jantar. Como de costume, Clemente, o pai, pergunta sobre como foi o dia da família.
Na sala, o ambiente, que sabia a leite, chocolate e muamba, acrescentou-se o sabor de ansiedade e de um aflitivo desejo que consumia a cada um dos presentes. Mas saiu na liderança de eclodir as suas inquietudes Mirosman. Desde que ouvira de sua professora que antes de Cristo a contagem do tempo era regressiva, o menino não parava de cogitar sobre o assunto.
– Sabe, papá, hoje na escola, a nossa professora nos disse que antigamente se contava o tempo de forma regressiva. Mas isso me deixou confuso. Como assim, o tempo regredia, papá?
O pai balançou afirmativamente a cabeça, com um ar de orgulho pelo profundo questionamento do filho de oito anos. E, olhou para Umblina, como quem lhe quer passar a bola.
Umblina consentiu e, olhando para o filho, comentou:
– Vejo que tem estado muito atento! Mas me diz uma coisa, Miros, de que que estavam a falar, para a professora dizer isso? – quis saber a mãe.
– É assim, mamã: estávamos a falar do Estudo do Meio; e aí, a professora disse que as embondeiras são árvores muito, muito antigas e que demoram muitos anos para morrerem. Aí, eu perguntei: “Quanto tempo um embondeiro pode viver?’ Ela disse que alguns dos embondeiros, que existem hoje, têm mais de 2000 anos. E aí, perguntei: “Como assim, professora, se nós só estamos em 2026?’ E a professora disse que antes de se começar a contar o tempo a partir do ano 1, a contagem do tempo era feita de forma regressiva e que antes do ano 1 já se havia passado muitos anos.
Enquanto o rapaz contava o que havia acontecido, o pai enchia-se de espanto pela destreza com que Mirosman narrava o evento.
Umblina, porém, procurava meios de rever o enigma que confundia o garoto. “Entendo… você se lembra, Miros, do rio Kwanza, onde a gente ia nas férias?”
– Sim, me lembro bem, mamã.
– Na sua opinião, é possível que as águas daquele rio voltem para trás?
– É isso mesmo, mamãe. Assim como as águas do rio não voltam para trás, o tempo também não volta para trás. Mas, então como é antigamente as pessoas contavam o tempo para trás, começaram a contagem a partir de que ano?
– Muito bem, Miros. Já sabemos que não é possível que o tempo volte para trás. Agora, precisamos de saber o que é que a Professora quis dizer quando disse que antes de Cristo a contagem do tempo era regressiva, certo?
– Está bem, mamã.
Clemente aproveitou a oportunidade e limpou a garganta com 3 leves tussidelas e disse:
– Antigamente, as pessoas não viam grande interesse em contar o tempo da maneira como o contamos hoje. Por isso, era comum os historiadores olharem para um evento importante da época e contarem o tempo a partir daquele evento. Por exemplo, no 1º ano do rei Artaxerxes ou no 5º ano do X. E, se outro rei começasse a reinar no mesmo reino, seria a mesma coisa. Ou seja, a contagem começaria no 1º ano do rei seguinte. O mesmo acontecia em relação a eventos como guerras, conquistas ou queda de uma nação…
– Mas, papá, isso não quer dizer que o tempo regredia!?
– Certamente! Confirmou a mãe. “E como acha que os historiadores da nossa época nos ajudarão a entender o tempo lógico daqueles acontecimentos? Faria sentido que eles também continuassem a contar o tempo do mesmo modo que os da antiguidade?”
– Não! Assim não saberíamos em que ano exatamente um evento ocorreu. Mas como é que se chegou a conclusão de certas datas, mamãe?”
– Um evento muito importante deu aos historiadores a base para se determinar, tanto as datas do lado dos antigos quanto as do nosso lado. Sabes que evento é esse, Miros? – interrogou o pai.
– Sim, já consigo perceber, pai: a existência de Jesus Cristo teve um grande impacto em muitas sociedades. Por isso, para a contagem do tempo, os historiadores levam em conta o antes e o depois de Cristo.
– Isso mesmo, Mirosman! Embora, hoje por hoje, já se fala em Antes da Era Comum, – AEC e Nossa Era, – EC. – Adicionou a mãe.
– Então trata-se apenas de um método que usamos hoje, para determinarmos quando exatamente um acontecimento antes de Cristo ocorreu. E que o tempo seguia a sua ordem normalmente.
Clemente e Umblina entreolharam-se, mostrando-se circunspetamente contentes face às questões e ao entendimento do pequenino. O pai abraçou o menino e acariciou-o na cabeça, demonstrando a sua aprovação. A mãe, porém, olhou para o filho mais velho e colocou-lhe a mesma questão: “E quanto a si, Agael, como é que foi o seu dia?”
Milton Gaspar Domingos
Sobre o autor

Milton Gaspar Domingos (Decano), natural da província de Malanje (Angola) e residente no município do Quéssua, é Professor de Língua Portuguesa e de Literatura), no Liceu nº 314 – 4 de Janeiro.
Mestrando em Educação pela Universidade Europeia do Atlântico (UNEATLÂNTICO) e Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Portuguesa pela Faculdade de Humanidades da Universidade António Agostinho Neto (FHUAN).
Autor de artigos disponíveis na internet e investigador na área de Língua, Literatura.