Clayton Alexandre Zocarato: ‘O país em estado de espera’


O país acorda com o mesmo barulho de ontem com um rangido metálico
como portão de escola pública sem óleo abrindo para ninguém
o sol bate nas fachadas descascadas e não ilumina e sim
denuncia…
O Brasil não amanhece, ele insiste arrasta o corpo para fora da noite
como trabalhador exausto que já nasce devendo
tempo
vida
pulmão
As ruas são longos corredores de hospital onde não há médicos suficientes
mas há diagnósticos em excesso todos sabem o que dói
ninguém trata, a dor virou política pública, a ferida virou orçamento
o sangue escorre em parcelas…
O pobre aprende cedo a linguagem do atraso a sintaxe da fila
o verbo esperar conjugado no estômago enquanto o Estado fala em gráficos
como quem descreve o clima, sem sair do gabinete, sem pisar na lama
sem ouvir o choro que não cabe em planilha…
As crianças atravessam o dia, com mochilas vazias, não por falta de livros
mas por falta de futuro, aprendem matemática contando balas perdidas
aprendem geografia mapeando territórios do medo,
aprendem história vendo o mesmo erro repetir, como se fosse tradição…
O país gosta de discursos, mas tem alergia a soluções
prefere a estética da promessa, ao trabalho bruto da mudança
prefere o palanque, ao chão, prefere a palavra desenvolvimento
quando ela não precisa desenvolver nada…
O descaso é uma política silenciosa, não faz barulho
não precisa de decreto, ele se instala como mofo
nas paredes das periferias, nos corredores das escolas
nos postos de saúde, onde o remédio é sempre insuficiente
e a desculpa é sempre a mesma…
Há um Brasil que passa de carro blindado
com os vidros fechados, o ar condicionado ligado
e chama isso de normalidade; há outro que atravessa a cidade a pé
carregando o peso de um sistema…
que só funciona para quem não depende dele
O trabalhador é um número que anda
um CPF que respira, um corpo útil enquanto aguenta…
descartável quando adoece, sua força sustenta prédios
que ele nunca vai habitar, sua voz é sempre ruído
quando tenta atravessar o microfone…
A fome não grita, ela corrói
come devagar, come a dignidade, come a infância
come o amanhã, até restar apenas o silêncio
que o governo chama de estabilidade…
O Brasil gosta de se ver no espelho do passado
para justificar o presente, diz que sempre foi assim
como se a injustiça fosse paisagem, como se a desigualdade fosse fenômeno natural
como se a miséria fosse uma característica cultural
Mas nada disso é natural, é projeto
é escolha, é decisão tomada em salas climatizadas
longe do calor que desidrata o corpo, e da falta que desidrata a alma…
A política virou um teatro de sombras, onde as mesmas figuras se revezam
mudam o figurino, não mudam o roteiro
o povo assiste cansado, sem ingresso
sem direito a sair no intervalo…
A corrupção não está apenas nos desvios
ela está no abandono, na escola sem professor
no hospital sem gaze, na estrada que mata mais que o crime
no salário mínimo que não alcança o fim do mês…
O Brasil administra a desigualdade
como quem administra um estoque
mantém sempre um pouco de miséria ativa
para justificar programas, discursos, eleições
a pobreza virou argumento, nunca urgência
A polícia entra onde o Estado nunca entrou
e entra armada, confundindo ausência com inimigo
o jovem negro aprende cedo, que sua existência é suspeita
que seu corpo é prova, que sua morte será estatística
Enquanto isso, os gabinetes discutem sem pressa
o tempo não dói neles, o atraso não os alcança
o futuro já está garantido, em contas bancárias
em sobrenomes, em muros altos
O Brasil fala muito em pátria
mas trata seu povo como excedente
como sobra, como erro de cálculo
há sempre alguém a mais, sempre alguém que pode ser cortado
do orçamento, da história
da vida…
A cultura resiste, como planta que nasce no asfalto
não porque o solo é bom, mas porque desistir não é opção
a arte vira denúncia, a poesia vira laudo
o rap vira boletim de ocorrência
o teatro vira grito…
Mas até a cultura é empurrada para a margem
quando não serve ao marketing, quando não cabe no edital
quando não é domesticada
o país aplaude a diversidade, desde que ela não questione
desde que não exponha
o esqueleto no armário nacional…
O descaso social não é falha
é método, é o motor invisível
que mantém privilégios funcionando
é a engrenagem que transforma sofrimento
em lucro, em poder, em controle…
O Brasil se construiu sobre o adiamento
adiou a abolição, adiou a reforma
adiou a justiça e agora adia o futuro
como quem empurra um corpo cansado
para amanhã…
Mas amanhã não chega para todos
há quem morra hoje
na fila, na bala, na falta
há quem desapareça sem nome
sem investigação
sem memória…
O país segue, grande, contraditório
com seus monumentos de concreto
erguidos sobre alicerces frágeis
chamando desigualdade de desafio
chamando descaso de complexidade
E o povo segue, porque não há escolha
seguindo apesar de tudo, apesar do peso
apesar do abandono, carregando o país nas costas
enquanto ele insiste em não olhar para trás….
Este é o Brasil em estado de espera
espera por justiça, espera por coragem
espera por um projeto que não trate gente como custo
nem pobreza como detalhe
espera por um dia
em que viver não seja um ato de resistência
mas apenas… viver…
Clayton Alexandre Zocarato
‘O PAÍS EM ESTADO DE ESPERA’ – Poema declamado pelo poeta Sergio Diniz da Costa
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