- Jornal Cultural Rol - https://jornalrol.com.br -

O país em estado de espera

Clayton Alexandre Zocarato: ‘O país em estado de espera’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato

Imagem criada por IA ChatGPThttps://chatgpt.com/c/69a64656-28ec-8328-8ede-01c5a8efb22a

O país acorda com o mesmo barulho de ontem  com um rangido metálico

como portão de escola pública sem óleo abrindo para ninguém

o sol bate nas fachadas descascadas e  não ilumina e sim

denuncia…

O Brasil não amanhece, ele insiste arrasta o corpo para fora da noite

como trabalhador exausto que já nasce devendo

tempo

vida

pulmão

As ruas são longos corredores de hospital onde não há médicos suficientes

mas há diagnósticos em excesso todos sabem o que dói

ninguém trata,  a dor virou política pública, a ferida virou orçamento

o sangue escorre em parcelas…

O pobre aprende cedo a linguagem do atraso a sintaxe da fila

o verbo esperar conjugado no estômago enquanto o Estado fala em gráficos

como quem descreve o clima, sem sair do gabinete, sem pisar na lama

sem ouvir o choro que não cabe em planilha…

As crianças atravessam o dia, com mochilas vazias, não por falta de livros

mas por falta de futuro, aprendem matemática contando balas perdidas

aprendem geografia mapeando territórios do medo,

aprendem história vendo o mesmo erro repetir, como se fosse tradição…

O país gosta de discursos, mas tem alergia a soluções

prefere a estética da promessa, ao trabalho bruto da mudança

prefere o palanque, ao chão, prefere a palavra desenvolvimento

quando ela não precisa desenvolver nada…

O descaso é uma política silenciosa, não faz barulho

não precisa de decreto, ele se instala como mofo

nas paredes das periferias, nos corredores das escolas

nos postos de saúde, onde o remédio é sempre insuficiente

e a desculpa é sempre a mesma…

Há um Brasil que passa de carro blindado

com os vidros fechados, o ar condicionado ligado

e chama isso de normalidade; há outro que atravessa a cidade a pé

carregando o peso de um sistema…

que só funciona para quem não depende dele

O trabalhador é um número que anda

um CPF que respira, um corpo útil enquanto aguenta…

descartável quando adoece, sua força sustenta prédios

que ele nunca vai habitar, sua voz é sempre ruído

quando tenta atravessar o microfone…

A fome não grita, ela corrói

come devagar, come a dignidade, come a infância

come o amanhã, até restar apenas o silêncio

que o governo chama de estabilidade…

O Brasil gosta de se ver no espelho do passado

para justificar o presente, diz que sempre foi assim

como se a injustiça fosse paisagem, como se a desigualdade fosse fenômeno natural

como se a miséria fosse uma característica cultural

Mas nada disso é natural, é projeto

é escolha, é decisão tomada em salas climatizadas

longe do calor que desidrata o corpo, e da falta que desidrata a alma…

A política virou um teatro de sombras, onde as mesmas figuras se revezam

mudam o figurino, não mudam o roteiro

o povo assiste cansado, sem ingresso

sem direito a sair no intervalo…

A corrupção não está apenas nos desvios

ela está no abandono, na escola sem professor

no hospital sem gaze, na estrada que mata mais que o crime

no salário mínimo que não alcança o fim do mês…

O Brasil administra a desigualdade

como quem administra um estoque

mantém sempre um pouco de miséria ativa

para justificar programas, discursos, eleições

a pobreza virou argumento, nunca urgência

A polícia entra onde o Estado nunca entrou

e entra armada, confundindo ausência com inimigo

o jovem negro aprende cedo, que sua existência é suspeita

que seu corpo é prova, que sua morte será estatística

Enquanto isso, os gabinetes discutem sem pressa

o tempo não dói neles, o atraso não os alcança

o futuro já está garantido, em contas bancárias

em sobrenomes, em muros altos

O Brasil fala muito em pátria

mas trata seu povo como excedente

como sobra, como erro de cálculo

há sempre alguém a mais, sempre alguém que pode ser cortado

do orçamento, da história

da vida…

A cultura resiste, como planta que nasce no asfalto

não porque o solo é bom, mas porque desistir não é opção

a arte vira denúncia, a poesia vira laudo

o rap vira boletim de ocorrência

o teatro vira grito…

Mas até a cultura é empurrada para a margem

quando não serve ao marketing, quando não cabe no edital

quando não é domesticada

o país aplaude a diversidade, desde que ela não questione

desde que não exponha

o esqueleto no armário nacional…

O descaso social não é falha

é método, é o motor invisível

que mantém privilégios funcionando

é a engrenagem que transforma sofrimento

em lucro, em poder, em controle…

O Brasil se construiu sobre o adiamento

adiou a abolição, adiou a reforma

adiou a justiça e agora adia o futuro

como quem empurra um corpo cansado

para amanhã…

Mas amanhã não chega para todos

há quem morra hoje

na fila, na bala, na falta

há quem desapareça sem nome

sem investigação

sem memória…

O país segue, grande, contraditório

com seus monumentos de concreto

erguidos sobre alicerces frágeis

chamando desigualdade de desafio

chamando descaso de complexidade

E o povo segue, porque não há escolha

seguindo apesar de tudo, apesar do peso

apesar do abandono, carregando o país nas costas

enquanto ele insiste em não olhar para trás….

Este é o Brasil em estado de espera

espera por justiça, espera por coragem

espera por um projeto que não trate gente como custo

nem pobreza como detalhe

espera por um dia

em que viver não seja um ato de resistência

mas apenas… viver…

Clayton Alexandre Zocarato

WhatsApp [1]

Facebook [2]

‘O PAÍS EM ESTADO DE ESPERA’ – Poema declamado pelo poeta Sergio Diniz da Costa

Voltar [3]

Facebook [4]