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Depois da quinta

Ramos António Amine: Crônica ‘Depois da quinta’

Ramos António Amine
Ramos António Amine

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Depois da quinta, as desculpas tornam-se inúteis. A culpa deixa de ser abstrata: tem culpados, e a responsabilidade pesa, inteira, sobre os ímpios. Descobre-se então que a vergonha que nos cobre os rostos não nasceu de nós, mas foi cuidadosamente construída por aqueles que, ao longo do tempo, sobreviveram do silêncio cúmplice. O silêncio, afinal, sempre falou mais alto do que a voz dos ímpios.

Os neutros, que se diziam isentos, sem perceber que todos sabiam que sempre estiveram ao lado das forças invisíveis,  farejam agora o mesmo odor da injustiça que durante anos defenderam ou toleraram.

Os indiferentes apressarão por dizer que sempre souberam que a quinta iria ruir. São esses os verdadeiros hipócritas: não os que erraram, mas os que assistiram em silêncio e deixaram que outros errassem. Durante anos acomodaram-se na confortável ilusão da neutralidade, como se a distância moral os absolvesse daquilo que viam acontecer diante dos seus olhos.

Diferentes foram aqueles que sentiram o chão tremer quando ainda havia muros, os que ousaram questionar o calor infernal do poder instalado na quinta. A esses cabe agora uma tarefa mais difícil: desfazer-se da chave que manteve a porta da quinta fechada. Porque, depois da quinta, existe sempre o risco de se construir outra: com novos nomes e os mesmos gestos.

Depois da quinta, o silêncio já não é ausência de voz, mas o peso da verdade que resta quando tudo o mais cai. Não há muros a derrubar nem portas a arrombar, porque a quinta nunca foi apenas um lugar. Sempre existiu dentro de cada gesto cúmplice, de cada escolha de não ver, de cada conveniência moral que sustentou o sistema sem precisar de ordens explícitas. 

Quem ousou confrontá-la cedo percebeu que a sua queda não seria fácil, nem física. Não se tratava de destruir paredes, mas de romper consciências. A verdadeira derrubada começaria na recusa de dirigir-se de joelhos ao altar da hipocrisia; na coragem de acolher aquilo que o sistema julga em voz alta enquanto, em surdina, contempla os seus seios; na vigilância ética de quem permaneceu desperto quando era mais compensador dormir. Cada ato de honestidade tornou-se uma renúncia silenciosa à comunhão dos ímpios. Cada silêncio recusado abriu uma racha no cálice que sustentava a prostituta.

Depois da quinta, os muros desabam  e com eles desaparecem as línguas ensalivadas dos bajuladores. A miséria deixa de pagar IVA. Resta apenas o espaço nu da consciência: esse território sem máculas onde cada um é obrigado a decidir se reconstruirá a quinta com outros materiais ou se permitirá que a ética cresça livre sem altar, sem cálice e sem ídolos de teatro.

Depois da quinta não nasce o sagrado. Nasce o peso da escolha. Nasce a intimidade incômoda de olhar para si mesmo sem disfarces, sem rótulos, sem a proteção do corvo que se alimentava dos pintainhos das galinhas dos sem-teto. É aí  e apenas aí que a verdadeira derrubada acontece.

Os ímpios, incapazes de aceitar o que ocorreu, procurarão consolo em salmos 151, inventando escrituras tardias para justificar o que jamais foi justificável. Os seus bens serão repartidos entre os pobres empobrecidos pelos ricos, ricos que não passam de simples endinheirados e os seus descendentes carregarão a vergonha dos nomes que herdaram.

Depois da antiga quinta, a árvore frondosa ao redor da quinta ousará finalmente florir. As suas raízes alargar-se-ão de tanta felicidade contida. O ar, antes poluído, fará falta àqueles que o contaminaram. Os arames farpados que mantiveram intacto o perímetro da exclusão servirão agora para fabricar carros de arame para as crianças de pés descalços.

Os cães fardados reconhecerão os ímpios, mas não lhes obedecerão. Declararão caça não aos executores menores, mas aos emissores das ordens superiores. Os contratos assinados sob a lógica da exploração eterna dos recursos naturais serão desfeitos. Os seus assinantes serão obrigados a engoli-los, tal como foram engolidos os sapos sob o pretexto da paz. Haverá quem queira vê-los incinerados, como foram incinerados, em outros tempos, os críticos que ousaram falar quando ainda havia muros.

Depois da quinta, também aqueles que ruíram a velha quinta serão vigiados, para que não se convertam nos ímpios de amanhã. Porque aquele que diz “eu vos libertei” é mais perigoso do que aquele que explorou. Mesmo mortos, os seus corpos serão vitrificados para que, ao reanimarem, não possam revelar o caminho por onde foi enterrada a chave da velha quinta.

Depois da quinta, nada garante justiça plena. Mas já não há inocência possível. Cada um será obrigado a sujar as mãos para que o jardim prometido em Candide, de Voltaire, seja finalmente cultivado com vida para que cada um se torne digno das flores desse jardim.

Depois da quinta, ninguém pode assegurar que não surgirão novos traidores. Mas estes serão vigiados e, quando descobertos, serão vilipendiados na praça pública. As estátuas erguidas no interior da quinta serão vaiadas, laçadas pelo pescoço e arrastadas para vitalização nas redes sociais. As que resistirem à humilhação serão queimadas, enquanto os ímpios, já impotentes, assistirão à cena sem poder fazer nada. Pedirão que se paute pelo respeito à vida, à liberdade e à propriedade, mas se esquecerão de que jamais permitiram que os catadores de rua tivessem vida, liberdade ou propriedade.

Nesse tempo, este texto não terá circulação clandestina. A sua leitura será obrigatória nas escolas, nos comboios, nos transportes semicoletivos e nas igrejas, e o seu autor já não pensará em continuar o seu livro sobre ‘O País de Questões Silenciadas’. Tudo isso para lhes recordar que estão sozinhos neste buraco chamado mundo. Por isso, nada de desculpas.

Ramos António Amine

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