Ramos António Amine: Conto ‘Os filhos da quinta’


Durante muito tempo, fingiu-se que a quinta era apenas um lugar, um espaço cercado por arames farpados, guardado por cães fardados e saturado pelo cheiro da cumplicidade entre homens armados. Um território onde se reuniam os devotos da hipocrisia, os bebedores do mesmo cálice rachado da conveniência, os guardiões disciplinados do silêncio.
Mas essa foi sempre a mentira mais confortável.
A quinta nunca foi apenas um lugar. A quinta é uma escola.
Uma escola de fabricar obediência, de polir consciências até que deixem de se rebelar, de ensinar homens e mulheres a trair a verdade com elegância. Ali não se educa, condiciona-se. Não se forma, molda-se. Aprende-se a distorcer a realidade até que ela obedeça, a chamar prudência à cobardia, inteligência à omissão e maturidade à rendição. E, acima de tudo, aprende-se isto: o poder não precisa de ser legítimo, basta parecer legal.
Foi assim que nasceram os filhos da quinta.
Uns nasceram dentro dos muros, domesticados desde o berço. Cresceram a repetir palavras que nunca pensaram, a respeitar limites que nunca compreenderam, a defender uma ordem que nunca os questionou, porque nunca lhes permitiu questionar. Alimentaram-se de histórias sobre ordem, estabilidade e tradição, como quem engole um sedativo, não para entender o mundo, mas para não o perturbar.
Outros chegaram depois, atraídos pela promessa suja do pertencimento. A quinta acolheu-os como sempre faz, oferecendo abrigo em troca de silêncio, influência em troca de submissão, reconhecimento em troca de consciência. E eles aceitaram. Quase todos aceitam. Os poucos que hesitaram aprenderam depressa que a fome dobra mais convicções do que qualquer argumento.
Com o tempo, os filhos da quinta tornaram-se muitos e tornaram-se pesados. Não apenas no corpo, mas naquilo que evitam carregar: responsabilidade. Arrastaram-se pelos corredores do poder como sombras bem alimentadas, ocuparam cadeiras que nunca lhes exigem coragem, pronunciaram palavras que nunca comprometem nada.
Falam muito. Dizem pouco.
Prometem tudo. Não entregam nada.
Reconhecem-se à distância, não por símbolos, mas por reflexo. A mesma linguagem vazia, a mesma habilidade em fugir sem parecer fugir, a mesma obsessão em manter tudo exatamente como está. E assim a quinta sobrevive, não pela força, mas pela repetição, não pela verdade, mas pelo hábito.
Mas há algo que os filhos da quinta nunca aprenderam e nunca quiseram aprender: escutar. Porque escutar é perigoso. Escutar implica dúvida. E a dúvida é o primeiro golpe contra qualquer muralha.
Do outro lado da quinta, o mundo não esperou. As vozes que foram ignoradas cresceram sem permissão. Tornaram-se mais duras, mais claras, mais impossíveis de calar. As perguntas que foram evitadas fora da quinta começaram a ser feitas dentro dela por aqueles que a quinta tolera, mas nunca aceita: os lavradores.
Homens admitidos apenas para lavrar a quinta. Presentes nas manhãs e nas tardes, mas nunca pertencentes. Vigiados por cães vadios, mas indispensáveis à vitalidade da própria quinta.
Foram eles, e não os filhos da quinta, que continuaram a dizer o que precisava ser dito.
As verdades silenciadas não desapareceram. Acumularam-se. E, como tudo o que é comprimido por demasiado tempo, começaram a procurar saída, não pela porta, mas pela fissura, pelo canto, pelo eco, pela falha.
Até que a falha apareceu.
As filhas da quinta, educadas em ideais que a própria quinta trai, igualdade, fraternidade, solidariedade, começaram a sentir o peso da mentira em que foram criadas. E, quando a realidade entra em conflito com a educação, algo cede.
Neste caso, cedeu o muro.
Uma delas atravessou-o.
Envolveu-se com um lavrador, o mais jovem entre eles, e, no silêncio que a quinta exige, fizeram o que a quinta proíbe: reconheceram-se como iguais, despidos de hierarquia e de fingimento.
Do primeiro encontro, perderam a inocência.
Dos seguintes, cometeram o erro irreversível.
Trouxeram ao mundo a prova viva da fraude da quinta.
Um filho.
Um corpo que a quinta não consegue classificar sem se contradizer. Um sangue que mistura aquilo que ela passou gerações a separar. Um facto que destrói o discurso.
E, pela primeira vez, os filhos da quinta ficaram sem linguagem. Porque não há retórica que apague o que existe.
E então surgiu o dilema, não teórico, mas inevitável: continuar a defender os muros, mesmo depois de atravessados, ou admitir, finalmente, que esses muros nunca serviram para proteger, mas apenas para separar, excluir e mentir.
E essa é a escolha que os filhos da quinta sempre evitaram. Porque admitir isso exige mais do que coragem. Exige verdade. E verdade é tudo aquilo que a quinta ensinou a temer.
Acima desse dilema, sobrevoa uma última questão: cuidar do filho, herdeiro involuntário dos muros, ou impedir que ele exista como ruptura.
É assim que nasce, dentro da quinta, o primeiro sinal da tragédia.
Ramos António Amine
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