Renata Barcellos
‘Bibliotecas, livros e literaturas infantojuvenis’


9 de abril é o DIA NACIONAL DA BIBLIOTECA. A data, instituída pelo decreto nº 84.631 de 1980. Este destaca a importância das bibliotecas como centros de educação, cultura, acesso democrático ao conhecimento e incentivo à leitura, além de celebrar o papel estratégico dessas instituições na formação cidadã e na sociedade.
Para Valter Hugo Mãe, “Entramos numa biblioteca como quem está a ponto de partir”. Este compara bibliotecas a aeroportos, por serem locais de “partir e chegar”, simbolizando viagens mentais. Urge a conscientização quanto à lei de educação literária, especificamente a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE): lei nº 13.696/2018. Esta visa promover o livro, a leitura, a escrita, a literatura e as bibliotecas de acesso público no Brasil.
Também estabelece diretrizes para fortalecer o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas e promover o estímulo à leitura e ao conhecimento. E a lei nº 12.244 de 24 de maio de 2010, conhecida como Lei da Universalização das Bibliotecas Escolares, estabelece que todas as instituições de ensino do país (públicas e privadas) devem desenvolver esforços progressivos para ter bibliotecas com um acervo mínimo de um título por aluno. Esta também estabelece a necessidade de um profissional bibliotecário para cada biblioteca.
Um exemplo é o Projeto Santa Leitura: Uma Biblioteca a Céu Aberto. Com um trabalho intenso e uma visão inspiradora, de acordo com Estella Cruzmel, a importância do Santa Leitura é “gigantesco, é um período que a criança está se dedicando ao livro e à arte além disso afasta a criança do celular e mundo das drogas. Desde junho de 2010, o projeto Santa Leitura tem se dedicado a cultivar o hábito da leitura entre crianças e adolescentes, ajudando a diminuir a crescente distância social.
O projeto começa ou no bairro Ipiranga, em Belo Horizonte e, após dois anos, se expandiu para Castanheiras, Sabará, MG e Taquaril, Belo Horizonte, onde mantém uma parceria com o padre João Stasz, da Obra Social São Gabriel. No Castanheiras, uma biblioteca comunitária infantojuvenil foi estabelecida, proporcionando um espaço seguro e estimulante para a prática da leitura. A sede do projeto está localizada no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, onde são realizados encontros mensais”.
O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor é celebrado em 23 de abril, instituído pela UNESCO, em 1995, para promover a leitura, a publicação e a propriedade intelectual. A data foi escolhida por ser a de falecimento de grandes escritores como Shakespeare e Cervantes. O objetivo é celebrar as literaturas, incentivar o hábito da leitura, valorizar os direitos autorais, estimular a reflexão sobre o poder transformador das literaturas e o acesso ao conhecimento.
De acordo com o Panorama do Consumo de Livros da CBL (Câmara Brasileira do Livro), houve aumento de 2% na compra de livros no país em 2025. Foram 3 milhões de compradores a mais que em 2024. Os dados mostram que 18% da população acima de 18 anos comprou ao menos um livro, impresso ou digital, no ano passado. Se estiverem adquirindo, lendo e refletindo sobre os temas tratados, notícia EXCELENTE!!!
Quanto à Literatura Infantojuvenil, trata-se de um gênero literário voltado para crianças e jovens, abrangendo desde os primeiros anos de vida até a adolescência. Ela engloba uma variedade de formas textuais, como histórias fictícias, biografias, poemas, obras folclóricas e culturais, adaptadas para a faixa etária específica. Seu objetivo principal é apresentar temas relevantes e acessíveis, estimulando a imaginação, a criatividade e o desenvolvimento emocional e cognitivo dos leitores.
A Literatura Infantojuvenil desempenha um papel crucial no desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças e jovens, promovendo a imaginação, a empatia e o amor pela leitura. Através de histórias envolventes, a literatura infantojuvenil apresenta aos jovens leitores a riqueza da linguagem e os ajuda a compreender diferentes visões de mundo. Conforme Nilma Boechat (professora e escritora), é: “uma porta que se abre ao imaginário da criança. Ali nesse momento entre cavalos, cavaleiros, piratas, príncipes, princesas, e tantos outros personagens, ela viaja, imagina, cria, vê e enxerga além do que se passa no seu dia-a-dia.
A criança que tem acesso a toda essa vivência literária, torna-se um adulto melhor, mais criativo, com linguagem rica, lê com boa dicção, escreve com vocabulário amplo, diversificado e terá facilidade de relacionar-se melhor com o mundo. É capaz de ensinar a outrem as lições aprendidas nos livros”.
Vale destacar e esclarecer quais são os precursores da Literatura Infantojuvenil no Brasil são Julia Lopes de Almeida com ‘Contos Infantis’, de 1886, e ‘Era Uma Vez’, de 1917 e Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), romancista, cronista, jornalista, poeta e um dos primeiros autores a adaptar os contos europeus para circulação no Brasil: de Charles Perrault, dos Irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen Em 1894, publica Contos da Carochinha, o primeiro livro infantil publicado no Brasil. Também foi o primeiro a publicar um livro infantil no Brasil, tendo traduzido e adaptado clássicos para a juventude como As mil e uma noites, Dom Quixote e Robinson Crusoé, além de vários contos dos Irmãos Grimm.
Carl Jansen (educador, militar, escritor e jornalista teuto-brasileiro) por traduzir clássicos como Robinson Crusoé, Viagens de Gulliver, As Aventuras do Celebérrimo Barão de Münchhausen e D. Quixote de La Mancha. Foi pioneiro ao traduzir, em português brasileiro, obras para a juventude, entre as quais romances de Swift, Defoe e Cervantes.
Em 1904, “Poesias Infantis”, de Olavo Bilac (1865 a 1918 ) e “Através do Brasil”, editado em 1910, de autoria de Olavo Bilac e Manuel Bonfim. Thales Castanho de Andrade (1890-1977) redigiu A Filha da Floresta’ (1918) e ‘Saudade’ (1919).
Em 1920, “A menina do narizinho arrebitado”, de Monteiro Lobato (1882 a 1948). A obra é constituída por personagens e cenários brasileiros. Além de abordar temas relevantes para a cultura nacional, como a valorização do campo e a crítica social. Para Zilberman foi reconhecido por ter modernizado a Literatura Infantil Brasileira. Lobato declarava que “gostaria de criar livros nos quais as crianças pudessem morar como ele havia morado no Robinson Crusoé e nos Filhos do Capitão Grant na sua infância”.
Em 1923, Cecília Meirelles editou o seu primeiro livro para crianças: Criança Meu Amor.
Para divulgação da leitura e do livro infantil, Cecília Meirelles esteve à frente da primeira biblioteca pública infantil brasileira, localizada no Pavilhão ou Espaço Mourisco, inaugurada em 1934, na Praia de Botafogo, Rio de Janeiro. Em 1964, iniciou uma nova fase na literatura infantil brasileira ao lançar uma coletânea de poemas para crianças, chamada de Ou Isto Ou Aquilo. Fica a dica de leitura!!!
Em 1938, é publicado Cazuza, do maranhense Viriato Corrêa. Trata-se de um dos maiores sucessos da Literatura Infanto-Juvenil Brasileira. Esta relata vivências do próprio autor. É a história de um menino cujo nome é Cazuza que, depois de adulto, resolve escrever suas memorias de infância. Este vive em um lugarejo do Maranhão, no final do século XIX, e realiza seu grande desejo de entrar na escola.
Mas o primeiro dia de aula é uma grande decepção: depara-se com um ensino rígido, pois se usava a punição como principal ferramenta de controle dos alunos. A obra questiona o ensino da época, os preconceitos e, com descrições leves e bem-humoradas, traz informações do Brasil e da sua história para o público infantojuvenil.
No Brasil, a Lei nº 8.069/1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é o principal marco legal que trata da proteção integral à criança e ao adolescente. Esta incluiu o acesso à Literatura Infanto-Juvenil como um direito fundamental. Além do ECA, outras leis como a nº 10.639/2003 e a nº 11.645/2008 abordam a importância da inclusão de histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas na educação e, nas literaturas, incluindo a Infantojuvenil.
De acordo com Zuleika Crespo (acadêmica da ACL -Academia Cabofriense de Letras, diretora da Biblioteca P.M.P.Walter Nogueira de Cabo Frio e escritora), as Literaturas Infantojuvenis “ajudam a despertar a imaginação, além de aprender o que gira ao seu redor, mostrando que são capazes de conseguir e realizar seus desejos, aprendem valores que serão necessários ao longo de sua vida ajudando também em problemas emocionais!”.
Já as literaturas infantojuvenis indígena brasileira, representadas por autores como Daniel Munduruku, Yaguarê Yamã e Cristino Wapichana, oferecem narrativas ricas sobre cosmovisões, mitos e o cotidiano nas aldeias. Essas são fundamentais para combater estereótipos e promover o conhecimento sobre a diversidade cultural brasileira. Abaixo algumas obras das literaturas indígenas infantil e juvenil:
Kabá Darebu, de Daniel Munduruku: mostra o cotidiano de um menino Munduruku, abordando costumes, brincadeiras e a relação com o meio ambiente.
Contos da Floresta, de Yaguarê Yamã: narrativas do povo Maraguá sobre seres da floresta, focadas na tradição oral.
A Boca da Noite, de Cristino Wapichana: vencedor do Prêmio Jabuti, narra a relação entre um pai e seu filho ao ouvirem o som da noite.
Falando Tupi, de Yaguarê Yamã: introduz crianças ao universo da língua tupi, explorando palavras do dia a dia.
O Sabiá e a Menina, de Daniel Munduruku: uma história sobre a vida e a morte, recheada de lirismo e sabedoria ancestral.
O povo Kambeba e a gota d’água, Márcia Kambeba: narra o início do “povo das águas”, os
Omágua/Kambeba, destacando as tradições seculares relacionadas aos rios que atravessam seus territórios. “Ser o povo das águas é motivo de alegria e honra para os que vivem na aldeia e na cidade”.
Dica de lançamento de livro infantil:
Mario Bernardo Filho (professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, biomédico, fisioterapeuta, acupunturista, escritor e diretor do Instituto Saúde.com ltda, @mariobernardofilho e @institutosaude.com.ltda) lançará seu primeiro livro infantil neste fim de semana, no Rio de Janeiro. A seguir, palavras do autor acerca do que lhe impulsionou a escrita para o público infantil:
“Uma satisfação muito grande invade meu corpo pelo fato de entrar no universo de escrever um livro infantil. Um grande desafio depois de passar muitos anos publicando inúmeros artigos científicos em nível de competição internacional relacionados aos projetos de pesquisa na área da saúde que orientei sobre terapia envolvendo atividade física. A definição do tema principal para os livros infantis foi motivo de muitas reflexões até chegar no autocuidado. Essa escolha surgiu pelas pelo fato da apresentação de palestras para alunos do ensino fundamental e médio para justificar os valores recebidos pelo órgão de fomento para as minhas pesquisas. Falar e pesquisar sobre atividade física sempre gerou em mim uma grande vibração.”
A atividade física é um dos pilares do autocuidado visando a promoção da saúde ao longo da vida de uma pessoa. Mas como conversar de atividade física no mundo infantil? Que tal deixar um órgão que é favorecido pela atividade física conversar com a criança, e talvez até com um adulto? Que tal deixar um órgão conversar sobre outros pilares do autocuidado, como a alimentação saudável, o convívio social, a interação familiar, o sono reparador?
A coleção nasce com a missão de transformar a educação em saúde em uma jornada de descoberta para todos os leitores, e em particular para as crianças. Todo o planejamento da coleção envolve um material estruturado para facilitar o processo de ensino-aprendizagem, combinando fundamentação teórica (pedagogia), procedimentos práticos (técnica) e estratégias de ensino (didática).
Visa não apenas transmitir conhecimento, mas garantir que ele seja compreendido e aplicado diariamente. Visa promover também a disciplina. A pretensão da coleção é sensibilizar a todos para praticar hábitos saudáveis por toda a vida, e não tem idade para começar a pensar no autocuidado.
No primeiro volume, o protagonista é o Coração: ‘Sou seu amigo, o coração, que apresenta às crianças e aos seus responsáveis a importância do autocuidado e de hábitos que promovem o bem-estar desde a infância’. Noções de anatomia, da fisiologia, da afetividade, do comportamento humano são mostradas de forma lúdica nesse livro.
Também surgiu a ideia de se ter uma mascote representativa do autocuidado, e aparece a gata “Care”, e noções de inglês são introduzidas, autocuidado em inglês é self-care. Diferentemente de outros livros, a proposta da obra é humanizar os órgãos do corpo, deixando cada órgão, mostrar para as crianças e até para adultos, como seus hábitos do dia a dia podem deixar o corpo com saúde. E, você, já parou para pensar na importância do autocuidado visando a promoção da saúde”.
Cabe incentivarmos a leitura desde as séries iniciais. Em tempos de Inteligência Artificial, é um enorme desafio levar o público das diversas idades e principalmente o infantojuvenil ao universo das letras. Concluímos com o pensamento de Cícero “Se temos uma biblioteca e um jardim, temos tudo”.
Renata Barcellos
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