O quinto sinal
Ramos António Amine: Conto ‘O quinto sinal’


Acolhido pelo padre no santuário, o miúdo deparou-se com uma realidade inusitada, tal como o pai se deparara aquando da sua transferência da lavra para o garimpo: muitas crianças órfãs de futuro sob o amparo do santuário. Logo à entrada, pediram-lhe que se desfizesse da mochila, o autêntico abrigo da única herança que trouxera da quinta dos ímpios: o livro Cândido, de Voltaire. Aceitou desprender-se da mochila, mas levou consigo o livro, atitude que deixou boquiabertas as demais crianças do santuário.
Foi então apresentado às outras crianças, mas não conseguiu libertar-se do primeiro erro da sua existência: não conseguia dizer o seu nome, não por devaneio, mas porque, de facto, nunca o tivera desde a sua aparição ao mundo. Deram-lhe abrigo, mas também as treze regras do santuário. Ficou particularmente atento à quinta regra: “não se salva fora do santuário”. Questionou-se em silêncio, como guardião de avisos ignorados: que salvação é essa que só existe aqui? Novo naquele espaço, decidiu guardar as suas interrogações para o momento da refeição, acreditando que encontraria respostas junto das outras crianças famintas de futuro.
Deram-lhe roupa adequada, exigida pela dignidade do santuário. Mas permanecia ainda nu de identidade. Essa nudez entristecia-o, pois às outras crianças fora-lhes forjada alguma forma de pertença.
O padre, responsável pelo santuário, o mesmo que o acolhera, lisonjeado com o gesto de amparo, decidiu reunir-se de imediato com os dois diáconos para lhes comunicar a situação do novo miúdo. Revelou que o encontrara na rua, desalojado, e que o acolhera em nome da humanidade. Da reunião resultou a missão de lhe fabricar uma identidade nova, capaz de o afastar rapidamente do passado, tal como se afastara da mochila.
Enquanto discutiam a nova identidade do miúdo, a mãe nunca deixara de pensar no filho. Porém, a sua missão presente consistia em encontrar o monge que a enganara no primeiro encontro no prostíbulo, logo após a sua conversão à prostituição. Missão quase impossível, pois o monge havia redimensionado os seus apetites carnais, evitando novos encontros no prostíbulo e preferindo sugar as tetas das prostitutas no mosteiro.
Ainda assim, a mãe não desistia de o procurar. Até ao dia em que recebeu um cliente cujo odor lhe pareceu semelhante ao da injustiça do garimpeiro que matara o pai do miúdo, no garimpo. Ninguém reconheceu ninguém. Mas uma sensação antiga de injustiça atravessou-a, levando-a a envolver-se com o garimpeiro disfarçado de cliente. O propósito tornara-se cristalino: extrair verdades sobre a morte do pai do miúdo e preparar, a partir delas, uma vingança contra a quinta dos ímpios.
O miúdo foi crescendo, longe da quinta dos ímpios, onde o pai fora morto pela ganância dos garimpeiros após encontrar ouro de valor ímpar, e longe da mãe, agora prostituta ressuscitada.
No santuário, ninguém estava autorizado a falar do passado, muito menos em voz alta, pois os responsáveis acreditavam que a repetição da memória despertaria consciências de resistência. Contudo, esqueciam-se de que o passado não tem lugar: está sempre no presente.
Nos primeiros dias, o miúdo foi-se ajustando ao novo ar do santuário. Teve contacto com grandes escritores que a basílica guardava, mas nunca se imaginou sem o Cândido nas mãos. Um dia, movido pela mesma curiosidade que o guiara quando catava lixo na rua, o seu abrigo anterior, deparou-se com um livro cuja capa ostentava o título A Rebelião das Massas, de José Ortega y Gasset. Leu as primeiras páginas com atenção, mas não conseguiu terminá-lo, pois o sino da capela soou anunciando a adoração do Santíssimo Corpo do Senhor. Afinal, era numa quinta-feira. Ainda assim, manteve a esperança de reencontrar o livro após a adoração.
Esta foi a sua primeira prestação serviçal a Deus após ter crescido sem Ele: primeiro na quinta dos ímpios e depois na rua. Assim, foi-lhe confiada a missão de segurar o incensário, tal como acontecera outrora na quinta, antes da fuga com a mãe.
E porque a adoração eucarística é o momento que exige maior entrega, o miúdo, tão incauto quanto era, não conseguiu permanecer muito tempo de joelhos. Levantou-se em plena adoração, facto que chamou a atenção de todos, incluindo dos dois diáconos, cujos rostos se transformaram de imediato, como se diante deles surgisse uma profanação.
Cessada a adoração, o miúdo, na sua inocência, correu apressadamente para a biblioteca do santuário, com a esperança de rever o livro que não terminara. Estava tomado pela urgência de o ler.
Para sua surpresa, o livro fora retirado da estante habitual. O que o miúdo não sabia era que, no primeiro contacto com a obra, o bibliotecário, um dos ex-lavradores da quinta dos ímpios, o vira e imediatamente informara o diácono que se encontrava próximo. Do diácono nascera a decisão de retirar o livro da biblioteca, como se temesse uma rebelião dentro do santuário.
Essa atitude, longe de passar despercebida, afiou ainda mais as inquietações do miúdo. Contudo, como sempre, decidiu mantê-las em silêncio, tal como a mãe mantivera em silêncio a ideia de fuga da quinta dos ímpios.
Entretanto, os diáconos, já incapazes de suportar a intrepidez do miúdo, decidiram falar com o padre. Para isso, esperaram que anoitecesse.
Após a última refeição do dia e a oração da noite, aquela que invocava o anjo da guarda, os miúdos foram deitar-se, na esperança de ver o amanhecer em paz, para iniciarem as atividades de lavoura dentro do santuário.
Um dos diáconos não esperou pela digestão do padre e começou a bombardeá-lo com uma sopa de questões:
– Padre, o senhor sabe que esse miúdo é tão intrépido que pode precipitar a queda do cálice do santo altar?
– Não vejo nada de estranho nele – respondeu o padre.
– Não diga isso, reverendo. O miúdo parece intransigente. Lembra-se de que não quis permanecer de joelhos na última adoração eucarística?
– Lembro-me. Mas não houve nada de grave. É novo e poderá habituar-se aos procedimentos do santuário. Acreditem.
– E se não o fizer? – rematou o outro diácono.
– Confio que o miúdo se ajustará ao ar do santuário.
– Caso contrário, terá de mandá-lo para o seminário. Lá aprenderá o que é a vida, de facto – disse o outro diácono.
– O seminário é vocação. Ele deve decidir ir para o seminário. Caso contrário, poderá desistir pelo caminho. O seminário recorda-se tristemente de gente assim – respondeu o padre.
– Reverendo, esse miúdo parece esconder algo inquietante. O senhor conhece o seu passado?
Do lado do padre veio um silêncio ensurdecedor.
Enquanto conversavam, o miúdo escutara tudo, pois não tinha o hábito de dormir cedo, até porque estivera a reler as últimas páginas de Cândido.
Percebeu imediatamente que falavam dele. Mas não se importou. Na manhã seguinte, decidiu ajudar os colegas na lavra da horta do santuário.
Foi então que soube que a maioria dos seus colegas eram filhos de garimpeiros e outros de lavradores da quinta dos ímpios. Porém, desconheciam o paradeiro dos seus progenitores. Ali, ninguém se lembrava das origens, apenas sabiam que as tinham.
Num desses dias, o miúdo foi escalado para servir o santo altar. Ensaiara quase toda a semana, pois a disciplina litúrgica era rígida e exigia precisão nos gestos para não tropeçar com o incensário.
A missa seria presidida pelo vigário-geral da diocese, conhecido pelo gesto de reclamar o ofertório da acção de graças. A informação espalhou-se rapidamente. A comunidade paroquial convidou as circunvizinhas. As leituras foram distribuídas entre as comunidades.
Chegou o domingo. Era de ramos. A paróquia estava apinhada de gente. Vieram os ímpios de todos os tipos, incluindo os filhos da quinta, os lavradores e os garimpeiros da quinta, a prostituta ressuscitada e a amiga que lhe emprestara a roupa de estreia do prostíbulo, os compradores de ouro do garimpo, os cães fardados, o monge e o dono do prostíbulo, e os fiéis em geral.
Ninguém reconheceu ninguém, pois todos estavam transfigurados e cada um atento aos seus próprios objectivos.
O vigário estava concentrado no ofertório solene. Os ímpios procuravam o miúdo, a oferenda prometida pelos filhos da quinta.
Os filhos da quinta procuravam a mãe do miúdo, a fugitiva. A mãe do miúdo procurava o monge, o desonesto. O monge procurava o incensário desaparecido na quinta dos ímpios, agora nas mãos do miúdo. Os cães fardados procuravam a prostituta ressuscitada. Os garimpeiros e os lavradores procuravam os seus filhos, acolhidos pelo santuário. Os fiéis não buscavam salvação: clamavam por humanidade. O miúdo queria entender a razão de tantos olhares desatentos.
Durante o ofertório solene, no momento em que o miúdo se aproxima do altar com o incensário, o monge reconhece imediatamente o objecto desaparecido da quinta dos ímpios. Não reconhece primeiro o miúdo, reconhece o incensário.
O monge perde momentaneamente a compostura.
A mãe, ao observar o monge perturbado, fixa finalmente o olhar nele.
Os filhos da quinta percebem a inquietação.
Os cães fardados observam os movimentos.
O vigário mantém-se concentrado no ofertório.
E o miúdo, sem compreender totalmente, sente pela primeira vez que todos os olhares convergem para si.
Nesse instante, o incensário toca o altar como quem toca o destino. O miúdo segura-o com a mesma leveza com que segurara Cândido, nas páginas da sua infância sem nome. O fumo sobe, mas não em paz: sobe como inquietação.
O silêncio que se segue não é litúrgico. É reconhecimento.
A mãe do miúdo, entre rostos transfigurados, sente algo que não sabe nomear. O monge também a vê. Não a reconhece de imediato. Mas o passado, esse que o santuário fingia não existir, começa a respirar dentro do espaço sagrado.
Os diáconos sentem a tensão antes de a compreenderem. O vigário mantém-se preso ao ofertório, como se os olhares desavindos pudessem impedir o cântico da acção de graças.
Até que o incensário vacila.
E cai.
O som do metal no chão não é apenas ruído. É ruptura.
O fumo espalha-se pelo altar, já não em direcção ao céu, mas em direcção aos homens. E por um breve momento, ninguém sabe se está diante de uma missa ou de um julgamento.
O miúdo olha à sua volta. Pela primeira vez, não são apenas olhares dispersos. São buscas. Todos procuram algo nele sem saber o quê.
E ele, que nunca tivera nome, percebe apenas isto: está no centro de algo que não escolheu.
Naquele domingo de ramos, o santo altar cheira mais a incêndio do que a incenso.
O cântico da acção de graças comove aos fiéis ao ponto de se juntarem à fileira das dançarinas que animavam a missa. Esse gesto desencadeia uma confusão generalizada, em que cada um tenta alcançar os seus próprios objectivos.
Foi nesse tumulto que o miúdo consegue escapar do santuário, sem o incensário, mas com a sua mochila, apesar de vazia, do livro que terá ficado no santuário.
Assim, se consumou o quinto sinal: quando no santo altar, o incenso deixou de ser oração e passou a ser memória.