A repetição no texto académico

Fidel Fernando

‘A repetição no texto académico: recurso ou ruptura?’

Fidel Fernando
Fidel Fernando
Imagem gerada por IA do Bing – 03 de Julho de 2025,
às 13:41 AM

Algumas palavras da língua portuguesa apresentam muitos sinónimos, o que permite a expressão de ideias de maneiras distintas. Não é em vão que a repetição de palavras em textos académicos é, frequentemente, vista como um sinal de pobreza lexical, uma vez que pode comprometer a clareza e a fluidez da escrita.

Nos textos académicos, a repetição excessiva pode ser um obstáculo à compreensão. Ao revisar textos de candidatos a licenciados, mestres e doutores, é comum encontrar passagens que evidenciam essa problemática. Por exemplo, a frase: “…para ser professor, é necessário que seja ‘munido’ de conhecimentos científicos da disciplina que estiver a leccionar e ‘munido’ de conhecimentos técnico-práticos ou didáctico-pedagógicos”, revela uma repetição desnecessária da palavra ‘munido’. Uma reescrita mais eficaz poderia substituir o segundo uso por ‘possuir’ ou ‘ter’, como em: “…para ser professor, é necessário que seja munido de conhecimentos científicos da disciplina que estiver a leccionar e ‘possuir’ conhecimentos técnico-práticos ou didáctico-pedagógicos.” Essa simples alteração (será simples?) não só enriquece o texto, mas também mantém a ideia original intacta.

A música contemporânea angolana frequentemente utiliza a repetição como recurso estilístico para enfatizar emoções e criar um impacto memorável. Por exemplo, na canção ‘Nossas Coisas’, de Ary e C4 Pedro, ouve-se “Minha razão quando a razão não dá razão pra ninguém, eh”. Aqui, a repetição de ‘razão’ serve para reforçar sentimentos de amor, criando uma ressonância emocional que cativa o ouvinte. Essa técnica, embora contrária à norma dos textos académicos, cumpre um propósito distinto: a criação de uma experiência estética rica.

Na literatura de expressão portuguesa, Carlos Drummond de Andrade, em 1928, publicou, na Revista de Antropofagia, um poema rico em repetição: “No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho”. A repetição, nesse contexto, não é uma falha, mas, sim, uma estratégia estilística que enriquece a obra literária, focando nos problemas (pedras) que as pessoas encontram na vida.

Contrapõe-se a isso a abordagem dos textos académicos, onde a repetição pode ser vista como um sinal de falta de rigor. Em passagens como: “A pesquisa foi realizada em três etapas fundamentais: A primeira ‘consistiu’ em averiguar, com a instituição, o índice de reprovação; a segunda etapa ‘consistiu’ em averiguar os prováveis factores no fracasso da aprendizagem escolar; a terceira etapa ‘consistiu’ em fazer um cruzamento entre os questionários aos alunos e professores…”, o autor poderia optar por sinónimos como ‘visou’, ‘objectivou’, ‘prendeu-se’, ‘teve finalidade de’ para evitar a repetição da palavra ‘consistiu’. Essa prática não só melhora a clareza do texto, mas também demonstra um domínio mais profundo da língua.

Além disso, frases como: “A formação específica é, absolutamente, necessária para quem ensina, mas, ‘de maneira alguma’, suficiente para o exercício da profissão. O professor que carrega apenas esta componente, ‘de maneira alguma’, contribui para o sucesso académico dos seus alunos”, mostram como a repetição de expressões pode ser evitada. O autor poderia substituir ‘de maneira alguma’ por “de jeito algum” ou mesmo ‘não’, o que não apenas diversifica a linguagem, mas também mantém a força do argumento.

Outro exemplo que sugere uma pobreza vocabular e uma falta de domínio sobre as possibilidades da língua: “Essas condições prévias gerais são impossíveis de serem criadas em pouco tempo e tem logicamente que ‘se relacionar’ com as condições prévias específicas e com todo trabalho a fim de ‘se relacionar’ também com a disciplina”. A adopção de palavras sinónimas, tais como ‘ligar-se’, ‘correlacionar-se’ ‘associar-se’ não alteraria o sentido e elevaria, evidentemente, a qualidade do texto.

Em linhas gerais, a variação lexical é crucial para a eficácia da comunicação em textos académicos. Enquanto nas obras literárias e musicais a repetição pode servir para propósitos estilísticos, nos textos científicos/académicos, deve ser evitada sempre que possível. A capacidade de substituir palavras repetidas por sinónimos não apenas demonstra um domínio mais amplo da língua, mas também enriquece a experiência do leitor.

Assim, é fundamental que os autores sejam encorajados a explorar a riqueza da língua portuguesa, utilizando-a de forma criativa e consciente. Ao aprender a distinguir entre os diferentes tipos textuais e a utilizar a repetição de forma adequada, podemos contribuir para uma escrita académica mais clara, envolvente e eficaz.

Fidel Fernando

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Pesquisa sobre a região é apresentada na Universidade de Coimbra

‘Nhá Quitéria – Comunicação rebelde e memória’ foi apresentada na V Jornadas de Ciências da Comunicação da FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), Portugal

Placa indicativa da Rua Nhá Quitéria. Foto por Carlos Carvalho Cavalheiro
Placa indicativa da Rua Nhá Quitéria. Foto por Carlos Carvalho Cavalheiro

Os professores Carlos Carvalho Cavalheiro e Paulo Celso da Silva, de Sorocaba, apresentaram no último dia 26, quinta-feira, a comunicação de pesquisa intitulada ‘Nhá Quitéria – Comunicação rebelde e memória‘ na V Jornadas de Ciências da Comunicação da FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), Portugal.

Print da vídeoconferência

A comunicação, feita por videoconferência, tratou da existência de uma rua de Sorocaba denominada de Nhá Quitéria, uma personalidade histórica, ex-escravizada que faleceu na década de 1955 aos 108 anos de idade. Quitéria, cujo nome verdadeiro era Josefa Lopes, trabalhou como domadora de animais xucros, como cobradora de dívidas e outros trabalhos braçais até a sua morte.

Pichação em muro da Rua Nhá Quitéria
Pichação em muro da Rua Nhá Quitéria. Foto por Carlos Carvalho Cavalheiro

Apesar de ter sido ‘homenageada’ com a denominação de rua, a placa oficial, obedecendo a lei que nominou o logradouro, traz apenas a informação ‘mulher centenária’. Uma pichação no mesmo bairro (Vila Barão), no entanto, rivalizou com a placa oficial ao trazer a expressão: “Nhá Quitéria foi a preta fod*”. A última palavra, aparentemente de caráter chulo, representa, entretanto, a expressão de alguém extraordinária, como foi a vida de Nhá Quitéria.

Da comparação com as duas informações nasceu a reflexão do quanto a placa oficial invisibiliza a personagem histórica, escondendo a sua cor de pele, a sua luta pela sobrevivência, o seu nome, a data de nascimento e falecimento. Enquanto isso, a pichação revelou a cor de sua pele e, ainda, o quanto ela teve uma vida que pode ser considerada excepcional.

Por isso, os pesquisadores denominaram a pichação como sendo uma ‘comunicação rebelde’, conceito que vem sendo trabalhado por esses pesquisadores para entender as formas de comunicação que se contrapõem ao status quo e ao discurso hegemônico.
Carlos Carvalho Cavalheiro é doutorando em Comunicação e Cultura pela Uniso (Universidade de Sorocaba) e Paulo Celso da Silva, seu orientador, é professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Uniso (PPGCC).

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Lugares de memória de Porto Feliz

Passeio cultural evidenciou os lugares de memória de
Porto Feliz (SP)

Passeio cultural nos lugares de memória de Porto Feliz (SP)
Passeio cultural nos lugares de memória de Porto Feliz (SP)

No último dia 28, sábado, ocorreu o Passeio pelos lugares de memória de Porto Feliz, mediado pelo Mestre em Educação e Doutorando em Comunicação e Cultura Professor Carlos Carvalho Cavalheiro. O passeio é uma promoção da Equipe Gestora da EMEF. Coronel Esmédio com vistas à formação dos professores da unidade, bem como para usufruto da comunidade em geral.

Vinte e seis participantes se inscreveram para o passeio, dentre professores e pessoas interessadas. Participaram, além de porto-felicenses, pessoas das cidades de Boituva, São Paulo, Sorocaba, Itu e Salto, o que demonstra o interesse que desperta a história da cidade de Porto Feliz.

Praça da Matriz 'Dr. José Sacramento e Silva'
Praça da Matriz ‘Dr. José Sacramento e Silva

O passeio iniciou-se na Praça da Matriz (Dr. José Sacramento e Silva), defronte ao monumento em homenagem a Cândido Motta. O professor Carlos Carvalho Cavalheiro evidenciou a qualidade artística do monumento que foi criado e esculpido pelo artista Giulio Starace (Júlio Starace), um famoso escultor italiano, radicado no Brasil na década de 1920 e que se destacou por produzir a obra em mármore de dois amantes na Fonte dos Amores, em Poços de Caldas.

“A obra de Poços de Caldas foi feita em 1929. O monumento a Cândido Motta é anterior, de 1920. Infelizmente, apesar de ser uma escultura realizada por um artista de renome, pouca gente de Porto Feliz sabe disso. E, assim, o monumento sofre vandalismos”, conclui o professor.

Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens
Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens

Da Praça, o grupo seguiu para o interior da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Dentro da Igreja puderam apreciar o conjunto de azulejos pintados pelo também italiano Bruno de Giusti. O professor Carlos discorreu sobre as críticas sociais que Bruno inseriu em sua obra e, também, sobre as representações da História oficial da cidade. Na oportunidade, os participantes ouviram, ainda, sobre o restauro das imagens de Nossa Senhora da Penha (primeira padroeira da cidade) e de Nossa Senhora Mãe dos Homens, informações essas passadas por Guilherme Iversen.

Guilherme Iversen

O passeio terminou no Parque das Monções com especial atenção para o Monumento aos Bandeirantes e, também, para a construção da réplica do batelão, feita a partir do tronco do famoso Jequitibá, que foi morto por ato de vandalismo.

Parque das Monções. Monumento aos Bandeirantes
Parque das Monções. Monumento aos Bandeirantes

O professor Carlos Carvalho Cavalheiro realiza passeios culturais como esse desde o início dos anos 2000 em Sorocaba. Criou diversos roteiros temáticos, sendo alguns deles aproveitados pela empresa de turismo pedagógico Educar. Em Porto Feliz, o professor Carlos realiza passeios semelhantes desde 2006, especialmente com seus alunos da EMEF. Coronel Esmédio. Já realizou passeios com temáticas específicas – como sobre a rua da Laje – e abrangentes como generalidades da história local. Também é criador e idealizador da Gincana de História, evento destinado aos estudantes com enigmas sobre a cidade de Porto Feliz.

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Para onde caminha a humanidade

Ivete Rosa de Souza: ‘Para onde caminha a humanidade’

Ivete Rosa de Souza
Ivete Rosa de Souza
Imagem criada por IA do Bing - 29 de junho de 2025, às 21:09 PM
Imagem criada por IA do Bing – 29 de junho de 2025,
às 21:09 PM

“A humanidade na contramão da sanidade. Perdeu-se de vez a compostura, o respeito à vida, a perpetuação da espécie.” 

Confesso estar deveras assustada com as notícias reproduzidas na mídia com estardalhaço.

O misterioso aparecimento de pais de bebês reborn. Fato esse tão absurdo quanto a valorização de um objeto inanimado. Como pode se levar um boneco de silicone, recheado de fibra, ou seja lá o que for, para um hospital, uma igreja?  Exigir tratamento médico como se fossem verdadeiramente humanos?

Se bem que os proprietários de tais objetos, possam eles necessitarem de ajuda especializada com urgência, investidos de insensatez, de loucura temporária, ou acometidos de alguma síndrome de IA, que na moda atual digere e comanda os que têm preguiça de usar sua própria capacidade de pensar, ou distinguir o imaginário e a realidade.

A mídia alimenta e fomenta ainda mais tais comportamentos, fala sobre bebês, bonecos de mães ainda mais irresponsáveis. Enquanto filhos reais são relegados como objetos, e animais domésticos são descartados como lixo nas ruas.

A humanidade na contramão da sanidade. Perdeu-se de vez a compostura, o respeito à vida, a perpetuação da espécie. 

Caminhando nas ruas, o que se vê? Pessoas de todas as idades, ao celular, anestesiadas, embriagando-se com as mídias, esquecidas até da própria vida. São tantas notícias mostrando o lado sombrio do ser humano. Tudo isso associado ao excesso de mídias e à distração, sob abdução eletrônica, perda dos sentidos humanos.

Gente que deixou de ser gente para ser pai e mãe de brinquedo, enquanto bebês reais são abandonados.

Pobreza, violência e tantas outras mazelas assolam o nosso mundo, enquanto humanos se conformam em fugir da realidade brincando de boneca. Tem cada uma.

 Humanidade em desgraça, fora do eixo, sem compaixão ou crença, sem amor, perdão e inteligência.

Ivete Rosa de Souza

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Pinceladas de inconformismo

José Louro: Poema ‘Pinceladas de inconformismo’

José Louro
José Louro
Paisagem Alada nº 8. Quadro do artista plástico português Ricardo Cardoso. Projeto   Paisagens Aladas com efervescência do pensamento
Paisagem Alada nº 8. Quadro do artista plástico português Ricardo Cardoso. Projeto  Paisagens Aladas com efervescência do pensamento

Pinceladas de inconformismo
vivem secretamente nas tuas mãos
Com elas dás azo às paisagens que te iluminam, que te
inquietam, que te assombram e que te perseguem

Pinceladas de vida saem das tuas mãos
dando vida aos segredos da tua mente
e ao pulsar do teu coração

Transportas nas tuas mãos o poder do
olhar de quem ousa ver para lá das
estrelas,
procurando alcançar a paz e o belo
que só a arte pode dar

José Louro

Poema escrito em 16 de janeiro e 2025

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Bom dia, julho!

Denise Canova: Poema ‘Bom dia, julho!

Denise Canova
Denise Canova
Imagem criada por IA do Bing – 02 de julho de 2025,
às 13:08 PM

Bom dia, julho!

Bem-vindo

Com rosas

E alegrias poéticas

Julho alegre

Dama da Poesia

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Tua aldravia

Evani Rocha: Poema ‘Tua aldravia’

Evani Rocha
Evani Rocha
Imagem criada por IA do Canva – 1º de julho de 2025, às 09:00 PM

Tua poesia desabou em mim como tempestade,
Abriu valas, levou galhos e entulhos…
Choveu, chuva torrencial!
Me lavou inteira!
Branqueou a carne antes vermelha,
Agora branca como um véu.
Carregadas nuvens num sisudo céu sem estrelas…
Correu em minhas veias enxurradas,
Dilatou meus vasos e regou meus olhos.
Extasiou-me…
E eu encharcada de teus versos – Aldravia!
Deixei-me levar pelas palavras mínimas e molhadas,
Que embebiam meu ser:
Imerso, disforme, profundo…
Feito grãos de terra árida,
Agora água em turbilhão que escorre
Sobre a pele encrespada e úmida.
Era nascente menina a borbulhar ao encontro do rio!
Hoje refeita e única, entrego-me vencida e absoluta,
Aos braços líricos do teu versejar!

Evani Rocha

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