Sergio Diniz da Costa: 'As cores do urubu'

Sergio Diniz

“E foi numa bela tarde de verão que um desses fatos curiosos ocorreu: um roedor morto em um canto da rua chamou a atenção de um corvo.”

 

 Em meio a uma caminhada diária, volto meus olhos para o céu e, a uma grande altitude, o voo solitário de uma ave negra me chama a atenção. E, nessa contemplação, assoma-me à memória um fato ocorrido há mais de 60 anos na rua onde nasci, na saudosa Vila Amélia da minha Sorocaba, fato esse narrado por um tio, um perspicaz observador e narrador das coisas curiosas da vida.

Naquela época, Sorocaba, de forma geral, era uma típica cidade do Interior, com muitas ruas de terra, onde as crianças, em suas brincadeiras pós-aulas e almoço, disputavam os espaços com os animais; os cachorros em particular, e até mesmo animais menos ‘domésticos’.

E foi numa bela tarde de verão que um desses fatos curiosos ocorreu: um roedor morto em um canto da rua chamou a atenção de um corvo.

Segundo meu tio, o tal corvo, pelo jeito, já tinha vivido uns bons anos de sua vida penosa, pois dava pra perceber que sua feição era de uma ave idosa; o negrume de suas penas já estava um tanto quanto descorado, acinzentado mesmo, e faltavam-lhe algumas penas.

Todavia, não bastasse isso, a pobre ave ainda tinha uma descompensação física ainda maior: era manquitola!

Apesar de todos esses obstáculos impostos pelo tempo e pela genética a pesar-lhes contra seu intento, a corajosa ave não resistiu àquele ‘saborosíssimo’ petisco e,  como essa espécie de ave não tem habilidade para caçar, pois suas patas não funcionam como ferramentas para agarrar e matar presas, pousou no chão e, manquitolando, dirigiu-se, avidamente, ao seu almoço.

Para o seu azar, porém, e, ao que tudo indica, a visão periférica afetada pela idade (ou, o mais provável, a obsessão pela carniça!), não percebeu a presença de alguns cachorros que, àquela hora da tarde, estavam perambulando pela rua.

Danou-se a pobre ave! Os cachorros, numa ladração infernal, passaram a persegui-lo. E ele, aos trancos e barrancos, quase virou, de caçador, a caça!

Um muro salvador, entretanto, impediu a infeliz ave de ser trucidada. E, num supremo esforço, num salto se pôs a salvo no alto daquela muralha de pedra. E, não deixando por menos, se vingou dos cruéis cachorros, e de uma forma ainda mais cruel ainda: vomitando sobre eles!

Eu não me lembro, ao ouvir essa história, qual foi o final dela; se, afinal de contas, o tal corvo estropiado, após essa infausta aventura, pelo menos pôde saborear seu merecido e dificultoso almoço.

Eu me lembro, sim, do nojo que meu tio expressou ao contar essa triste história, pois um dos cachorros vomitados era o dele. E coube a ele, ainda menino, dar um demorado e nauseabundo banho de sabão no peludo arrependido.

E me lembro, também, do asco que eu também senti ao ouvir a história, uma vez que, até então, tinha verdadeira ojeriza pelos tais ‘corvos’, vez que, pra mim, eram as aves mais feias do reino animal e cujo cardápio era… carniça!

Um belo dia, outro momento me marcou a memória, envolvendo a tal ave. Ou melhor, um ‘parente’ dela.

Às quartas-feiras a TV exibia ─ na época, em preto e branco ─ o programa ‘Cine Mistério’, e um dos filmes a que assisti era um clássico do gênero: ‘O Corvo’, do escritor norte-americano Edgar Alan Poe.

Aquele ‘corvo’ me chamou a atenção, porquanto era muito diferente daquele que eu conhecia. Aquela era uma ave inteligentíssima, muito popular em países do Hemisfério Norte, como os Estados Unidos e a Inglaterra, e tinha uma aparência mais bonita, mais nobre. E sua alimentação, ainda que incluída a carniça, era, basicamente, formada por insetos, grãos de cereais, bagas e frutos.

Aquela descoberta desconcertou o menino que eu era e, desoladamente, vim a saber que o meu corvo, na verdade, não passava de um ‘urubu’. Mais especificamente, o urubu-de-cabeça-preta. Um reles urubu! Uma ave de nome tão feio quanto a própria aparência dela!

E, na minha memória de menino, ficou impregnada a imagem daquela ave feia, nojenta, suja, que vive em lixões e come carniça… Imagem essa, aliás, que já acompanha o urubu há séculos. A História narra que Charles Darwin, quando visitou a América em 1832 no Beagle, encontrou o urubu-de-cabeça-vermelha e comentou: “São aves nojentas, que se divertem na podridão”.

O tempo, no entanto, é um exímio cirurgião; um cirurgião que, literalmente, ‘opera milagres’ em relação ao imaginário e ao preconceito da gente.

Os estudos escolares, todavia, descortinaram-me, mais do que a aparência dessa ave tão desprezada por muitas pessoas, um ser imprescindível para a natureza.

Eles são os ‘garis’ do meio ambiente, mantendo-o limpo, eliminando desde carcaças até ossos, sendo responsáveis pela eliminação de significativa quantidade de carcaças de animais mortos na natureza. Com isso, eles ajudam a prevenir a propagação de doenças, eliminando bactérias que poderiam adoecer ou matar muitos animais selvagens e domésticos. Alguns estudos demonstraram que em áreas onde não há urubus, as carcaças levam até três ou quatro vezes mais tempo para se decompor.

Enquanto continuo a minha caminhada e relembro os tempos idos, agora, mais do que simplesmente observar aquela ave solitária no céu, usando as correntes de ar quente para planar por horas, fazendo belíssimos movimentos ascendentes em espiral em largos círculos, admiro (quase extasiado!) a imponência de seu voo, de grande altitude, sobrepujando, em muito, a altura de muitas outras aves, canoras e coloridas.

E o negro de suas asas mostra-se um detalhe que o pincel do Criador destacou entre o branco das nuvens e o azul do céu. Um detalhe para nos mostrar as cores do urubu. As cores que somente podemos perceber com as cores da alma!




Angelo Lourival Ricchetti: Continuação do livro que conta a história de uma família, desde 1400 até 2023. Ficção com base em documentos e narrativas de pessoas reais

Angelo Lourival Ricchetti:  Continuação do livro ‘DA ARTE DE SE CRIAR PONTES’ – 8ª PARTE

(c0ntinuação)
OITAVO PEDAÇO DO ROMANCE DA ARTE DE SE FAZER PONTES
 
“Permanecendo nos combates vem o sofrimento espiritual: o aconchego do lar, muitas saudades e as perguntas: será que verei novamente os meus? O que acontecerá daqui a minutos, horas ou dias?
Ver os companheiros mortos ou feridos e perguntar a si mesmo: serei o próximo?
Quando tudo acabar como será o nosso reencontro? E os outros que ficaram por lá?
Ir para uma revolução é preciso ser o que chamamos numa trincheira um destemido.
Agora que já falei sobre o que senti numa revolução será preciso pensar em ser “Homem”.
Os fracos acham um suicídio material e espiritual.”
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Não consigo terminar. Ela joga um travesseiro em cima de mim, dando risada.
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 (Décimo segundo texto do Uth Ricchetti)
O Zé Português que era de São Manuel e do Batalhão Esportivo tinha vindo buscar comida e encontrou com o Mário que lhe contou o meu drama.
Conseguimos enganar os guardas do vagão e fugimos para o Batalhão Esportivo levando nossos fuzis e mais três que achamos no jeito.
Na fuga de nós quatro (os dois Guardas, o Mário e eu) o Batalhão Esportivo ganhou mais quatro homens e sete fuzis.
O caminhão que nos levou, levava a xepa (comida). O Mário e os dois companheiros comeram, mas eu não quis, pois queria comer com os companheiros: Fernando de Campos Mello, o Mucci, o Néco, o Massarelli todos de São Manuel, mas não comemos porque foi só chegarmos e tínhamos que partir para a frente de guerra.
Os inimigos estavam a 8 horas da cidade de Ressaca. 
Combatemos à noite toda e ao amanhecer os inimigos tinham-se retirado.
Nós não sabíamos da retirada. Havia uma cerração muito forte e o Mário e eu tínhamos que guarnecer uma metralhadora pesada substituindo os homens que estavam lá.
De repente deram uma rajada e nós nos jogamos num buraco. Era um formigueiro de saúvas. As desgraçadas começaram a entrar pela camisa e a picar o corpo todo e nós não podíamos sair do buraco até que a metralhadora do lado nos cobrisse com o seu disparo.
Qual não foi a nossa surpresa quando chegarmos à metralhadora que íamos guarnecer: o atirador era o José Ramos de Oliveira (samanuelense) e o municiador Belmiro Plese (São Manuel).
Eles ajudaram a tirarmos as formigas. Riram muito, pois tínhamos errado o caminho e estávamos perto dos inimigos e foi aí que abriram fogo para nos proteger. Só reconheceram que éramos paulistas quando gritamos a senha (a senha era a palavra Mato-grosso).
Quando os inimigos se retiraram nós descansamos dois dias e aí pudemos comer.
O José Ramos de Oliveira e o municiador Belmiro Plese foram guarnecer outros flancos.
Dois dias depois seguimos para a frente. Um lugar muito estranho cheio de morros dificultando as nossas horas de sentinela.
Quando me chamavam eu me escondia e então mandavam outro no meu lugar.
O Mário que era estourado, sempre ia para a sentinela, porque quando falavam o nome dele começava a xingar alto e mandar todos para “pqp” e daí só havia de ir e fazer as suas horas.
Queria que eu fosse junto, mas eu não ia principalmente à noite.
Numa das noites em que o Mário, um rapaz de Bauru e eu fomos fazer guarda avançada (observação) ficamos perto de uma árvore e sofremos um grande susto.
A árvore começou a balançar sem vento nenhum e cada vez mais forte. Calamos a baioneta e fomos examinar e nada.
O rapaz de Bauru falou:
– Cuidado, aí é lugar assombrado eu vou embora.
E foi. O Mário e eu ficamos sozinhos e o Mário aguentou firme, pois não podia xingar, nem gritar.
O sentinela tem que ficar imóvel e sem acender cigarros.
Soubemos depois por uns homens que naquele lugar haviam matado um casal de namorado bem debaixo da árvore.
Ficamos nessa fazenda 15 dias descansando, pois não apareceu o inimigo.
Recebemos ordens para irmos guarnecer um setor ao lado da Força Pública e lá morreu um samanuelense – Alberto Martiri. 
Isso aconteceu na cidade de Pinhal. Nós estávamos na entrada da cidade quando o comandante da Força Pública ia atacar e prender um grupo de inimigos e pediu voluntários do nosso Batalhão.
Alguns se ofereceram entre eles o tal Alberto Martiri.
Ao passar por um bananal encontraram não um grupo, mas um batalhão que atacou de surpresa os soldados da Força Pública.
Foi aí que todos fugiram, mas o Alberto Martiri não podia correr, pois sofria de calos nos pés.
Os jagunços não os prendiam, matavam.
Ficamos muito tristes. Um companheiro viu tudo do seu esconderijo.
Desse lugar viemos para uma fazenda perto da cidade de Atibaia.
Depois de tanto irmos de lado para outro queríamos uma licença para descansar.
Nesse lugar sofremos uma traição. 
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Quando vou continuar a ler a minha namorada me interrompe.
– Você está lendo sem mim! Não quero isso.
– Você voltou a dormir e não quis acordar você. Tudo bem vou voltar a ler em voz alta.
– Obrigado, meu menino Kai. Mas desde o começo, viu?
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Volto a ler como ela quer até chegar ao ponto da traição.
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Do nosso tenente recebemos ordens de guarnecer e mesmo queimar uma ponte para o inimigo não passar, seguir uma patrulha, na frente da qual eu estava.
Num certo lugar percebemos uns vultos no alto do barranco. 
Como era noite e ventava muito nós pedimos a senha e a patrulha não deu a contra senha colocando-se em posição de combate, mas o fuzil-metralhadora deles falhou, foi a nossa sorte.
Nosso sargento não perdeu tempo, deu ordens para atirar. Nós nos atiramos no chão e começou o barulho.
O sargento que estava com a metralhadora não teve tempo de deitar e ele rolou pelo barranco gritando:
– Mãe, água…
Aí tivemos os piores momentos de medo.
O pobre sargento havia recebido nesse dia carta da mãe. 
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Estamos reunidos no domingo à tarde lendo o texto do meu bisavô Uth no quarto de estudos do vô Lolou. Ele chegou antes do fim da leitura. Ficamos em silêncio tentando absorver a dor dessa mãe do sargento.
Lembro que tem algo sobre essa revolução nos arquivos do Lolou, algo de Guilherme de Almeida:
“Quando se sente bater, No peito heroica pancada, deixa-se a folha dobrada, enquanto se vai morrer…”
Depois Lolou rompe o silêncio:
– E daí? O que acharam?
Cinthya é a primeira a falar:
– Seu pai narra muito bem como é estar em uma guerra…
– Mas não é uma guerra, Cinthya. É uma luta entre irmãos da mesma nação…
– É uma guerra sim, Kai. Não importa o que seja pessoas matam e pessoas morrem, mandadas por alguém que, talvez elas nem conheçam quem é o motivo…
– Moça, o motivo era terminar com uma ditadura militar e restabelecer a democracia. Alguma coisa não estava dando certo e parece que apenas os paulistas pegaram em armas contra o ditador.
– Lolou, pelo que estudei o que nós paulistas queríamos era diferente do que a elite queria. Para essa elite a tal “revolução” que animaram os jovens a participar era para restaurar as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo na condução do Brasil.
– Esse é o outro lado da história contada pelo ditador Getúlio e que conseguiu a adesão do Exército do Brasil nos vários Estados para que lutassem e garantissem a permanência de Getúlio no poder.
– Vamos deixar de lado isso porque não ajuda em nada o que precisamos deixar bem claro: Seu pai pegou em armas e foi à luta movido por algum ideal e viu, talvez pela primeira vez, a morte ao lado.
– Tem razão moça!
Fico contente de observar minha namorada liderando nossas conversas e como Lolou se deixa cativar por ela. Surge a vó Júlia:
– Hora do almoço! Todos já lavando as mãos! Senão a comida esfria.
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Após o almoço eu continuo a ler para Cinthya.
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 (Décimo terceiro texto de Uth Ricchetti)
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Só encontramos inimigos por toda parte e tínhamos de chegar às margens do rio e colocar fogo na ponte.
Já era noite outra vez.
Ficamos escondidos atrás de umas árvores e assim evitamos que os inimigos passassem para cá do rio.
De manhã chegou outro Batalhão para substituir-nos.
Nós recebemos a tão desejada licença. Viemos para Campinas para tomar o trem para a capital (São Paulo).
Passamos um apuro, pois encontramos com o Batalhão que havíamos abandonado.
O capitão do Sete de Emergência não nos viu e eu me escondi na privada do trem até o mesmo partir.
Voltamos a São Manuel.
A senhora mãe de Joaquim Ferreira Neto havia feito promessas de assistirmos uma missa na Aparecida de São Manuel, assim que voltássemos da trincheira.
Assistimos à missa e tiramos fotografias. Tenho essa foto na parede de casa.
Matei as saudades conversando com a Lucila e depois de uma semana novamente nas trincheiras, não recebermos fuzis e sim granadas.
Fomos para o Arraial do Souza, perto de Campinas, debaixo de fortíssima chuva.
Estávamos chegando ao fim da revolução de 1932.
O inimigo avançava e ganhava todas as posições.
Saímos a pé desse lugar até Campinas e de lá para Jundiaí onde nos alojamos no Grupo Escolar.
Três dias depois chegamos a São Paulo (Capital) onde depositamos as armas.
Estávamos em Jundiaí com fuzis que recebemos em Jundiaí para seguirmos para a Serra dos Cristais, mas recebemos nova ordem: ficar em São Paulo.
Cheguei à casa de minha tia Carmela (Capital) troquei a farda por roupa civil. Foi a minha sorte.
Os do governo estavam parados em Sorocaba e em Botucatu (e eu viajava para São Manuel), Os que eles encontravam fardados, prendiam e ofendiam muito.
Vou falar agora sobre o que é ir para uma revolução e a permanência nela, o que sentimos e as consequências.
Primeiramente temos que ter sangue-frio, pois o batismo do fogo trás desespero, mas tudo passará logo, pois acostumamos com a permanência dos combates.
As balas que zunem nada lhe farão, pois elas passam muito distantes de sua cabeça e então você trata de se proteger.
O inimigo está visando você e a sua vida esta na sua proteção.
As balas que passam soprando, passaram a dez centímetros de sua cabeça.
O ataque de baioneta (arma branca) depende de sua agilidade e você teve instruções sobre isso nos quartéis. Probabilidade de vida, dez por cento.
O avião, com as suas rajadas de metralhadora, jogando bombas sobre você. A defesa é atirar-se ao chão. Única oportunidade de sobreviver.
Mas com todas essas coisas você acostumará depois de alguns combates.
Permanecendo nos combates vem o sofrimento espiritual: o aconchego do lar, muitas saudades e as perguntas: será que verei novamente os meus? O que acontecerá daqui a minutos, horas ou dias?
Ver os companheiros mortos ou feridos e perguntar a si mesmo: serei o próximo?
Quando tudo acabar como será o nosso reencontro? E os outros que ficaram por lá?
Ir para uma revolução é preciso ser o que chamamos numa trincheira um destemido.
Agora que já falei sobre o que senti numa revolução será preciso pensar em ser “Homem”.
Os fracos acham um suicídio material e espiritual.
Depois que voltamos da revolução juntamente com aqueles que haviam ficado para receber o ordenado do tempo que estiveram na trincheira, todos com saudade das suas casas, nos encontramos e abraçamos nossos entes queridos.
Naquele tempo os soldados recebiam oito mil reis por dia e eu não esperei por esse dinheiro e nem soube se os outros receberam.
Todos os que foram comigo voltaram, menos o Alberto Martiri e o Francisco Borges, que estava desaparecido.
Mas o Francisco Borges não havia morrido, fora ferido e preso, Estava na Ilha das Flores no Rio de Janeiro. De lá escreveu ao meu irmão Hermínio e assim foi providenciada a vinda dele para São Manuel.
Estando todos aqui reunidos, a Associação Comercial prestou-nos uma homenagem.
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Passamos a tarde passeando pelos muitos jardins que Itapelinda tem. Antes não eram tantos…
Na manhã seguinte, após despedidas, beijos, abraços, voltamos de Itapetininga. Cinthya está feliz. Sente-se bem recebida pela família. Comenta a tudo momento como meu pai, Leon Francisco, foi tão amável com ela. Com a minha mãe, muito séria, disse:
– Eu quero que você cuide muito bem desse nosso único filho. Ele foi peralta e aprontava bastante. Mas sempre foi também muito dedicado aos estudos.
E minha namorada abraça minha mãe Carla, sem dizer nada.
Cinthya me diz que era como uma passagem de responsabilidade, um ritual de mãe para a moça que seu filho escolheu.
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Chegamos a São Paulo cinzenta, poluída, barulhenta e fomos para a Cidade Universitária da USP.
Estamos morando juntos no momento. Enquanto ela guarda o carro passeio pelo texto do meu bisavô Uth. Ainda bem que acabou a revolução e ele sobreviveu ileso.
Falo isso para meu avô Lolou, pois acabou de entrar na rede virtual. Ele não concorda. Diz:
– Fosse uma guerra, uma luta armada, uma revolução, o mal causado não tem cura. A pessoa pode voltar aparentemente apenas com feridas e problemas físicos. Mas você está esquecendo da parte mental. Matar pessoas não é mesmo próprio do ser humano. E esses fatos marcam a vida do ex-combatente.
Cinthya chega e fica olhando por cima do meu ombro o que leio e escrevo.
Pede licença para mim e ocupa o teclado.
– Senhor Lolou, minha pátria sofreu muitas guerras, revoluções, lutas armadas. Quando nasci havia a violência do Estado autoritário sobre nós jovens e crianças que não queríamos mais violência e sim democracia. O que você fala sobre as marcas do corpo e na alma quem foi combatente me faz lembrar meus pais e meus avôs. Se as cicatrizes do corpo físico podem até desaparecer, as da mente nunca somem e as pessoas passam a agir com essas perturbações, tomando decisões e se comportando como pessoas com “defeitos”.
– Que bom que você entendeu bem moça o que eu quis dizer. Assim foi meu pai durante a sua vida depois de 1932. Isso marcou o modo dele viver até a morte.
Não estou gostando da relação entre os dois. Sinto ciúmes. Digo para Cinthya sair e me deixar terminar a conversa. Ela cede, mas me olha de modo estranho.
– Lolou vou sair do lap top por estar cansado da viagem. Até mais.
E nem espero a resposta dele e desligo o equipamento. Minha namorada me abraça por trás e diz ao meu ouvido:
– Está com ciúmes de mim com o velho?
Ela dá uma risadinha. Me desvencilho dos braços dela e me levanto. Agarro a namorada e vou carregando, ela é bem leve, até a nossa cama.
– Agora sim, as coisas estão melhorando. Ela diz quando a atiro na cama e caio em cima dela.
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 (Décimo quarto texto do Uth Ricchetti)
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O presidente da Associação Comercial era o senhor Bento de Campos Mello (meu futuro sogro), mas quanto ao namoro com a sua filha ele continuava contra, mas nós dois queríamos namorar. 
Ora brigando, ora namorando.
Quando brigados ela passava pela Casa Ricchetti com o rosto virado, toda orgulhosa como uma Campos Mello que era.
A minha sobrinha e amiga Vera, que trabalhava também na Casa Ricchetti dizia:
– Tio, lá vem o “cabo de vassoura”!
Porque a Lucila naquele tempo era magra e altiva. Mas assim mesmo fomos levando o nosso namoro contra tudo e contra todas as intrigas.
Aconteceu que o senhor Bento descobriu que tinha sido enganado quando entrou como sócio da casa Toledo. Havia um livro da firma como sendo o verdadeiro, mas era o falso, o outro estava escondido no porão da casa comercial. O meu futuro cunhado Fernando foi quem descobriu.
O meu futuro sogro perdeu tudo (pois a firma estava falida). Com dinheiro emprestado ele e a família foram para o Capital (São Paulo) morar em casa de parentes.
Ficaram aqui para terminar o ano escolar: a Lucila, sua irmã Marina, seu irmão Antônio que era professor de latim, juntamente com as duas acima foram morar na casa de um amigo (o Ramires).
Um desses Ramires hoje é padre (o Angelin). Foi tipógrafo da casa Ricchetti e jogou bola comigo.
O meu cunhado também não queria nosso namoro. Nós conversávamos assim mesmo.
A Irmã da Lucila, a Marina namorava o Lauro Correia de Lara e a família também não queria e tudo isso não durou muito, pois o Antônio ficou doente e foi embora para São Paulo, levando as duas irmãs.
Recebi o recado pelo Lauro que todos iam partir. Fui à estação ferroviária e dei um jeito para as despedidas.
A Lucila ao entrar no seu vagão derrubou um pacote nos trilhos e o antigo moleque Uth conseguiu pegá-lo numa breve ginástica. 
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E assim nossa luta pelo namoro em São Manuel acabou. 
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Começou a luta agora em São Paulo (Capital). Depois de alguns dias, arrumei uma folga na Casa Ricchetti e fui a São Paulo descobrir o paradeiro da Lucila.
Passei em frente de diversas casas dos parentes dela. Foi um dos parentes dela, chamado Hermes quem me deu o endereço certo.
Estava (a Lucila) na Rua Sampaio Viana 238 no Bairro Paraíso.
Era a casa da irmã do Hermes, chamava-se (a prima) Maria Elisa Ferreira de Castilho, justamente prima pelo lado materno do meu ex-colega Anísio Floriano de Toledo. Encontrei também com a Marina, irmã da Lucila e ela confirmou o endereço dado pelo Hermes.
Era num domingo e logo depois do almoço segui para o Bairro Paraíso e dei de cara com a Lucila e um casal e mais uma menininha. Havia descoberto o paradeiro. Só nos olhamos e eu estava alegre por ter encontrado o que tanto queria.
Rodei pelo bairro até anoitecer e fiquei numa das esquinas à espera.
Não demorou muito a Lucila desceu acompanhada daquela menina e a pajem da mesma.
Ela disse que não podia mesmo me encontrar, pois estava recomendada pela mãe para evitar isso.
Foi o melhor tempo do nosso namoro.
Encontrávamos bastante passeando pelo Bairro.
A prima Maria Elisa tinha um apelido (Mém) era boa e compreendia o nosso drama. Pedia que tivéssemos juízo e deixava que a gente conversasse à vontade.
A frequência da casa da Mém era só de advogados parentes do Dr. José Ferreira de Castilho, que também era advogado.
A Lucila disse-me um dia que um dos advogados estava querendo namorá-la. Mas ela não deu respostas e continuava a se encontrar comigo e tudo passou. 
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Corro atrás de Cinthya pelas alamedas da Cidade Universitária. 
Ela é ágil e sinto dificuldade de alcança-la. Embora chorando, não deixa de correr e entra em uma das salas do prédio da ECA, Escola de Comunicações e Artes.
Quando chego à portaria, o porteiro não me deixa entrar.
– Cadê seu crachá moço?
– Estudo na Arquitetura e meu crachá ficou lá.
– Sinto, mas não pode entrar.
Saio da portaria e fico esperando que ela saia. Não sei por que ela reagiu de modo tão violento. Disse que eu estava agindo como filhinho de papai, cheio de luxinhos e não queria comer a comida que ela fazia. Não é nada disso, eu penso, estou me sentindo mal do estômago apenas. Quando vou dizer isso a ela, não me deixa falar e sai correndo e chorando. Vou ficar esperando. Uma hora ela tem de sair.
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Depois de duas horas de espera ela sai acompanhada, de braços dados, com um jovem estudante. Eu paro na frente dos dois e tento falar, mas ela se afasta levando junto com o rapaz.
Fico irritado. Sinto muitas cólicas agora agravadas pelo meu estado psicológico. Volto para o apartamento, pensando, que se dane! 
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Para distrair abro os arquivos do Uth e tento ler alguma coisa. Besteira, não consigo me concentrar. Vou ter de ler de novo quando me acalmar.
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 (Décimo quinto texto do Uth).
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De vez em quando embarcava para São Paulo (de trem, levava naquele tempo oito horas). Ia no sábado à noite e passava o domingo com a Lucila e à noite de domingo mesmo eu embarcava de volta para são Manuel.
O meu irmão Hermínio era muito rigoroso na minha ocupação, pois tomava conta da tipografia.
O Fernando, o irmão da Lucila, que estava morando em Santo Antônio da Platina (Estado do Paraná) veio a São Manuel para acabar o noivado com a Araci Padovam e me perguntou como eu ia de namoro com a irmã dele.
Eu respondi que sempre estava na mesma e disse que a Lucila estava morando na casa da parenta deles (Maria Elisa).
O Fernando então me perguntou:
– Você teria coragem de levar uma carta a papai? 
Eu respondi:
– Sim, pode entregar a carta, pois vou logo a São Paulo.
No sábado embarquei para a Capital e encontrando com a Lucila contei-lhe que o Fernando havia me dado uma carta para o senhor Bento e então ela disse:
– Eu vou com você.
Chegando em casa dos pais, ela entrou e avisou o pai que eu estava ali para entregar uma carta. O senhor Bento leu à carta e me perguntou:
– Você conhece o conteúdo da carta?
Eu respondi:
– Não, senhor.
– Pois ele me pede para deixar vocês namorarem. A Catita (Maria Elisa de Campos Mello, sua esposa) e eu consentimos.
Considere-se de casa.
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Quem não gostou foi o irmão da Lucila, o Álvaro. Ele falou:
– Se o Uth entrar aqui eu saio!
E saiu mesmo. 
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Estava contente, mas ao mesmo tempo triste com a atitude do Álvaro, pois nunca fizera mal a ele.
Querendo continuar o nosso romance achei que havia ganho um ponto a meu favor podendo namorar a Lucila em sua própria casa e não me lembrei mais do Álvaro. 
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Dias depois na casa da avó Maria Eulália (avó de Lucila) eu dei o primeiro beijo na minha futura esposa.
Chegando em casa de minha tia Carmela, onde eu me hospedava encontrei uma carta do meu irmão Hermínio. Eu havia pedido para sair no sábado e no domingo e, no entanto passara em São Paulo uma semana.
Estava, pois despedido. E mesmo desempregado estava feliz.
Passara uma semana conversando com a Lucila e até esquecera a obrigação de voltar.
Falei com um amigo (na Capital) e arranjei trabalho numa firma para eletricista, pois eu possuía alguma prática nesse setor. A firma era “Martinho Claro”; grande firma!
O ordenado era pequeno para o ônibus e a pensão. Uns dez dias ainda fui de ônibus e depois a pé, do Cambuci até a cidade.
Mas em minha opinião eu achava que ia vencer.
Um dia encontrei o meu irmão Fausto. Ele me achou muito magro e pálido e perguntou o que havia acontecido comigo e eu contei que havia perdido o emprego em São Manuel e estava trabalhando na Capital.
Ele me levou para a sua casa e lá fiquei muito tempo até o Hermínio me chamar de novo.
Fui tomar conta de uma filial da Casa Ricchetti em Bauru. Essa filial durou pouco.
O Hermínio achava que as despesas eram muito grandes e o lucro pouco e acabou com a filial. Voltei para São Manuel.
Nesse tempo briguei com os meus futuros sogros.
Quando ficamos noivos arranjaram para a Lucila trabalhar na Companhia Telefônica na Seção de Informações. Trabalhava em diversos horários. Num desses horários ela trabalhava até às 10 horas da noite. Voltava sozinha para casa e a Rua Sete de Abril era muito perigosa à noite.
Comecei a ir buscá-la e o meu futuro sogro não gostou e tirou a Lucila do emprego e eu não sabia de nada. Fui buscá-la e não apareceu e só daí fiquei sabendo que ela estava em casa, sem trabalhar.
Ninguém falava nada e a Lucila não aparecia e eu nem chegava perto da casa de meu sogro. Um inferno! Encrenquei com todos.
Eu só queria que contassem o porquê desse sumiço. Eles estavam acabando com o nosso noivado.
Um dia, na Avenida Angélica, quando ia tomar um ônibus vi a Lucila saindo de sua casa na Rua Martínico Prado e fui falar com ela e não consegui.
Ela correu para dentro de casa. Eu entrei na sua casa. Eu entrei na sua casa e só encontrei com a mãe (dona Catita) Ela então falou que a Lucila não queria mais nada comigo. Eu queria saber da própria boca de minha noiva e nada.
Ela entrou em casa por uma das portas e saiu por outra. Então estava tudo terminado mesmo. Adeus noivado!
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Digito para o Lolou:
– E eu digo: Adeus namoro!
– Mas o que é isso? Vocês dois estavam tão bem! O que aconteceu?
– Uma coisa besta, vô Lolou. Estava mal de estômago e indisposto para comer o que ela havia feito. Ela me chamou:
– Está pronto, Kai, vem jantar!
Eu não fui. Estava mal não conseguia nem falar. Ela veio até a cama onde eu estava deitado.
– Não escutou que eu chamei você?
Tentei dizer o que se passava comigo. Mas ela devia estar nervosa com alguma outra coisa e já foi falando sem parar:
– É a minha comidinha né? Não é como a sua lá dos seus pais e avós, né?
Como eu não conseguia dizer nada, mas tentava levantar da cama, ela se enfureceu me jogou de volta para a cama e saiu correndo do quarto, do apartamento, chorando. Fui atrás, mas não consegui falar com ela.
– Calma Kainã! Ela volta e você explica tudo!
– Ela não volta. Não voltou. Faz dias que não aparece aqui ou na faculdade. Vou sair da rede. Estou nervoso.
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Sem a namorada só me resta continuar a ler a saga do Uth Ricchetti.
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 (Décimo sexto texto do Uth)
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Voltei para a casa do meu irmão Fausto
Dias depois meu irmão arrumou emprego para mim numa Seção do Departamento da Municipalidade. A Seção era de águas e eu viajava muito juntamente com os engenheiros.
Numa dessas viagens fui até a cidade de Cotia. Levava um dinheiro para obras de águas e esgotos. Tomei muita chuva nesse dia.
Chegando em casa meu irmão Fausto soube por uma das minhas amigas que na casa ao lado morava uma bonita loura.
Essa moça estava há tempos me observando. Eu ainda não sabia, pois estava noivo da Lucila. Agora que terminamos eu iria notar a vizinha. Quando noivo eu entrava em casa, jantava e logo saía.
A loura esperava com paciência. Numa tarde quando ela ia ao dentista eu a segui e aí começamos o namoro.
Seu nome, Marieta. Trabalhava com a madrinha, uma francesa muito chata. Tinha um irmão e uma irmã. Família simples. Todas as vezes que ela ia ao dentista nós nos encontrávamos. Era meiga, dócil mesmo. A mãe gostou logo de mim. O pai, francês, bebia muito e não foi com a minha cara. (Que sina a minha!).
O senhor pai de Marieta nem me recebeu e a mãe pediu desculpas pela falta de educação do marido.
A tal madrinha contava ao pai da moça o nosso encontro. Conversávamos quando podíamos. Ela arrumou um jeito de me mandar uns bilhetes enrolados numa pedra e atirava para o lado de casa. As respostas iam enroladas para o lado da casa da moça. Assim era a nossa correspondência, sempre de madrugada e marcávamos assim os nossos encontros.
Nossos encontros protegidos da mãe dela e da irmã ora no bairro da Mooca, na Igreja Coração de Maria, onde ela era “filha de Maria”. (uma congregação católica).
No mês de maio era o tempo que mais nos encontramos. Na Igreja Coração de Maria, eu comecei amizades com os congregados. Fiquei amigos de todos. O presidente da Congregação pediu a minha transferência de São Manuel (Congregação) para o Coração de Maria.
Na primeira eleição sai vencedor como vice-presidente. A outra chapa saiu perdendo e o vice era um tal de Artur que gostava de Lucila.
O irmão da Marieta era também congregado mariano. Era contra o nosso romance, mas depois ficou muito meu amigo.
Essa vice-presidência durou pouco.
No próximo carnaval, o padre quis que fizéssemos retiro nos três dias. Protestei (eu estava como presidente). Eu achava que fosse facilitado e quem desejasse poderia ir aos bailes. Disse-lhe, depois, que ser católico não era ser escravo. O padre não gosto e declarou:
– “Aquele que tomasse parte no Carnaval seria suspendo”.
Nomeou uma comissão para fiscalizar. Protestei mais de nada valeu. Nós tínhamos de ficar na Congregação até a meia-noite. Eu protestei outra vez. Achava tudo um absurdo.
Quando terminou o carnaval a comissão apresentou uma lista enorme de quem esteve nos bailes. Tanto falei dessas barbaridades que fui expulso e a diretoria em protesto pediu demissão. Só ficaram os santos do pau oco. Formaram uma nova diretoria da vontade deles. Ninguém foi expulso. Na minha diretoria estavam dois irmãos da Lucila.
Continuando o namoro com a Marieta.
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Eu leio sozinho, sem a Cinthya. Mas perdeu muito a graça de ler esses textos. Eu gostava das observações que ela fazia. De qualquer modo continuo a ler.
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Meu irmão Hermínio abriu uma filial em Bauru que recebeu o nome de Casa Ipiranga. Fui tomar conta juntamente com o Marcílio Juliano, a Odete minha sobrinha e mamãe.
O meu irmão Hermínio vinha aos domingos e se encontrava lá com a esposa que estava com a gente. Eu tomava conta da loja e o Marcílio Juliano na tipografia.
Duas vezes por mês ia a São Paulo ver a Marieta. Ia aos sábados à noite e voltava no domingo à noite.
A filial durou seis meses. O meu irmão Hermínio achava que não ia dar lucro. Muitos deram conselhos para que ele aguentasse os primeiros tempos. Nada Voltamos mesmo par São Manuel e daqui para a Capital (só eu). Fui arrumar outro emprego.
Nesse tempo a Lucila veio da casa da prima e soube do meu namoro com a Marieta. A Lucila conhecia algumas “filhas de Maria” (uma congregação da Igreja Coração de Maria). Conhecia também meu amigo Osório. Era congregado mariano como eu. Ele achava que eu e a Lucila ainda esperávamos ter um futuro juntos. Eu, porém, não queria saber de nada. Havia sofrido muito durante aquele romance.
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Lolou não entra na Internet já faz alguns dias. Acabei lendo muitos textos do bisavô Uth e queria comentar com ele. Por que não entra?
Queria também dizer a ele que até que enfim a minha ex-namorada veio até aqui no apartamento.
Ouviu tudo o que tinha a dizer. Deu um sorriso triste dizendo que a vida é assim mesmo, feita de encontros e desencontros, que estava saindo com o Moacir, que estuda na ECA, mas era mais amizade.
Se despediu de mim. Me deu um abraço, não aceitou o meu beijo, virando o rosto e se foi. Sinto saudades dela. Embora não sinta que ela quer continuar nosso namoro, fiquei contente por ter vindo até aqui.
Se Lolou não entrar na rede para falar comigo até amanhã eu vou ligar para ele pelo celular.
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 (Décimo sétimo texto de Uth Ricchetti)
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A Marieta foi muito meiga e boa na pior hora da minha vida.
Aguentava a madrinha e o próprio pai contra nós.
Eu evitava conversar por conversar com a Lucila para não ferir a Marieta. Só de conversar com suas amigas ela ficava triste e calada. O Osório falava sempre com a Lucila, mas eu saía de perto.
Um dia a Marieta veio chorando e me perguntou se eu ainda amava a Lucila e eu perguntei:
– Por quê?
– Ora, pois, você não sabe que a Lucila viu a aliança de noivado no meu dedo e disse: “Não adianta essa aliança aí no seu dedo menina. Quem vai casar com ele sou eu.”.
Eu disse a Marieta:
– Olha, a Lucila foi o passado e você é o presente. E ela falou:
– Duvido que a Lucila ame tanto você como eu amo!
E acontece que estou me casando com Lucila no dia 19 de janeiro de 1939.
Alguém estava na igreja escondida, num cantinho chorando.
Era a Marieta. 
Mas isso eu conto mais tarde.
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No dia 19 de janeiro de 1938 encontrei novamente com a Lucila, no bairro Paraíso e o nosso amor de infância voltou.
Marcamos casamento para um ano depois. Ninguém teve culpa desse reencontro. Apenas aconteceu ou foi o destino ou um juramento que fizemos aos pés de Cristo antes de embarcar para a Revolução.
Houve um motivo sim, pois eu havia voltado a São Manuel para continuar a trabalhar na casa Ricchetti e aí conheci uma garota de nome Maud.
Minha irmã Helena estava casada com Eduardo Alves, gerente do armazém da fazenda Araguá.
Vindo a São Manuel visitar mamãe (ela Helena) me convidou para passar uns dias com ela e qual não foi minha surpresa ao chegar lá.
Outro trabalhador do armazém era justamente o pai da tal Maud. 
Maud havia sido namorada do administrador da fazenda Sobrado e ele se chamava Pedro Urquiza. Estava trabalhando também no tal armazém da fazenda. Fiquei amigo dele.
Nas nossas conversas ele me alertou quanto à Maud.
– Cuidado! Ela vai dar dores de cabeça a você! A sua irmã não vai gostar vendo você em tal companhia.
E não gostou mesmo. Eu queria uma companheira para andar a cavalo, passear por toda a fazenda e era só.
Os pais de Maud logo começaram a fazer convites para almoçar. Meu cunhado Eduardo falou:
– Cuidado Uth! Você veio para São Manuel para trabalhar na Casa Ricchetti, para se casar com a Marieta e fica aí saindo com essa moça.
Fiquei mais uns dias na fazenda e depois fui trabalhar na Casa Ricchetti.
Tudo corria bem se o pai dela não tivesse colocado no jornal “Tempo” o nosso noivado e cartões impressos de participação.
Fiquei louco de raiva, pois eu não havia falado nada disso. Fui falar com o pai dela e ele disse simplesmente:
– Pois eu considero você noivo da Maud, pelo tempo que vocês passaram juntos na fazenda.
Caíra numa armadilha. Mais eu era macaco velho e saíra dessa.
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 (continua)
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Saiu na Tv Tem: 'Centro Cultural de Itapetininga recebe exposição do ateliê 'Arte da Vida''

Serão expostas 40 obras até o dia 23 de novembro. Entrada é gratuita. Obras são de diversos estilos, como abstrato, grafite e acadêmico.

Exposição de obras de arte ficará até dia 23 de novembro em Centro Cultural (Foto: Divulgação/Prefeitura de Itapetininga)Exposição ficará até dia 23 de novembro em Centro Cultural (Foto: Divulgação/Prefeitura de Itapetininga)

O Centro Cultural e Histórico ‘Brasílio Ayres de Aguirre’, em Itapetininga (SP), recebe a exposição do artista e professor Juraci Fernandes, pertencente ao ateliê “Arte da Vida”. Serão 40 obras expostas, que ficarão até o dia 23 de novembro. A entrada é gratuita.

De acordo com o professor, as obras são dos mais variados estilos: abstrato, semi abstrato, surrealista, grafite, geométrico e acadêmico. Elas são pintadas por Juraci e também pelos alunos com idades entre 10 e 82 anos.

A exposição está aberta para visitas de terça a sexta-feira, das 9h às 18h. Quem visitar a exposição ganhará um cupom para concorrer a dois quadros em dois sorteios. O Centro Cultural e Histórico ‘Brasílio Ayres de Aguirre’ fica no Largo dos Amores, s/n. Telefone 3272-3401.




Prefeitura de Itapetininga inaugura novo Auditório Municipal dia 18 de novembro

Na estreia, o músico Breno Ruiz realizará uma apresentação gratuita, acompanhado do músico Renato Braz

A partir do próximo dia 18 de novembro, Itapetininga ganha um novo espaço para apresentações culturais. Anexo ao paço municipal, o Auditório Municipal “Alcides Rossi”, que será reinaugurado na próxima semana, tem capacidade para 245 pessoas e conta com ótima estrutura.

A primeira atração já está confirmada. O artista itapetiningano Breno Ruiz realizará uma apresentação, acompanhado do músico Renato Braz. A abertura ficará por conta da Banda String Jazz. O evento é gratuito e aberto ao público.

O Prefeito de Itapetininga, Hiram Jr, comemora o final das obras, “É muito importante para a nossa cidade ter lugares como este. O novo Auditório Municipal tem um espaço amplo e moderno, com tudo de qualidade para que a população possa aproveitar. Acredito que o auditório ficará como um legado da nossa administração, principalmente para a cultura de Itapetininga.”

As obras de revitalização do Auditório Municipal “Alcides Rossi” levaram pouco mais de um ano para ficaram prontas com um custo aproximado de 1 milhão de reais.

Secretário de Cultura e um dos principais agentes culturais da cidade, Maurício Hermman, também comenta sobre a revitalização do auditório, “Para a cidade é fundamental. Além de ser uma nova opção para apresentações culturais e artísticas, fomenta a cultura e incentiva os artistas locais. A partir do dia 18, Itapetininga ganha um lugar moderno e amplo. O músico Breno Ruiz vai abrir os trabalhos e será o primeiro de muitos artistas a se apresentar.”.

Quem foi Alcides Rossi?

Alcides Rossi nasceu em Capivari e residiu por pouco tempo em Capão Bonito. Além de receber o título de cidadania de Itapetininga, Alcides também foi homenageado pela Câmara Municipal deste município com o Diploma de Honra ao Mérito, concedido pela sua atuação dinâmica e progressista.

Com espírito aberto para todos, democrata, acatava a opinião popular, sem contudo usar da força que possuía, através da comunicação, com a qual conseguiu dirigir, com propriedade, a saudosa Rádio Difusora PRD 9, durante quase 48 anos.

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Jose Coutinho de Oliveira: Nobilistica

José Coutinho de Oliveira: Três Poderes

 foto-jose-coutinhoTentarei falar hoje de uma forma resumida e descomplicada sobre a tripartição de Poderes. Diz a Constituição brasileira de 1988 no artº 2º que ” São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.” Vejamos então mais ou menos como surgiu a necessidade de se dividir o Poder. No império brasileiro como sabemos havia além dos três clássicos Poderes o Poder Moderador que era exercido pelo imperador. A nossa monarquia diferentemente da inglesa era dualista, ou seja, o monarca também agia no comando do país. Na Inglaterra, não. Lá desde a Revolução Gloriosa de 1688 ele é monista, ou seja, o Poder é exercido pelo 1º Ministro ou Prime Minister ou Chefe do Governo que provém do Partido majoritário no Parlamento. Pois bem, falemos então da divisão que existe nas repúblicas. A necessidade de dividi-lo já foi prevista por Aristóteles que fala do Poder Deliberativo, do Poder Executivo e do Poder Judiciário. O primeiro parece que recebia o nome de ekklesia, ecclesia, assembleia. O terceiro parece que recebia o nome de Dikasteria. Curioso é o nome que aquele filósofo dá aos cargos de almirante e general de cavalaria, ou seja, navarco e hiparco. O assunto todavia se tornaria sério a partir de Monstesquieu que no livro “O Espírito das Leis” defende a famosa tripartição dos Poderes. Antes dele, porém houve Locke que também já previra tal tripartição. Os três Poderes são primeiramente independentes, mas não antagônicos, ou seja, agem em cooperação. Cada um deles é tão efetivo quanto o outro, ou em outras palavras, são equipotentes, todavia, um Poder deve limitar o Poder do outro, denominado em “O Federalista” de Freios e Contrapesos “em que os poderes exercem suas funções e fiscalizam as funções dos outros, evitando o abuso do poder.” “O Federalista” foi elaborado em 1781 nos Estados Unidos, antes, portanto da elaboração de sua Constituição que se deu em 1787. Exemplo de freios e contrapesos devem ser os poderes de veto, derrubada dos vetos, as Adins ( Ação Direta de inconstitucionalidade), as CPIs ( Comissões Parlamentares de Inquérito) e os impeachments. Antes de encerrar e a título de curiosidade gostaríamos de lembrar três curiosos graus de hierarquia: comodoro, corregente e vice-comendador.
José Coutinho de Oliveira



Dolores Tucunduva: 'A modernidade líquida'

Maria Dolores Tucunduva
Maria Dolores Tucunduva

Mais um texto erudito, elucidativo e contributivo para o nosso conhecimento: Dolores Tucunduva escreve sobre ‘A modernidade líquida e a vida humana transformada em objeto de consumo’

A atualidade é conceituada por Zygmunt Bauman como “modernidade líquida”, pela incapacidade de manter a forma. As relações, instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar. Nesse contexto, as vidas humanas são transformadas em objetos de consumo. O ser humano deixa de ser sujeito e passa a ser objeto na relação de compra e venda.
Introdução
O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman é um dos pensadores, em seu âmbito de atuação, que alimentam reflexões sobre a realidade consumista na qual o ser humano está inserido. Sua pesquisa não se limita a uma só área da academia: abrange a sociologia, a filosofia e a ciência política, analisando as complexas relações nas quais as pessoas se movem. Para o autor, o consumo é uma teia de relações bem construída em que não restam muitas alternativas na luta pela sobrevivência.
O ser humano, ancorado no discurso consumista, vive a sua vida sem se questionar sobre o que realmente acontece à sua volta. Vive-a como espectador, não como protagonista. Num ambiente incerto como o atual, o consumo aparece como resposta à satisfação das ansiedades dos indivíduos. Isso é fundamental para compreender Bauman, quando aponta a transformação da vida humana em objeto de consumo na contemporaneidade.
A comodificação ou recomodificação das vidas humanas constitui longo processo que se iniciou na sociedade moderna e se torna visível no cenário da sociedade contemporânea. Bauman a define como “modernidade líquida”, devido às mudanças rápidas que ocorrem sem haver um embasamento firme ou algo que dê forma. A ideia é adaptar-se às situações como a água faz, de acordo com o recipiente em que é inserida.
O presente artigo justifica-se inicialmente pela valoração da vida humana diante de toda estrutura e qualquer regulamento vigente. A estrutura existe para auxiliar o ser humano, e não o contrário, como apregoa a modernidade líquida. Nesse ambiente, a pessoa é tratada como uma engrenagem da máquina chamada consumo. Deve alimentar o sistema com a sua vida, sem perceber que também é um objeto de desejo a ser exposto no mercado de compra e venda.
1. Modernidade líquida
O ser humano vive em um novo período da história, sendo diversos os termos e conceitos utilizados para descrever esse contexto. Um dos conceitos mais usados para definir esta fase histórica é “modernidade”. Semelhante termo soa redundante, por incluir toda a realidade que circunda. Zygmunt Bauman define a modernidade como “líquida”, fluida, a impermanência e a constante mudança de forma nela verificadas nunca têm um término:
“O conceito de sociedade líquida caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades “autoevidentes”. Sem dúvida a vida moderna foi desde o início “desenraizadora”, “derretia os sólidos e profanava os sagrados”, como os jovens Marx e Engels notaram. […] A nossa é uma era, portanto, que se caracteriza não tanto por quebrar as rotinas e subverter as tradições, mas por evitar que padrões de conduta se congelem em rotinas e tradições (PALLARES-BURKE, 2004, p. 304-305)”.
Bauman conceitua a modernidade como líquida devido à sua fluidez e mobilidade, conforme os recipientes apresentados para serem preenchidos. Isso não ocorre com os sólidos, pois estes têm forma definida e não se flexibilizam com as pressões impostas. Apropriando-se de uma afirmativa de Marx, Marshall Berman define esse fenômeno com a máxima: “Tudo o que é sólido desmancha no ar”.
A liberdade adquirida surgiu com o derretimento dos sólidos, tirando o indivíduo da terra firme e levando-o ao oceano das incertezas. A passagem para o estágio final da modernidade não produziu maior liberdade individual: “Não no sentido de maior influência na composição da agenda de opções ou de maior capacidade de negociar o código de escolha. Apenas transformou o indivíduo de cidadão político em consumidor de mercado” (BAUMAN, 2000, p. 84). A liberdade obtida nos tempos atuais é ilusória. A pessoa vive sempre na incerteza, pois sempre há a possibilidade de uma escolha melhor. O pensamento não é mais denso e ordenado, mas leve e desordenado, para poder abarcar tudo o que a vida pode oferecer.
Para caracterizar a modernidade líquida, Bauman faz uma diferenciação no modo pelo qual as vidas humanas convivem. As comunidades existentes na modernidade sólida eram éticas. Bauman também as chama de compreensivas e duradouras, ou seja, genuínas. Elas se baseavam em normas e objetivos, nos quais os destinos eram partilhados visando à sua permanência. Na modernidade líquida, ocorre o inverso; Bauman designa suas comunidades como estéticas. Elas se reúnem em torno do entretenimento, de celebridades e de ídolos. Essas comunidades estéticas, comunidades-cabide, dificilmente oferecem laços duradouros a seus membros.
As comunidades estéticas não permitem a condensação das comunidades éticas. Impedem a sociabilidade entre as pessoas e, assim, contribuem muito para a perpetuação da solidão do homem moderno. Para isso tornar-se possível na modernidade líquida, com o desmantelamento da modernidade sólida, foi preciso adotar nova racionalidade. Surge um indivíduo diferente de tudo o que se viu na história humana. O ser humano líquido é um dos reflexos do novo jeito de pensar, no qual “virtualmente todos os aspectos da vida humana são afetados quando se vive a cada momento sem que a perspectiva de longo prazo tenha mais sentido” (PALLARES-BURKE, 2004, p. 322). A certeza está na constante mudança, devendo cada indivíduo buscar por si próprio uma maneira de melhor sobrevivência
Vida humana
Bauman entende que o ser humano atual é um produto do que acontece na modernidade líquida. Nos seus escritos, ele aborda o indivíduo como alguém que integra uma sociedade e responde a ela, modelando-se aos seus ditames. A corrente filosófica chamada “estruturalismo” serve de parâmetro para compreender esse pensamento do filósofo e sociólogo polonês. Segundo essa escola, “a categoria ou ideia de fundo não é o ser, mas a relação, não é o sujeito, mas a estrutura. […] Os homens não têm significado e não existem fora das relações que o instituem e especificam o seu comportamento” (REALE; ANTISERI, 2008, p. 83).
As relações atravessam toda a obra de Bauman, que vê o ser humano transformado numa estrutura flexível programável para o consumo. As interações sociais e os laços afetivos estão cada vez mais fracos, devido à modernidade líquida. Tudo passa a ter um cunho econômico, focalizando a materialidade nas relações (cf. BAUMAN, 2007, p. 18). O mundo atual oferece muitas escolhas e cada um pode agarrar uma oportunidade e levá-la consigo no seu cotidiano. “Afinal de contas, perguntar ‘quem você é’ só faz sentido se você acredita que pode ser outra coisa além de você mesmo” (BAUMAN, 2005, p. 25). Na época líquido-moderna, o mundo está repartido em fragmentos mal ajustados e as existências individuais seguem o mesmo parâmetro. Elas estão fatiadas numa sucessão de episódios fragilmente conectados.
Identidade é uma das palavras que vêm ganhando mais espaço atualmente, quando se faz referência à vida humana e ao papel do indivíduo no meio em que vive. Se no passado a “arte da vida” consistia em encontrar os meios adequados para realizar os fins propostos, agora se trata de testar, um após o outro, todos (as inúmeras possibilidades) os fins, de acordo com os meios ao alcance. A construção da identidade é infindável, pois seus experimentos nunca terminam. Quando o indivíduo assume uma, existem outras aguardando a sua vez. A liberdade de escolher uma identidade que esteja à disposição no mercado de consumo acaba sendo um valor em si mesmo.
A liberdade do indivíduo ante os mecanismos da mídia de massa refere-se à escolha entre o leque de possibilidades oferecido. O indivíduo é livre desde que seja maleável perante as investidas dos modismos criados e desmontados pelos meios de comunicação de massa:
Esta insistência na não fixidez, na liberdade de manobra, na prontidão para acrescentar e absorver novas experiências e novas ocasiões de prazer, seja o que for que essas ocasiões venham a mostrar ser, adequa-se, em última análise, com a contingência essencial, e com o caráter episódico e fragmentado, “não sistêmico”, da existência pós-moderna. […] O traço mais vincado da “qualidade de vida” é existir sempre sob a forma de uma imagem, ao mesmo tempo em que essa imagem se encontra em perpétua mudança (BAUMAN, 1995, p. 86).
O protótipo do homem modulado deve ser provisório e não universalizante. Foi justamente isso que a modernidade líquida fez na formação da identidade dos indivíduos. Trata-se de processo contínuo e incessante. A cópia de modelos prontos e acabados pela mídia é algo que se aplica com eficácia ao indivíduo modulado, que não deixa de ser alguém que consome. O único personagem que os praticantes do mercado podem e querem reconhecer e acolher é o Homo consumens: “o solitário, autorreferente e autocentrado comprador que adotou a busca pela melhor barganha como uma cura para a solidão e não conhece outra terapia” (BAUMAN, 2004, p. 86). Ele é o único capaz de manter a economia em movimento, sem questionar as influências que levam a seguir determinado exemplo e depois descartá-lo como se troca de roupa.
Consumo
O consumismo é um conceito novo nos dicionários de ciências humanas, especialmente nos de filosofia. O termo começa a sair do âmbito estritamente econômico e sociológico, ganhando um significado dentro da filosofia: quando o ser humano deixa de ser sujeito e passa a ser objeto na relação de compra e venda. Anteriormente à primeira metade do século XVIII, época em que a Revolução Industrial começava a se propagar, poucas referências são encontradas sobre o consumo, como é entendido atualmente.
O consumidor estava virtualmente ausente do discurso do século XVIII. De modo significativo, só aparece em sete dos 150 mil trabalhos da coleção on-line sobre esse século – duas vezes como cliente privado, […] uma como cliente que sofre com os altos preços dos comerciantes e […] três em referência ao tempo (“o veloz consumidor de horas”) (TRENTMANN, apud BAUMAN, 2008, p. 71).
O consumo era visto como um componente secundário, com pouca relevância para as teorias econômicas e, menos ainda, para a vida cotidiana concreta. Não aconteceu nenhuma mudança radical no século seguinte, apesar do aumento expressivo e bem documentado nas práticas de vendas, na publicidade e nas lojas.
Não há nada desligado das estruturas econômicas vigentes. A tese do fetichismo da mercadoria de Marx também é conhecida como alienação. Segundo essa tese, objetos tornam-se sujeitos e as pessoas tornam-se objetos, ocorrendo uma inversão radical de valores. Com efeito, o ser humano foi sendo coisificado cada vez mais no capitalismo. Está arraigada na sociedade atual a noção de que tudo o que o ser humano produz é algo vendável ou apresentável com o intuito de obter proveito próprio. A pessoa tenta passar uma imagem de desejo às outras como se fosse uma mercadoria à venda em uma loja.
O consumo em si não tem um núcleo, mas, sim, várias estruturas que servem para que ele se perpetue continuamente. Para elaborar uma visão coesa dos consumidores e de suas estratégias de vida, deve-se “reconhecer que esses mercados estão necessariamente incrustados em complexas matrizes políticas e culturais que conferem aos atos de consumo sua ressonância e importância específicas” (BAUMAN, 2008, p. 34).
O processo acontece de forma sutil, a ponto de o indivíduo nem perceber o quanto é modelado à racionalização da modernidade líquida. “O consumo, pelo fato de possuir um sentido, é uma atividade de manipulação sistemática de signos” (BAUDRILLARD, 1993, p. 206). Entra aí o papel das forças econômicas que determinam e direcionam as escolhas dos consumidores, visando ao seu proveito. Nesse jogo de interesses, o Estado vem sendo capitalizado e orientado pelos grupos econômicos a propagar o estilo consumista de viver aos seus cidadãos.
“Quando o Estado reconhece a prioridade e superioridade das leis do mercado sobre as leis da pólis, o cidadão transforma-se em consumidor” (BAUMAN, 2000, p. 59). Ele torna-se cada vez mais individualista, pensando em seus próprios ganhos, enquanto aceita cada vez menos a necessidade de participar no governo do Estado. Aumenta a distância entre o ideal de democracia e a sua versão real existente. O que interessa ao cidadão é o consumo próprio, reduzindo-se o mundo a uma gigantesca loja de departamentos, com prateleiras cheias das mais variadas ofertas.
O questionamento básico sobre o consumo atualmente é que ele foi redimensionado, passando da ideia de compra de mercadoria e serviços para a da configuração de novas relações sociais, principalmente no âmbito cultural. No contexto atual em que o ser humano se insere,
[…] ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria, e ninguém pode manter segura sua subjetividade sem reanimar, ressuscitar e recarregar de maneira perpétua as capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável. A “subjetividade” do “sujeito”, e a maior parte daquilo que essa subjetividade possibilita ao sujeito atingir, concentra-se num esforço sem fim para ela própria se tornar, e permanecer, uma mercadoria vendável. A característica mais proeminente da sociedade de consumidores – ainda que cuidadosamente disfarçada e encoberta – é a transformação dos consumidores em mercadorias (BAUMAN, 2008, p. 20).
O sonho dos consumidores é tornarem-se agradáveis no mercado das pessoas. Para isso, devem destacar-se da massa uniforme, usando tecnologias que o mercado consumidor oferece. É uma estrutura que se retroalimenta. Na sociedade de produtores, as pessoas eram valorizadas pelo papel que desempenhavam e seu desempenho financeiro era um prêmio para medir o valor e a dignidade delas segundo sua produção. No novo modelo consumista imediatista, o que interessa é a capacidade de consumir, mesmo que não haja grandes rendimentos.
A forma de planejar e organizar a vida na modernidade líquida é antagônica à da modernidade sólida. As relações devem ser estabelecidas a curto prazo, aproveitando as chances que a vida oferece, abandonando as anteriores como quem troca de roupa. Planejamentos para a vida toda parecem ridículos, pois sacrificam os desejos momentâneos em vista de algo posterior no futuro.
As estratégias de marketing que faziam parte do âmbito econômico passam a atuar no âmbito existencial. Os objetos de consumo e as vidas humanas adquirem equivalência. Isso porque o consumo ganha nova significação na modernidade líquida, segundo Bauman. É o processo no qual as vidas humanas se transformam em objetos de consumo, indo muito além da simples ideia de compra e venda de mercadorias.
O objetivo crucial, talvez decisivo, do consumo na sociedade de consumidores (mesmo que raras vezes declarado com tantas palavras e ainda com menos frequência debatido em público) não é a satisfação de necessidades e vontades, mas a comodificação ou recomodificação do consumidor: elevar a condição dos consumidores à de mercadorias vendáveis. […] Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os torna membros autênticos dessa sociedade (BAUMAN, 2008, p. 76).
Os indivíduos devem observar os mesmos parâmetros que gostariam fossem seguidos pelos produtos a serem consumidos. São atraídos às lojas com o objetivo de “encontrar ferramentas e matérias-primas que podem (e devem) usar para se fazerem ‘aptos a serem consumidos’ – e, assim, valiosos para o mercado” (BAUMAN, 2008, p. 82). Longe de ser fácil, essa é uma tarefa extremamente angustiante para os consumidores, devido à volatilidade do mercado e a inexistência de um porto seguro.
Na academia, a voz de Bauman soa como denúncia da transformação do ser humano em mercadoria no âmbito da modernidade líquida. A doutrina é incutida desde a educação escolar e os meios de comunicação, amarrando a pessoa dentro de uma estrutura consumista. “É melhor que as crianças se preparem desde cedo para o papel de consumidores/compradores ávidos e informados – preferivelmente desde o berço. O dinheiro gasto no seu treinamento não será desperdiçado” (BAUMAN, 2007, p. 142). A mentalidade consumista perpassa toda a vida humana, transformando as atividades cotidianas em algo que pode ser mercantilizado. As relações com os outros seres humanos, incluindo os amigos e membros da família, passam a ser vistas em termos de mercado, devido à mentalidade consumista. A “mercadorização” das vidas humanas é o estágio mais violento do capitalismo parasitário.
Conclusão
Não há como negar o papel do consumo na construção da modernidade, da ética e da própria antropologia na atualidade. Com o consumo, Bauman busca explicar a forma de viver dos seres humanos. O autor traz o termo consumo para dentro do campo da filosofia, indo além das abordagens então existentes nos campos da economia, da sociologia e da psicologia.
O consumo, na visão de Bauman, é a transformação da vida humana em mercadoria, noção que remete à segunda tese de Marx, o fetichismo da mercadoria. Essa tese possui dimensão normativa, sendo parcialmente válida no pensamento sociológico contemporâneo. Marx diz que o fetiche recorre à região nebulosa da crença. Os objetos tornam-se sujeitos e as pessoas viram objetos, numa total inversão de valores.
As relações sociais e os laços afetivos estão cada vez mais vulneráveis na modernidade líquida. O cunho mercadológico passa a interferir nas relações afetivas, focalizando a materialidade do ser humano. Nunca houve tanta liberdade na escolha de parceiros nem tanta variedade de modelos de relacionamentos; no entanto, nunca os casais se sentiram tão ansiosos e prontos para rever ou reverter o rumo da relação. A relação deixa de existir quando sua utilidade e seu prazer já não despertam o interesse do indivíduo, que pode substituí-la sem se importar com os sentimentos da outra pessoa.
A insatisfação nas relações revela profundamente uma insatisfação consigo mesmo, ou seja, por mais que o indivíduo esteja sempre atualizado, nunca será a melhor mercadoria no mercado da afetividade. O medo e a ansiedade de ficar de fora são eminentes. Essa situação é reafirmada na mídia com os “reality shows”, como, por exemplo, o Big Brother. A eliminação e o descarte são constantes e todos correm o risco de sair de cena, mesmo que cumpram corretamente as obrigações.
Os sites de relacionamento criam cada vez mais espaços para confissões públicas da vida íntima dos indivíduos. Isso para que as especificações das mercadorias sejam bem-feitas, a fim de chamar a atenção de possíveis pretendentes que queiram estabelecer um relacionamento. A vida interior de cada um é exposta na mídia, já não sabendo os adolescentes diferenciar o que pertence ao público e ao privado. Na busca de serem atraentes e famosos, dificilmente os jovens pensam em construir uma carreira sólida nos campos da arte, da ciência, da filosofia, da tecnologia, entre outros. Querem tornar-se celebridades e ser desejados como objetos de consumo, mesmo que por breve momento.
Destaca-se atualmente o grande uso de antidepressivos. Na sociedade de consumidores, nem todos conseguem ser celebridades ou a melhor opção no mercado. Precisam ser lembrados para serem valorizados e não conseguem superar o descarte. O sofrimento e o modo de aliviar as dores também alimentam o sistema, pois pensam que com medicamentos podem resolver o problema. As pessoas passam a acreditar que, para cada problema, há uma solução na loja. Não foi provado que essa nova atitude diminui as dores humanas; no entanto foi comprovado, além de qualquer questionamento, que a induzida intolerância à dor é fonte inesgotável de lucros comerciais.
Ressalta-se que o consumo aliena a vida humana de sua capacidade de refletir, pois o uso livre e consciente da razão limitaria a manipulação. Tem forte influência no consumo a exaltação do tempo presente em detrimento do passado e do futuro. Na vida “agorista” dos indivíduos na modernidade líquida, o motivo da pressa é, em parte, o impulso de adquirir e juntar. Mas o motivo que torna a pressa de fato imperativa é a necessidade de descartar e substituir. Verifica-se que o nível da velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.
As metanarrativas cederam lugar a informações e dados pontuais. O imanentismo presente na vida das pessoas implica explorar e fazer o momento em que se vive de prazer um instante eterno. Essa nova racionalidade não deixa de ser a procura de algo sólido em que se possa ancorar em confronto com a breve existência.
O capitalismo parasitário é que propulsiona essa ansiedade de construir-se a si mesmo com a cultura de consumo. Consumir, em Bauman, nada mais é do que o homem investir na avaliação social de si próprio. Na sociedade de consumidores, traduz-se como vendabilidade. Isso significa obter as qualidades necessárias para atender a demandas de mercado, tornando-se atraente. As dívidas ocorrem na opção por novos produtos, ainda que não possuam o poder aquisitivo para tanto. Essas pessoas nunca foram presas em cadeias, mas encontram-se presas às mercadorias que compraram ou haverão de adquirir. O prazer da compra não dura mais que uma semana, e a dívida talvez perdure anos. Alguém deve ganhar com isso, pois alimenta continuamente a roda da economia. Esse endividamento pode ir além da concepção monetária, sendo a vida exaurida e sugada pelo sistema econômico. A pessoa acredita que é livre, mas no fundo suas escolhas são fabricadas e apresentadas em uma gama de possibilidades preestabelecidas.
Se designamos como otimista a pessoa que entende que a humanidade está vivendo na melhor das possibilidades e o pessimista como aquele que desconfia que o seu oponente esteja certo, Bauman não é otimista nem pessimista na sua descrição do homem como mercadoria, mas relata a situação atual e como ela veio a tornar-se manifesta. O autor acredita que outro mundo – alternativo e, quem sabe, melhor – seja possível e que os seres humanos sejam capazes de tornar real essa possibilidade. Mas também – infelizmente – que talvez os indivíduos prefiram ignorar os acontecimentos e continuar a viver na “menoridade”.
Bibliografia
BAUDRILLARD, J. O sistema dos objetos. São Paulo: Perspectiva, 1993.
BAUMAN, Z. A vida fragmentada: ensaios sobre a moral pós-moderna. Lisboa: Relógio D’Água, 1995.
______. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
______. Em busca da política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
______. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
______. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
______. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
______. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
PALLARES-BURKE, M. L. G. Entrevista com Zygmunt Bauman. Revista tempo social – USP, São Paulo, v. 16, n. 1, jun. 2004.
REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia: de Freud à atualidade. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2008. v. 7.



Escritor de Botucatu lança livro em São Paulo

A LETRASELVAGEM E A UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES/SP convidam para o lançamento do livro ‘REFÚGIOS DO TEMPO’, de Francisco Moura Campos

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Local: União Brasileira de Escritores: Rua Rego Freitas, 454,

6º andar, Conj. 61, São Paulo/SP. 

Data: 24 de novembro (quinta-feira), às 19h00. Entrada Franca.

SOBRE O AUTOR

Francisco Moura Campos nasceu em 1942 em Bo­tucatu (SP), onde transcorre a telúrica infância presente em muitos de seus poemas. Do seu tempo de estudante de engenharia na cidade de São Carlos (SP) extrai as reminiscências mais vívidas. Como um “menino antigo” (expressão criada por seu amigo Carlos Drummond de Andrade, com quem du­rante anos compartilhou experiências literárias), “Chico Moura”, como também é conhecido o poeta, apresenta-se neste Refúgios do tempo completamente liberto de temas e formas que impeçam a arte de alcançar alturas e profun­didades que lhe são inerentes. Amplo, suave e sublime é o voo que o poeta empreende através de campos e planí­cies do devir humano.

Poeta fecundo, sua estreia literária se deu em 1980, com O sorriso do drama (Massao Ohno/Hoswitha Kem­pf). Ponteios da madrugada (Limiar, 2010) recebeu o prê­mio PROAC-Secredtaria da Cultura de São Paulo.

Paralelamente à atividade como engenheiro, foi edi­tor de poesia e lançou vários poetas pela Editora Metró­poles, da qual foi sócio diretor em 1986.

SOBRE A OBRA

A arte literária de Francisco Moura Campos é marcadamente essencial, elíptica e personalíssima. Resgata as reminiscências aproximando-se do conto, da crônica, e volteia, enfim, magicamente, entre diversos meios literários, sem fuga possível da pulsação poética, que vem imediatamente ao vivo em quaisquer destas criações, valendo-se da sua arma poderosa: simples sem ser fácil.

Artista do como dizer, nascido do seu impulso criador, fugindo de qualquer desvio artificial, o autor transmuda todos estes curtos textos, surpreendentes, em levitações vividas e emocionais, numa curiosa dualidade poética e impressionista. Suas imagens vêm imediatamente a relevo, palpáveis e tangíveis.

Pouco vimos, na arte literária, criações deste nível e qualidade. O descritivo une-se surpreendentemente ao narrativo e caminham imediatamente à essencialidade poética.

A alma da sua terra, da sua cidade e do seu tempo vivido está por inteiro aqui. Tudo em amostragens límpidas e essenciais. Tudo resgata e entrega ao coração do leitor.

Não há como destacar os melhores momentos deste livro. Todos os textos dimensionam muito mais do que está escrito. Muitos deles – vê-se bem – tomados de cenas em visualizações cinematográficas. É o poliédrico em unidade poética surpreendente.

Apenas uma citação – “Finados” – uma apenas, de poucos versos. Este poemeto, ou prosa poética, diz para além dele, em palavras mudas, dos Finados em família, e vai à dimensão cósmica.

Comentário para obra como esta se traduz numa frase apenas: é lê-lo, senti-lo, e descobrir surpresas nos caminhos literários. Como aqui. É o refrão de sempre: ler e comprovar. (Texto de orelhas de Caio Porfírio Carneiro)

Título: “REFÚGIOS DO TEMPO” (poemas

Autor: Francisco Moura Campos

Editora: LETRASELVAGEM

Idioma: Português

ISBN 978-85-61123-22-2

88 pág.

14 x 21 (Brochura)

1ª Edição / 2016

Preço: R$20,00