Eterno amor

Ceiça Rocha Cruz: Poema ‘Eterno amor’

Ceiça Rocha Cruz
Ceiça Rocha Cruz
"Imergimos num mar de emoções  e, em chamas de intenso amor, brilho no olhar, beijos ardentes,.."
“Imergimos num mar de emoções  e, em chamas de intenso amor, brilho no olhar, beijos ardentes,…
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O vento acaricia as sombras 

da tarde,

e no aconchego do teu abraço,

ao sabor do afago

e ao calor da afeição

somos ternura e carinho,

somos amor.

Imergimos num mar de emoções 

e, em chamas de intenso amor,

brilho no olhar,

beijos ardentes,

o coração bate e palpita

e uma voz balbucia:

tu és o meu amor.

Mergulhamos neste amor,

na sintonia do desejo sem limites.

Viajo no voo dos teus anseios,

que invadem minh ‘alma,

e no azul do teu céu,

encontro-me.

Tu és poesia e canção,

versejos de amor sincero,

sentimento profundo,

és a obra mais linda

esculpida na memória,

tão eterna quanto o tempo.

Tu e eu – eterno amor.

Ceiça Rocha Cruz

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Ensinar e aprender

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo:

Artigo ‘Ensinar e aprender’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
Ensinar e aprender
Ensinar e aprender
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A Maravilhosa arte de ensinar, aprendendo”, é um trabalho em que o autor não pretende dar quaisquer lições de: pedagogia, didática, cientificismo, tecnologias, boas práticas docentes, pelo contrário, deseja, outro sim: aprender com colegas que tenham a generosidade, e também a bondade, de formular as críticas adequadas, as sugestões mais pertinentes, para que o articulista possa instruir-se e aprofundar os seus conhecimentos, porque considera que, o avanço das ciências e das novas tecnologias, é tão rápido e avassalador, que se torna, praticamente, impossível saber tudo.

Este trabalho, baseado em cerca de 25 anos de docência do autor, repartidos: pelo ensino médio ao superior; formação profissional em vários contextos: Cursos Educação de Jovens; Cursos Educação e Formação de Adultos e, finalmente, no âmbito das Novas Oportunidades que, em Portugal, foi uma iniciativa governamental, com um grande sucesso, inclusive, ao nível do reconhecimento e apoio da União Europeia, permitindo às pessoas que, no devido tempo não puderam frequentar a escolaridade, lhes fosse dada a oportunidade de lhes serem Reconhecidas, Validadas e Certificadas as Competências adquiridas ao longo das suas vidas.

O trabalho que agora se apresenta, tem por objetivo expor a ideia, segundo a qual, nesta Maravilhosa Arte de Ensinar também se aprende, e muito, porque ao professor competente, responsável, cúmplice com os seus alunos, atendo às dificuldades sociais, económicas e estatutárias, que muitos estudantes apresentam e, neste envolvimento com os seus discípulos, o professor vai adquirindo conhecimentos que, em alguns casos, jamais teria oportunidade de pensar em situações tão complexas.

Naturalmente que é legítimo a qualquer leitor, aos docentes e alunos, extraírem as ilações que entenderem, discordarem, concordarem ou indiferença, mas qualquer que seja a atitude, não poderão negar que, também com este Ensaio, talvez, se tiverem a humildade suficiente, consigam retirar alguns frutos de uma “árvore” que já existe há mais de sete décadas, cada dia vivido de forma diferente, isto é: metaforicamente escrevendo, esta árvore é o autor deste trabalho.

Venade/Caminha – Portugal, 2024

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente Honorário do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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Canto do passaredo

Ella Dominici: Poema ‘Canto do passaredo’

Ella Dominici
Ella Dominici
"Da floresta ou da janela ouvem-se vozes que ecoam fortes ou de levinho… são amigos belos passarinhos"
“Da floresta ou da janela ouvem-se vozes que ecoam fortes ou de levinho… são amigos belos passarinhos”
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O que canta o canto
da Santa natureza
do observatório do nosso âmago
voam dúvidas ou certezas
marsupiais ou singelezas?

Da floresta ou da janela
ouvem-se vozes que ecoam fortes
ou de levinho…
são amigos belos passarinhos

São desilusões de pássaros em gritos
ou desavenças formosas dos conflitos
queixas dos mais desavisados
frustrações juvenis dos mais infantos

Mistérios do canto
tem nele acalanto e paz infinita
ou roubam o encanto e desdita
na drástica sinfonia
que os ouvidos ouvem
e instigados se comovem
tal violência e tempestade
do impetuoso Bethoven.

O que cantam os pássaros
perderam na dança da conquista
no amoroso amatório?
sentem-se fogosos no canto aleatório
em nossas intuições
ouvimos bloqueadas sensações
desejos e paixões dos passarinhos
dor de saudades, falta nos ninhos

Mas seria …
quando um pássaros canta
vivente nele a alegria de Mozart
conta a sua glória de existir
nas tempestades resistir?
chama a fêmea que lhe falta
no seu tilintar e olente elixir?

Quando um pássaro canta
seriam suaves preces
deixadas no oratório
dos pássaros celestes?
perpetua-se o canto da realeza
simples pássaros…
da Santa Natureza

Ella Dominici

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O Fazedor de Teatro 

O Fazedor de Teatro faz nova temporada na Oficina Cultural Oswald de Andrade a partir de 24 de janeiro

Imagem de uma cena da peça 'O Fazedor de Teatrio'.
Imagem da peça ‘O fazedor de Teatro’

Com encenação de Marcio Aurélio, a peça da Cia Razões Inversas rendeu indicações ao ator Paulo Marcello aos prêmios Shell e APCA

Montada originalmente em 2022, em comemoração aos 30 anos de trajetória da Cia. Razões Inversas, a peça O Fazedor de Teatro ganha uma nova temporada na Oficina Cultural Oswald de Andrade, entre os dias 24 de janeiro e 3 de fevereiro de 2024.

As apresentações são gratuitas e acontecem de quarta a sexta, às 19h30, e aos sábados e feriados (25/01), às 18h.

O ator Paulo Marcello, que recebeu indicações aos prêmios Shell e APCA por este trabalho, ministra a oficina ‘Atuação do intérprete na dramaturgia da cena’, nos dias 29, 30 e 31 de janeiro.

A peça é dirigida por Marcio Aurelio, tem tradução de Samir Signeu e traz no elenco Paulo Marcello, Lilian Alves, Eduardo Santos e Gabriela Marques, além dos atores-convidados Zédú Neves e Ana Souto, que já integraram a companhia anteriormente.

Escrito pelo austríaco Thomas Bernhard (1931-1989), em 1984, O Fazedor de Teatro tem no próprio teatro o paradigma do absurdo da existência humana.

Um teatro – leia-se a vida – que falha não só perante as condições exteriores de um mundo adverso, mas também perante os fantasmas, a prepotência e as fraquezas dos protagonistas e da própria sociedade.

Assim, temos o teatro como o microcosmo da sociedade.

Na trama, Bruscon está em viagem com a peça A Roda da História, que ele escreveu, dirigiu e protagoniza.

A trupe, formada pela esposa e os dois filhos desse “grande” ator do teatro nacional alemão, chega a um pequeno vilarejo da Áustria, chamado Utzbach, para se apresentar em um salão de baile de uma estalagem decadente.

O calor, a sujeira, a falta de recursos, além do cheiro insuportável de chiqueiro e da fábrica de chouriço, completam a cena de desolação frente ao pequeno vilarejo com seus 280 habitantes embrutecidos.

Para piorar a situação, os artistas precisam da autorização do chefe dos bombeiros para que a luz de emergência fique apagada durante cinco minutos, condição essencial para a perfeita realização do espetáculo.

“Bruscon é um cara super egóico, que fala de si o tempo todo.

Mas ele é totalmente apaixonado pelo teatro. Enquanto ele imagina esse mundo maravilhoso da arte, está diante da realidade de um lugar horrível, onde ninguém liga para o que ele faz.

E, ao mesmo tempo que tem esse ego gigante, vai revelando toda a sua fragilidade, o medo de entrar em cena, a sua insegurança – daí essa necessidade de autoafirmação o tempo todo”, comenta Paulo Marcello, que comemora 40 anos de palco neste trabalho, sobre seu personagem.

Para o intérprete, o texto cria uma reflexão importante sobre a arte que cabe perfeitamente ao contexto brasileiro.

“Thomas Bernhard nasceu na Áustria, mas odiava o país. Ele dizia que esse era um lugar atrasado, de pessoas ignorantes e nazistas, de xenofobia e desprezo pela arte – tanto que quando ele era vivo proibiu que seus textos fossem encenados lá. E, de certa forma, vivemos no Brasil um momento um pouco parecido, de desvalorização da arte”, acrescenta.

A Cia. Razões Inversas flertava com a montagem desse texto há bastante tempo, conta o diretor Marcio Aurelio.

“Conheci o texto com o Abujamra e fiquei encantado. Estávamos só esperando o momento mais propício para montá-lo e isso calhou muito bem com os 30 anos da companhia. O espaço do Sesc Pompeia também foi muito apropriado para receber a montagem, porque ele é todo feito em paredes de tijolo. E queremos retratar uma cidade sem acabamento nesse lugar, como um reflexo para a sociedade, que também não tem acabamentos”, conta.

Além dos 30 anos da Razões Inversas, O Fazedor de Teatro comemorou os 40 anos de teatro de Paulo Marcello, co-fundador do grupo, montado por alunos formados pela primeira turma da graduação em Teatro da Unicamp.

Sobre Thomas Bernhard

Thomas Bernhard (1931-1989), novelista, poeta e dramaturgo austríaco, é considerado um dos autores mais relevantes da literatura de língua alemã da metade do século XX.

Ele nasceu em Heerlen, na Holanda; filho de mãe solteira, que após ficar grávida tinha saído da Áustria para trabalhar como diarista na Holanda.

Bernhard volta para Viena ainda em 1931, onde é criado pelos avôs maternos.

Na infância viveu os horrores da Segunda Guerra e na juventude estudou canto, violino e estética musical. Iconoclasta, Thomas Bernhard prima por criticar a Áustria; assim como mostrar os absurdos de uma sociedade reacionária e calcificada.

Sempre lutou contra doenças pulmonares e morreu de pleurisia.

No Brasil, no campo editorial, temos a publicação de alguns de seus romances e narrativas, como Arvores Abatidas (1991), O sobrinho de Wittgenstein (1992) e Perturbação (1999), pela editora Rocco e, pela Companhia das Letras, as obras Extinção (2000), O náufrago (2006), Origem (2006) – volume que contém seus cinco romances autobiográficos, a saber: A causa, O porão, A respiração, O frio e Uma criança –, O imitador de vozes (2009), Meus Prêmios (2011) e Mestres Antigos (2021).

Há, ainda, a publicação das peças O Fazedor de Teatro (2017), pela Perspectiva, e Praça dos Heróis (2020), pela Temporal; além de O presidente, num caderno brochura, do Instituto Goethe, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Sua obra é marcada pela prática da estética do choque, plena do niilismo, misantropia e misoginia dos seus personagens. Uma máquina da linguagem irônica.

Uma disposição testamentária do próprio Bernhard, falecido em 1989, proibia que suas peças fossem encenadas e publicadas na Áustria – à exceção daquelas que já estavam em curso.

Essa proibição foi revertida em 1998, por iniciativa da fundação particular Thomas Bernhard, presidida por Peter Fabjan, seu meio-irmão.

Sobre a Cia. Razões Inversas

A Cia. Razões Inversas foi criada em 1990 pelo diretor Marcio Aurelio e a primeira turma de formandos do curso de Artes Cênicas da Unicamp.

Nestes mais de 30 anos, construiu uma trajetória voltada para o constante processo de pesquisa, para a formação de seus intérpretes, artistas criadores, na busca do diálogo com o público contemporâneo e da excelência do fazer teatral.

A companhia criou 23 espetáculos partindo de textos consagrados da dramaturgia internacional, textos inéditos de autores nacionais e criações coletivas a partir de longos processos de pesquisa e criação.

Entre esses muitos trabalhos estão “A Bilha Quebrada” (1994 e 2011), de Heinrich von Kleist; “A Arte da Comédia” (1999), de Eduardo de Fillipo; “Agreste” (2004), de Newton Moreno; “Anatomia Frozen” (2009), uma adaptação da obra da inglesa Bryony Lavory; “Senhorita Else”, uma adaptação do romance de Arthur Schnitzler; e “Filoctetes” (2015), de Heiner Müller

FICHA TÉCNICA

Texto: Thomas Bernhard
Tradução: Samir Signeu
Encenação: Marcio Aurelio

Elenco:
Paulo Marcello
Ana Souto (Atriz convidada)
Zédú Neves (Ator convidado)
Lilian Alves
Eduardo Santos
Gabriela Marques

Diretora Assistente: Lígia Pereira
Cenários: Marcio Aurelio e Marcelo Andrade
Figurinos: Marcio Aurelio e Carol Badra
Visagismo: Olívia Tartufari
Trilha Sonora: Marcio Aurelio
Projeto de Luz: Aline Santini
Operador de Luz: Silviane Ticher
Operador de Som: André Luiz Lemes
Preparação Corporal: Luciana Hoppe
Fotos: João Caldas Jr.
Design Gráfico: Alexandre Caetano
Divulgação: Pombo Correio
Produção Executiva: Cristiane Klein e Júnior Cecon – Dionísio Produção
Produtores/Colaboradores Dionísio Produção: Lívia Império, Wesley Mendes, Flávia Santos, Thomas Calux e Raissa Castilho
Produção: Paulo Marcello – Razões Inversas Marketing Cultural
Assistente de Produção: Luciana Hoppe

Bruscon, ator do teatro nacional alemão, depois de sua aposentadoria, faz turnês pelo interior da Áustria e da Alemanha.

Bruscon aglutina e carrega consigo todas as funções relativas ao fazer teatral: foi ele quem escreveu e dirigiu a peça. Além disso, Bruscon se preocupa com as funções administrativas e financeiras da companhia, que é de ordem familiar: os componentes do grupo são sua esposa, sua filha e seu filho.

A peça começa quando a companhia chega à hospedaria onde fará sua apresentação numa pequena cidade do interior da Áustria.

Este projeto foi contemplado pela 17ª Edição do Prêmio Zé Renato – Secretaria Municipal de Cultural

Serviço

O Fazedor de Teatro, da Cia. Razões Inversas
Temporada
: 24 de janeiro a 3 de fevereiro de 2024
De quarta a sábado, às 19h30, e aos sábados e feriados (haverá sessão no dia 25 de janeiro), às 18h
Oficina Cultural Oswald de Andrade – Rua Três Rios, 363, Bom Retiro
Ingressos:
Grátis, distribuídos uma hora antes de cada apresentação
Classificação: 14 anos
Duração: 120 minutos
Acessibilidade: sala acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

Oficina com Paulo Marcello
Quando:
29 a 31 de janeiro
ATUAÇÃO DO INTÉRPRETE NA DRAMATURGIA DA CENA.
20 vagas, gratuita. Inscrições pelo site da Oswald https://oficinasculturais.org.br/unidade/oswalddeandrade/


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Voar no infinito

Valdina Augusto de Souza: Poema ‘Voar no Infinito’

Foto da Poetisa Vadina Souza, autora do poema 'Voar no infinito'
Valdina Souza
Imagem Pixabay gratuíta de um homem contemplando o espaço.
Imagem Pixabay Gratuíta

Pensamento
Voa…
Voa livre
Na imensidão
No infinito
Finito
Voa…
Voa alto
Livre
Liberto
Sem algemas
Pensamento
Voa…
Voa livre
Com asas
Grandes
No infinito
Voa…
Sem pouso
Sem ninho
Só Voa
Voa livre
Voa…
Sem destino
Pensamento
Voa…
Contemplando
A imensidão
Voa…

Valdina Augusto de Souza

CONTATOS DA AUTORA

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Sem rumo

Ivete Rosa de Sousa: Poema ‘Sem rumo’

Ivete Rosa de Souza
Ivete Rosa de Souza
A humanidade sem rumo
A humanidade sem rumo
Microsoft Bing – Imagem criada pelo Designer

Para aonde caminhas oh! humanidade?
Passados tantos séculos, de dores e tropeços
Por que és tão imatura, e a tua insanidade
Encerra os teus anseios e recomeços?
Ainda és ingênua acreditando no futuro?
Causando guerras, vivendo no escuro
Anunciando a destruição, derrota dos tolos

És apenas corpo e mente, tão somente
Infelizes almas, que não reconhecem o presente
Que é a vida que habita dentro de ti.
Onde está o amor, a união, a esperança?
O doce idílio dos sonhos e conquistas?
Se andas a flanar, incorrigível na ignorância
Na derrocada final de tua existência.
Procuras em atos violentos tua glória?
Com ingratidão, levas ao exílio concórdia
O que esperas que aconteça no amanhã?
Aonde não mais existir vida neste planeta
Letal futuro sem esperança
Queres existir?

Desarmas teus anseios, curas as feridas
Encontra em teu seio o entendimento
Mostra as flores, esquece o tormento
De ser dependente da ganância
Leva o amor, o respeito verdadeiro
Aos teus iguais, encontrando a paz.

Ivete Rosa de Souza

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A partida

Francisco Evandro de Oliveira: Conto ‘A partida’

Francisco Evandro Farick
Francisco Evandro Farick
"Os rios de águas profundas, onde nadava feliz o menino negro"
“Os rios de águas profundas, onde nadava feliz o menino negro”

Ao encerrar sua participação na terra e no leito, ele antes de exalar seu último suspiro ele escreveu: – Nasci um menino sudanês e nas belas e majestosas florestas do meu país eu caçava sempre com as demais crianças de minha aldeia.  

Nos rios de águas claras e profundas eu costumava espairecer e isso me dava um imenso prazer, viver daquela maneira como uma criança simples.  

Assim costumava ser minha vida e não sabia o que era ser um branco e os mais velhos falavam sempre que era para ter muito cuidado com os brancos.  

Certo dia, eu havia ido para caçar com outras crianças da aldeia e após a caça estávamos nos esparrando à vontade e me deliciava em um dos rios que circundavam a aldeia e quando dei por mim já me encontrava preso e manietado por vários brancos junto com outras crianças da mesma aldeia. 

 Aí começava minha outra fase de vida. Em um porão fétido e extremamente calorento fui posto com as demais crianças que brincavam no rio comigo. 

 O calor era por demais insuportável e tal local passou a ser por muitas luas minha nova residência oficial. O balanço do barco e o fedor da maresia me faziam vomitar tudo que havia posto e que não colocara no organismo.  

Um dos brancos olhava-me e me fazia engolir algumas bolinhas brancas que, com o passar do tempo, percebi que toda vez que isso acontecia eu parava de vomitar e acalmava o meu enjoo. Depois de várias humilhações e muito desespero eu tive o imenso prazer de ver de novo a luz da estrela maior, o dia estava belo e isso me deu uma imensa alegria, porque descobri que ainda estava vivo a despeito de todos os maus tratos.  

Muitos de meus amigos foram jogados ao mar porque não haviam conseguido superar tal infâmia de vida. Pouco depois, manietado e amarrado com outras crianças fui posto em exposição em um local que havia muito e muitos brancos e eles nos examinavam e depois de um certo tempo uma linda jovem branca me levou para sua residência. 

 Lá passei a habitar com várias pessoas de outras línguas, mas que também estavam nas mesmas condições minhas.  

A casa era muito grande e logo percebi que todos os brancos me chamavam pelo nome de escravo e como passei a trabalhar de sol a sol me tornei um escravo do meu senhor e do café! Durante 87 anos, palavra que aprendi para contar o tempo, eu vivi naquela casa de sofrimentos e decepções, a despeito de conviver em um belo e majestoso país chamado Brasil.  

Deixei dois filhos, netos e netas que me substituíram no plantio e colheita do café; aliás; por falar em café – que bebida gostosa! Hoje, estou às portas da grande escuridão, a espera do anjo da noite chegar! Já o vejo se aproximar de minha cama, mas estou imensamente feliz!  

Estou voltando a ser criança, estou voltando para minha liberdade.  

Deixei há muito de ser escravo de um senhor muito mal, porque fugi por duas vezes do engenho em que trabalhava, mas passei a ser senhor e escravo do café da minha luta diária para sobreviver e me esconder continuadamente desse senhor perverso.  

Porém, como é belo e majestoso para mim, ser novamente uma criança queniana livre e feliz, e veio a falecer.  

Como ele era muito conhecido e admirado na Vila, a caminho do seu último adeus, teve muitas pessoas e sentiriam muito sua ausência e uma desses foi um dos seus netos, João Sabino, o qual veio ser sapateiro de profissão e também fazia selas de animais, roupas de vaqueiros e botas de profissão e casou-se com uma mulher branca, loura e muito bonita chamada Rachel Amélia de Souza, cujo pais vieram fugidos da França após a guerra napoleônica e se estabeleceram na Vila de Maranguape. 

 
Francisco Evandro de Oliveira 

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