O ciclo

Evani Rocha: Poema ‘O ciclo’

Evani Rocha
Evani Rocha
Lago Di Garda, na Itália

Eu sou sua história
não escrita.
O livro que não terminou de ler.
Sou a chegada e a partida,
a indecisão que não pode resolver.

Eu sou as linhas indefinidas
e as páginas em branco,
o endereço que você rabiscou.

Sou a curva do caminho,
os botões em flor,
as folhas secas
e os espinhos.

Eu sou a verdade que você omitiu,
os cacos do espelho que quebrou.
O sorriso amarelo,
e os fios prata dos seus cabelos.

Eu sou os passos lentos que dá agora,
o corrimão da velha escada,
a rigidez dos seus dedos e
a curvatura de suas costas.

Eu sou o sim e o não.
O começo e o fim.
Desde o primeiro suspiro,
o primeiro sorriso
e a inocência do olhar.

Eu sou o fruto doce que colheu,
o tato e o paladar.

Eu sou sua casa nova,
o chão onde semeou,
a terra que te acolhe agora:
preciosa e agradecida.
Eu sou o ciclo da vida.

Evani Rocha

(Lago Di Garda, na Itália. Foto por Evani Rocha)

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Crônicas de um eu crônico

Resenha do livro “Crônicas de um eu crônico”, de Luiz Fernando Lobo, pela Editora Uiclap.

Capa do livro "Crônicas de um eu crônico" de Luiz Fernando Lobo, pela Editora Uiclap.

RESENHA

Um livro de crônicas, onde o autor desnuda a alma, nos mostrando o que de mais profundo se passava em seu interior nos anos de 1992 e 1993.

O livro está dividido em três partes: crônicas, poesias e pensamentos.

Assuntos importantes e interessantes vistos com muita profundidade e inteligência.

Leiam!!!

Assista à resenha do canal @oqueli no Youtube

SINOPSE

Em primeiro lugar, antes de dar início ao meu relato, peço a você leitor, que procure manter a mente aberta, pois o que vou narrar aqui é absolutamente verdadeiro, pelo menos sob o meu ponto de vista (o que a mim me basta).

Em segundo lugar, quero dizer que se você permanece a ler o que estou expondo, certamente alguma razão deve existir ( já leu a Profecia Celestina? ).

Se essa causa existe, é interessante procurar descobri-la, seja intuitiva ou racionalmente, não interessa a forma pela qual você o faça.

E, em último lugar, mas não menos importante, se por acaso o leitor for algum psicanalista ou psicoterapeuta, por favor escolha: ou avalie o meu trabalho sob um ponto de vista sistêmico, tentando desvendar as mensagens subliminares, ou então não se dê o trabalho de traçar meu perfil psicológico, pois o meu relato certamente deverá sugerir alguém com tendências a Bipolaridade e a surtos psicóticos, alguém em busca de pseudocontato através da escrita e da verbalização, evitando o contato real consigo mesmo e com o outro, e procurando delinear uma espécie de alter ego projetado através de sofismas sarcásticos.

Em outras palavras, doutor, faça-me um favor (com todo o carinho e respeito que tenho pela sua profissão) : não seja doutor, seja apenas um leitor desprendido, livre de teorias absolutistas, conclusivas e encerradas em si mesmas.

Bem, depois de tanto desviar a atenção do tema principal, é hora de voltar para ele, e para isso, nada melhor que descrever um pouco esse processo através de crônicas, onde consigo me expressar melhor.

SOBRE A OBRA

Este livro começou a se escrito no início da década de 90.

Eram apenas um conglomerado de textos, pensamentos e poesias, sem pretenções algumas.

Para Luiz Fernando, eram apenas respostas a sua ansiedade existencial.

E em 2022 nasce definitivamente o livro “Crônicas de um eu crônico”.

SOBRE O AUTOR

Foto do escritor, Luiz Fernando Lobo, autor do livro "Crônicas de um eu crônico" , pela Editora Uiclap

Luiz Fernando Lobo, tem 57 anos, natural do Rio de Janeiro.

Graduado com Licenciatura e Bacharelado em Educação Física, trabalha como funcionário público desde 1994, na rede de Ensino Municipal do Rio de Janeiro.

Dentre os cargos que ocupou, o de Educador Físico, foi a principal, passando por Coordenação Pedagógica, Diretor Adjunto, membro da equipe da Gerência de Ensino, nas 10a e 2a CREs ( Coordenadoria Regional de Ensino entre 98 e 2001), exercendo mais uma coordenação de turno em uma das escolas por 11 anos, e readaptado, por fim.

Se autodenomina uma alma inquieta, morta psicologicamente por um sistema desenhado para não dar certo.

OBRA DO AUTOR

Capa do livro, cronicas de um eu crônico de Luiz Fernando Lobo, pela Editora Uiclap.

ONDE COMPRAR


Resenhas da colunista Lee Oliveira




Por um mundo melhor: precisamos nos cuidar

Elaine dos Santos:

Artigo ‘Por um mundo melhor: precisamos nos cuidar’

Elaine dos Santos
Elaine dos Santos
O Cortiço, de Aluísio Azevedo"
O Cortiço, de Aluísio Azevedo”
Microsoft Bing – Imagem criada pelo designer

O trágico fim de Bertoleza no romance ‘O cortiço‘, de Aluísio de Azevedo, sempre me pareceu um exemplo clássico de que confiança, fidelidade, lealdade e outros atributos morais ligados ao respeito não costumam ser respondidos da mesma forma.

Na concepção de João Romão, que a usou ao longo de todo o romance, Bertoleza era, de fato e de direito, apenas uma serviçal que permitiria alcançar os objetivos dele.

Aliás, em uma turma de segunda série de ensino médio, já faz alguns anos, um ex-aluno me disse: “Mas, neste romance, somente os brancos se dão bem”. Depois de longos anos de trabalho docente, um menino na faixa de 15 anos olhava para a explicação que eu havia posto no quadro e identificava a segregação racial existente no Brasil naquele final do século XIX, quando o romance fora publicado.

Como se sabe (ou deveria saber), a chamada Escola do Recife, que reunia estudiosos como Nina Rodrigues e Sílvio Romero, entre outras instituições, defendia o branqueamento da ‘raça’ brasileira, atribuindo ao negro e ao indígena todas as mazelas dos caracteres tidos como nacionais.

De qualquer forma, Bertoleza era um ‘burro de carga’ usado por João Romão para carregar, inclusive, furtos que ele fazia na calada da noite. Miranda, o outro português que aparece na narrativa, embora fosse recorrentemente traído por sua mulher, Estela, nunca se separou dela e nem dos recursos financeiros da esposa. Mas Jerônimo, o terceiro português, após separar-se de sua mulher branca, envolveu-se com uma mestiça, esteve preso. Desenhava-se, na narrativa de ‘O cortiço’, o nada vencedor para quem tivesse contato com os “elementos impuros” da gente brasileira.

Ainda assim, a minha reflexão aqui segue em outra linha: a falta de respeito, de consideração ao elemento humano: preta ou branca, Bertoleza confiou e foi fiel a João Romão. Confiou-lhe o direito poupado para adquirir a carta de alforria e ele gastou em outros interesses; manteve-se como esposa e trabalhadora fiel, trabalhando de sol a sol para obter os bens necessários para ambos. Foi sua companheira.

Já faz alguns anos, em um casebre na Grande Porto Alegre, um homem manteve a mulher e o filho sob cárcere privado, era um menino e deveria ter entre 3 e 4 anos. Foram horas de negociação. No clarear do dia, ele liberou o filho, matou a mulher e suicidou-se. Na minha memória, permanece aquela imagem da casa fechada, alguns brinquedos espalhados pelo chão.

Mais recentemente, numa época de festejos de final de ano, um marido matou a mulher, uma juíza, diante das filhas, em praça pública. Lembro que, ao lado da foto dela, coloquei fotos de outras tantas mulheres mortas por seus maridos e companheiros.

Não se viola, na maioria dos casos, o amor, o respeito, a (in) fidelidade, a confiança, o companheirismo, a vida privada entre marido e mulher, rouba-se a paz dos filhos, o heroísmo que pais representam para filhos. Como confiar em outras pessoas? Como acreditar ‘em boas intenções’?

Bertoleza, limpando os peixes, em ‘O cortiço’ associa-se ao menino que viu a mãe ser mantida em cárcere privado, que foi submetido à tensão e ao medo e que, ao final, não tinha mais mãe, não tinha mais pai.

Não é aqui uma teoria apocalíptica, afinal, tenho 60 anos e não tive filhos. Mas é olhar para trás e lembrar Margareth Mead, que, quando questionada, sobre o fato que transformou a humanidade em sociedade, afirmou que foi o achado de um fêmur quebrado. Aquele achado demonstrava que alguém parou para cuidar de outro ser ferido, para que, juntos, pudessem retomar a caminhada. Parece-me, por vezes, que a necessidade de cuidar precisa ser reaprendida e não apenas a violência precisa ser superada, mas a omissão, a falsidade, a enganação.

Que Deus nos abençoe e cuide neste 2024.

Elaine dos Santos

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Desatinado em vida animália

Ella Dominici: Conto ‘Desatinado em vida animália’

Ella Dominici
Ella Dominici
Cavalos acasalando
Microsoft Bing – Imagens criadas pelo designer

O matuto é  sedento de paixão desde os dias onde via os animais que se acasalavam.

Certas pessoas imaginam os animais e gentes; criativos inventam como eles pensam, e como os pensamentos deles falam mais que os seus, ouvem as falas em farras, disputas, filmes e romances. Sabendo que até a literatura apresenta estudos, teses, debates sobre livros de escritores renomados que representaram vasta animália ao inconsciente humano.

      O menino perdeu o pai aos 6 anos, parece um ‘causo’ mas na verdade foi um caos em plena mata, nas terras vermelhas e rachadas da área rural mineira. O cunhado comprou o vaqueiro do Joãozinho Tatu, que por sua vez era seu capanga.

Embebedado foi, com a ambição de colecionar mais e mais poeira.

     Vingou-se das ameaças tolas do João, a respeito da ‘divisa’ das terras que pertencia às duas irmãs, suas esposas,  que eram as herdeiras legítimas da fazenda do ribeirão Santa Rita.

      O pai de Solon foi vitimado em um envenenamento da água do cantil do ‘pau mandado’, o capanga do Fulano. Sucumbiu à cabeceira do córrego do rio Tejuco. Sete dias passados foi achado ali, João Tatu povoado por formigas. 

      Solon se lembrava que antes do pai sair, pediu-lhe a bênção.O abençoou paternalmente, à moda caipira, com imposição das mãos em sua cabeça.Não se sabe se desde este dia, ou desde a falta tanta do jovem pai João, o menino ficou aluado,  endoidando consideravelmente.

      Desde então entrou num silêncio  aloprado.

     Às  vezes se calava e brincava sozinho ou brigava com tudo e todos numa agitação onde não se entendia sua fala incógnita.Tímido, seu refúgio preferido era o chiqueiro ou o campo, onde o gado solto se evadia lentamente.

      O namoro dos bichos era fenomenal, curioso e muito legal. Se apaixonou pelas fêmeas  inacessíveis, dóceis novilhas, leitoas rosadas, galos e as muitas galinhas, as éguas… como eram lindas e ágeis, como as desejava. Iniciava ali uma trajetória ao amor impossível .Como ele, um moleque franzino e triste, competiria com machos inteiros? Logo descobrira as fêmeas de sua espécie, a humana, as meninas da escola, filhas dos vizinhos fazendeiros ou dos vaqueiros, primas e caseiras, e a visão de alguma se banhando era a ilusão mais esperada ao menino do campo.

     Em casa se lavava na espera de ficar lindo e cheiroso, algo habitual e repetitivo, lavava mãos, braços e rosto sem parar e olhava no espelho do lago, ou das panelas d’alumínio que areadas lumiavam seu rosto e cabelo, no girau do terreiro.

     Passados  anos, Solon tinha evoluído na escola da roça, que distava 6 km da casa da fazenda. Ele sempre teve  raciocínios para aritméticas história e geografia, nenhum dos alunos aprendia o português do professor que mal o traduzia para a língua dos matutos, difícil esse trem de falar certo igual aos da Capital. 

       Imaginem que daqueles rudes ensinos, se formaram três dentistas, dois médicos, quatro engenheiros, bióloga, farmacêutico, agrônomo e um veterinário prático, que vacinava, castrava os animais.Outros não formados seriam os que continuariam nas terras mineiras.

     Dos anos passados, se lembra dos casamentos dos irmãos, o caçula foi o primeiro a engravidar a coroa, com quem se casou pois gente de bem assumia o que fazia, senão o reio da mãe, voz imponente de viúva, se mostrava em filho, mesmo adulto.

     Em seguida o irmão estudado se casou com uma paulistinha cocota e bonitinha. Depois o terceiro mano também escolheu uma mineira agitada e de boas risadas.As mulheres suas irmãs, solteironas por enquanto.

       Solon era solitário, macambúzio em disfarçada-vida, aliviado pelas idas e vindas à cidade, nariz do triângulo, onde observava as moças que circulavam e delas desejava roubar um beijo, abraço, e o algo mais, que o pudesse desabitar de sua castidade. 

      Nas lojas de roupas, lojistas ou balconistas a escolherem para ele camisa de cambraia e calça de linho para causar boa impressão. O nada e ninguém o levava às  concessionárias, onde se arriscava num consórcio de moto para poder levar as divas mineiras na garupa.

       A ilusão-realidade era  um amálgama condensado aos sonhos. Aos setenta anos, ainda na roça, Solon vai e volta todos os dias da cidade, onde presenteia a namoradinha de dezoito, aliás, lindinha como as esposas de seus irmãos,( hoje já  senhoras), ela, o bicho perigoso que pretendia se apossar do testamento. 

Solon o solitário, ludibriado por celulares novos, motos e capacetes, acreditando sem alguma lucidez, no amor tardio.

     Não pode morrer assim, pensa, sem nunca ter se deitado com uma mulher bonita…

      Nesta rítmica sensação das mãos do pai sobre si, lava a cabeça na torneira da pia da cozinha, enxágua as mãos na aguada do Córrego do Quebra Dente,  junto ao gado nelore, branco tal sua consciência. Mergulha e nada no Tejuco sem bem saber nadar. 

     Querer se casar fora sua mais pura e obcecada necessidade. A animália mantivera sua lembrança mineira calma e genuína, em meio à agitação de mentecaptas paixões. 

Ella Dominici

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Solo Gabri[ELAS]

Com direção de Malú Bazán, solo Gabri[ELAS] estreia no Sesc Avenida Paulista dia 12 de janeiro 

Cena do espetáculo Gabri[ELAS]
Cena do espetáculo Gabri[ELAS]
Divulgação

Espetáculo com texto de Caroline Margoni marca encontro entre atriz Fernanda Viacava com a obra e a vida da ativista e prostituta Gabriela Leite

Fotos de Cassandra Mello 

A identificação e as inquietações de uma atriz com a figura de Gabriela Leite (1951-2013), a primeira mulher a lutar pelos direitos das prostitutas no Brasil, é mote do solo Gabri[ELAS], que estreia em 12 de janeiro de 2024 no Sesc Avenida Paulista. O espetáculo segue em cartaz até 4 de fevereiro, com apresentações às sextas e aos sábados, às 20h30, e, aos domingos, às 18h30.

O trabalho, estrelado por Fernanda Viacava, dirigido por Malú Bazán, escrito por Caroline Margoni e com pesquisa e curadoria de Elaine Bortolanza, registra e reativa a memória de Gabriela Leite, ultrapassando a barreira das ruas e do estigma, ao falar sobre prostituição na perspectiva do desejo e da liberdade sexual de todas as mulheres. 

“O feminismo abordado por prostitutas é recente e pouco visível. A prostituta sempre foi, e ainda é, objeto de representação nas artes, geralmente de um ponto de vista estereotipado, vitimizador ou romantizado. Neste sentido, por que não tornar visível e compartilhar esse legado de mais três décadas de luta, a partir de suas próprias vozes e narrativas?”, questiona a pesquisadora e ativista Elaine Bortolanza.

“Para contar essa história elaborada a partir da vida e das provocações deixadas por uma puta mulher, optei pela fricção, pela soma, pela coexistência de vozes e elementos, como uma forma de abarcar múltiplos tempos, corpos, vivências e histórias narradas no palco. Assim, esse solo teatral, foi se transformando em um experimento cênico-sensorial com muitas mulheres ‘em cena’, pois sim, somos muitas”, provoca a diretora Malú Bazán. 

“Encontros que se desdobram em outros encontros. Elos com elas. Desafio de fazer uma personagem real, ser o motor, pesquisar, instigar, seduzir as pessoas para contar a história dessa puta mulher e esse nosso encontro que tem me transformado muito. Um encontro que mudou meu jeito de olhar e me colocar na vida”, revela a atriz Fernanda Viacava, que a partir da leitura da autobiografia “Filha, mãe, avó e puta” sentiu vontade de trazer Gabriela de volta para o teatro. 

Na percepção da autora da dramaturgia, “Gabriela pegou a palavra pelo chifre e atravessou fronteiras. A cada passo, foi conhecendo um país tomado por mulheres como ela. E foi aí que descobriu a própria voz. Uma prostituta destemida, inteligente e que fala! É ousadia demais. Para ela, não é profissional do sexo, é puta. Não é garota de programa, é puta. Não é prostituta, é puta. Quatro letras que, quando unidas, se aproximam do objetivo pelo qual Gabi sempre lutou: domar o estigma.” 

O ponto de partida do texto é a memória viva de Gabriela precursora, no Brasil e na América Latina, de um pensamento e um ativismo na luta em defesa das mulheres prostitutas. “Tornar visível ao público esse arquivo vivo é uma maneira de compartilhar, sobretudo com as mulheres, um encontro consigo mesmas, valorizando a importância de seus desejos, narrativas e lutas, como autoras e protagonistas de suas próprias histórias”, acrescenta a curadora Elaine Bortolanza.

Quem foi Gabriela Leite?

Nascida em 1951, em São Paulo, Gabriela se tornou a principal referência na luta em defesa dos direitos das prostitutas no Brasil. Estudante da USP e frequentadora do Bar Redondo com a turma da contracultura nos anos 70, durante a ditadura militar, trocou a faculdade de Ciências Sociais pela prostituição, primeiro em sua cidade, depois em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, onde viveu até a sua morte em 2013.

Gabriela foi a primeira mulher a se apresentar publicamente como prostituta. Isso aconteceu no I Encontro de Mulheres de Favelas e Periferia, organizado em 1983 pela vereadora Benedita da Silva, do PT. “Foi um rebu! Uma prostituta que se diz prostituta! Aí começou toda uma onda”, disse a ativista em sua autobiografia.

Alguns anos depois, ela conhece Lourdes Barreto nos encontros da Pastoral da Mulher Marginalizada e, juntas, tramam a organização da Rede Brasileira de Prostitutas, o primeiro movimento em rede da categoria, que conta com representantes de todas as regiões do Brasil. A criação deste movimento em rede teve como marco o I Encontro Nacional de Prostitutas: “Mulher da vida, é preciso falar”, realizado no Rio de Janeiro, em 1987, que teve o encerramento no Circo Voador com a presença e apoio de vários artistas, como Elza Soares, Martinho da Vila, Lucélia Santos, Norma Bengell, entre outros.

A ativista ainda fundou em 1992 a ONG Davida e, em 2005, criou a grife Daspu, uma passarela de luta concebida para dialogar com a sociedade, por meio da arte e da cultura, os estigmas relacionados às prostitutas.

Ela ainda foi a primeira mulher na América Latina a iniciar o trabalho de organização da categoria, a partir da desconstrução de representações socialmente aceitas sobre a prostituição, dando-lhe novos sentidos ao estigma que atravessa todas as mulheres, e buscando o seu reconhecimento como trabalho. Gabriela morreu em 2013, vítima de um câncer de pulmão.

Um pouquinho sobre o processo criativo

O espetáculo começou a ser gestado em 2019 por quatro mulheres artistas-ativistas: Fernanda Viacava, atriz que vem pesquisando a puta no teatro desde 2014; Malú Bazán, diretora de teatro e artista que pesquisa o feminino; Elaine Bortolanza, pesquisadora na área, ativista do movimento de prostitutas e diretora da DASPU de 2013 a 2022; e Caroline Margoni, roteirista e pesquisadora que atua nas áreas de psicanálise, mulheres e criminologia. 

A pesquisa iniciou com a leitura das duas autobiografias de Gabriela Leite, “Eu, mulher da vida” (1992) e “Filha, mãe, avó e puta” (2009), assim como da “Puta autobiografia de Lourdes Barreto (2023),  e valorizou sobretudo a memória e o acervo histórico Davida, que integra desde 2012 o Arquivo Estadual do Rio de Janeiro (APERJ), junto ao Observatório da Prostituição – projeto de pesquisa e extensão do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR-UFRJ), sob coordenação de Soraya Silveira Simões. 

O grupo Mulheres da vida, junto a pesquisa e curadoria de Elaine Bortolanza e criação audiovisual de Cassandra Mello, acessou os arquivos de vídeo dos encontros nacionais e estaduais, fotografias, áudios do acervo histórico  e atual do movimento, além de promover encontros com amigos,  familiares de Gabriela e as companheiras que fizeram parte da sua trajetória de vida e de luta.

“Nós, mulheres da vida, tecemos juntas esse monólogo como um mosaico de narrativas e escritas de mulheres, construído nesse processo de pesquisa e curadoria do acervo histórico. Criamos uma espécie de crochê de narrativas”, revela a autora Caroline Margoni.  Gabriela amava essa arte e dedicava muito de seu tempo ‘crochetando’, diz Elaine, pesquisadora e amiga de Gabriela.

Entre as pessoas que contribuíram para o processo de pesquisa dramatúrgica, estão: Flávio Lenz, parceiro de vida com quem Gabriela se relacionou por mais de 20 anos e com quem fundou a ONG Davida e o Jornal Beijo da Rua; Maurício  Toledo, amigo mais antigo dela e companheiro da ONG Davida; Thaís Helena Leite, e Regina Leite, irmãs da ativista; Alessandra Leite, filha dela; Tatiany Leite, neta de Gabriela, com quem ela tinha uma relação muito próxima; Lourdes Barreto, amiga e a maior companheira de luta, fundadora do Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará – GEMPAC (1990); Vânia Rezende, prostituta e ativista da região Nordeste, coordenadora da Associação Profissionais do Sexo de Pernambuco – APPS, parceira de luta da RBP;  Soraya Simões, professora do IPPUR/UFRJ e coordenadora do Observatório da Prostituição; e Laura Murray, professora do Núcleo de Políticas Públicas e Direitos Humanos na UFRJ e Diretora do filme Um Beijo para Gabriela.

“Este projeto abrange o universo da prostituição na sua complexidade, de modo a refletir sobre desafios colocados na sociedade a partir do estigma da ‘puta’, valorizando a memória e a luta coletiva dessas mulheres, seus feminismos, a organização dos movimentos de prostitutas. Ainda queremos celebrar as conquistas e o legado deixado por Gabriela Leite, os afetos vivos e as subjetividades e narrativas dessas mulheres, que reverberam em nossas próprias narrativas como criadoras”, afirmam as idealizadoras Fernanda, Malú, Carol e Elaine. 

“Depois desse período longo de pesquisa e conversas, se juntaram a nós mais muitas outras mulheres artistas. Mesmo se tratando de um monólogo, hoje somos 14 mulheres, entre criadoras e executoras desse trabalho, construindo essa narrativa e todas nós estamos em cena de alguma maneira.” ressalta a diretora Malú Bazán.

Sinopse

Gabri[ELAS] é um monólogo que parte do encontro da atriz Fernanda Viacava com a vida e a obra de Gabriela Leite, principal referência na luta em defesa dos direitos das prostitutas no Brasil. A atriz narra em primeira pessoa o encontro com Gabriela se reconhecendo com ‘elas’, as mulheres da vida, a partir das suas inquietações como mulher e como atriz. Uma busca que parte do corpo da prostituta e transborda para o corpo de qualquer mulher que deseja. 

FICHA TÉCNICA

Concepção e Idealização: Caroline Margoni, Elaine Bortolanza, Fernanda Viacava e Malú Bazán

Dramaturgia: Caroline Margoni 

Direção: Malú Bazán 

Elenco: Fernanda Viacava 

Direção Vocal Interpretativa: Lúcia Gayotto

Pesquisa e curadoria: Elaine Bortolanza

Memória e curadoria: Lourdes Barreto

Direção de Arte: Kabila Aruanda 

Trilha Sonora: Nina Blauth  e Girlei Miranda 

Música original: Nina Blauth

Criação audiovisual: Cassandra Mello (Teia Documenta)

Iluminação: Cristina Souto

Identidade Visual: Manuela Afonso

Fotos: Cassandra Mello

Produção Executiva: Baccan Produções, Kavaná Produções e Selene Marinho

Produção Geral: Clotilde Produções Artísticas

Administração da Temporada: André Roman

Realização: Sesc 

SERVIÇO

Gabri[ELAS]

Temporada: 12 de janeiro a 4 de fevereiro (com sessão extra no dia 25/1)

Às sextas e aos sábados, às 20h30; e aos domingos, às 18h30

Sesc Avenida Paulista – Av. Paulista, 119, Bela Vista

Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia-entrada) e R$ 12  (credencial plena)

Venda online em sescsp.org.br

Duração: 75 minutos

Classificação indicativa: 16 anos

Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

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Druk: Do tédio à inebriante felicidade

CINEMA E PSICANÁLISE

Marcus Hemerly e Bruna Rosalem:

Artigo ‘Druk: Do tédio à inebriante felicidade’

Card da coluna Cinema e Psicanálise:  'Druk: Do tédio à inebriante felicidade'
Card da coluna Cinema e Psicanálise
Druk: Do tédio à inebriante felicidade

“O medo de ser infeliz é peso que atormenta”
Aldous Huxley – Brave New World

Quando pensamos na ideia de felicidade, do latim felix – aquilo que é fecundo, na definição grega eudaimonia – decerto, inúmeras concepções nos vêm em mente. É sabido que a felicidade não é uma realidade constante, mas momentânea. 

Na perspectiva platônica, seria Eros, ou seja, aquilo que não se tem, o que faz falta. Ora, inquestionável o fato de que o homem ser etnocentrista por natureza, muitas vezes narcisista, se mostrará contente face a obtenção de seus anseios materiais, afetivos, ou até mesmo metafísicos, quando na religião sente-se embalado pela certeza da guarda divina. Contudo, com a obtenção do objeto de desejo, cessaria o estado de contentamento?

Mais do que sermos movidos pelas vontades e quereres, somos antes de tudo, mobilizados pelo desejo. Este, sempre inconsciente e inalcançável. É como se fosse um motor, algo que constantemente precisa funcionar para que possamos seguir adiante. Sem desejo, o sujeito padece. Sem desejo, o sujeito deixa de existir, pensar, agir, refletir, transformar, enfim, viver.

No pensamento socrático, a felicidade seria alcançada pela virtuosidade e justiça na conduta empreendida pelo indivíduo. Isso seria ratificado por seu discípulo Platão, ao idealizar que a forma de contentamento pautada na felicidade, se vislumbraria pela efetividade das práticas de justiça e virtude – aqui não afastadas da ideia de satisfação pessoal – associadas ao pensamento ético, no campo privado e público, do que derivaria a grande ética e a pequena ética, ou etiqueta. 

Lado outro, na lógica ética política de Aristóteles, divergentemente do professado por Immanuel Kant, se trabalharia com uma concepção mais básica de felicidade, utilitária, delineando preceitos fundamentais, que seriam coroados, por assim dizer, pela alma racional do ser pensante, que o elevaria a uma propinquidade ao divino. 

Caminhando nessa linha de pensamento, deparamo-nos com a proposta inovadora no roteiro do mais recente filme do dinamarquês Thomas Vinterberg, ‘Druk – Mais uma Rodada’, estrelado pele parceiro de outra importante incursão fílmica retratada no drama ‘A Caça’, de 2012, Mads Mikkelsen

Em Druk, observamos a história de quatro amigos, professores de diversas áreas do ensino médio (canto, história, psicologia, educação física) que há muito tempo vivenciam suas pedantes e enfadonhas rotinas diárias, distanciando-se cada dia mais da alegria de viver e de suas motivações primevas, tanto no viés profissional, como pessoal. 

Casamentos irregulares, desempenho de tarefas laborais de forma autômata e indiferente, ausência de perspectivas, possíveis desejos rechaçados, permeiam suas existências. Servimo-nos do termo existência ao revés de vida, pois, num rompimento de sua realidade imposta (será?), eles decidem imprimir um tom de mudança, ainda que questionável, à sua deambulação social e pessoal. 

A partir de um estudo trazido à baila por um dos personagens, que afirma a necessidade de o corpo humano suportar viver com um teor alcoólico de 0,05 mililitros para relaxar mais e, se possível, modificar seus olhares para o cotidiano maçante, os homens passam a beber diariamente.

Por uma premissa até mesmo simplória, seja em termos de proposta e potencial de escapismo, eles embarcam nessa ‘aventura’ pouco ortodoxa, mormente para a sociedade moralizante que os circunda, destacando-se, principalmente, nas falas proferidas pelo corpo administrativo e pedagógico do colégio onde lecionam, deixando bem claro aos funcionários que condutas ‘fora do padrão’ seriam severamente punidas. Que dirá se estas condutas forem dos próprios educadores. É justamente o que acompanhamos na jornada ‘alcoólica’ dos quatro amigos.

As atividades e ministrações etílicas, inicialmente, são milimetricamente calculadas e implementadas, a partir do calendário do projeto por eles concebido, no entanto, a busca por sentir mais efeitos que o álcool pode proporcionar como euforia num primeiro momento, depois relaxamento, prazer, sensação de entorpecimento, de ‘desligamento’ da realidade, de sentir-se permanentemente inebriado, durante o percurso, traz consequências não vislumbradas (ao menos, conscientemente relegadas), e contornos devastadores à experiência.

Apesar de comprovadamente melhorarem suas ações enquanto professores, por exemplo, tornando suas aulas mais dinâmicas, instigantes, provocativas, envolvendo mais os alunos e trazendo assuntos diferenciados, em contrapartida, o aumento gradativo das doses de bebidas alcoólicas e, consequentemente, da embriaguez, foi criando situações insustentáveis a longo prazo, inclusive comprometendo a convivência com as suas famílias.

A trilha pela satisfação e prazer contínuos como elementos elisivos aos pesares da realidade, em algum momento, é obliterada pela própria natureza insatisfeita do ser humano, fazendo com que o experimento antes moderado começasse a prejudicar a sobrevivência social. 

Sob a ótica dos epicuristas, pela qual a busca pelo prazer seria empreendida de maneira moderada a fim de atingir um estado de tranquilidade que possibilitasse a dissociação do medo, poder-se-ia associar livremente os conceitos de tranquilidade/placidez e parcimônia na busca do prazer, forte vetor hedonista naquela construção filosófica. Trata-se na verdade, de uma libertação dos desejos na busca pelo prazer, contudo, não de forma desbragada ou irracional, mas de feitio metódico a ser aplicado em tal plano de ideias.

Desde os primórdios de nossa existência, os experimentos com plantas, raízes, diferentes elementos naturais são utilizados em preparações ‘mágicas’, xamanísticas, com o intuito de se alterar a maneira de ser e estar no mundo, de pensar sobre as coisas, de ampliar a mente, de se relacionar com o outro. É preciso introduzir substâncias estranhas ao organismo para que o liberte das amarras da civilização e da cultura. O desejo de ir mais além, de tocar o desconhecido sempre foi e continua sendo fascinante para nossa espécie.

Acompanhando o protagonista interpretado por Mads Mikkelsen, ele é o retrato de uma vida adulta entediante e sem emoções. A película parece nos apresentar pouco a pouco que se tornar um adulto responsável, pai (ou mãe) de família, pagante de impostos, pode ser algo nada interessante. Uma existência pautada apenas no cumprimento de tarefas, na ausência de motivações, na perda do brilho no olhar ao se deparar com algo novo e instigante, na falta de furor ou contentamento ao empreender uma nova atividade, ou seja, um existir ao estilo blasé.

Mikkelsen consegue transmitir em seus gestos e olhares, um ser desinteressado, apático e indiferente. E há momentos em que temos a sensação de que o personagem está prestes a implodir, a entregar-se de vez ao tédio de sua existência, onde nada mais importa. 

Um adendo interessante, o ator, há quase duas décadas vem sobressaindo-se no cenário hollywoodiano, ao passo que protagonizou desde blockbusters como filmes da franquia 007, até a série Hannibal, baseada na obra do escritor estadunidense Thomas Harris, famosa por reviver o médico canibal Hannibal Lecter, lembrado pela hipnótica interpretação no cinema por Anthony Hopkins. Aliás, o velho continente, de forma relevada o cinema nórdico, é conhecido por ‘exportar’ talentos ao cenário global, a exemplo do ator fetiche do grande diretor sueco Ingmar Bergman, Max Von Sydow, que até mesmo deu vida ao Padre Merrin no icônico filme de terror, O Exorcista, em 1973. 

O resultado da película de Vintemberg, novamente desenha a esperança de que o cinema de autor dissociado do imposição comercial e de forte raiz intimista, ainda respira em meio à indústria, que ao mesmo tempo projeta a publicidade astronômica atrelada às super produções milionárias. Inclusive, foi ele um dos signatários, junto a Lars Von Trier, do manifesto/movimento denominado Dogma 95.

Por este primado, com regras expressas e pré-estabelecidas, instrumentalizado no chamado ‘Voto de Castidade’, propuseram um romper de amarras com o cinema convencional por meio de obras experimentais, de forte inspiração na Nouvelle Vague francesa em flerte direto aos ideais de François Truffaut, tal como explicitados em seu ensaio – “Une certaine tendance du cinéma français” (Uma certa tendência do cinema francês), para a revista de cinema francesa Cahiers du Cinéma em 1954. 

O diferencial intentado e observado ainda que de forma não plenamente fiel nas produções dinamarquesas subsequentes, repousa justamente na vereda contínua pela experimentação, num dar de ombros ao quesito comercial de muitas produções que se mantém refém do gosto e tendência do público. Esse aspecto de pronunciada inovação, ao mesmo tempo que de feições clássicas, já era identificado nas realizações daquele país, como no cult moderno ‘A Festa de Babette’, lançado em 1987. 

Vemos que a jornada embotada pelo álcool e autodescobertas – e tragédias – deflagrada pelos quatro amigos, personagens centrais do enredo  foi bem recebido por público e crítica amealhando o Oscar de melhor filme estrangeiro na premiação de 2021.

Na oportunidade, o diretor relembrou que o escopo da película era uma celebração à vida, mencionando a perda da filha, apenas quatro dias antes do início das filmagens: “Queríamos fazer um filme que celebrasse a vida, e quatro dias antes das filmagens, o impossível aconteceu. Um acidente na rodovia levou minha filha. Alguém olhando no telefone. Nós sentimos falta e eu a amo. Desculpem. Dois meses antes de filmarmos este filme, e dois meses antes de ela morrer, ela estava na África, leu o roteiro e brilhava de entusiasmo”.

De volta à narrativa, em um outro vetor de análise, é possível examinar a felicidade como a ausência, ou a negação do que faz mal, ou seja, a infelicidade, cuja investigação, numa meditação contrário sensu, recairia no mesmo esforço intelectivo de reflexão o qual ora se propõe. Neste campo, surge outra indagação: Qual o momento em que de fato é possível se identificar a felicidade? Como ela ocorreu? Quanto tempo durou e se podemos aferi-la concomitantemente à sua fruição; ou ainda, quando cessou de existir e por quê? 

Existe um ápice episódico de satisfação, pois como já foi dito, a felicidade não é constante, mas uma construção de momentos, daí a relevância de se valorizar cada acontecimento como se fosse único – e de fato, o é – momentos os quais comporão a felicidade individual. Em alguns trechos do filme, o protagonista nos revela sua antiga paixão pela dança, ainda muito latente, porém soterrada pelos anos. Ele não só dançava belissimamente, como ensinava enquanto professor há anos.

Nos minutos finais da película, dança livremente numa praça em comemoração à formatura de seus alunos, sem acanhamento, num retorno à juventude, aos sonhos e brincadeiras que se perderam, à graça, à leveza. Não é porque nos tornamos adultos ou envelhecemos que a vida precisa ser cinza e que não é mais permitido gracejos, nem rir de si mesmo.

Talvez Druk nos aponte que a felicidade no final das contas está nas coisas simples da vida. E mais, nem sempre ter o coração batendo e respirar significa estar vivo. Somos muito mais que sinais vitais. Nos belos versos da música dos Titãs: “É preciso saber viver.”

Marcus Hemerly e Bruna Rosalem

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O respeito na mitigação da crise

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Artigo

‘O respeito na mitigação da crise’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
“O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a Lei da justiça, de amor e de caridade na sua maior pureza”
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RESPEITO é a segunda letra da sigla CRISE e, dia após dia, este superior valor que remete para um comportamento próprio das pessoas bem-formadas, tudo indica que está a diluir-se nos interesses individuais de quem tem poder para tomar e aplicar, unilateralmente, as mais violentas decisões, porque não respeita a dignidade dos seus semelhantes, e que deve caraterizar toda a pessoa humana, isto é: todos os cidadãos nascem livres e são iguais em dignidade e direitos.

Quem governa, seja o que for, é porque detém poder e vice-versa: quem detém poder, pode governar, seja o que for. O Respeito é um valor, um comportamento, uma deferência, que deverá ser pluridirecional, recíproco, mas, eventualmente, deve partir de quem está melhor preparado, e ocupa posições de maior responsabilidade, de resto, como aconselham as boas normas de conduta social, ou seja: “os bons exemplos devem partir de cima”.

É inaceitável que pessoas com formação superior, em especial, mas também quem não possui tal preparação, ocupando cargos importantes, não tenham respeito pelos seus semelhantes em geral, e por aqueles que, em parte, lhes proporcionaram educação, formação e estatuto.

É bom não ignorar que grande parte das pessoas, se tem formado à custa do erário, para o qual todos contribuem, através de enormes cargas fiscais, incluindo os que durante toda a vida foram tributados e, agora, extemporaneamente, depois de terem cumprido com todas as suas obrigações fiscais, para auferirem um rendimento que lhes permita um fim de vida digno, continuam sufocados com tantos impostos.

Os Seniores são, mais uma vez, convocados, coerciva e injustamente, para colaborarem no seu próprio empobrecimento, precisamente pelos detentores do poder que, tendo beneficiado dos contributos daqueles, os maltratam agora e humilham, porque os encontram fragilizados e depauperados. Haja respeito pelas pessoas, por aquelas que tudo deram na vida, para proporcionarem o melhor às novas gerações, mas também para terem um final tranquilo, confortável e digno, porque é justo, legítimo e legal que assim seja.

O Respeito, que é devido às gerações que agora se aproximam do fim do seu ciclo de vida terrena, não é compatível com processos e procedimentos ofensivos da dignidade destas pessoas. É claro que para além de outros interesses, o Respeito encontra-se sempre, nas pessoas humanas de bem, com boa formação e estas assertivas confirmam-se, claramente.

Na verdade, tudo indica que: «O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a Lei da justiça, de amor e de caridade na sua maior pureza (…). O homem de bem é humano, é bom e benevolente para todo o mundo, sem distinção de raças, nem de crenças, porque vê irmãos em todos os homens (…). O homem de bem, enfim, respeita nos seus semelhantes todos os direitos …» (KARDEC:332-34).

Bibliografia

KARDEC, Allan, (2010). O Evangelho Segundo o Espiritismo: contendo a explicação das máximas morais do Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação nas diversas situações da vida. Tradução, de Albertina Escudeiro Sêco. 4ª Edição. Algés/Portugal: Verdade e Luz – Editora e Distribuidora Espírita.

Venade/Caminha – Portugal, 2024

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente Vitalício (Não Executivo) do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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