Trilogia dos apartamentos, de Roman Polanski: a imagética do medo

CINEMA EM TELA

Marcus Hemerly

Artigo: ‘Trilogia dos apartamentos, de Roman Polanski: a

imagética do medo’

Flyer da coluna 'Cinema em Tela'
'Trilogia dos apartamentos, de Roman Polanski:  a  imagética do medo'
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‘Trilogia dos apartamentos, de Roman Polanski: a imagética do medo’

“…Tudo que aos olhos se interpõe,
  É um sonho dentro de um sonho…”

Edgar Allan Poe

As cidades, assim como toda urbe, são emaranhados de vivências, aspectos únicos, subjetivos, e ao mesmo tempo coletivos de uma cultura organizacional que, sincronicamente, erige e desconstrói. Indivíduos em seus recortes pessoais são retratados em carne e osso, bem como em celuloide; uma matéria-prima extremamente rica e mutante, e, até mesmo, poder-se-ia asseverar, metamorfosicamente ambulante, para citar o ‘maluco beleza’.

A partir de cores, elucubrações anímicas, relatos e sentimentos, as metrópoles, de forma global e alinhando várias tessituras, desenham contornos não apenas de edificações materiais, mas também a solidez de trilhas individuais, as quais, ulterior e finalisticamente, compõem o coletivo, ao mesmo tempo anônimo e vivaz, cosmopolita e em cotejo a significação emotiva de seus componentes.

O mesmo pode ser dito acerca dos apartamentos, prédios, casas, estruturas que encapsulam a célula subjetiva como peça coadjuvante da alegoria principal. Nesse espaço, as habitações coletivas são recorrentemente tratadas como pano de fundo nas representações artísticas, mormente pela literatura e cinema, ou numa junção adaptativa de ambos.

A chamada Trilogia dos Apartamentos, do diretor polonês Roman Polanski, trabalha esses aspectos de forma robusta e sofisticada ao amalgamar o drama psicológico humano às feições do sobrenatural, ora de forma velada, ora de maneira (quase) explícita. 

A proposição temática que se envereda é deflagrada pelo título ‘Repulsa ao sexo’, (Repulsion,1965), pelo qual o reduzido número de personagens canaliza o suspense na grande performance de Catherine Deneuve, que, de forma progressiva, vai cruzando os umbrais da insânia – ou assim parece ao espectador – entregue a suas divagações oníricas.

Na trama, escrita por Polanski e Gérard Brach, acompanhamos Carole Ledoux, mulher retraída e atormentada que,  deixada sozinha no apartamento que divide com a irmã, inicia uma escalada paranoica permeada por pesadelos e alucinações no momento em que a personagem entra em contato com os homens e, naquele espaço, confrontada por seus desejos a ela canalizados. 

Vislumbra-se uma abordagem indireta sobre transtorno de aversão sexual, representado pela rejeição patológica e persistente a todo tipo de contato genital. O estado mental de Carol e sua deterioração é intensificada e, talvez, adornada, por sua reclusão nas dependências do apartamento, que pode ser até mesmo interpretado como um catalisador da figura masculina em seu inconsciente, num misto de terror psicológico e suspense.

À sombra desse tópico, interessante diferenciar do ponto de vista analítico, as definições de suspense e horror. Ainda que usualmente aludidos como sinônimos, o terror se assimila de forma premente ao medo e angústia não aparente, psicológica. Lado outro, o horror exsurge de contornos mais explícitos, que causam asco e repulsa. Ao mesmo tempo em que um denota o lado de estado mental, o outro suscita a surpresa e efeito mais gráfico e visual. 

No título ‘O bebê de Rosemary’, (Rosemary´s Baby, 1967), seu grande sucesso em terras estadunidenses, adaptado do romance homônimo de Ira Levin, conhecemos a história de Rosemary Woodhouse, esposa de um ator decadente e frustrado que se vê habitando um disputado prédio novaiorquino, com locações gravadas no Edifício Dakota, onde ocorreu o assassinato de John Lennon. Nesse passo, desde que trava conhecimento com seus novos vizinhos, o aparente simpático casal de idosos interpretados por Sidney Blackmer e Ruth Gordon, em meio à sua própria solidão imposta, estranhos desdobramentos fazem com que seja semeada a suspeita de seu envolvimento com o ocultismo. O filme, desde os primórdios de sua realização, foi nutrido com um olhar especial pela produtora cinematográfica Paramount. 

Projeto com direção originalmente delegada a Willian Castle, que em momento posterior ficou a cargo da produção, pois oriundo de um nicho substancial de produções baratas de terror, o estúdio não queria que a obra fosse, de plano, rotulada como mais uma obra rasa como as que inundavam os cinemas no período. 

Rosemary, a partir de pontos distribuídos no decorrer da película, suspeita de que os engajamentos satânicos de seus confrontantes objetivam utilizar seu rebento iminente, em oferenda ao diabo. Seria realmente um conciliábulo de bruxos em pleno século XX, no qual ela foi inserida como coadjuvante e vítima, ou projeções oriundas de suas próprias fantasias incentivadas por uma crise existencial?  Mais perguntas são entrecortadas por induções, do que respostas são ofertadas durante as duas horas de duração. 

Nos anos 70, após a realização de outro grande sucesso de público e crítica, o noir ‘Chinatown’, estrelado por Jack Nicholson e roteirizado pelo lendário Robert Towne, o diretor teria problemas com a justiça americana, fazendo com que tivesse que fugir do país para evadir-se a um processo criminal, devido ao envolvimento sexual com uma menor de idade.

Polanski já havia também assimilado holofotes por outro drama pessoal ocorrido em 1969, com o assassinato de sua então esposa grávida, a atriz Sharon Tate, pelos discípulos de Charles Manson. A posterior produção do realizador seria voltada ao velho continente, retornando ao ponto de partida de sua carreira, no entanto, não em tom de retrocesso.

O filme ‘O inquilino’, (Le Locataire/The Tenant, 1976), novamente explorando a multitude de relações humanas em um prédio de apartamentos, alinha a história do pacato Trelkovsky, interpretado pelo próprio Polanski,  que a despeito de sua atuação em expressões contínuas e poucos versáteis, traz credibilidade ao confuso e apático personagem que acredita-se vítima de uma conspiração pelos demais moradores do prédio, de modo similar a anterior locatária de seu apartamento, que teria se atirado pela janela. 

Aqui, tal como amoldado em Rosemary e Repulsa, a carga de tensão é construída não pelo que é mostrado, mas repousa naquilo que é presumido ou deduzido a partir de sugestões que podem ou não ser entendidas como tal, lastreando gradualmente o sustentáculo ao clímax derradeiro.

A obsessão do Inquilino Trelkovsky pela mulher, ocupante anterior de sua escabrosa morada, e a certeza da conspiração contra sua higidez, repise-se, física e mental, culmina em numa alucinada entoação acusatória próximo ao final do filme: “Eles querem me transformar em Simone Choule!”.

Esses aspectos desvelam um tecido construído de maneira mais minuciosa e robusta por elementos contínuos inseridos no roteiro. Planos sequência a partir da visão dos personagens e suas fantasias baseadas em elementos empíricos ou imaginários, constroem uma narrativa extremamente eficaz em todos os filmes aqui citados, que guardam peculiaridades no aspecto de construção da tensão e medo incutido ou projetado pelos protagonistas destes distintos city films.

Matizes de ambientes, bem como alternância psicológica dos personagens ajudam a compor as diversas camadas que esmeram a densidade dos roteiros e despertam a crescente inquietude e desconforto àquele que os assiste. 

É sabido que, quando se fala em arte (ou se sente), a noção de relativismo histórico antropológico exsurge de maneira bem forte, seja num olhar individual ou amplificado, pois, assim como a criação de uma obra pelo artista, sua interpretação inexoravelmente indica um troca. Uma miríade, na verdade. Congruentes ou incongruentes, similares ou de harmonia flagrantemente denegada, tal é a complexidade do ser humano sensível, que reage de maneiras distintas a eventos em comum. E, a partir desta visão multifacetada, a cada sessão, novas interpretações e emoções são detectadas, como impressões digitais ou pegadas na areia, antes encobertas, para serem detectadas por um novo olhar apreciativo.

Marcus Hemerly

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Música, elevação da alma

Marilza Santos: ‘Música, elevação da alma’

Marilza Santos
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Música, elevação da alma
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A música eleva a alma

A um nível do inconsciente

Nunca alcançado pela razão.

Música vem da alma,

Traz momentos que acalmam,

Tão pura quanto

Uma pétala de flor,

Que mostra

Verdadeiro amor.

Música é harmonia,

Melodia é ritmo,

É arte, é emoção, é sentimento,

É lamento, é solidão

Daquele que canta,

Enaltecendo o Criador e a criação.

Expressa cultura, beleza,

 Amor, evidência

O mais profundo sentimento

De dor, de chegadas,

De partidas, de luto, de  solidão.

Música pensada, cantada,

Música no olhar,

Nas batidas do coração…

Apaixonado de um sonhador.

Cantar é orar duas vezes,

Havendo dor

Relembrar, dissabor,

Quem nunca sofreu

Ouvindo uma música

Que lembrava um grande amor?

Cante no quarto, na cozinha,

 No banheiro, no corredor,

Na ausência de plateia

Cante ao menos para aliviar a dor

Marilza Santos

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Denise

Denise Canova: Poema ‘Denise’

Denise Canova
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Feliz e amorosa
“Feliz e amorosa”
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Denise

Feliz e amorosa

Eu sou única

Eu sou o que ele gosta

Dama da Poesia

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Projeto Voltando à Escola

Seis escolas da Zona Sul de São Paulo serão grafitadas nos próximos meses pelos artistas do Projeto Voltando à Escola

Projeto voltando à Escola
Projeto Voltando à Escola
Foto Divulgação

O Projeto Voltando à Escola já levou cerca de 800 artistas para mais de 100 escolas públicas em 6 estados brasileiros, impactando pelo menos 65.000 pessoas da comunidade escolar 

Com patrocínio do Parque Global e apoio da Benx Incorporadora, por meio do Programa de Municipal de Apoio a Projetos Culturais – PROMAC, da Secretaria de Cultura de São Paulo, a Conecta Cultura levará o PROJETO VOLTANDO À ESCOLA para seis escolas públicas na região de Paraisópolis (ZS). 

As escolas receberão cerca de 30 artistas para revitalização de salas de aula e espaços comuns por meio da arte urbana.

Três escolas serão grafitadas entre 05 e 12 de dezembro de 2023 (veja locais e datas abaixo) e outras três entre janeiro e fevereiro de 2024 (datas a confirmar)

As artes serão pintadas fora dos dias e horários letivos devido ao cheiro forte de tinta. Quando estudantes e educadores retornarem às escolas serão surpreendidos com enormes e coloridas obras de arte nas paredes

Após os grafites, acontecerão oficinas de grafite e rodas de conversa com o idealizador do projeto, o artista visual Ricardo Célio, onde toda a comunidade escolar poderá experimentar o muralismo, compartilhar suas impressões e falar sobre o “artivismo”, que considera a arte um instrumento de cura e transformação em nível pessoal e coletivo.

Locais e datas das ações:

EMEF CEU Paraisópolis 

Rua Doutor José Augusto de Souza e Silva – Jardim Parque Morumbi

05 e 06 de dezembro

EE ETELVINA GOES MARCUCCI 

Praça Dona Sereia Ambuba, 271 – Vila Andrade

09 de dezembro 

EMEF FRANCISCO REBOLO

Rua Catarinenses, 200 – Vila Andrade 

12 de dezembro

EE LUIS GONZAGA TRAVASSOS DA ROSA

Rua Afonso Vidal, 600 –  Jardim Santo Antônio 

Data a confirmar

EE MARY MORAES

Avenida Marechal Juarez Tavora, 257 – Super Quadra Morumbi 

Data a confirmar

EMEF PROFº PAULO FREIRE

Rua Melchior Giola, 296 – Paraisópolis

Data a confirmar

SOBRE O PROJETO 

O VOLTANDO À ESCOLA foi idealizado pelo artista plástico e grafiteiro Ricardo Célio, que já pintou espaços urbanos em 10 estados brasileiros, além de EUA, Europa e Oriente Médio.

O projeto repensa e ressignifica as relações entre espaço escolar, cultura e cidadania por meio da arte urbana.

Para isso, convida artistas de diferentes estilos visuais, que já foram alunos de escolas públicas, para grafitarem salas de aula, quadras, refeitórios, corredores e bibliotecas.

Desde 2017, mais de 800 artistas já levaram suas artes por meio do projeto para mais de 100 escolas públicas em 6 estados brasileiros, impactando pelo menos 65.000 pessoas da comunidade escolar. 

Responsabilidade social

Além de uma experiência estética, a arte é um instrumento de cura que promove transformação e evolução em nível pessoal e coletivo.

O encanto causado pelas cores e mensagens dos grafites nas escolas promove alegria, bem-estar e inspiração em quem os contempla. 

Com uma cara mais criativa, moderna e divertida, as escolas estimulam a criatividade de educadores e estudantes, e enriquecem a cultura escolar.

Ao serem revitalizadas, elas inspiram mais cuidado, carinho e limpeza. Tornam-se cada vez mais valorizadas e respeitadas, ampliando o desejo de pertencimento por parte dos estudantes e educadores, e reduzindo a violência e a evasão escolares.

Essa nova experiência com os espaços escolares gera melhorias nas relações humanas que acontecem e trocas culturais capazes de transformar a vida de todos e fomentar o ideal de educação como prática da liberdade. 

Ação educativa

Após a pintura, a equipe do VOLTANDO À ESCOLA realiza uma oficina de grafite e uma roda de conversa com estudantes e educadores sobre a relação entre espaço escolar, cultura e cidadania por meio da arte urbana. 

Estes encontros são fundamentais para a tomada de consciência da comunidade escolar em relação ao papel da arte e da cultura na construção da cidadania. 

“Levando cor, alegria e esperança para as escolas, buscamos reduzir a violência e resgatar a cidadania no ambiente educacional”, diz Célio, ressaltando a importância das ações de arte nessas localidades. 

SOBRE O PARQUE SOCIAL

Com uma visão futurista de desenvolvimento urbano, o Parque Global emerge como um farol de inovação e sustentabilidade no coração da cidade. Localizado na Marginal Pinheiros, o complexo imobiliário desenvolvido pela Benx Incorporadora, combina empreendimentos residenciais, comerciais, centro médico, hospital, shopping center, hotel, educação, lazer, gastronomia, cultura e arte em uma sinergia perfeita com a natureza.

O Parque Global redefine a maneira como entendemos e vivemos nas cidades. Mais do que um projeto imobiliário, é uma promessa para a cidade do futuro, onde a praticidade, sustentabilidade e inovação convergem para criar uma experiência urbana verdadeiramente única.

Mídia espontânea

Programa Fátima Bernardes

A Redação (Goiânia)

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O menino que brincava nas nuvens

Sergio Diniz da Costa

Conto ‘O menino que brincava nas nuvens’

Sergio Diniz
Sergio Diniz
Menino olhando as nuvens - Imagem criada por IA do Bing
Imagem criada por IA do Bing

Meu compromisso, no centro da cidade, era às 17h. Resolvi chegar às 16h e sentei-me num dos bancos da praça central de uma das maiores cidades do Interior do Estado de São Paulo, com 361 anos de fundação e uma população de aproximadamente 640 mil habitantes, que o tempo, a Administração Pública e os empresários e artistas transformaram-na numa bela e progressista cidade.

Com a maioria de suas ruas asfaltadas, prédios em construção pululando por todos os cantos, comércio pujante, com uma miríade de empresas e pessoas físicas prestadoras de serviços e uma significativa frota de veículos circulando diariamente, reflete bem uma cidade moderna, porém com toda sorte de problemas, incluindo a violência, sempre aumentando, como o são os grandes centros urbanos.

Assim eu mergulhava em meus pensamentos enquanto, aparentemente ao acaso, abri em uma das páginas do livro de poemas que trouxera, a fim de aguardar o horário do meu compromisso. No alto da página, o título: “Eu Sou Aquele Menino”, do poeta brasileiro Paulo Bomfim, membro da Academia Paulista de Letras e conhecido como ‘O Príncipe dos Poetas Brasileiros’. Eu já o conhecia e ele se tornara um dos meus preferidos, quando então estudante do ensino médio, tive a oportunidade de assistir a uma palestra desse grande poeta.

Grato pelo “acaso”, e já um tanto quanto absorto, comecei a ler os versos, em meia voz:

“Eu sou aquele menino/ Que o tempo foi devorando,/ Travessura entardecida,/ Pés inquietos silenciando/ Na rotina dos sapatos,/ Mãos afagando lembranças,/ Olhos fitos no horizonte/ À espera de outras manhãs/…”

─ Ei, moço, tá falando sozinho?

Assustado, interrompi a leitura. Um garotinho de camisa branca, short marrom e descalço, aparentando cinco anos de idade, me olhava, com uma mão segurando os dedos da outra e com uma expressão interrogativa.

─ Ah, não, eu estava declamando um poema em voz alta. Apenas isso ─ respondi, um tanto quanto encabulado e, certamente, corado, uma vez que, em termos de comportamento, sou do tipo sanguíneo.

─ Poema? O que é um poema? ─ mais uma vez ele me questionou.

A pergunta me pegou de surpresa. Em primeiro lugar, por ter vindo de uma criança com tão pouca idade. Depois, porque, apesar de eu ser um escritor e poeta ─ meu compromisso era com um novo amigo que me pedira ajuda para publicar um livro ─, senti-me sem didática suficiente para explicar algo que, para mim, era tão simples.

─ Poema é um… é um…. Travei! De repente, olhando para dentro de mim mesmo parecia que toda a teoria desse gênero literário sumira da minha memória, apesar de tão bem guardada que estava (assim eu pensava) no meu cérebro, na gaveta ‘Poemas’.

“E agora, José?” ─ pensei rapidamente com meus botões, lembrando o famoso poema do inesquecível poeta mineiro Drummond de Andrade.

Ainda imerso em pensamentos confusos, e sem a resposta esperada, quase que respondi a ele, como respondeu Drummond, no mesmo poema: “… A festa acabou/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou…”.

Na verdade, em me sentindo o mesmo José de Drummond, percebi que aquele garotinho tinha-me colocado contra a parede. E, de repente, não mais que de repente (como diria o ‘Poetinha’, Vinicius de Moraes), essa sensação me trouxe certa irritação, pois, afinal de contas, aquele filhote de homem colocara em xeque um adulto estudado, um escritor, um intelectual, e a primeira vontade que tive foi de mandar aquele pingo de gente procurar seus pais. “Aliás, onde estavam os pais dele?” Perguntei a mim mesmo.

Antes de responder a ele, perguntei-lhe:

─ Como é o seu nome, meu filho?

─ Tato! ─ ele respondeu com certo orgulho no olhar.

─ Tato?! ─ exclamei, agradavelmente surpreso, pois esse também era o meu apelido de infância. E, a partir daquele momento, senti um carinho e admiração especiais por aquele menino questionador.

─ Quantos anos você tem, meu jovem curioso?

Ele me apontou uma das mãos aberta e respondeu:

─ Assim, ó!

Entendi que ele queria dizer 5 anos e somente naquele momento me chamou a atenção algo em seu rosto: uma cicatriz!

Aquela constatação, aliada à idade dele, me causou uma estranhíssima sensação, uma sensação de déjà vu, uma vez que eu, na mesma idade dele, fui vítima de um acidente caseiro que me custou uma cicatriz ─ e no mesmo lado do rosto que a dele! ─, fato esse que me transformou num menino e adolescente tímido e complexado.

Essa constatação me trouxe um sentimento de profunda simpatia e solidariedade por aquele garotinho. E lágrimas abundantes, também.

Senti uma vontade irreprimível de abraçá-lo, de pegá-lo em meu colo, de fazer milhares de perguntas sobre sua vida…

E levantei-me, a fim de fazer isso. Todavia, algo ainda mais estranho aconteceu: aquela figura simplesmente desapareceu da minha visão!

Estupefato, deixei-me cair sentado no banco, mergulhado num turbilhão de perguntas sem respostas. E, num primeiro momento, senti vontade de sair correndo, correndo daquela praça, sem nenhum destino, à espera, talvez, de que o vento no meu rosto decifrasse as dúvidas.

Entretanto, o adulto que me tornei falou mais alto e, respirando calma e profundamente, tentei me recompor e, como se nada tivesse acontecido, meio que automaticamente, continuei a leitura, agora em voz alta, do poema iniciado:

“─ Ai paletós, ai gravatas,/ Ai cansadas cerimônias,/ Ai rituais de espera-morte!/ Quem me devolve o menino/ Sem estes passos solenes,/ Sem pensamentos grisalhos,/ Sem o sorriso cansado! Que varandas me convidam/ A ser criança de novo,/ Que mulheres, só meninas,/ Me tentam cabular/ As aulas do dia a dia?/ Eu sou aquele menino/ Que cresceu por distração.”

Mal terminando a leitura, senti que meus olhos já não focavam mais o ambiente em que me encontrava; um estado de devaneio começou a tomar-me o corpo, a mente e o espírito. Já não conseguia mais sentir o próprio corpo e o som ambiente: uma mistura de buzinas, música de publicidade e vozes, destacando-se a de um evangélico que pregava como um João Batista no deserto. Tudo começava a diminuir de intensidade.

Os ponteiros do relógio giraram no sentido anti-horário. Os segundos, os minutos, as horas, os dias, os meses, os anos escoaram numa velocidade vertiginosa, como se aquela ampulheta imaginária fosse a Máquina do Tempo, da fantástica história de H.G. Wells. E, de repente parando, à minha frente uma folhinha pendurada na parede apontou o ano: 1965. Cinquenta anos se passaram, numa volta ao passado!

Estamos numa tarde de verão de uma Sorocaba de meio século atrás, com uma população cujo censo de 1960 apontava uma população de 138.323 habitantes.

Há cinquenta anos, a cidade tropeira já se destacava na região pelo número de habitantes, mas, apesar disso, ainda era uma típica cidade do Interior, com muitas áreas verdes (e mato), ruas de paralelepípedos e de terra onde, nestas, a criançada fazia buracos no chão pra brincar de bolinha de gude ou de cachuleta, ou, ainda, de pega-pega, unha na mula  e outras brincadeiras que o Tempo levou consigo para as Páginas da Memória.

Era uma época em que os ponteiros do relógio pareciam caminhar a passos lentos e os dias escoavam como a própria eternidade.

Começo a caminhar por uma das ruas, sentindo-me como um espectro, um fantasma semelhante a Ebenezer Scrooge, o velho avarento de ‘Um Conto de Natal’, célebre história do escritor inglês Charles Dickens.

Aquela rua me desperta uma emoção há muito tempo não sentida. Uma saudade dolorida de um tempo em que, nos bairros, principalmente os mais pobres, os vizinhos mantinham uma relação de amizade muito próxima.

Pouquíssimas casas tinham televisores ─ em preto e branco ─, o que levava os vizinhos que os tinham a abrir a casa para os que não desfrutavam desse privilégio.

Nas festas mais importantes do ano, como o Natal, todas as portas se mantinham abertas para um intercâmbio de frutas natalinas e de quitutes, conforme a especialidade de cada vizinho.

Caminho absorto, à procura de pessoas queridas, porém, apenas ouvindo ecos do passado.

É um final de uma tarde de verão e, no mesmo lugar de sempre, deparo-me com o menino que um dia eu fui. Um menino de 5 anos de idade, com um corte de cabelo tipo ‘americano’, de camisa branca (já um tanto surrada), de calção e descalço, sentadinho no degrau de uma casa.

A rua, àquela hora, já se mostrava praticamente vazia. Ele era a única criança fora de casa.

Os vizinhos já conheciam o garoto e sua inclinação contemplativa e já não mais estranhavam aquela figura miúda, magrinha que, de vez em quando, mergulhado em pensamentos, saboreava um pedaço de pão seco.

Um passante mais atento talvez observasse que ele, naquele momento eterno, olhava apenas para cima. E um ou outro até perguntava o que ele estava fazendo. E, para quem perguntasse, a resposta era sempre a mesma: olhando as nuvens!

Para os adultos, em particular as mulheres, olhar as nuvens parecia coisa própria de quem quer verificar o tempo, para poder secar roupas no varal. Ou de meteorologistas, antes de consultar seus gráficos.

Para aquele menino, todavia, as nuvens tinham outro significado. Principalmente as do tipo ‘cumulus’, que são aquelas de contornos nítidos, com base aplainada e bem definidas, formadas em baixas altitudes e que, sob a ótica dele lembravam montanhas, castelos e animais.

Para aquele menino sonhador, de um tempo de infância interiorana, de horas lentas, ruas de terra ou de paralelepípedos e de poucos carros, aquelas nuvens representavam um enorme Parque de Diversões. E seu desejo era, um dia, alcançar o topo daqueles algodões branquíssimos que, para ele, tinham consistência e poderiam, dessa forma, ser escalados.

Seu sonho, no entanto, tinha um obstáculo intransponível: como chegar até elas? E os dias passavam, as tardes se faziam noite e, nos outros dias, pelo verão afora, lá estava aquele pequeno ‘filósofo da natureza’, à espera de um foguete imaginário ou mesmo um Pegasus que o levaria, literalmente, ‘às nuvens’.

Se os vizinhos em geral já não estranhavam aquele devaneio diário, um ou outro o interpelava, zombando dele ou apenas a título de curiosidade:

─ Tato, mas por que tanto você olha paras as nuvens?

E a mesma resposta já estava na ponta da língua:

─ Por que eu gosto, ué!

─ E por que você gosta tanto assim de ver as nuvens?

Aquela pergunta parecia exercer um efeito mágico no espírito do menino e ele, feito um adulto, um cientista ou, mais precisamente, um poeta, respondia, entusiasmado:

─ Tá vendo aquela ali? ─ E, apontando para uma não muito arredondada, a definia:

─ Aquela parece um cachorro.

─ E aquela outra, bem grande, no meio do céu? Aquela é a que eu mais gosto. Ela parece assim como se fosse um monte de travesseiros, um em cima do outro, formando uma montanha. Eu morro de vontade de subir e de brincar nela!

Os adultos sorriam diante daquelas palavras, para eles tão destituídas de realidade. E, despedindo-se do menino, certamente pensavam: “Criança tem tanta imaginação!”

E o menino ali continuava, qual uma sentinela. E, naqueles poucos e fugidios momentos, como num filme projetado em alta velocidade, o vi crescendo; crescendo e continuando a querer brincar nas nuvens.

Mas, assim como as nuvens se desmancham, sopradas pelo vento, aquele menino foi se desfazendo à minha frente e, com ele, as casas, a rua toda… e a minha infância, também!

Uma sirene ecoou estridentemente no ar e meu coração disparou. Abri meus olhos e, assustado e decepcionado, percebi que estivera sonhando. Estava na mesma praça onde ouvia as mesmas buzinas, a mesma música de publicidade e as mesmas vozes, num ruído que parecia ensurdecedor.

Consultei o meu relógio: marcava 16h15. Praticamente o mesmo horário em que conversava com o menino.

Com um sentimento de tristeza a apertar meu peito, não senti vontade de continuar a leitura dos poemas. E, menos ainda, de me levantar do banco.

Contudo, logo mais teria que cumprir o compromisso assumido.

Num esforço redobrado, reuni forças e levantei-me, ainda visivelmente contrariado.

Naquele momento um homem passou por mim carregando um espelho grande. Olhei para ele e me vi refletido. E me vi ainda mais velho e abatido, como se o espelho fosse o famoso retrato de Dorian Gray.

Uma brisa, porém, pareceu roçar meu rosto. Apesar da tarde quente e sem vento, podia jurar que em todas as árvores ao redor as folhas se agitavam, suavemente.

Um passarinho multicolorido voou de uma das árvores em minha direção e, passando por mim, ganhou altura.

Segui seu voo com meus olhos e, somente naquele momento, percebi uma gigantesca nuvem cumulus bem no centro da minha visão.

E, no topo dela, alguma coisa me chamou a atenção: era um menino!

Um menino que brincava nas nuvens!

Sergio Diniz da Costa

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Alma penada

Ana Kelly: Poema ‘alma penada’

Ana Kelly
Ana Kelly
“Era uma alma penada, translúcida, inconformada
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Era uma alma penada
Chorava em sua falta de vida
Seu excesso de morte

Era uma alma penada
Translúcida
Inconformada

Era uma alma penada
Tinha o mundo inteiro a seu alcance
Mas não sentia nada

Era uma alma penada
Nem jovem, nem velha
Apenas desencarnada.

Ana Kelly

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Didatologia para utilização em redes sociais

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Artigo

‘Didatologia para utilização em redes sociais’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo

Em tempos tive a possibilidade de assumir a responsabilidade de escrever e publicar uma reflexão sobre os benefícios e malefícios das redes sociais, concretamente, sobre o Facebook. Critiquei, e continuarei a reprovar, intransigentemente, com profunda convicção, as intervenções escritas, icónicas, pictóricas que ofendem a dignidade da pessoa humana bem-formada, apesar de “só consultar tais perfis quem assim o deseja”, segundo alegam alguns utilizadores de tais incursões de baixo e inqualificável nível ético-moral.

No mesmo artigo, manifestei, igualmente, o meu apoio a todas as pessoas que utilizam esta aplicação para encontrarem familiares, amigos, colegas de várias atividades, divulgarem conhecimentos, tecnologias, combinarem encontros, trocarem opiniões sobre os mais diversos e decentes temas, que se repercutem, universalmente: para o bem; ou para o mal, conforme as utilizações que se fazem.

Pretendo, nesta reflexão, destacar as virtualidades positivas do Facebook, solidarizar-me com os utentes que escolhem este meio de comunicação para: divulgarem os seus conhecimentos; publicarem as matérias sobre os temas científicos, culturais, literários, tecnológicos; e quaisquer outros que acrescentem riqueza ao património axiológico mundial, desde logo, ao nível da Cidadania, Direitos Humanos, Felicidade, Paz, Bem-Comum, entre muitos outros.

Naturalmente que é aceitável, porventura, desejável, que se elaborem e publiquem trabalhos de índole crítica, porém, com objetivos construtivos, sem entrar no domínio do irracional, dos “esquemas da mais baixa moral” e, principalmente, sem invocar/exibir as diversas práticas de pedofilia, pornografia, orgia e outras aberrações antiéticas e antimorais.

Os utilizadores do Facebook estão em permanente observação, em qualquer parte do mundo, no ciberespaço, por milhões de pessoas, entidades públicas e/ou privadas. É, até, compreensível que assim seja, para que se saiba: “quem é quem?”; “quem está com quem?”; “quem faz o quê?”; “quem apoia, o que gosta e com quem gosta de conversar?” porque a resposta a estas questões, conduz-nos imediatamente ao velho provérbio: “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”.

Em bom rigor, se uma determinada pessoa, sistematicamente: dialoga, acompanha, concorda, apoia, certo tipo de outras criaturas, e se estas revelam comportamentos extrovertidos, atentatórios de princípios, valores e sentimentos nobres, é possível que, mais tarde ou mais cedo, tal pessoa venha a ser como aquela com quem se tem relacionado em atitudes de baixo nível educacional, cultural, civilizacional e ético-moral, podendo vir a ser provável que quem regularmente se relaciona e acompanha, por exemplo, com indivíduos do mundo do crime, acabem por se afundar nesse mesmo universo tenebroso.

É muito frequente que os utilizadores do Facebook, para determinados fins legais, justos e legítimos, de troca de informações decentes, peçam e aceitem as denominadas ‘amizades’, como se afigura de bom gosto, e educação sociocultural, agradecer a aceitação de uma afeição Facebookiana, com a colocação de um simples ‘gosto/curto/like/adoro/amo’, expressões universalizadas, que se colocam sobre fotos e frases de quem nos aceitou como amigo. É uma espécie de cortesia.

Manifestar gratidão, elogiar educadamente, proferir uma opinião gentil, afinal só é possível entre pessoas cultas, educadas, de boa-formação ético-moral e, principalmente, empenhadas em relações sociais de elevado nível civilizacional, que nada têm a ver com as intervenções de outros estratos da sociedade que, para se tornarem ‘engraçadamente mal-educados’, recorrem ao: insulto, à insinuação sexista, tudo isto encoberto numa “cândida garotice”.

O Facebook é, excluindo os exageros indecentes, exibicionistas e mal-educados, de algumas pessoas, de muito duvidosa reputação, a todos os níveis, da dignidade humana, um recurso tecnológico que se julga necessário rentabilizar, pela positiva, ou seja: partilhar a excelência do que de melhor existe na sociedade cultural, política, religiosa, empresarial, científica, tecnológica, financeira, económica, enfim, num universo que se deseja humanista, no respeito de “todos por todos”, de resto, não se pode ignorar que as nossas crianças, hoje em dia, são imensamente inteligentes e, ainda com pouca idade, já sabem manejar um computador e entrar na internet, bem como em todas as redes sociais.

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente Vitalício (Não Executivo) do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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