Clayton Alexandre Zocarato: Poema ‘Alces e alpes…’
Clayton ZocaratoOs alces tocam o céu como véu… Criador de imagem do Bing
Alces desejam tocar as aves… Os alpes tocam o céu… Como véu… Para fazer as pazes… Com disseres… Que nos penhascos da discórdia… Diariamente lembra o homem… Em estar ao avesso do amor… Alces são violentos… Os homens são muitos ciumentos… Os alpes produzem avalanches de lamentos… Entre juramentos invernais… Os alces são hibernais… Se fechando em espirituais… Nada fraternais…
Ella Dominici: Prosa poética: ‘Raízes das linhas e sementes do riso’
Ella Dominici‘As sementes livres voejam sós, nas asas do amor, nos bicos de beijos, copas e ninhos ardentes, até o templo dos sentidos’ Criador de imagens do Bing
Aqui, pegamos raízes que plantamos num alegre dia…
Da sacada o mar que se viu pela primeira vez e tristes areias.
Dentro da casa a velha contava ao ocaso, e ele a ouvia como por acaso. A avançada insegurança era como lepra, a vida, duas auroras, uma rosa e outra roxa.
No bolso um pente e na boca um dente. No lenço os dois pensamentos de sua mente, amarrados para não se perderem.
Às costas a crista do rochedo, altas escarpas da ilha antes tórrida.
Amigos conspiraram com as pedras, enquanto as portas cheirando a alho e tomilho acenavam pela maçaneta, ferrugem do interior da cozinha. A louça fugira do lugar.
As palavras balbuciavam na aurora dos sentidos enquanto iam as raízes viajando sobre pedras.
Desde então sabemos que as sementes são mais alegres do que as raízes que permanecem nos séculos dos tempos. Podem até subir escadas de mármore, mas não avançam às nuvens por furos dos tetos.
As sementes livres voejam sós, nas asas do amor, nos bicos de beijos, copas e ninhos ardentes, até o templo dos sentidos.
Passionais cavalgam em corbelhas de rosas, no dorso desvairadas, na vida são alegres e perdem as sandálias, não param para calçá-las, até mancando correm no movimento que ultrapassou, imutável, a profundeza do tempo das sementes … na alegria do riso.
II Seminário Viagens da Língua do Museu da Língua Portuguesa
Inscrições abertas para a apresentação de trabalhos. Projetos com temas voltados à relação entre língua e tecnologias devem ser enviados até 23 de novembro
Ciete Silvério Museu da Língua Portuguesa
Com a conferência de abertura presencial no Auditório da instituição, evento terá mesas de debate entre 6 e 8 de dezembro pelo YouTube do Museu
O Centro de Referência do Museu da Língua Portuguesa, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, realiza, entre 6 e 8 de dezembro, a segunda edição do Seminário Internacional Viagens da Língua.
Desta vez, os temas principais do evento, com mesas de debate transmitidas pelo YouTube do Museu, serão as relações entre língua e as tecnologias, que se atravessam em diversos momentos: ao ligar duas latas por um barbante, quando se desenha com um pedaço de carvão em uma pedra, nos papiros, nos diversos sistemas de escrita criados para gravar as ideias em suporte material, nas conversas de aplicativos, por exemplo.
Dessa forma, o evento propõe o entendimento mais amplo de tecnologia, para além do digital ou computacional.
Quem tiver interesse em apresentar um trabalho no evento já pode fazer inscrição gratuitamente pelo formulário deste link. Para isso, basta enviar um resumo da pesquisa, com no máximo 300 palavras, até o dia 23 de novembro – em caso de coautoria, deve ser escolhida uma pessoa como autoria principal, que é quem apresentará o trabalho. Os selecionados serão avisados por e-mail no dia 27 de novembro.
No II Seminário Viagens da Língua, os trabalhos devem contemplar um dos dois eixos temáticos do evento.
1. Língua, pesquisa e tecnologias
Se por um lado existe uma relação estreita entre linguagem, cognição e as ferramentas que os seres humanos usam há milênios, por outro as ferramentas de registro e reprodução desenvolvidas nas últimas décadas trouxeram um salto para a pesquisa sobre as línguas.
Nesse sentido, propõem-se debates que contemplem a relação entre as pesquisas feitas sobre e por meio da língua com as diferentes tecnologias já criadas, bem como ferramentas atuais de documentação e preservação de línguas e de outros acervos, explorando como a pesquisa linguística e museal se beneficia dos avanços tecnológicos.
2. Línguas, interação e tecnologias
As tecnologias podem reorganizar nossas práticas comunicativas, diminuindo ou criando barreiras à interação humana. Propõem-se, então, diálogos sobre as trocas linguísticas entre as pessoas que compõem a comunidade de falantes de português pelo mundo, tanto nos pontos em que as tecnologias nos unem, como na criação de novas comunidades de fala. Nesse contexto, também serão debatidos os impactos e as contribuições dos avanços tecnológicos no ensino e na aprendizagem.
Informações sobre como acompanhar o evento como ouvinte e sobre a inscrição para a participação nos minicursos serão anunciadas em breve. O mesmo acontecerá com a programação completa.
Datas importantes Até 23/11: período de submissão de trabalhos
27/11: divulgação dos trabalhos selecionais
28/11: divulgação da programação completa
18/11: início das inscrições nos minicursos
6 a 8/12: realização do evento
SERVIÇO Submissão de trabalhos para II Seminário Viagens da Língua: língua e tecnologias Até 23 de novembro pelo link Grátis
II Seminário Viagens da Língua: língua e tecnologias Entre 6 e 8 de dezembro Grátis
SOBRE O MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA O Museu da Língua Portuguesa é uma realização do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, concebido e implantado em parceria com a Fundação Roberto Marinho. O IDBrasil Cultura, Esporte e Educação é a Organização Social de Cultura responsável pela sua gestão.
PATROCÍNIOS E PARCERIAS A Temporada 2023 conta com patrocínio da CCR, do Instituto Cultural Vale, da John Deere Brasil e do Grupo Globo; com apoio do BNY Mellon, da PwC Brasil, do Itaú Unibanco, do Grupo Ultra e com as empresas parceiras Eaton, Paramount Têxteis, Machado Meyer e Verde Asset Management. Revista Piauí, Guia da Semana, Dinamize e JCDecaux são seus parceiros de mídia. A EDP é patrocinadora máster da reconstrução do Museu.
A reconstrução e temporada são uma realização do Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet.
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo Artigo ‘O actual é um instante efémero’
Diamantino Bártolo
A vida dá muitas voltas, o mundo tem muitas ‘esquinas’ apesar da sua configuração ser praticamente redonda. Frequentemente, algumas pessoas recordam factos, situações e outras que conheceram, com quem até conviveram, há dezenas de anos, a milhares de quilómetros de distância, em circunstâncias inimagináveis, que esperavam, ou então desejavam, voltar a reencontrar, a conviver com elas, que até teriam sido amicíssimas, e se ajudado mutuamente.
Com muita frequência, incompreensivelmente, o que por vezes se verifica, em inúmeras pessoas, é uma espécie de ‘amnésia’ em relação a quase tudo de bom que outras fizeram por elas, mas quando são aquelas pessoas a necessitar de ajuda, e nem sequer se aborda o aspeto material, mas apenas um auxílio moral, ético, solidário, leal e, principalmente a amizade das pessoas a quem nós já fizemos bem, elas viram-nos a cara, mudam de rua e, se não puderem, passam para o outro passeio, evitam-nos e nem sequer atendem os nossos contactos.
Tais pessoas, num dado período das suas vidas, num presente que elas julgam nunca mais acabar, porque consideram que já não precisam mais de quem, no passado, sempre esteve ao lado delas (e em alguns casos pontuais, ainda continuam) tornaram-se insensíveis, incluindo em situações de doença, de quem sempre foi amigo delas, ficam indiferentes e, quantas vezes, revelam, até, grande impiedade, tratando as pessoas que tudo fizeram e deram por elas, como se fossem umas quaisquer desconhecidas, ou conhecidas de ocasião, entre biliões de outras tantas pessoas ignoradas, ou seja, descartáveis, ou então, como se já não existissem.
Para aquelas pessoas, provavelmente, pensam, elas próprias, e agem em conformidade, não existe passado, quando muito, recordam esse passado se dele ainda subsistirem situações, interesses e pessoas que lhes possam vir a servir no presente, para se autoafirmarem no futuro, para alimentarem uma grande exposição de egocentrismos ou, ainda, sustentar a ingratidão, exercerem uma espécie de autonomia axiológica, manifestação de indiferença, e/ou, também de superioridade, de sobranceria, de humilhação e sofrimento a quem, eventualmente, tantas vezes lhes fez bem, e continua a querer bem.
Poder-se-á admitir, em tese, que quem assim pensa e age, está a renegar partes de um passado que tem na sua história existencial, que viveu, quantas vezes com várias dificuldades, que colheu apoios de pessoas de bem, que até conquistou amizades, sentimentos e emoções que, sincera, humilde, generosamente e de boa-fé lhe foram concedidos.
O presente é um momento fugaz, lapso de tempo de ínfima duração, o resto é futuro, que está sempre umas frações de segundo à frente de todas as vidas que, em parte, até se ignora: como vai ser, o que vai acontecer, o que se vai conseguir, mas é legítimo, e justo, que se lute por um futuro cada vez melhor, em todas as dimensões da vida humana.
Pessoa alguma evita o seu passado, poderá garantir que vai ter um futuro totalmente autónomo, brilhante e de ostentação, que essa absurda situação lhe vai permitir continuar a desprezar quem num passado, eventualmente recente, deu todo o apoio para que a vida retomasse uma certa normalidade: pessoal, familiar, matrimonial e mesmo social.
Quantas pessoas, ainda num passado recente estavam muitíssimo bem na vida: com saúde, conforto, bens materiais, amigos (estes, enquanto durou a então situação confortável), mas que hoje e, infelizmente, num futuro próximo, sempre um bocadinho à frente, de um presente momentâneo, estão na maior miséria, que até os então “amigos de ocasião” os abandonam?
E quantos num passado, mais ou menos longínquo estavam muito mal na vida, sem saúde, sem trabalho, sem os tais amigos, marginalizados por alguns estratos da sociedade, até pela família, (excetuando os amigos verdadeiros, aqueles que dizemos do coração e para a vida) hoje, por mérito próprio: estudo, trabalho, poupança, com o apoio daqueles amigos sinceros, verdadeiros, também com um pouco de sorte e de saúde, estão bem na vida?
O Bem e o Mal existem. As virtudes e os defeitos não se podem ignorar. O amor e o ódio permanecem. O passado e o futuro são as duas fases importantes das nossas vidas, porque o presente é um passado em revisão e um futuro em preparação. Mas o presente também é momento de reflexão retroativa, proativa e projetiva. O presente está em cada momento da nossa vida.
Sejamos justos, generosos, gratos e leais para com quem nos fez e faz bem, seja no passado, seja neste momento, seja no futuro, mas ainda e, em geral, para com todas as pessoas. É esta a ‘regra salomónica’; é este o bom senso; são estas as virtudes e a realidade; são, afinal, verdades Kantianas: “Deseja para os outros o que queres para ti”.
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal
Mãe de um jovem com dependência química publica autobiografia
Relatos de dor e resiliência: Tita Caldas lança o livro ‘Drogas – O diário de uma mãe’ para retratar experiências pessoais e acolher famílias que se sentem sozinhas na luta contra as drogas
Capa do livro ‘Diário de uma mãe’, de Tita Caldas Divulgação / LC – Design & Editorial
Quando Tita Caldas percebeu que o filho adolescente utilizava drogas, ela não sabia o que fazer ou a quem recorrer para afastá-lo do vício. Nos anos 1980, as informações sobre o assunto eram escassas, e uma família do interior de Santa Catarina tinha ainda mais dificuldades de descobrir como auxiliar um jovem com dependência química.
Mesmo assim, a mãe buscou tudo que estava a seu alcance para auxiliar o menino e, quatro décadas depois do início desta jornada, decidiu compartilhar as experiências vividas no livro Drogas – O diário de uma mãe.
A obra, escrita a punho na época, chega às estantes em um momento em que Tita se sente mais preparada para falar sobre o assunto. Tudo por uma causa nobre: acolher pessoas em situações semelhantes. Com este objetivo, expõe sentimentos íntimos para mostrar que as famílias não estão sozinhas nesta luta e, como muitos, enfrentou sentimentos de dor, culpa, raiva e frustração.
O texto reconstrói dolorosos e reais acontecimentos, diálogos, pensamentos e cartas, sem a tentativa de amenizar os traumas. Neste formato confessional, a escritora explicita características comuns de pessoas com vício e que estavam presentes nos hábitos do filho Daniel. As mentiras, as fugas de casa, os ciclos de melhoria e recaída, o comportamento difícil e os furtos para pagar as drogas são alguns dos episódios relatados.
Só quem já passou pelo que nós passamos pode avaliar o que foi esse tempo em nossa vida. Se tocávamos no assunto, sofríamos; se não tocávamos, sofríamos ainda mais. Sentíamos remorso, porque não estávamos fazendo nada, mas nos sentíamos impotentes. Já estávamos tão sofridos e decepcionados que, às vezes, eu comentava com Paulo que estávamos mesmo era adormecidos, petrificados e, quem sabe, acostumados com o sofrimento […] (Drogas – O diário de uma mãe, pg. 116)
Apesar disso, Drogas – O diário de uma mãe não se propõe a ser um manual de como auxiliar familiares com dependência química, mas levanta a discussão e rompe o silêncio que envolve as drogas. Com este lançamento, que faz um recorte de uma década na vida do jovem, desde a adolescência até o início da vida adulta, a autora também eterniza as lembranças do filho.
Para além das dificuldades, retrata o carisma, a bondade e o respeito à família que eram intrínsecos da personalidade de Daniel, uma vítima do vício.
Tita Caldas se coloca aberta a críticas, para que os leitores possam aprender com os acertos e erros dela. Em várias partes da narrativa, faz uma autoanálise e pondera o que deveria ter feito diferente. Ela explica: “espero que as pessoas reflitam e julguem. Quero que elas aprendam com os meus erros e que entendam a importância de lutar por um mundo melhor, sem que nunca percam a capacidade de amar”.