Elaine dos Santos: Artigo ‘Ler liberta (faz pensar!)’
Elaine dos Santos
Traço reflexões sobre amor, fidelidade, infidelidade, felicidade e perenidade amorosa, tomo, como mote, alguns textos literários e parto do pressuposto que a leitura pode nos desenraizar de conceitos conservadores, que partem de um a priori que não pertencem ao nosso tempo, à sociedade que vivemos.
Atenho-me, claro, à minha área de formação – Letras – para refletir sobre um tema que, quase sempre, volta à tona nas discussões sociais e que emergiu entre amigos por conta do aniversário de Vinícius de Moraes
No conhecido ‘Soneto de Fidelidade’ , há dois versos repetidos à exaustão por quem gosta de poesia, refiro-me a ‘Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure’.
O poeta (ou seu eu lírico) parte de um pressuposto que a nossa sociedade tem dificuldade para enfrentar desde que o Romantismo inventou o célebre final em seus romances ‘Casaram-se e foram felizes para sempre’. Então, nem sempre o amor permanece?
De imediato, questionamo-nos sobre os pares fidelidade x infidelidade; amor finito, amor infinito.
Arnold Hauser , em seu livro História Social da Arte da Cultura , recompõe os passos da sociedade humana, lembra que, em determinado momento, as sociedades foram matriarcais, porque se acreditava que a gravidez fosse uma conjunção entre a mulher e os deuses. Não era. Haveria ali um primeiro indicativo que o adultério era possível? Eu posso “dourar” a ideia: haveria ali um primeiro indicativo que a traição amorosa era possível?
Em Medeia , tragédia grega escrita por Eurípedes , temos a história de Medeia e Jasão, ele, depois de terem tido filhos, repudia a mulher e decide casar-se com Glauce, filha de Creonte, rei de Corinto. O plano de Jasão não nos é estranho: seria o marido de Glauce e manteria Medeia como amante. Medeia rebela-se, envenena as vestes de Glauce, mata os filhos que tinha com Jasão, com vistas a provocar-lhe dor, sofrimento.
O Realismo francês brinda-nos com um caso de infidelidade que se tornou famoso: Emma Bovary. Trata-se da mulher que trai, que sente necessidade quase orgânica de ser infiel ao marido, que tudo faz para administrar os dissabores que a situação provoca. Madame Bovary, de Gustave Flaubert , fez suas descendentes na literatura ocidental.
A portuguesa Luisa, de O primo Basílio , de Eça de Queirós , é outro caso de infidelidade matrimonial. Caracterizada como uma clássica heroína romântica, frívola e tola, ela entrega-se ao primo, recém-chegado do Brasil, enquanto o marido, Jorge, estava fora da cidade. O caso amoroso é descoberto pela serviçal, Juliana, que a chantageia. Na conservadora sociedade portuguesa, o crime de Luísa – o adultério – é punido com a sua morte.
O amor geraria, assim, o compromisso da união oficial diante da sociedade, mas não representaria uma efetiva “união de almas” que se (re) encontram e são felizes para sempre? Vinícius – o eu lírico – parece crer que o amor pode ser finito. Pelo sim, pelo não, costumava dizer aos meus alunos: “Nem tanto ao céu, nem tanto a terra”. Emoção e racionalidade andam lado a lado, convém saber mediá-las.
Não podemos garantir que “devorar” livros, sem reflexão, possa gerar mudança de comportamento, alterações na compreensão que temos da sociedade e das relações humanas, mas nos fará menos dogmáticos, admitindo que, como humanos que somos, tudo é imperfeito.
José Bembo Manuel ‘Sátira sociopolítica na obra A Queda do Cão Cidadão, de Dias Neto’
José Bembo ManuelCapa do livro ‘A Queda do Cão Cidadão’, de Dias Neto
A sátira é caracterizada pela ridicularização dos defeitos e vícios de uma época, de uma instituição ou de uma pessoa. Serve-se muitas vezes da ironia e do sarcasmo para induzir à reflexão sobre determinados actos morais, denunciando-os quase de forma eufemizada.
É a sátira o principal marcador que Dias Neto orienta a produção literária de Dias Neto. Depois de O Taxista, A Festa dos Porcos e Um Camaleão no Executivo, brinda-nos, em 2023, com a A Queda do Cão Cidadão. Trata-se de uma narrativa constituída por dez contos, sendo o título da obra o título do sexto conto.
Trata-se de uma leitura sociocrítica e histórica de Angola e dos angolanos. Nesse sentido, o conto “Quarto de Fezes”, republicado nesta obra, é um dos mais representativos. O ‘Quarto’ parece-nos representar ANGOLA e as ‘Fezes’, os MALEFÍCIOS E VÍCIOS criados e difundidos desde o alcance da independência, sendo denunciados e combatidos pelo Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço.
A minoria que concentra as riquezas do país, é, no conto, metonimicamente, representada por um rei “seus integrantes gostavam de chamar o rei da terra de goloso. Diziam que era pançudo porque comia sozinho as comidas que o solo daquela terra oferecia…” (Neto, 2023, p.54).
A tão propalada liberdade de expressão e da imprensa abriu portas para a inserção de comentaristas apartidários ou da sociedade civil. Esse dado real foi ficcionado nos seguintes termos “De Táxi em táxi, levavam a notícia que aventava que o jornal “ Notícias do Reino” estava a dar cadeiras ao revus, o que significava que também o jornal estava a acusar o rei da terra de ser um pançudo guloso” (Neto, 2023, p.54).
A nova estratégia de comunicação do Presidente da República, por via das Conferências de Imprensa, é igualmente ficcionada como se pode ler em “…o novo Presidente traçou uma estratégia: convocou todos os papagaios e todos os pombos-correios para uma conversa amena na varanda do palácio” (Neto, 2023, p. 56).
Denotam-se também no conto as rixas entre os lourencistas e eduardistas a volta das riquezas acumuladas “porém, havia um pequeno grupo que engordou com o cheiro das fezes do antigo presidente da sua prole. Este ficou muito chateado, pois, ao lançar uma Guerra contra aquele quarto, o novo president queria vê-lo à mingua ou mesmo morto, porque aquele cheiro nauseabundo lhe dava vitalidade” (Neto, 2023, p.56).
Afirma-se que o Estado é o principal agente de violência. No caso do novo rebento de Dias Neto, a violência aparece de várias formas – privada ou institucional. No já mencionado conto, as nuances memorialísticas dos eventos relacionados aos 15 +2 são transpostos no ficcional. No conto “O Caso Suspeito”, a violência institucional é simbolicamente representada pela actuação da polícia que se esquece da função pedagógica que deve assumir e serve-se da força, deixando várias vítimas.
Por isso, na narrativa, Kota Beguê e Três e Meio, agastados com a actuação policial sobre as zungueiras, em particular, e aos cidadãos em geral, sugerem a privatização da Polícia Nacional conforme se pode ler em “apercebendo-se de que o Governo ia privatizar muitas empresas estatais, e uma vez que se alegava que com o acto tais empresas teriam melhor rendimento, decidiram escrever para o president a sugerir que o Governo incluísse também a Polícia no rol de empresas a privatizer” (Neto, 2023, p. 48).
Fica evidente na obra a relação do escritor com a realidade que o circunda. Práticas pouco comum na administração pública angolana aparece, ironicamente, descrita através de presenças assinaladas no local de trabalho de um “trabalhador” morto. Satiriza-se a chico-espertice de muitos funcionários e trabalhadores que, em conluio com técnicos dos Recursos Humanos, mais passeiam do que trabalham.
A morte de Guimarães, o morto-trabalhador, é do quanto trabalho há a fazer para se aumentar o comprometimento das pessoas depois de conquistadas as vagas de emprego e dos respectivos fiscalizadores.. Neste sentido, aqueles que combatem a corrupção e o furto são rotulados como os carrascos dos infractores. “Continuei ainda na imaginação e dessa vez, coloquei nela o Caetano, o fiscal que nos era um verdadeiro carrasco” (Neto, 2023, p. 13).
A violência simbólica, desenvolvida pelo Estado Angolano, outro eixo de leitura da obra, empurra para pobreza milhares de famílias e alimentam a coisificação do homem e as futilidades como forma de entreter o povo e a prostituição.
Na narrativa A Queda do Cão Cidadão, de Dias Neto, encontram-se também contos que tematizam essas realidades. Por exemplo, no conto Tempo dos Bolsos, questiona-se a relevância dos concursos de miss diante dos concursos artístico-literários, olhando para os incentivos e prémios de um e outro
“- Confrade, ela ganhou este carro no concurso?
Não sei dizer. Sei apenas que para os concursos de leteratura nem um carrito de três cilindros dão como prémio”. (Neto, 2023, p.25).
O caenchismo é, n’A Queda do Cão Cidadão, o passaporte para flertar com senhoras endinheiradas, ou seja, para que jovens desempregados e de costas viradas com a formação académica possam, a troco da satisfação de desejos íntimos de banqueiras e empresárias, possam viver no luxo e ter estabilidade social conforme se lê em “Mas estas damas andavam a estudar como?! Aquele Marcelão que nem sabe escrever o seu próprio nome. Assim conquistou como a gerente do banco? – retrucou o musculoso do IPad” (Neto, 2023, p. 38)
O conto ‘A Queda do Cão Cidadão’ satiriza a arrogância e a prepotência de servidores da administração pública, que desumanizam os serviços, humilhando e frustrando utentes. Por outro lado, a arrogância de superiores hierárquicos e a incompetência no desenvolvimento de muitas de suas tarefas animalizam o tratamento.
A obra, pela dimensão pedagógica que encerra, pode ser utilizada a partir do terceiro ciclo do Ensino Primário, fazendo jus ao princípio segundo o qual é de pequeno que se torce o pepino e aproveitando o carácter humanizador do texto literário.
REFERÊNCIA
Neto, Dias (2023). A Queda do Cão Cidadão, Palavra e Arte, Luanda
Fábulas e contos de fadas ajudam crianças a despertar para a filosofia
Isabella Arruda Galvão ensina público infantojuvenil a tomar consciência de si e a lidar com questões da vida em coletânea
Capa do livro ‘Histórias para Despertar’, de Isabella Arruda
Por meio de uma coletânea de textos que sintetizam ensinamentos milenares, a filósofa Isabella Arruda Galvão conversa com o público infantojuvenil no livro Histórias para Despertar. Publicação da Hanoi Editora, o título reúne fábulas e contos de fadas não para induzir ao sono, mas que ensinam como viver de forma plena e consciente.
Filha da filósofa Lúcia Helena Galvão, Isabella estuda filosofia desde a infância, época em que já buscava respostas para as próprias indagações sobre o mundo. Dessa curiosidade nasceu o conteúdo da obra, compilado com a intenção de ajudar a manifestar o espírito filosófico de forma lúdica, criativa e divertida.
Formada em Direito e professora de disciplinas relacionadas à ética e valores humanos, a escritora aborda, por exemplo, o sofrimento causado pela incoerência entre discurso e ação no texto intitulado Rei Assis. Em Sombras da Vida, ela cria um panorama pré-histórico para transmitir as lições de desapego material contidas no Mito da Caverna, de Platão.
A filósofa adapta também o Mahabharata, um dos principais mitos indianos, para ilustrar a batalha interior entre as virtudes do ser humano e aquilo que o aprisiona. Em linguagem acessível para todos os públicos, a estudiosa explica como essa luta acontece diariamente na consciência de cada um.
O Bhagavad Gita é, na verdade, o trecho mais importante de outra história bem maior, o Mahabharata. Ele fala principalmente sobre a guerra interior do bem contra o mal, das virtudes contra as debilidades, pela qual cada um de nós passamos todos os dias. Até mesmo na hora de acordar! Neste caso, o inimigo é a preguiça, um dos mais poderosos kuravas! (…) Essa é a saga humana, estar sempre lutando e vencendo seus vícios.
(Histórias para Despertar, p. 22)
Através de um dos métodos mais eficazes e antigos de transmissão de ensinamentos, a contação de histórias, Isabella Arruda Galvão oferece um conteúdo profundo e repleto de lições. Histórias para Despertar é um recurso valioso para inspirar crianças e adolescentes a se tornarem indivíduos mais conscientes, reflexivos e éticos em suas jornadas de crescimento.
Isabella Arruda Galvão é graduada em Direito e professora voluntária de filosofia na Organização Internacional Nova Acrópole.
Desde 2009, leciona para adultos e crianças. Suas aulas tratam de temas relacionados à filosofia clássica, ética, mitos e valores humanos.
Atualmente é diretora da Nova Acrópole Asa Norte, em Brasília. Atua na área de Experiência do Usuário (UX) em uma empresa de tecnologia e é sócia e palestrante da Kalíope Comunicação Corporativa.
Ideias fundamentais encontram elos que as sustentam através dos tempos. A Hanoi Editora, fundada em 2017, tem como missão fortalecer esses elos que promovem o encontro entre autores, livros e leitores. Com abordagem fundamentada no respeito, transparência e senso de pertencimento, oferece suporte a autores, sejam novos ou já reconhecidos.
Tem como visão proporcionar títulos de alto valor nas áreas de filosofia, artes, espiritualidade e desenvolvimento pessoal, promovendo a reflexão ativa em um mundo em constante transformação, impulsionando a humanidade a atingir seu potencial máximo.
Letícia Mariana: Crônica ‘O passado é uma roupa que não me serve mais?’
Letícia MarianaA tristeza de ser sozinha Criador de imagens do Bing
Recordo a infância. Barulhos, crianças correndo, mesas gigantes no recreio. Todos saem de perto. Ninguém quer conviver com a criança chata que fica lendo livros no intervalo.
Chegou a adolescência. Repleta de tribos, panelinhas, jovens fumando cigarros e baseados como se não houvesse amanhã. Lá no cantinho, sou eu. Sozinha e sentindo a dor de ser diferente. Abro meu livro e suspiro. De repente, surge um grupo. Ele quer que eu experimente, que eu vá e que eu tente. Que eu viva o que ele chama de vida.
Tento educadamente não ser ainda mais vista como o patinho feio, mas ainda há muita amargura e solidão em mim. Com risadas e atitudes cruéis, meus dias são os piores dias que uma adolescente poderia viver. Só queria estudar. Só queria ler. Só queria me divertir do meu jeito. Só queria ter amigos.
Alguns meninos me chamam pra sair, mas temo que eles me levem para caminhos que não quero. Evito. Algumas meninas me chamam para festas recheadas de drogas e álcool. Não posso, não devo e nem sequer desejo. Perco a oportunidade de ser alguém para eles.
São várias as piadas. Eu não acho graça de nenhuma. Vou ao banheiro chorar – um cheiro terrível que não reconheço se é cigarro ou maconha – e meu nome escrito no banheiro com ‘careta’ e ‘vadi” ao lado.
Os dias são difíceis. Os dias são tristes. Os dias são solitários.
Mas eu só quero ser como sou. Eu não quero ser como eles. Eu só quero viver feliz. Mas na minha felicidade. Não na felicidade deles. Mas o passado é uma roupa que não me serve mais.
O leitor participa: Marino Rampazzo: Artigo ‘Halloween’
Marino RampazzoHalloween Criador de imagens do Bing
O Halloween é uma das tradições mais antigas do mundo, na verdade toca um dos elementos essenciais da condição humana: a relação entre os vivos e os mortos. Toda civilização conhecida criou alguma forma de ritual com o propósito de descobrir o que acontece com as pessoas após a morte, para onde vão e como aqueles que permanecem vivos podem honrar melhor os mortos ou responder àqueles que recusam ou são incapazes de seguir em frente.
Hoje no mundo existem vários países que celebram o Halloween de uma forma ou de outra, começando com o Día de los muertos no México ou o Festival Quingming (o dia da limpeza dos túmulos) na China. Hoje em dia, em países como os Estados Unidos e o Canadá, onde este feriado tradicional é mais popular, o Halloween tem elementos em comum com estas tradições antigas, embora alguns aspectos do feriado tenham se desenvolvido recentemente e possam ser rastreados até o Samhain Celta.
Ao longo do tempo, vários grupos cristãos tentaram demonizar e denegrir este feriado, em parte alegando falsamente que Sam Hain era o deus celta dos mortos e que o Halloween era o seu feriado. Esta crença errônea remonta ao século 18 d. C, pelo engenheiro britânico Charles Vallancey que, com pouca compreensão da cultura e da língua, escreveu sobre o Samhain. Desde então, foi repetido sem verificar sua precisão.
No entanto, foi a própria Igreja que preservou esta tradição no Ocidente, cristianizando-a no século IX d. C., preparando o terreno para a transformação daquilo que era uma tradição religiosa do Norte da Europa na festa secular mais popular do mundo, bem como o ano mais lucrativo do mundo a nível comercial, perdendo apenas para o Natal.
As tradições ocidentais do Halloween remontam a 1.000 anos, ao festival de Samhain pronuncia-se ‘Suu-when’, ‘So-win’, ‘Sou-wen’), o festival celta do ano novo. O nome significa ‘fim do verão’, já que este aniversário marcava o fim da época das colheitas e a chegada do inverno.
Os celtas acreditavam que, neste período, o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos era mais tênue, para que os falecidos pudessem retornar e vagar pelos lugares onde viveram. Além disso, aqueles que morreram no ano anterior e que, por algum motivo, não seguiram em frente, puderam interagir com os vivos.
Pouco se sabe sobre os rituais do antigo Samhain, uma vez que foi cristianizado pela Igreja, assim como muitos outros feriados pagãos. A informação disponível chegou até nós graças aos monges irlandeses, que registaram a história pré-cristã do seu povo juntamente com outros
escribas cristãos, que denegriram estes rituais. Parece que a tradição incluía o fornecimento de provisões para o inverno, o abate de gado e o descarte de ossos em fogueiras (em inglês ‘bonfire’ literalmente ‘bone fire’). Durante estes eventos, a comunidade reuniu-se para festejar e beber ao saber da transitoriedade desta época do ano e da possibilidade de visitantes do outro mundo comparecerem à festa. A tradição incluía estocar suprimentos para o inverno, abater gado e descartar ossos em fogueiras.
Esperava-se o encontro com os entes queridos falecidos, que eram bem-vindos, e a prática de preparar a comida preferida dos mortos teve origem há 2.000 anos (embora esta data permaneça incerta), mas muitos outros tipos de bebidas espirituosas (alguns dos quais nunca tiveram forma humana). Elfos, fadas, os ‘pequenos’, sprites e energias sombrias poderiam visitar, assim como aqueles que você queria ver uma última vez.
Além disso, havia uma boa chance de que o espírito de uma pessoa que havia sido injustiçada pudesse aparecer. Para enganar os espíritos, as pessoas escureciam o rosto com cinzas de fogueiras (costume conhecido como ‘mascaramento’) que evoluiu para a prática do uso de máscaras. Desta forma, os vivos poderiam revelar as suas identidades apenas aos seus entes queridos, ao mesmo tempo que permaneciam a salvo das atenções indesejadas das forças das trevas.
Não se sabe há quanto tempo esses rituais foram incluídos na observância do Samhain, mas algumas formas deles já estavam ativas na época em que o cristianismo chegou à Irlanda, no século V d. C. O início das celebrações do Samhain foi assinalado pelo acendimento de uma fogueira por volta de 31 de outubro em Tlachtga (Ward’s Hill), condado de Meath, e pela subsequente resposta da fogueira na colina de Tara em frente, local onde se encontra um conhecido sítio neolítico. Arqueólogos da Universidade de Dublin rastrearam estas escavações até 200 d.C, mas dizem que estas descobertas remontam a desenvolvimentos mais recentes num local que já tinha sido usado para fogueiras cerimoniais há mais de 2.000 anos.
A colina deve seu nome à druida Tlachtga, filha do poderoso druida Mug Ruith, que viajou pelo mundo aprendendo sua arte. Ela foi estuprada pelos três filhos de Simão, o Mago, famoso por seu confronto com São Pedro em Atos 8:9-24, e, antes de morrer, deu à luz trigêmeos naquela colina. A inclusão de um adversário bíblico em sua história, é claro, situa a lenda na Era Cristã e, idealmente, une Tlachtga e São Pedro através de seu inimigo comum. Os estudiosos dizem que a história de Tlachtga, como muitas outras lendas celtas, foi cristianizada após a chegada de São Patrício à Irlanda e que o seu estupro pelos filhos de Simão Mago foi adicionado a uma história existente.
A cristianização de símbolos pagãos, templos, feriados, lendas e iconografia religiosa era uma prática generalizada e se aplica ao Samhain, bem como a outros feriados. No século VII d.C, no dia em que consagrou o Panteão de Roma à Virgem e aos Mártires Cristãos, o Papa Bonifácio IV estabeleceu o dia 13 de maio como o Dia de Todos os Santos, uma ocasião para celebrar aqueles santos que não tinham um dia dedicado.
Mais tarde, foi o Papa Gregório III quem mudou a data para 1º de novembro. As razões para esta mudança ainda são debatidas. Alguns estudiosos dizem que foi uma escolha devido à intenção de cristianizar o dia do Samhain transformando-o na festa de Todos os Santos. Esta teoria é provavelmente correcta, dado que este movimento segue o paradigma cristão difundido de ‘resgatar’ tudo o que era pagão com o objectivo de facilitar a conversão das populações colonizadas.
Antes da cristianização, 13 de maio era o último dia do festival romano da Lemúria (realizado nos dias 9, 11 e 13 de maio), dedicado a apaziguar os falecidos irados ou sem paz. Este feriado desenvolveu-se a partir de alguns ritos realizados nos meses anteriores: a Parentalia, em homenagem aos espíritos dos antepassados (13 a 21 de fevereiro), e a Feralia, em homenagem aos espíritos dos amantes (21 de fevereiro). Durante a Feralia, os vivos tinham que relembrar e visitar os túmulos dos mortos, deixando presentes de cereais, sal, pão embebido em vinho e coroas de flores com pétalas de violeta.
Tal como acontece com a Paternalia, a Feralia e a Lemuria, o mesmo acontece com o Samhain. Antes de este feriado estar associado a eles, a terra, a mudança das estações e estas transformações eram marcadas por celebrações e atividades comunitárias. Depois de cristianizado, o Dia de Todos os Santos passou a ser uma noite de vigília, oração e jejum em preparação para o dia seguinte, em que os santos eram homenageados com uma celebração mais branda.
As antigas tradições, porém, não morreram: as fogueiras ainda eram acesas, só que agora homenageavam os heróis cristãos, e mesmo que a mudança de estação ainda fosse celebrada, isso era feito para glorificar a Cristo. Muitos dos rituais que acompanharam esta nova encarnação do feriado são desconhecidos, mas por volta do século 16 d.C a prática de ‘soul’ tornou-se parte integrante dele: os pobres da aldeia ou cidade batiam de porta em porta implorando por ‘alma- bolos’ de almas) ou ‘bolo de massa de almas’ (biscoitos da missa para almas) em troca de orações.
Pensa-se que esta prática se deve à crença de que uma alma poderia permanecer atormentada no Purgatório, a menos que fosse salva por orações e, mais frequentemente, pelo pagamento de quantias à Igreja. Após a Reforma Protestante, esta prática continuou no Reino Unido, mas os jovens ou os mais pobres dos protestantes ofereceram-se para rezar pelas pessoas da casa e pelos seus entes queridos, não mais pelas almas do Purgatório, enquanto os cristãos continuaram a continuar esta velha tradição.
No século 17 d.C., o Dia de Guy Fawkes adicionou um novo componente ao Halloween. Em 5 de novembro de 1605 d.C, um grupo de dissidentes católicos tentou assassinar o rei protestante Jaime I em um ataque conhecido como Conspiração da Pólvora. A tentativa fracassou e um membro do grupo, Guy Fawkes, foi encontrado com os explosivos na Câmara dos Lordes e, apesar de ter aliados, foi o seu nome que permaneceu ligado à conspiração.
O Dia de Guy Fawkes foi celebrado pelos protestantes no Reino Unido como um triunfo sobre o ‘papado’ e o dia 5 de novembro tornou-se uma ocasião para sermões anticatólicos e para saquear casas e lojas católicas, embora o governo declarasse oficialmente que era uma celebração do dia A Providência poupou o Rei. Na noite anterior ao Dia de Guy Fawkes, fogueiras foram acesas e efígies de figuras impopulares, muitas vezes o Papa, foram enforcadas enquanto as pessoas bebiam, festejavam e acendiam fogueiras. Crianças e pobres iam de casa em casa, usando máscaras e empurrando um boneco de Guy Fawkes num carrinho de mão, pedindo dinheiro ou doces.
Quando os ingleses chegaram à América do Norte, trouxeram consigo essas tradições. Os puritanos da Nova Inglaterra, que se recusaram a observar feriados que pudessem estar associados a ritos pagãos – incluindo o Natal e a Páscoa – continuaram a observar o dia 5 de novembro em memória da sua suposta superioridade sobre os católicos. O Dia de Guy Fawkes continuou a ser comemorado até a Revolução Americana em 1775-1783 d.C.
Os rituais Samhain chegaram aos Estados Unidos menos de um século depois, com a realocação dos irlandeses devido à Grande Fome ou Fome da Batata de 1845-1849 d.C. Os irlandeses, em grande parte católicos, continuaram a observar a Véspera de Todos os Santos, a Véspera de Todos os Santos e o Dia de Finados, juntamente com a prática do ‘souling’. Esses feriados foram enriquecidos por tradições populares como Jack o’ Lantern.
Jack o ‘Lantern está associado à lenda irlandesa de Jack, o Avarento, um bêbado e vigarista inteligente que enganou o diabo para impedi-lo de entrar no inferno. Porém, devido à sua vida de pecador, ele não pôde nem entrar no céu, então após sua morte foi forçado a vagar carregando consigo apenas uma pequena lanterna feita de um nabo com uma brasa vermelha ardente do inferno para iluminar seu caminho.
Os estudiosos dizem que a lenda se espalhou devido aos avistamentos de fogos-fátuos, gases dos pântanos e pântanos que brilhavam durante a noite. Na véspera de Todos os Santos, os irlandeses esvaziaram os nabos, esculpiram-lhes rostos e inseriram uma vela, para que durante o ‘souling’, na noite em que o véu entre o mundo dos vivos e o dos mortos era mais fino, eles seriam protegidos por espíritos como o de Miser Jack.
As bases do Halloween estavam então estabelecidas, com pessoas indo de casa em casa pedindo oferendas de doces como Soul Cakes, carregando consigo a Jack o’ Lantern. Pouco depois de chegarem aos Estados Unidos, os irlandeses substituíram o nabo pela abóbora como lanterna, por ser esta última mais fácil de esculpir. Aqui, o Dia de Guy Fawkes já não era celebrado, mas algumas das suas características foram retomadas dos feriados católicos de outubro, nomeadamente atos de vandalismo, neste caso indiscriminado: as casas e lojas de todos foram saqueadas por volta de 31 de outubro.
Na vila de Hiawatha, Kansas, na manhã seguinte ao Halloween de 1912 d.C, Elizabeth Krebs, cansada de ver seu jardim e seu país destruídos uma vez por ano por crianças malandras mascaradas, decidiu com seus próprios recursos organizar uma festa em 1913 d.C para os mais jovens, onde esperava cansá-los o suficiente para que não tivessem mais energia para destruir.
No entanto, ele subestimou a sua determinação e o país foi saqueado como de costume. Em 1914 d.C, envolveu toda a cidade, convocou um grupo musical, organizou um concurso de fantasias e um desfile. Desta vez seu plano funcionou. Pessoas de todas as idades preferiram este Halloween festivo ao destrutivo. As notícias de seu sucesso viajaram para fora do Kansas, e outras vilas e cidades também adotaram essa solução, estabelecendo festas de Halloween que incluíam concursos de fantasias, desfiles, música, comida, dança e doces acompanhados por decorações aterrorizantes de fantasmas e duendes.
Embora a Sra. Krebs seja frequentemente citada como a ‘mãe do Halloween moderno’, isso não é inteiramente verdade, pois ela não instituiu a prática de ir de porta em porta pedindo doações. Esta tradição já tinha dois séculos quando ela organizou o seu primeiro evento. No entanto, a visão original da Sra. Krebs certamente teve um impacto na forma como o Halloween ainda é celebrado na América. Os Hiawatha Halloween Scores no Kansas continuam até hoje, assim como as muitas festas que foram inspiradas neles.
A prática de celebrar para evitar a destruição de cidades, no entanto, não se espalhou por todo o país e, em 1920 d.C., as chamadas ‘noites de delitos’ tornaram-se um problema sério não só nos Estados Unidos, mas também no Canadá. Não está claro como exatamente essa prática de saquear a comunidade na noite de 31 de outubro se transformou em ir de casa em casa pedindo doces em troca de não destruir a propriedade privada. Sabemos que ela já havia se estabelecido no Canadá em 1927 d.C, ano em que um jornal publicou um artigo sobre Blackie, uma cidade em Alberta, onde as crianças iam de casa em casa seguindo esta tradição. Precisamente neste artigo encontramos a primeira aparição da expressão “doces ou travessuras”. As crianças receberam doces e o dono da casa ficou sozinho.
Esta tradição continuou na América do Norte até a década de 1930 d.C, mas foi interrompida durante a Segunda Guerra Mundial devido ao racionamento de açúcar, que diminuiu significativamente a oferta de doces, ressurgindo finalmente no final da década de 1940 d.C. A tradição a que estamos habituados hoje remonta à década de 1950 d.C e tem-se estabelecido sistematicamente também noutros países, seguindo os mesmos princípios básicos.
Hoje, o Halloween não está associado a uma religião específica, é antes considerado uma tradição secular da comunidade, voltada principalmente para os jovens e uma dádiva para as lojas que vendem doces e decorações, bem como para a indústria do entretenimento que distribui filmes, TV shows e livros com temas paranormais.
Muitos neopagãos e wiccanianos modernos continuam a observar os costumes do passado. O tema central do Samhain foi a transformação. O ano passou da luz para a noite, os mortos vagaram pela terra dos vivos ou faleceram, as pessoas se disfarçaram de outras entidades, e outras entidades puderam aparecer como pessoas, animais foram abatidos e transformados em alimento, enquanto grãos, frutas e vegetais foram igualmente transformados em suprimentos para o inverno e a madeira e os ossos queimados nas fogueiras viraram fumaça.
A transformação ainda é uma parte central do Halloween. Máscaras e fantasias transformam quem as usa em outra entidade. Por uma noite, você pode se tornar Darth Vader, um zumbi ou uma Grande Abóbora. Até as máscaras mais conhecidas remetem ao tema da transformação: o lobisomem é um humano que vira animal, o vampiro pode desaparecer na fumaça ou virar morcego, os fantasmas já foram pessoas.
Na Irlanda pré-cristã, a deusa associada ao Samhain era a Morrigan, deusa da guerra e do destino que liderou o seu povo, os Tuatha de Danaan, numa batalha pela liberdade. A Morrigan, em todas as lendas a ela dedicadas, é uma figura transformadora e nas lendas do épico irlandês Cath Maige Tuire, ela transforma o destino de seu povo, tornando-os senhores de suas próprias vidas e não mais escravos de outras forças. A transformação muitas vezes foi assustadora, mas também pode ser inspiradora.
O lobisomem foi desenvolvido em resposta ao medo de ataques de animais, e o vampiro provavelmente ao medo de que os mortos furiosos voltassem para assombrar os vivos. Porém, nesses casos, como em muitos outros, os humanos tinham o poder de matar esses monstros, e suas lendas encorajavam as pessoas a reconhecerem sua própria força diante de circunstâncias difíceis.
As máscaras e tradições atuais do Halloween representam esse mesmo tema e abordam os aspectos mais básicos da condição humana e da antiga observância do Samhain. Os trajes usados representam medos e esperanças, da mesma forma que as pessoas, séculos atrás, usavam máscaras para dissuadir espíritos e experiências indesejadas, antecipando reuniões alegres com entes queridos.
Muitas fantasias representam o medo universal da morte e do desconhecido que, pelo menos por uma noite, é dominado quando você se torna o que normalmente teme, ao transformar você neutraliza esse medo. No seu sentido mais essencial, o Halloween é, ou poderia ser, o triunfo da esperança sobre o medo, que é muito provavelmente o que Samhain significou para os antigos celtas há mil anos.
A tradição a que estamos habituados hoje remonta à década de 1950 d.C e tem-se estabelecido sistematicamente também noutros países.
Marino Rampazzo
Natural de Itapetininga (SP), é formado em engenharia têxtil (Itália), Expert Manager na Gaparin Equipamentos e colunista do Internet Jornal
A psicopedagoga Maria Lita da Silva Cardozo compartilha em novo livro as experiências de 26 anos em sala de aula com objetivo de auxiliar pessoas em processo de letramento
Capa do livro ‘Brincando de Aprender a Aprender Brincando’, de Maria Lita da Silva Cardozo
Professora da rede pública de ensino há quase três décadas e psicopedagoga clínica, Maria Lita da Silva Cardozo apresenta uma metodologia lúdica para alfabetizar crianças, adolescentes e adultos no livro Brincando de aprender a aprender brincando. A obra, toda escrita em letra bastão para facilitar o reconhecimento e a decodificação das pessoas em fase de letramento, utiliza a poesia como ferramenta de aprendizado.
Por meio dos versos, a autora trata sobre vários assuntos importantes para o cotidiano, como os direitos na infância, o prazer da leitura, o respeito aos professores, os cuidados com a higiene, a importância do amor, a conexão com os sentidos do corpo e as fases da vida. Nos 15 capítulos temáticos, também há ilustrações que se conectam com os poemas para o público, principalmente infantil, trabalhar a interpretação de imagens.
DANDO LUGAR AO ALUNO PRA EM SUJEITO TRANSFORMAR EM SUJEITO DA AÇÃO E SEU MUNDO ORGANIZAR EM QUALQUER SITUAÇÃO SABERÁ SE TRANSFORMAR (Brincando de aprender a aprender brincando, pg. 29)
A publicação contém textos iniciais que discorrem sobre a relevância da poesia e as experiências profissionais da educadora com o intuito de auxiliar outros professores e pessoas sem formação na área que estão colaborando na alfabetização de familiares. Para fundamentar estas reflexões, a autora recorre a nomes importantes como Paulo Freire e referências pessoais adquiridas durante a profissão.
O objetivo de Maria Lita da Silva Cardozo com o livro é, ainda, encorajar todos a prosseguirem com os estudos independentemente da idade. Ela explicita: “quero facilitar o processo de educação não somente de crianças, mas também de adolescentes e adultos que não conseguiram ser alfabetizados na idade certa e que, na maioria das vezes, não tiveram a oportunidade de ir para a escola. Pretendo incentivar todos a conviverem em nível de igualdade em uma sociedade letrada e tecnologicamente avançada”.
FICHA TÉCNICA Título: Brincando de aprender a aprender brincando Autora: Maria Lita da Silva Cardozo ISBN: 9786558725381 Páginas: 80 Preço: R$ 48,99 (físico) | R$ 24,20 (e-book) Onde comprar: Amazon | Clube de Autores
Nascida em Monteiro, na Paraíba, Maria Lita da Silva Cardozo trabalha há 26 anos como professora do Ensino Fundamental na Rede Municipal de São Paulo.
Também atuou durante quase duas décadas na educação infantil, na Rede Municipal de Osasco, mas aposentou-se deste cargo para abrir uma clínica particular de psicopedagogia.
Graduada em Pedagogia e pós-graduada em Yoga e Meditação, ela também pesquisa sobre a psique humana e os benefícios do foco, da concentração e da atenção no processo de aprendizagem.