Márcia Nascimento: Artigo ‘Autoestima e projetos de vida’
Marcia Nàscimento
Muito se fala na atualidade sobre propósitos de vida, ou seja, viver uma vida com total sentido e significados. Porém, muito mais que ter um propósito de vida, faz-se necessário que as pessoas compreendam quem de fato são e a partir deste entendimento possam se reconhecer em total valor extraindo o melhor de si em cada situação e desta forma objetivem seu propósito de vida.
Para que uma pessoa possa ser realizada, primeiramente deve ter uma relação satisfatória consigo mesmo e com seu estado de aceitação em relação às suas inúmeras capacidades e habilidades, e isso nada mais é do que ter autoestima.
A autoestima é a maneira como o indivíduo se vê, se enxerga, e isto deve ser muito bem trabalhado desde a primeira infância, na qual os pais e professores são os principais agentes a auxiliarem nesta construção. Todas as crenças que foram instaladas desde a gestação, podem influenciar drasticamente no estabelecimento da autoestima da criança que virá a se tornar um adulto sem condições de direcionamento em relação aos seus projetos de vida no futuro.
O conceito de autoestima tem extrema relevância na Psicologia, apesar de não haver consenso na literatura em torno de sua definição. Dolan (2006) destaca que a autoestima é um dos conceitos psicológicos mais utilizados atualmente, provavelmente pelo seu aspecto prático na compreensão da busca de felicidade por parte das pessoas.
A introdução do termo é atribuída a William James no ano de 1885, quando ele assim se refere: “o que sentimos por nós mesmos é determinado pela proporção entre nossas realizações e nossas supostas potencialidades; uma fração cujo denominador são nossas pretensões e o numerador, os nossos sucessos” (James, 1974: 200). Branden (1995) discorda dessa posição. Para ele a autoestima é algo que vem de dentro do indivíduo.
Está, portanto, ligada às suas operações mentais e não às circunstâncias externas bem ou malsucedidas. Assim, associar a autoestima de uma pessoa a fatores externos é propiciar o não crescimento. Ainda para Branden (1994), a maneira pela qual nos percebemos repercute em nossas ações, na vida profissional e pessoal. Esse autor também afirma que existe uma relação entre nossas reações e o que pensamos de nós mesmos. E enfatiza que “desenvolver a autoestima é expandir nossa capacidade de ser feliz” (Branden (1994: 11). Staerke (1996: 77) defende que a autoestima “é um constructo, ou seja, ela é construída, ela é uma conquista pessoal, inalienável e intransferível”.
A autora pontua que “pessoas de autoestima saudável também sofrem e sentem ansiedade” (Staerke, 1996: 78). Quando estes fatores não são trabalhados adequadamente, outra área que envolve a plenitude do ser pode estar ameaçada, que é a área do projeto de vida.
Para se obter um projeto de vida, é necessário ter autoconhecimento e autoestima, pois ambos são o que embasarão a realização de tudo aquilo que for projetado um dia na mente. O ser humano desconhece o seu poder de realização e como as leis universais atuam em favor de cada sonho e desejo um dia sonhado pelo mesmo.
Ter um projeto de vida é saber como e aonde se deseja chegar, é “idealizar a própria vida é ter consciência da responsabilidade de cada um em sua atuação social, descobrindo-se a si mesmo, aos outros e o meio em que vive”. Por isso a autoestima e o projeto de vida andam lado a lado, um depende do outro para que juntos possam fazer parte da ascensão do ser.
A mente humana tem a imensurável capacidade de realizar cada sonho projetado em seu campo de atuação com seu sistema trino que é a mente inconsciente, a mente consciente e a mente suprema e para isto, é necessário que cada pessoa conheça profundamente o seu reino de infinitas possibilidades para que desta maneira venha a realizar cada sonho que foi projetado à nível mental. E é exatamente nisto que consiste em ter um projeto de vida; em imaginar, sonhar, buscar e realizar.
É preciso juntar informações e adquirir conhecimento, pois são eles quem libertarão a mente das correntes que impedem a sua perfeita atuação nos campos magnéticos de suas potencialidades, portanto, ter um projeto de vida é saber qual é o seu destino, quem és em sua essência mais profunda e verdadeira, quais são as tuas reais verdades e a partir destas sublimes e elevadas descobertas encontrar o seu lugar no mundo e atuar no mesmo como um agente transformador, repleto de ideais e sonhos a serem concretizados.
Do ponto de vista da psicologia junguiana (de Carl Jung, psiquiatra célebre), o propósito de vida tem a ver com se reconhecer para além da função social. Assim, fora o papel profissional, bem como o de pai ou mãe; de filho(a); de dono(a) de casa, entre tantos outros, cada pessoa tem sua essência. O propósito consiste em alinhar todas essas partes. “Quanto mais se direciona a vida para a realização daquilo que se intui internamente, mais felizes se percebe. Isso gera um impacto profundo na saúde”, explica a psicóloga Adriana Bolis. “Já o extremo oposto, seria a depressão (quando a vida perde o sentido).
A realização pessoal (plenitude valorosa e duradoura) autorrealiza-se, essencialmente, a partir do valor de atitude. Não apenas no criar e gozar, mas também e sobretudo no sofrimento inevitável, considerando “…o homem não é motivado pelos instintos, mas sim pelos valores.” (Frankl, 1987b, p. 220). E é vencendo os obstáculos e buscando encontrar o sentido de viver que o despertar para o propósito da vida acontecerá.
Bonino (2007, p. 45), realça, de forma clara e sucinta, não apenas o carácter intrinsecamente dinâmico do conceito de sentido de vida, inscrito na relação entre o “ser” e “tornar-se”, mas e sobretudo ao seu elevado potencial dialéctico para a realização pessoal. E esta realização é o que tornará o ser humano uma pessoa plena em todos os sentidos que o compõe tal como o é.
O segredo é se amar e se aceitar, entender o tamanho da importância e amplitude do ser, para que desta maneira todo indivíduo possa encontrar o seu verdadeiro lugar neste mundo e assim possa fazer daqui um maravilhoso espaço para se viver com propósito e muita dignidade.
Referências Bibliográficas
BRANDEN, N. (1994). Auto-Estima: como aprender a gostar de si mesmo. São Paulo: Editora Saraiva.
BRANDEN, N. (1995). Autoestima e os seus seis pilares. São Paulo: Editora Saraiva.
BONINO, S. (2007) – Mil amarras me prendem à vida: (con)viver com a doença. 1ª ed. Coimbra : Quarteto.
DOLAN, S. (2006). Estresse, autoestima, saúde e trabalho. Rio de janeiro: Qualitmark.
FRANKL, V. E. (1987b) – Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Porto Alegre : Sulina. Porto Alegre : Sulina.
JAMES, W. (1885/1974). Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural.
STAERKE, R. (1996). Autoestima em psicologia, uma proposta de definição. Rio de Janeiro: UFRJ, Instituto de Psicologia.
Um dia a gente percebe que o que parece perfeito, não é tão perfeito quanto parece. Que, às vezes, o amor que se revela a nós de repente desaparece; como num passe de mágica deixa de existir. E não há que culpar-nos por isso. O amor é natural e acontece sem esperarmos, mas, se não é reciproco, ele também termina, da mesma forma como se iniciou.
Lembrando que o amor não acaba, ele apenas adormece, porque não foi feito para ter fim; sim, creio que o amor é eterno, mesmo que não vivido de forma terrena, ele nos acompanha para eternidade.
Há sentimentos que nascem para nos curar, mas que nem sempre eles podem de fato nos curar por completo.
Um dia, a gente simplesmente acorda para vida e percebe que não dá mais para adiar decisões e mudanças.
Às vezes queremos voltar no tempo, para não entregar o coração e tanto do nosso tempo a quem só queria tomá-lo para alimentar o ego.
É triste quando entregamos o melhor de nós a quem nos olha apenas com olhos carnais, intentos da paixão e submissão à própria carne.
Bonito mesmo, é quando alguém nos recebe com o coração aberto, porque primeiro nos viu com os olhos da alma. Bom mesmo é saber o quanto uma pessoa nos admira, pelo modo que nos olha e pelo respeito com nossos sentimentos, sem se preocupar com nossas imperfeições. Há pessoas que nos enxergam além das aparências, isso é maravilhoso, porque para essas pessoas não precisamos ser diferentes do que realmente somos.
Muitos são os que se perdem na loucura de querer amar alguém, poucos são os que realmente encontram o amor em alguém. Aquele amor que nos faz errar a hora, mas que não nos deixa perder tempo. Esse é o amor de milhões! O amor que devemos desejar para nossa vida inteira. Que nos faz ver coisas importantes que temos dentro de nós e que nunca conseguimos mostrar a ninguém; de repente o amor veio chegando de mansinho, sem pressa, sem invadir e conquista todos os espaços outrora vazios dentro da gente.
Amar não pode ser crime, mas desrespeitar o amor, como sendo o único sentimento capaz de transformar-nos no melhor que podemos ser, é o mesmo que desrespeitar a vida. Afinal, fomos criados para o amor e não para o ódio.
Para vivê-lo e não para sufocá-lo como muitos têm feito.
Irene da Rocha Criador: Anastasia Shuraeva | Crédito: Foto de Anastasia Shuraeva. https://www.pexels.com/pt-br/foto/ar-brisa-sopro-frescor-4513209/
Sou o vento que gira, sou intenso, giro do mundo, as nuvens e os extremos Trago da alma a força reluzente.
Faço da brisa o respirar da vida o amar é coisa para poucos saber gostar. É doce viver a vida, é coisa diferente Que faz transformar o dia em ventos.
Trazem e levam a paz, transportam o pensamento de coisas estranhas, fazem o corpo deixar o dia mais leve levando elevando o amor às coisas simples, deixando a vida leve e simples.
Diante das estrelas trazendo a felicidade o brilho que faz reluzir das estrelas a alma calma a flutuar no horizonte da vida levadas pelas nuvens e ventos divinos.
Resenha da quadrilogia de Antônio Carlos Tavares de Oliveira, , pela Editora Frutificando.
Resenha da quadrilogia ‘A escuridão se ilumina’
Resenha da quadrilogia “A escuridão se ilumina”, de Antônio Carlos Tavares de Oliveira, pela Editora Frutificando.
quadrilogia “A escuridão se ilumina”
RESENHA
Uma civilização alienígena superdesenvolvida se instala no interior da crosta terrestre, precisamente no planalto central brasileiro.
Eles têm capacidades extraordinárias e vivem pacificamente, tendo apenas uma única regra: Não ter contato com a civilização do mundo superior.
Até que um dia, a princesa, numa viagem ao Rio de Janeiro para buscar suprimentos oftalmológicos, vê Marcio… E daí por diante a história toma rumos inimagináveis!
Uma história pulsante, muito dinâmica. Com janelas temporais muito bem-feitas e orquestradas para que o leitor entenda o enredo e não se perca, fazendo presente, passado e futuro se conectarem em perfeita sincronia.
Fala sobre sacrifícios, humanidade, respeito e sobre amor entre povos e pelo Planeta Terra. E fala sobre tirania, busca desenfreada pelo poder e tudo que isso pode causar.
Uma narrativa sensacional de um romance fantástico que nos prende até o final. Super recomendo!!!!
Assista à resenha no canal @OQUELI no YouTube
SOBRE A OBRA
A quadrilogia “A escuridão se ilumina” foi escrita aos poucos. As inspirações foram e sempre serão os fatos históricos.
O autor procura sempre colocar a história como pano de fundo para a história ficcional criada. Seu início foi em 2012. Mas o autor a engavetou…
Após algum tempo, pensando na história, viu que havia a possibilidade concreta de uma continuação, visto que o primeiro livro termina com uma profecia:
“Três vezes sete. No seu apogeu, o mundo conhecerá. Presente, passado e futuro. Uma nova era emergirá. “
Então ele lançou mãos à obra e terminou a quadrilogia, porém a engavetou novamente.
Escreveu o livro “O ar de Berlim”, um romance histórico, magnífico.
Fez o lançamento deste livro e só depois de um período, mais seguro, lançou a quadrilogia.
Trata-se de uma história que remete ao presente e ao passado, com aventuras em outros países e continentes.
A trama total está dividida em quatro livros:
Livro I – Terra
Livro II – Água
Livro III – Fogo
Livro IV – Ar
Uma obra muito dinâmica.
Impossível não se emocionar, vibrar e até mesmo ficar enfurecida ao lê-la, dado a riqueza de detalhes.
SINOPSE DO LIVRO
Uma civilização alienígena foi obrigada a deixar seu planeta natal e se instalar em cavernas subterrâneas no interior do planalto sul-americano.
Mil anos depois essa civilização se vê envolvida numa trama de amor e poder, em que uma casta tenta usurpar o poder do imperador.
A neutralidade e isolamento dessa sociedade perante o mundo externo fica ameaçada.
Trata-se de uma história que remete ao presente e ao passado, com aventuras em outros países e continentes.
A trama total está dividida em quatro livros.
Livro I – Terra
Quando o oftalmologista Marco conheceu Luísa, não imaginaria que sua vida iria mudar radicalmente.
Luísa, herdeira de um império alienígena que vive escondido em subterrâneos, o envolve numa trama de amor e poder marcada por uma profecia.
Irá o império alienígena ser descoberto pelo mundo contemporâneo?
E a profecia, será que irá mesmo se concretizar?
Livro II – Água
Sete anos após os eventos ocorridos em Nova Konular, a sociedade vive em uma relativa paz.
Marco e Luísa têm dois filhos e as crianças não imaginam o perigo que correm.
Presente, passado e futuro parecem estar interligados nessa sociedade alienígena.
E o que indica a profecia?
Três vezes sete, ela dizia. Presente, passado e futuro.
No seu apogeu uma nova ordem emergirá.
Livro III – Fogo
Fred, herdeiro do império de Nova Konular, é um adolescente revoltado.
O garoto não aceita ser o herdeiro e vive angustiado com a perda de seus melhores amigos.
Sua fuga de Nova Konular irá trazer consequências ao império.
Irá a profecia, realizada por Gaia anos atrás, finalmente se realizar?
Livro IV – Ar
O mundo contemporâneo está em guerra e Nova Konular não está imune a ela.
Há vinte e um anos, a união de um habitante do mundo superior com a herdeira do mundo inferior, gerou uma profecia que parece chegar ao seu apogeu.
Três vezes sete, ela dizia.
No seu apogeu o mundo conhecerá: presente, passado, futuro e uma nova era emergirá.
O que será do mundo tal qual conhecemos?
SOBRE O AUTOR
Antônio Carlos Tavares de Oliveira é brasileiro, carioca e tem 59 anos, advogado e formado na licenciatura em História.
Se define como um apaixonado pelo passado, grato pelo presente, esperançoso pelo futuro e é um grande entusiasta da literatura nacional.
Autor que se apropria de fatos históricos, para criar ficções baseadas na esperança e no amor.
A noite das vampiras: o ressuscitar do cinema fantástico nacional
CINEMA EM TELA
Marcus Hemerly: ‘A noite das vampiras’
Entrevista com o diretor Rubens Mello
Quando se lança um olhar linear sobre a evolução histórica do cinema nacional, inúmeros fenômenos ou movimentos exsurgem evidenciados. De um lado, apontamos o chamado Cinema Novo, com expoentes como Glauber Rocha, Cacá Diegue e Rui Guerra; estilo cinematográfico mais imerso em questões ou provocações sobre problemáticas sociais e existenciais, similar à Nouvelle Vogue francesa.
Aponta-se o Cinema Marginal, de pronunciadas feições experimentais e autorais, que se integrou às produções da Boca do Lixo paulistana, reduto onde se produziu o maior percentual de títulos no Brasil durante mais de duas décadas. Desde as chanchadas da Atlântida, a diversidade da Vera Cruz, e a multitude de temas tratados na também chamada Boca do Cinema (Boca do Lixo), é inolvidável reconhecer a gama criativa e força do cinema brasileiro.
Imprescindível ressaltar a palavra versatilidade, pois, filmou-se bangue bangue, policiais, musicais, seja estilo discoteca ou caipira, e até mesmo, o terror. E, à obviedade, quando se menciona o sinônimo de terror, o primeiro nome que assoma à mente é o do saudoso cineasta José Mojica Marins, mundialmente famoso como “Zé do caixão” ou Coffin Joe, no exterior, personagem por ele imortalizado em sua primeira incursão ao gênero na produção “À meia-noite levarei sua alma”, de 1964. A obra de José Mojica, seu tom fortemente inovador e criativo, quase no sentido visceral instintivo, merece não apenas um artigo, mas livros, ensaios e estudos fílmicos.
Nesse passo, Mojica era também conhecido pelos inúmeros discípulos, um em especial, sobre quem conheceremos um pouco da carreira. Recentemente, o cineasta guarulhense Rubens Mello, ator e autor de excelentes curtas-metragens encerrou as filmagens e processo de edição de seu primeiro longa, o terrir “A noite das vampiras”.
O projeto conta com participações ilustres como as atrizes Nicole Puzzi e Débora Munhyz, musas do cinema paulista e estrelas de inúmeras produções famosas, além da atriz, roteirista e escritora Liz Marins Vamp, filha do mestre Mojica, falecido em 2020.
É cediço que a popularização e consumo do cinema nacional fortemente identificado nos anos 60, 70 e início dos anos 80, teve um decréscimo produtivo, inclusive concomitante à extinção da Embrafilme, nos anos 90. Desde então, o cinema brasileiro vem enfrentando dois extremos: vislumbrar-se, numa vertente, as produções com super financiamentos de concepção mais comercial, e de outro lado, um sufocamento à realização independente, tornando cada vez mais difícil fazer arte em terras brasileiras.
Digno de nota que o cinema fantástico e de terror, ainda sobrevive pontualmente, mesmo não revestindo-se de feições massificantes no que tange a distribuição ao grande público, mas permanecendo constante e crescendo cada vez mais em número e visibilidade. É o que se percebe pelos festivais e projetos cinematográficos governamentais ou privados daqueles que ainda ousam deixar a fera criativa da sétima arte se sobrepor às dificuldades práticas.
De forma recorrente, pontua-se que ao artista, além da capacidade criativa, agasalham-se as peculiaridades heroicas da ousadia e coragem. Nesse espaço, conheceremos um pouco sobre a carreira do diretor Rubens Mello e o processo de filmagem do longa que estreia no dia 05 de julho na Cinemateca Brasileira, um dos pontos mais celebrados da cultura nacional, o que, novamente, assimila dupla e inspirada congratulação ao cineasta e equipe.
ENTREVISTA: CONHECENDO O CINEASTA RUBENS MELLO
Compartilhe com os leitores um pouco da sua formação e cultivo da paixão pelo cinema. Como nasceu esse amor pela sétima arte, e, principalmente, o gênero de horror?
Desde pequeno sempre fui ligado no audiovisual. Grande parte da minha infância e juventude, ao contrário dos vizinhos, que brincavam empinando pipa, jogando bola e outras brincadeiras tradicionais para a época, eu sempre me vi sentado em frente à televisão. Assistia de tudo, desde os programas infantis a filmes e séries de aventura.
Mas o cinema fantástico entrou em minha vida, quando, aos cinco anos de idade, assisti ao pé da escada o filme que meus pais assistiam: “O Fantasma da Ópera”, a versão de 1925 – com Lon Chaney. O contraste entre a luz e as sombras me assombrou por tempos, nas imagens oníricas que o filme proporcionou, e que ficarão imersas em meu subconsciente. O amor pelo fantástico se concretizou com “King Kong”, a versão original, de 1933. Imbatível até nos dias de hoje.
Sabemos que além de discípulo do saudoso José Mojica Marins, você foi cotado para ser o substituto do mestre, e com ele desenvolveu uma relação próxima. Conte-nos um pouco a respeito.
Minha avó morava próximo à “sinagoga” do Mojica, localizada no bairro do Brás. Era inevitável cruzar com o “Zé do Caixão” quando íamos visitá-la. Eu, uma criança de colo com uns três anos de idade, acredito, morria de medo ao ver aquela figura de negro com unhas enormes.
Com o passar do tempo, desenvolvi o hábito de acordar de madrugada, para assistir filmes de terror na televisão, cuja programação vinha numa cessão dedicada a filmes de terror, nos jornais distribuídos no bairro, e assim, descobri os filmes do “Zé do Caixão”.
Em 1998, descobri, por acaso, que o Mojica procurava um ator que interpretasse o personagem “Zé do Caixão” no filme que encerraria sua trilogia, o “Encarnação do Demônio”, que originalmente, se passaria na época dos outros anteriores, “À meia-noite Levarei sua alma” e “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver”.
O filme acabou sendo produzido pela Gullane Filmes e Olhos de Cão, que queriam o Mojica como o personagem, sendo a história alterada para 40 anos depois dos eventos dos dois primeiros filmes. Mas acabamos por criar uma relação de amizade incrível, e sempre colaboramos um com o outro em diversos projetos. Vivia ao seu lado em momentos cotidianos. Íamos ao mercado, jogávamos na loteria, assistíamos filmes juntos, fazíamos sonhos e planos e por aí vai. Até fui cobaia de seus experimentos culinários (risos). São momentos que levarei para sempre com muito carinho.
Como você enveredou ao mundo do cinema?
Antes mesmo de conhecer o Mojica, eu já escrevia histórias e gravava os diálogos com amigos e vizinhos. Meu pai havia construído para mim uma caixa que eu chamava de “Lanterna Mágica”, que era uma caixa de madeira com o fundo recortado e uma peça de vidro transparente era colocada no espaço. Dentro da caixa tinha duas manivelas e três lâmpadas, uma azul (para noite) uma branca/amarelada (para dia) e uma vermelha (para momentos tensos). Na manivela inferior, eu colocava enrolado um rolo de desenhos colados sequencialmente, contando uma história, como um quadrinho sem balão de texto, pois os diálogos, como disse, eram gravados e sonorizados.
Aos 16 anos, meu pai ganhou numa rifa um projetor e uma câmera de super 8. A câmera não funcionava, mas o projetor sim. Tenho guardado até hoje uma versão do “Drácula”(a versão de 1979) em película. Depois, acabei ganhando uma câmera VHS.
Em meados de 2004, se não me falha a memória, a Liz Marins, filha do Mojica, que tinha um estúdio próximo à Paulista. Nos reuníamos muito lá para assistir filmes, tomar vinho, fumar narguilé e fomentar arte e cultura.
Numa destas ocasiões, tinha exibido meu média metragem ‘Lâmia Vampiro”, e a Liz veio conversar comigo. Ela elogiou o filme, elogiou minha criatividade, mas também disse que eu tinha capacidade de fazer melhor, com enquadramentos etc. etc… ela me contou depois que ficou apreensiva sobre seu comentário, pois eu poderia interpretar mal o conselho dado.
Mas, ao contrário, entendi o que ela havia dito e guardei no coração e agradeço por tudo, pois logo após essa produção, produzi o curta que me deu 4 prêmios- “A História de Lia”. Inclusive, gravamos uma cena no estúdio dela. Liz é para mim uma irmã e também minha madrinha no audiovisual. Tudo que sei e que faço, aprendi observando o Mojica e ouvindo os conselhos da Liz, minha maior incentivadora e apoiadora.
Minha saúde é muito frágil. Sou transplantado há 30 anos, e constantemente estou em hospitais por conta da baixa imunidade e doenças oportunistas, além de que, em decorrência da medicação que tenho que tomar, trouxe vários efeitos colaterais…e em todos os momentos, bons e ruins, ela esteve e está ao meu lado.
Em 2002 dediquei parte da vida participando de filmes publicitários, participei de alguns curtas e longas metragens como “Carandiru’, ‘Meninos de Kichute’, “Encarnação do Dêmonio”. Sigo escrevendo e produzindo minhas histórias, tendo minha formação também como ator e locutor.
Quais as dificuldades principais em filmar no Brasil, e como se constrói as etapas de confecção de um longa-metragem?
O Brasil é um país complexo. Produzir arte-cultura não é tarefa fácil. Os instrumentos que possuímos, (editais e leis de incentivo) não são de fácil acesso e, geralmente, sempre ganham as “mesmas cartas marcadas”, mas toda regra tem exceção!
Meus filmes são produzidos de forma independente, ou seja, conto com apoio cultural, e todo o resto sai de meu bolso. Já tentei duas vezes fazer essas plataformas de apoio e arrecadações virtuais e por meio de vaquinhas, mas os apoios sempre foram poucos. Desisti!
A solução era: ou põe a mão bolso, ou não faz. Ai, entra um grande exemplo que é do próprio Mojica, que vendeu até suas coisas pessoais para realizar o “À Meia Noite Levarei sua Alma”. E foi assim que realizei meu primeiro longa – “A Noite das Vampiras”, que tem sua estreia no dia 05/7 na Cinemateca Brasileira.
As etapas de produção consistem em:
Argumento/roteiro
Pré-Produção
Cronograma/orçamento
Equipe/elenco
Ensaios
Estética
Decupagem
Filmagem/produção
Montagem/Pós-produção
Festivais/distribuição
A despeito de termos no Brasil grandes representantes do “Terrir”, união de horror a “pitadas” cômicas, a exemplo do cineasta Ivan Cardoso, tal vertente do cinema havia sido negligenciado nas últimas décadas, o que lhe inspirou a conceber o longa “A Noite das Vampiras” como uma releitura do gênero?
Antes de nos isolarmos por conta da pandemia, estávamos gravando, em fevereiro de 2020, o que seria meu primeiro longa, o filme “O Aniversário”
Estávamos na sexta diária e tivemos que interromper para ficarmos em quarentena. No início de 2021, escrevi “A Noite das Vampiras”, inspirado por um curta que editei para a amiga Patty Fang, “Os Crimes da Rua do Arvoredo”. A ideia era fazer algo descontraído, um típico filme B, mas acho que derrubei fermento acidentalmente e o projeto cresceu, (risos).
Não quis retornar ao “O Aniversario”, pois a temática era pesada e cheio de temas tabus. Havia perdido muitos amigos, inclusive meu guitarrista. Então, queria algo leve, queria rir, descontrair, estar perto de pessoas que amo e me fazem bem. Já tinha pensado em Debora Munhyz e Liz Marins “Liz Vamp”, e, numa conversa com a Debora, especulei sobre a possibilidade da Nicole Puzzi topar. E que presente foi ela ter dito sim. Hoje ela mora no meu coração e faz parte da minha vida. Sou só agradecimentos.
É impossível não relacionar o filme ao Ivan Cardoso – Mestre do Terrir Nacional – até porque a Nicole já tinha trabalhado com ele no longa “As Sete Vampiras”.
Como você vislumbra o cenário atual do cinema brasileiro fantástico, e existe ainda espaço para os amantes da arte se aventurarem no processo de movie making?
Segundo Carlos Primatti, mestre no horror Brasileiro, cenário atual é a época mais prolífica em quantidade, qualidade e diversidade de propostas do horror no cinema brasileiro ao longo de toda a trajetória do gênero nas telas, desde o surgimento de Zé do Caixão, na metade dos anos 1960, passando pelo experimentalismo udigrúdi, o horror existencialista, o Cinema da Boca, de horror e as comédias e paródias de terror dos anos 1970 e 80, bem como o Cinema da Retomada, dos anos 1990 e 2000.
Atualmente, o cinema nacional circula mais que nunca fora do país. A disponibilidade de filmes em diversos formatos – e principalmente formatos digitais – aumentou bastante nos últimos anos, não apenas em festivais e mostras, mas também em locadoras e serviços de streaming.
Portanto, o espaço para novas produções existe e está acessível à produções que tenham um mínimo de qualidade.
Sabemos que, além de ator e cineasta, também é músico. Quais são seus futuros projetos artísticos, seja no cinema ou em outras veredas criativas?
Penso em retomar “O Aniversário”, também já tenho o argumento para “A Volta das Vampiras” e um sonho que é realizar “O Asema”, meu primeiro roteiro para longa, mas de difícil realização por conta de efeitos e maquiagens. “O Asema – Quando a Noite Chega” é um filme caro.
Também compus algumas canções e estou louco de vontade de entrar um estúdio para tirar do papel.
A Noite das Vampiras (2023)
Estreia: Dia 05/07/2023, na Cinemateca brasileira.
Endereço: Largo Sen. Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino, São Paulo – SP, 04021-070
Os ingressos poderão ser retirados com uma hora de antecedência.
Sinopse: Justine, uma famosa atriz de TV, criada por pais adotivos, é convidada para conhecer sua família biológica. O encontro se dá às vésperas de uma festa, que acontece anualmente, para celebrar o sucesso do açougue gerido pela sua família. Mas, o que era para ser apenas uma reaproximação com sua verdadeira família, se torna algo sinistro, onde coisas absurdas acontecem, levando Justine a conhecer o verdadeiro segredo do sucesso dos negócios da família.
Elenco:
Debora Munhyz – Lenôra
Nicole Puzzi – Alecsandra
Liz Marins – Caterina
Alice Tarsitano – Justine
Marcio Farias – Eduardo
Petter Baiestorf – Dr. Hellstilingue
Cleiner Micceno – Astolfo Margarino
Dominique Brand – Marcela
Larissa Brito – Camila
Morgana Loren
Asteroides Trio
Equipe Técnica:
Direção e roteiro – Rubens Mello
Assistente Direção – André Okuma/Cleiner Miceno
Direção de Arte -André Okuma
Figurinos – Reiko Otake e Mayumi Otake (OTAKE-UP)
Fotografia – Nelson Simplício e Wesley Gabriel
Produção e produção executiva – Paulo Aros
Coprodução – Rubens Mello
Direção de Produção: Albino Ventura
Produção DE SET – Filipe Fritos
Assistente Produção – José Lino Silva
Som Direto – Guilherme Andrade
Gaffer – Filipe Fritos
TRILHA Kalau Franco
Efeitos Práticos – Estúdio Marítimo e Rubens Mello
MAQUIAGEM FX – Willyam Ferrari, Ales de Lara e Karen Furbino