Encontrando um ex-aluno bagunceiro
Clayton Alexandre Zocarato
‘Encontrando um ex-aluno bagunceiro, que foi criando responsabilidade’


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O tempo é um professor silencioso. Não grita, não aplica advertências, não escreve bilhetes na agenda.
Ele apenas passa — e, ao passar, ensina. Eu aprendi isso numa manhã comum, dessas que não prometem revelações, mas acabam entregando epifanias embrulhadas em simplicidade.
Estava na fila de uma padaria, observando o vapor do café subir como pensamentos indecisos, quando ouvi meu nome ser chamado com uma familiaridade quase insolente:
— Professor?
Virei-me devagar, como quem abre um livro antigo esperando encontrar rabiscos conhecidos. E encontrei. Ali estava ele: Lucas.
Ou melhor, o que restava do menino que um dia ocupou as últimas carteiras da sala, como se aquele espaço fosse um território sem lei.
Lucas, o bagunceiro.
O mesmo que transformava lápis em projéteis, risadas em epidemias e silêncio em desafio. O menino que parecia travar uma guerra pessoal contra regras, horários e qualquer tentativa de ordem.
Naquela época, ele era como um vento inquieto: impossível de conter, difícil de compreender.
Mas o homem à minha frente não carregava mais o vendaval nos olhos.
— Sou eu, professor… o Lucas.
O nome caiu no chão entre nós como uma chave antiga, abrindo portas enferrujadas da memória. Vi, por um instante, a sala de aula reaparecer: o quadro manchado de giz, o relógio lento na parede, os colegas rindo enquanto eu tentava ensinar que palavras também tinham peso e direção.
— Eu reconheci o senhor na hora — ele continuou. — O jeito de observar as coisas… o senhor sempre olhava como se estivesse escutando o mundo.
Sorri. Nunca pensei que alguém notasse isso.
Lucas agora vestia uma camisa simples, mas bem passada. Havia algo novo em sua postura: os ombros firmes, o olhar atento, o corpo presente no próprio lugar.
A bagunça havia saído dele — ou talvez tivesse aprendido a se organizar por dentro.
Sentamo-nos. O café chegou. O silêncio entre nós não era constrangido; era reflexivo, como um intervalo entre dois parágrafos importantes.
— Eu era difícil, né? — ele disse, mexendo o açúcar com cuidado excessivo, como quem não quer derramar nada.
Difícil não. Inacabado, pensei. Mas respondi apenas:
— Você estava em construção.
Lucas riu. Um riso mais curto, mais contido. Um riso adulto.
— Eu não entendia isso naquela época. Achava que responsabilidade era uma prisão. Hoje vejo que era uma estrada.
Aquela frase ficou suspensa no ar, como poeira iluminada pelo sol.
Estrada. Sim. Alguns aprendem cedo que viver é escolher caminhos; outros precisam tropeçar bastante até entender que não escolher também é uma escolha.
Ele contou que trabalha agora como encarregado em uma pequena empresa. Tem horários, pessoas que dependem dele, decisões que não podem ser adiadas. Disse isso sem orgulho exagerado, mas com um respeito silencioso pelo próprio esforço.
— Teve um dia — continuou — que percebi que ninguém viria me salvar do caos que eu mesmo criava. A bagunça cansa. A desordem cobra juros altos.
Enquanto ele falava, lembrei-me de quantas vezes tentei corrigi-lo com palavras que agora soavam pequenas diante da grande professora que é a experiência. Talvez o erro dos educadores seja achar que ensinam tudo, quando, na verdade, apenas plantam dúvidas.
Lucas não virou responsável de um dia para o outro. Ele foi se tornando. Como quem aprende a carregar água sem derramar, como quem descobre que liberdade não é ausência de limites, mas consciência deles.
— O senhor sabe — disse ele, olhando-me nos olhos —, eu só entendi o valor da responsabilidade quando percebi que ela era uma forma de cuidado. Com os outros… e comigo.
Ali, naquele instante, senti algo raro: a sensação de missão cumprida sem ter percebido o trabalho sendo feito. Talvez eu nunca tenha conseguido domar o vento que ele era. Mas, de algum modo, ajudei a ensiná-lo a navegar.
Pagamos a conta. Levantamo-nos. Antes de ir, Lucas apertou minha mão com firmeza.
— Obrigado por não desistir de mim — disse.
Observei-o sair, misturando-se à cidade como alguém que finalmente encontrou seu ritmo. Fiquei ali mais um pouco, pensando que a educação é isso: um encontro que só faz sentido anos depois.
O tempo, afinal, não reprova ninguém. Ele apenas dá novas provas.
E algumas pessoas, como Lucas, finalmente aprendem a respondê-las.