Não há sistemas perfeitos para reger a humanidade

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

‘Não há sistemas perfeitos para reger a humanidade’

Diamantino Bártolo
Diamantino Bártolo
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As liberdades fundamentais emergiram no contexto do aparecimento e desenvolvimento das burguesias europeias, da luta destas últimas contra instituições, estruturas e mentalidades do antigo regime, por isso, as grandes Declarações de Direitos, nos finais do séc. XVIII têm a marca de um ambiente ideológico e, exatamente neste ponto, o debate filosófico é incontornável, colocando-se desde logo uma questão, manifestamente incómoda para alguns: «Se os Direitos do Homem foram formulados no contexto do desenvolvimento do capitalismo, será defensável afirmar que eles se reduzem a um instrumento utilizado pelas classes burguesas para assentarem o seu poder?» (HAARSCHER, 1997:43).

Várias serão as respostas, desde a crítica marxista à volta dos Direitos do Homem, à interpretação daquilo a que se chamou a primeira geração dos Direitos do Homem, estes últimos são considerados como um sistema de valores, essencialmente individualistas, de onde se destacam: os que respeitam a liberdade de circulação, respeito pela personalidade, liberdade de consciência e de expressão. Toda a concepção dos Direitos do Homem deve considerá-las como fundamentais.

Todavia, a evolução dos Direitos do Homem tem sido uma constante ao longo do tempo, porque, também neste domínio, não há sistemas perfeitos e: as alterações sociológicas; a mudança de mentalidades; e as exigências de uma sociedade moderna, influenciam a amplitude de valores e princípios, que devem reger a humanidade.

BIBLIOGRAFIA

HAARSCHER, Guy, (1993). A Filosofia dos Direitos do Homem. Tradução, Armando F. Silva. Lisboa: Instituto Piaget.

Venade/Caminha – Portugal, 2026

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente HONORÁRIO do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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Financiamento do abismo

Clayton Alexandre Zocarato

Conto ‘Financiamento do abismo’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O banco funcionava dentro de uma catedral submersa. As colunas eram feitas de vértebras humanas empilhadas como mármore antigo, e os caixas eletrônicos respiravam lentamente, como animais adormecidos no fundo do oceano. 

Todas as manhãs, Augusto atravessava o grande salão inundado por uma luz azulada que parecia vir de um céu afogado e sentava-se diante de sua mesa, onde carimbava contratos invisíveis para pessoas sem rosto.

Ninguém sabia exatamente o que o banco financiava. Alguns diziam que eram sonhos interrompidos. Outros acreditavam que eram memórias falsas implantadas em idosos solitários. 

Havia ainda quem jurasse que os empréstimos serviam para manter viva uma criatura enterrada sob a cidade, algo tão antigo que nem possuía nome, apenas fome.

Augusto jamais perguntou.

Há muito tempo aprendera que perguntas criam corredores. E corredores levam a portas. E portas, inevitavelmente, revelam espelhos.

Seu trabalho consistia em analisar pedidos de crédito enviados por pessoas que desejavam comprar pequenas eternidades: juventude provisória, amores artificiais, filhos obedientes, silêncio interior, esquecimento seletivo, reconhecimento social, sensação de pertencimento. O banco oferecia tudo. Parcelava a alma em até quarenta anos.

Naquela terça-feira chuvosa — embora nunca chovesse dentro da cidade subterrânea — Augusto recebeu um envelope preto sem remetente. Ao abri-lo, encontrou apenas uma frase escrita com letras tortas:

“Seu financiamento foi aprovado.”

Ele sentiu um frio percorrer o corpo.

Não se lembrava de ter solicitado nada.

Passou o resto do dia tentando ignorar o envelope, mas a frase parecia crescer sobre a mesa como fungo úmido.

Ao final do expediente, percebeu que os demais funcionários haviam desaparecido. As cadeiras estavam vazias. Os relógios giravam ao contrário. Um odor de terra molhada invadia o salão.

Foi então que ouviu os passos.

Lentos.

Moles.

Como pés descalços caminhando sobre órgãos vivos.

Do corredor principal surgiu uma mulher extremamente magra vestida de branco. Seus cabelos arrastavam-se pelo chão como raízes procurando cadáveres. O rosto era familiar, embora Augusto não conseguisse lembrar de onde.

— Você atrasou muitas parcelas — disse ela.

— Eu não fiz empréstimo algum.

A mulher sorriu.

Seu sorriso possuía dentes demais.

— Todos fazem.

Ela colocou sobre a mesa um enorme contrato encadernado em pele escura.

Na capa lia-se:

CONTRATO DE EXISTÊNCIA

Augusto tentou rir, mas sua garganta produziu apenas um ruído metálico.

A mulher abriu o documento.

Cada página continha momentos de sua vida.

Seu nascimento.

Seu primeiro medo.

A tarde em que o pai o abandonou num posto de gasolina durante quarenta minutos apenas para lhe ensinar “autonomia”.

O cachorro morto encontrado na infância.

A primeira masturbação.

O cheiro do quarto da mãe durante a depressão.

O instante exato em que percebeu que envelheceria.

Tudo registrado.

Tudo assinado.

— Isso é impossível.

— Não — respondeu ela. — Impossível é existir gratuitamente.

A mulher explicou que todos os seres humanos nasciam endividados. O simples ato de respirar já gerava juros. Cada desejo produzia uma taxa adicional. O sofrimento acumulava correção monetária. O medo de morrer era a principal garantia do sistema.

— E quem criou isso?

Ela inclinou a cabeça.

— Vocês.

O salão pareceu expandir-se ao infinito.

Augusto sentiu as paredes respirarem.

A mulher desapareceu.

No lugar dela surgiu uma porta vermelha no centro do banco.

Uma porta que antes não existia.

Augusto sabia que não deveria abri-la.

Mas certas portas começam a nos abrir antes mesmo de serem atravessadas.

Ele girou a maçaneta.

Do outro lado havia um hospital abandonado.

As paredes estavam cobertas por fotografias de pessoas dormindo. Algumas sorriam. Outras choravam durante o sono. O chão era feito de água rasa, e peixes pequenos nadavam entre seringas enferrujadas.

No corredor principal, dezenas de pacientes permaneciam deitados em macas, todos usando máscaras sem expressão.

Uma enfermeira aproximou-se.

Seu rosto era completamente liso.

Sem olhos.

Sem boca.

Sem nariz.

Apenas pele.

Mesmo assim, Augusto teve a impressão de que ela sorria.

— Seja bem-vindo ao setor de inadimplência afetiva.

Ela conduziu Augusto pelos corredores.

Em um quarto havia um homem tentando arrancar o próprio reflexo do espelho.

Em outro, uma senhora costurava fotografias da juventude sobre a própria pele.

Mais adiante, crianças brincavam de funeral usando pequenos caixões de madeira.

— Quem são essas pessoas?

— Clientes.

— Do banco?

— Da realidade.

A enfermeira abriu uma porta metálica.

Dentro havia uma sala gigantesca cheia de gavetas catalogadas.

Cada gaveta possuía o nome de uma emoção.

CULPA.

VERGONHA.

DESEJO.

MELANCOLIA.

CIÚME.

NOSTALGIA.

— O que é isso?

— Arquivo central da psique humana.

Ela puxou uma gaveta marcada como “MEDO DE NÃO SER AMADO”.

Dentro havia milhões de pequenos corações batendo lentamente.

Augusto sentiu náusea.

— Isso é loucura.

— Loucura é apenas um quarto sem janelas dentro da consciência.

A enfermeira então entregou a Augusto uma chave dourada.

— O diretor deseja vê-lo.

— Diretor de quê?

— Do abismo.

Ela apontou para o elevador no fim do corredor.

As portas abriram-se sozinhas.

O interior estava cheio de areia.

Augusto entrou.

O elevador começou a descer.

Os números no painel não indicavam andares.

Indicavam idades.

Depois surgiram números negativos.

-1.

-8.

-23.

O elevador continuou descendo.

Augusto começou a ouvir vozes.

Milhares delas.

Eram pensamentos que tivera durante a vida inteira.

Pensamentos violentos.

Sexuais.

Covardes.

Ridículos.

Todos repetidos simultaneamente.

Tentou tapar os ouvidos.

Inútil.

As vozes vinham de dentro.

Quando as portas se abriram, Augusto encontrou-se diante de uma praia noturna.

O céu estava cheio de relógios derretidos.

No horizonte, um gigantesco coração mecânico pulsava lentamente dentro do oceano.

E ali, sentado numa cadeira de escritório enterrada parcialmente na areia, estava seu pai.

Morto havia quinze anos.

Usava o mesmo terno cinza do funeral.

— Você demorou — disse ele.

Augusto recuou.

— Isso não é real.

— Claro que não. Mas você sempre preferiu as coisas irreais.

O pai acendeu um cigarro.

Da fumaça surgiram pássaros negros que desapareceram no céu.

— O que é este lugar?

— Sua contabilidade interior.

— Eu estou sonhando?

— Não exatamente. Sonhos ainda possuem misericórdia.

O pai explicou que o banco era apenas a superfície administrativa de algo muito maior: uma estrutura metafísica alimentada pela incapacidade humana de aceitar o vazio.

Os homens criavam religiões, relações, dinheiro, consumo, ideologias e rotinas para evitar encarar o abismo primordial existente dentro deles.

Mas cada tentativa de preencher o vazio apenas aprofundava o próprio vazio.

Como cavar um buraco usando o próprio corpo.

— Então estamos condenados?

O pai riu.

— Condenados? Augusto, vocês transformaram a condenação em estilo de vida.

Ao longe, figuras humanas caminhavam para dentro do mar carregando televisores nas costas.

Outras enterravam os próprios rostos na areia.

Uma multidão inteira rezava diante de um enorme cartão de crédito pendurado no céu como lua.

— O que acontece com quem não paga a dívida?

O pai apontou para o oceano.

Das águas emergiam criaturas humanas sem olhos.

Elas carregavam maletas executivas presas aos pulsos por correntes.

— Tornam-se parte da máquina.

Augusto sentiu o chão tremer.

Então percebeu que a areia era feita de dentes.

Milhões deles.

O pai levantou-se lentamente.

— Existe algo que você precisa ver.

Caminharam pela praia durante horas ou segundos — naquele lugar o tempo parecia um animal ferido incapaz de mover-se em linha reta.

Chegaram a um prédio gigantesco construído inteiramente com espelhos.

Cada espelho refletia uma versão diferente de Augusto.

Augustos ricos.

Augustos miseráveis.

Augustos assassinos.

Augustos religiosos.

Augustos mendigos.

Augustos felizes.

Augustos suicidas.

— O que é isso?

— Todas as pessoas que você poderia ter sido.

Ao entrar no edifício, Augusto percebeu que os corredores eram feitos de carne pulsante.

As paredes sussurravam frases ditas por sua mãe durante a infância.

“Você precisa ser alguém.”

“Não decepcione seu pai.”

“Pessoas comuns desaparecem.”

Em uma sala encontrou centenas de versões de si mesmo sentadas diante de computadores antigos.

Todos trabalhavam compulsivamente.

Todos estavam exaustos.

Nenhum parecia saber o motivo.

Um dos Augustos ergueu a cabeça.

Seus olhos eram dois buracos vazios.

— Produzimos sentido artificial.

— Para quê?

— Para evitar o silêncio.

Outro Augusto começou a bater a cabeça contra o teclado enquanto chorava sangue.

— O silêncio revela.

As luzes piscaram.

Todos os Augustos pararam simultaneamente.

Viraram os rostos na direção dele.

E disseram juntos:

— Você ainda acredita possuir alguma coisa?

Augusto correu.

Correu pelos corredores vivos.

Correu até encontrar uma escada infinita descendo para dentro de uma escuridão líquida.

No fundo havia uma única cadeira de dentista iluminada por uma lâmpada oscilante.

Sentada nela estava a mulher do banco.

— Chegamos ao núcleo.

— O que você quer de mim?

— Nada.

Ela sorriu novamente.

— Você é quem quer alguma coisa. Sempre quis.

A mulher pediu que Augusto se sentasse.

Ele obedeceu sem compreender por quê.

Acima dele surgiu uma máquina enorme feita de olhos humanos conectados por fios umbilicais.

— O que é isso?

— O mecanismo do desejo.

A máquina começou a funcionar.

Augusto viu sua vida inteira atravessá-lo.

Cada ambição.

Cada carência.

Cada humilhação escondida sob performances de normalidade.

Percebeu que jamais amara verdadeiramente ninguém.

Apenas buscara pessoas capazes de anestesiar temporariamente seu medo de existir.

Percebeu que trabalhara não por realização, mas para provar algo indefinido a fantasmas familiares.

Percebeu que seus sonhos eram anúncios publicitários infiltrados na alma.

Percebeu que nunca estivera sozinho porque sempre carregara dentro de si um tribunal inteiro.

Começou a gritar.

A mulher aproximou-se lentamente.

— O ser humano é a única criatura que transforma a própria prisão em decoração.

A máquina acelerou.

Os olhos giravam.

Milhares deles.

Observando.

Julgando.

Consumindo.

Augusto sentiu algo romper-se dentro de sua mente.

Então aconteceu o silêncio.

Um silêncio absoluto.

Branco.

Imenso.

Pela primeira vez desde a infância, não desejava nada.

Nem sucesso.

Nem amor.

Nem permanência.

Nem respostas.

Apenas vazio.

Mas o vazio agora não parecia ameaçador.

Parecia honesto.

As correias se soltaram.

A mulher observou-o com estranha ternura.

— Poucos chegam até aqui.

— O que acontece agora?

— Agora você decide.

— Decido o quê?

— Continuar financiando o abismo ou aprender a habitá-lo.

Ela entregou-lhe um espelho pequeno.

Ao olhar, Augusto não viu seu rosto.

Viu apenas um quarto escuro.

No centro do quarto havia uma criança sentada no chão.

Ela chorava silenciosamente.

Augusto reconheceu imediatamente quem era.

A criança ergueu os olhos.

— Você me abandonou.

Augusto começou a tremer.

Tentou tocar o espelho.

A superfície tornou-se líquida.

Então caiu para dentro.

Despertou num apartamento minúsculo.

O despertador tocava.

O sol atravessava parcialmente as cortinas.

Tudo parecia normal.

Por alguns segundos acreditou que tivera apenas um pesadelo.

Levantou-se.

Foi até o banheiro.

Lavou o rosto.

Ao erguer os olhos para o espelho, encontrou uma pequena frase escrita no vidro com vapor:

“Saldo devedor: infinito.”

Augusto recuou.

O apartamento começou a emitir sons estranhos.

As paredes respiravam.

Os móveis pulsavam como órgãos internos.

Da televisão desligada surgiu a voz da mulher:

— O sistema nunca esteve fora de você.

As luzes apagaram.

No escuro, Augusto ouviu milhares de teclas sendo digitadas.

Percebeu então que sua mente inteira funcionava como um escritório administrativo dedicado a organizar medos.

Cada memória era um documento.

Cada trauma, um contrato.

Cada desejo, um boleto vencido.

Sentou-se no chão.

Exausto.

O silêncio voltou.

Lentamente compreendeu que passara a vida inteira tentando comprar autorização para existir.

Dos pais.

Da sociedade.

Do trabalho.

Do amor.

De Deus.

Sempre esperando algum carimbo metafísico que legitimasse sua presença no mundo.

Mas talvez existir fosse justamente suportar a ausência desse carimbo.

Talvez maturidade fosse aceitar que nenhuma estrutura viria salvá-lo do vazio fundamental.

Talvez liberdade começasse quando o homem deixasse de pedir empréstimos emocionais ao mundo.

Augusto chorou.

Não de tristeza.

Mas de cansaço.

Um cansaço antigo.

Herdado.

Transgeracional.

Como se milhares de ancestrais frustrados ainda respirassem dentro de seus pulmões.

A noite caiu rapidamente.

Do lado de fora, a cidade parecia normal.

Pessoas caminhavam.

Carros passavam.

Casais jantavam.

Mas Augusto agora enxergava.

Via as correntes invisíveis ligando cada ser humano às próprias carências.

Via homens usando ternos costurados com ansiedade.

Via mulheres carregando aquários cheios de expectativas mortas.

Via crianças já hipotecadas ao futuro.

Todos sorrindo.

Todos cansados.

Todos pagando parcelas emocionais intermináveis.

Na madrugada, ouviu uma batida na porta.

Ao abrir, encontrou apenas um envelope preto.

Dentro havia um único papel.

“Parabéns. Seu refinanciamento foi autorizado.”

No verso havia uma assinatura.

A sua própria.

Augusto sorriu pela primeira vez em muitos anos.

Depois queimou o papel.

As chamas iluminaram brevemente o apartamento.

E por um instante, antes que o fogo apagasse, ele teve a impressão de enxergar dentro das labaredas a gigantesca catedral submersa onde o banco continuava funcionando eternamente.

Centenas de funcionários sem rosto carimbavam contratos.

Milhões de pessoas aguardavam atendimento.

E no centro do salão, sentado sozinho diante de uma mesa vazia, estava ele mesmo.

Trabalhando.

Ainda.

Sempre.

Enquanto, muito abaixo de tudo, no fundo do abismo financiado pela humanidade inteira, alguma coisa respirava satisfeitamente.

Clayton Alexandre Zocarato

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Celso Lungaretti: 'O fim do capitalismo levará à formação de melhores seres humanos? Conheça as opiniões de Delfim Netto, Dalton Rosado e Celso Lungaretti

LUNGARETTI E DALTON ROSADO REBATEM DELFIM NETTO

 
Por Celso Lungaretti

SE O FIM DO CAPITALISMO TARDAR, NÃO HAVERÁ MAIS HUMANOS.

Numa coluna surpreendente (vide aqui), Delfim Netto reduz o homem a “um animal territorial, dotado pela evolução biológica de um terrível e perigoso instrumento — a sua inteligência”; afirma que não se descobriu ainda como evitar que continue exterminando seus iguais (uma tendência que o diferencia de todos os outros animais); e diz ser duvidosa a hipótese de que se humanizará antes que “produza sua própria destruição”.

Parece estar abalado com o advento da era Trump, quando o capitalismo volta a se mostrar tão desumano quanto o era na fase mais selvagem, além de ter elevado sua iniquidade intrínseca à enésima potência.

Enfim, aos 88 anos, Delfim chega finalmente à idade da razão. E deve estar contemplando a obra de sua vida com a mesma perplexidade do dr. Frankenstein face à criatura: terá sido para isso que serviu caninamente aos piores ditadores e acumpliciou-se com o festival de horrores resultante das 15 assinaturas de ministros (uma delas a sua) aprovando a instituição do AI-5?!

Numa provável tentativa de exorcizar os fantasmas que lhe tiram o sono, escreveu um texto na linha de que, se o capitalismo conduziu a humanidade a “uma desigualdade insuportável”, o fim do capitalismo também não conseguiria civilizar os homens.

___________________________

A desigualdade aumentou 

de tal maneira que uma 

ínfima minoria acumulou 

poder suficiente para impor 

sua vontade à imensa 

maioria dos seres humanos” 

(Celso Lungaretti).

___________________________
Quer acreditar que, numa encruzilhada do destino, a opção existente era entre dois caminhos igualmente ruinosos. Isto o aliviaria um pouco de sua culpa por ter escolhido a via que levou a resultados catastróficos, a ponto de o Brasil estar em frangalhos e a própria sobrevivência da humanidade encontrar-se gravemente ameaçada.

Deixa, contudo, de considerar um dado fundamental da equação que tenta montar: o de que os animais brigam com outros animais e defendem com unhas e dentes seu território por uma questão de sobrevivência. Precisam garantir alimentação e abrigo para si e para o grupo a que pertencem, caso contrário sucumbirão à fome, ao frio, às intempéries, etc.

Foi também devido à escassez que os homens passaram milênios competindo encarniçadamente uns com os outros. Inexistindo o suficiente para todos terem tudo de que necessitavam para uma existência digna, o quero mais a que alude Delfim forneceu o impulso decisivo para irem, pouco a pouco, desenvolvendo as forças produtivas. A motivação egoísta acabava sendo uma espécie de motor do progresso, ainda que obtido graças ao enorme sofrimento e mazelas terríveis que desabavam sobre os mais fracos.

 

O fantasma da escassez deixou de nos assombrar

Era. Não é mais, pois a barreira da necessidade foi afinal transposta e hoje já dispomos de conhecimento científico e meios tecnológicos para a produção do que é realmente preciso para todos vivermos sem privações e sem o estresse que a competição exacerbada causa.

O que ainda nos impede de alcançarmos uma existência feliz e plena, em lugar do atual pesadelo globalizado?
O capitalismo, claro! Ou, mais precisamente, o fato de que ele fez a desigualdade aumentar de tal maneira que uma ínfima minoria acumulou poder suficiente para impor sua vontade à imensa maioria dos seres humanos.

E, em nome da perpetuação de um status quo que só a ela beneficia, arrasta a humanidade a uma crise econômica que se prenuncia avassaladora e à destruição do equilíbrio ecológico sem o qual nossa espécie se extinguirá.

Só sobreviveremos se nos unirmos para deter a atual marcha da insensatez, fazendo com que o bem comum prevaleça sobre os interesses mesquinhos que nos estão levando à beira do abismo.

E, se formos capazes disto, certamente também o seremos para, em seguida, construirmos uma sociedade verdadeiramente humana.

LUNGARETTI E DALTON ROSADO REBATEM DELFIM NETTO

 
Por Dalton Rosado

DELFIM NETTO NOS VÊ COMO CONDENADOS ETERNOS AO FRATRICÍDIO

.

Segundo Delfim Netto (vide aqui), a barbárie, hoje em curso mundialmente, é comportamento inerente ao caráter concomitantemente racional e irracional da humanidade; estaríamos, portanto, condenados eternamente ao fratricídio.
Delfim Neto elabora a sua dúvida de que tais comportamentos sejam naturais, e não uma resultante da debacle e irracionalidade capitalista.

O capitalismo é um modo de relação social histórico, não ontológico, irracional, dotado de lógica ilógica (porque destrutiva) e, por isso mesmo, fadado à autodestruição, mas não sem antes tentar levar de roldão toda a humanidade, tangendo-a ao genocídio.

A evolução do ser humano passou, até agora, por duas naturezas distintas. Na primeira natureza, irracional, o ser humano era um animal frágil, diante das grandes feras que habitavam o planeta Terra.

Foi a natureza gregária e solidária dos humanoides o que contribuiu para que sobrevivesse como espécie no enfrentamento das outras feras, mais potentes fisicamente.  A ciência calcula que tal período tenha durado cerca de 3 milhões de anos.

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“A superação do capitalismo é o estágio 

limite entre a segunda natureza humana 

e a terceira que está por vir, devendo 

proporcionar a emancipação humana 

e um ser humano moralmente
evoluído
” (Dalton Rosado)

._______________________________________________

Paulatinamente, o ser humano atingiu o estágio do homo sapiens (erecto e dotado de racionalidade) que se admite ter sido atingido há cerca de 300 mil anos, e que se considera como sendo a sua segunda natureza.
Entretanto, o desenvolvimento de sua racionalidade não está ainda concluído e os resquícios da irracionalidade, ainda existentes nessa segunda natureza, são o que caracteriza a bipolaridade comportamental, que o faz capaz de gestos altruísticos e outros desumanamente cruéis.

Acredito, portanto, na evolução do homem, bem como temo que tal estágio possa a ser interrompido pela letalidade da capacidade bélica das bombas atômicas, que podem vir a ser acionadas quando impulsionadas pela irracionalidade da guerra de mercado capitalista.

É conhecido o caráter civilizatório do capitalismo no campo tecnológico, mas isto não significa que ele seja um modo de relação social saudável. A bestialidade das guerras, p. ex., também contribuiu para avanços tecnológicos (a descoberta do radar e da energia atômica), e nem por isto se pode admitir a guerra como um ganho para a humanidade.

A evolução da humanidade caminha a passos lentos em termos de história cronológica. O o capitalismo deriva de um deformado embrião social gestado há cerca de 3 mil anos, quando na Grécia antiga se iniciou o processo de abandono das sociedades comunais primitivas (nas quais tudo se partilhava) e a adoção das trocas quantificadas como forma de obtenção de poder. Estava configurada, embrionariamente, a negativa e abstrata forma-valor.

Daí em diante as sociedades humanas foram marcadas pelo escravismo direto, como forma de obtenção de objetos servíveis ao consumo, agora transformados em mercadorias (com valor de uso e valor de troca), destinados à barganha de poder no incipiente mercado, até se chegar ao sub-reptício escravismo indireto do trabalho abstrato, fonte primária sofisticada da abstração da forma-valor, que é o instrumento de dominação sutil das modernas sociedades do capital com todos os seus construtos institucionais de apoio.

Diferentemente da dúvida de Delfim Netto, entendo que a superação do capitalismo é o estágio limite entre a segunda natureza humana e a terceira que está por vir, devendo proporcionar a emancipação humana e um ser humano moralmente evoluído.

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A rainha de copas foi retirada do baralho político. Autoritária, com pavio curtíssimo, useira e vezeira em tomar decisões desastrosas, ela comprometia a continuidade do próprio jogo, não por cortar a cabeça de todos que lhe desagradavam (os tempos são outros!), mas por cortar o PIB, os empregos, o poder aquisitivo dos brasileiros, a esperança em dias melhores y otras cositas más.

Acabaria cortando o próprio Brasil, despedaçado numa crise sem fim, se não a tivessem cortado antes.

Mas, eliminado o complicador no qual se constituía a presença da pessoa errada, no lugar errado e na hora errada, o que realmente mudou?

Tivemos, de janeiro de 2003 até abril de 2016, governos totalmente servis ao capitalismo, só que terceirizados, ou seja, geridos por forças políticas que um dia foram de esquerda, mas há muito o haviam deixado de ser.

Serviam de biombo, para o povo não perceber quem realmente mandava e qual o verdadeiro responsável por suas desditas. Como paga, era dado a tais gerentes o direito de fazerem todo tipo de maracutaias, efetuarem uma farta distribuição de boquinhas entre sua criadagem e de migalhas entre os coitadezas –os quais, por medo de perdê-las, os continuariam elegendo.

Agora a farsa acabou, passando a dominação burguesa a ser exercida por partidos que não iludem ninguém: expressam e obedecem ao capitalismo, ponto final.

Os Faustos que eram de esquerda antes de venderem a alma ao Mefistófeles burguês, muito fazem para direcionar a indignação dos simplórios contra o novo gerente, pois querem recuperar o posto na próxima eleição. Se forem bem sucedidos, tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes.

Quem é de esquerda por querer dar um fim à exploração do homem pelo homem (e não encarando-a como profissão ou atalho para vencer na vida), estará iludindo a si próprio se, tão somente, aderir ao coro do Fora Temer!.

É mais do mesmo. Já tivemos o Fora Sarney!, o Fora Collor!, o Fora FHC! e de que serviram? Apenas abriram caminho para a realização dos anseios de poder e enriquecimento pessoal  desses Faustos que incluíram nossos sonhos no pacote negociado com o demo

A raiz de todos os males é o sistema capitalista, cada vez mais nocivo, predatório e desumano à medida que marcha para o fim, não seu serviçal da vez no Palácio do Planalto.

O xis da questão, portanto, é não combatermos as políticas anti-sociais do Temer apenas no sentido apenas de evitá-las, mas sim encarando tais lutas como uma oportunidade de acumulação de forças para o que realmente importa: a superação do capitalismo.

Caso contrário, toda conquista poderá ser revertida adiante e toda vitória desmanchar-se no ar.

Já lá se vão 31 anos que nos vimos livres da ditadura militar e continuamos até hoje patinando sem sair do lugar. Até quando?

Chega!

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Mais um artigo da leitora Sônyah Moreira

Sônyah Moreira – A decadência do capitalismo

A história nos mostra, que todo sistema, ou forma de governo, tem o seu ápice e seu declínio. Temos vários exemplos de impérios poderosos que chegaram ao fim, será alguma maldição?

Toda história épica, sempre tem referência a mil anos de plenitude e mil anos de tribulações, catástrofes e todas as dificuldades existentes, acredito que é o que está acontecendo com esse forma de governo “O capitalismo”. Hoje a desigualdade social está crescente, não vamos nos limitar apenas aqui em nosso país, mais no mundo inteiro, podemos dizer em falência de todos os sentidos, a riqueza mundial está concentrada em uma parcela ínfima da sociedade, por mais que as pessoas lutem, não conseguirão adquirir melhores condições socioeconômicas é impossível, com esse formato que aí está. As consequências, desse sistema ditador chamado “Capitalismo” são gritantes, o que adianta para cada um de nós ter conforto, segurança, condições de uma sobrevivência digna, se a maioria a sua volta não ter o mínimo necessário em educação em segurança e empregos para simplesmente viver.

Precisamos rapidamente de uma varinha de condão, uma mágica, ou reinventar, criar uma política social compatível com os dias atuais, é eminente o caos que está a nossa porta, e o que poderá acontecer caso não haja uma renovação de valores, compromisso individual e coletivo, é inimaginável, será mesmo o apocalipse descritos em textos bíblicos.

Com isso, chegamos a conclusão que é o momento de rever tudo de uma perspectiva diferente, de analisar atitudes, de votar melhor, consciente, de olhar a sua volta, de tirar os olhos do próprio umbigo, e ver que não fomos feitos para viver sozinhos, somos seres gregários, para viver no coletivo, em matilhas, grupos, e se nosso vizinho não estiver bem, nós também não estaremos, não podemos viver sozinho, não tem como, necessitamos de outro para praticamente tudo na vida, não sabemos fazer tudo. Com isso porque não pensar em formas de viver todos bem? Veja, não estou dizendo em “Comunismo socialismo”, que também está falido, temos exemplos pelo mundo.

A sociedade anseia por mudanças profundas, estamos pedindo socorro a todos os governantes, para que parem e pensem, o que poderá ser feito nesse sentido, voltem as raízes, a idade das cavernas, quando a caça era dividida em partes iguais para saciar a mais simples das necessidades de um ser vivo. A fome! Será que estou sonhando muito em relatar isso? Será que um dia, nossos filhos ou netos poderão ter a possibilidade de evidenciar isso? Quem sabe?

Sônyah Moreira




Artigo de Celso Lungaretti: 'CONY DESEJA QUE DILMA E LULA SE F… RAUL E OBAMA JÁ ESTÃO NUS NA CAMA'

Celso Lungaretti – CONY DESEJOU QUE DILMA E LULA SE F… O TROCO FOI UM CHUTE NA VIRILHA

Por Celso Lungaretti, no blogue Náufrago da Utopia.

 

O jornalista e escritor Carlos Heitor Cony se tornou nonagenário duas semanas atrás.

Como não sou preconceituoso nem grosseiro, descartarei o peso da idade como causa de sua coluna infeliz deste domingo de Páscoa. Apenas lembrarei que celebridades idosas tendem a superestimar a própria genialidade e, às vezes, exageram na dose. Sabem como é, apos passarem tanto tempo sendo bajulados, acabam por acreditar no confete que os áulicos derramam incessantemente sobre eles.

O pomo da discórdia são os parágrafos finais de seu texto tedioso-divagativo O felix culpa. Estes:

A Páscoa é o ponto mais alto do calendário cristão, de certo modo, é a continuação de uma das mais importantes festas do judaísmo, o Pessach, que o próprio Cristo comemorou pouco antes de ser traído e morrer no calvário.

Enquanto a Páscoa cristã celebra a ressurreição de seu fundador, o Pessach relembra a noite em que os judeus se libertaram do jugo egípcio.

É uma festa de liberdade em que um povo inteiro prefere passar 40 anos no deserto, mas se liberta do cativeiro.

Agnóstico por convicção, gosto de comemorar as duas páscoas. Evito o terrível cativeiro de me tornar refém de Dilma e Lula. Desejo que ambos se f…

achado não é tão novo assim. Lembrei-me logo da música “Zebedeu”, que Sérgio Ricado gravou em 1967, quase meio século atrás. Refere-se a um violeiro que canta suas desventuras para os transeuntes, mas acaba irritado por não lhe darem esmolas e, ademais, zombarem dele e dos filhos. Então arremata:

A risada dos presentes, pelo amor de Deus/ Traz o sono à minha gente, pelo Zebedeu/ Eu encerro a cantoria, pelo amor de Deus/ Mandando vocês à merda, pelo Zebedeu.

Achei que Dilma e Lula entraram de gaiatos nessa incomum crônica pascal. Não vi motivo para o Cony citá-los, muito menos de forma tão estridente.

Mas, como sempre faço nesses casos, repudio também os que dão chutes na virilha como troco, assassinando reputações na base do ouvir dizer.

Um daqueles jornalistas que defendem incondicionalmente o petismo correu a comparar a besteirinha atual com dois editoriais golpistas publicados pelo Correio da Manhã (RJ) ás vésperas da derrubada de João Goulart: o Basta e o Fora. Cometeu exagero similar ao que vituperou.

Para começar, editoriais são a voz do dono, ponto final. Pouco importa quem o coloque no papel, tal profissional está apenas expressando a posição do veículo que o emprega.

E tem mais: o rumor de que teria sido ele o escrevinhador de tais editoriais, difundido por Elio Gaspari, foi desmentido pelo próprio Cony, que assim relembrou o episódio:

Até hoje não se sabe quem escreveu o Basta e o Fora, atribuídos a Edmundo Moniz, que era o nosso redator-chefe. (…)

Na crise de 1964, os editoriais eram discutidos exaustivamente pela equipe liderada por Moniz e da qual faziam parte Otto Maria Carpeaux, Osvaldo Peralva e Newton Rodrigues, entre outros.

Eu estava recém-operado, no meu apartamento em Copacabana, e Edmundo Moniz, que ia me visitar todos os dias, telefonou-me para comunicar que Carpeaux desejava pisar forte, com um editorial virulento contra Jango. O próprio Carpeaux sugerira que Moniz me consultasse, uma vez que nós dois éramos afinados, tanto em política como em literatura.

Minha participação limitou-se a cortar um parágrafo e acrescentar uma pequena frase. Hora e meia mais tarde, Moniz telefonou-me outra vez, lendo o texto final que absorvia a colaboração dos editorialistas, e, embora o conteúdo fosse o piloto elaborado por Carpeaux, a linguagem traía o estilo espartano do próprio Moniz.

Quem respeita as boas práticas jornalísticas, nestas situações nunca omite que o acusado negou a acusação. O leitor que tire suas conclusões.

De resto, Cony tem muitos altos e baixos na sua trajetória. Eu mesmo já o critiquei duramente, mas sem cometer injustiças nem fazer-lhe imputações duvidosas. Neste artigo.

Mas, assim agi porque ele tinha atropelado um princípio fundamental para jornalistas e para revolucionários: a firme rejeição a toda e qualquer forma de censura.

Nunca escreveria com tanta indignação na defesa de políticos, ainda mais quando se trata de presidentes e ex-presidentes cujos governos não foram revolucionários.

Talvez eu seja um pouco antiquado, mas sempre esquivei-me de qualquer identificação com o poder e suas benesses. Pois concordo inteiramente com o Millôr Fernandes quanto a jornalismo ser oposição, o resto não passando de armazém de secos e molhados. E, se a independência significa tanto para um jornalista, ainda mais imprescindível é para um revolucionário.

Numa sociedade capitalista o poder realmente corrompe. Fede tanto quanto esgoto, carniça e petrolões.

A LOVE STORY ENTRE CUBA E EUA, SEGUNDO DALTON ROSADO: A FOME DO MOLOCH CAPITALISTA DESNUDA A FARSA POLÍTICA.

 
Por Dalton Rosado.

O convívio fraterno entre os povos deve ser uma condição de coexistência saudável. Neste sentido, a reaproximação de Cuba com os Estados Unidos poderia ser elogiável, se não derivasse de um interesse econômico negativo na sua essência constitutiva original.

Há sutilezas nessa reaproximação que denuncia uma identidade que por 57 anos (1959 a 2016) permaneceu oculta. Trata-se da base capitalista que, durante tal período, permeia as relações de produção nas duas nações.

Ambos os países, embora com orientações políticas diferenciadas no que diz respeito à forma de comando governamental e à propriedade dos meios de produção (empresas produtoras de mercadorias), mantêm uma identidade quanto à forma mercantil da produção; ou seja, ambos os países produzem mercadorias, subordinadas às regras de mercado, à forma-valor e à mediação pelo dinheiro, modo de produção que tem uma lógica própria, fetichista, egocêntrica, excludente e segregacionista, ainda que sejam politicamente diferentes (aspecto de menor monta).

Acaso o enrolador de folhas no tabaco cubano, que produz os seus inigualáveis charutos, recebe, após um dia de trabalho a quantidade de valor que ele produziu na empresa estatal? Evidentemente que não, pois, se isto ocorresse, não existiria o capital estatal comunista.

Acaso o operário estadunidense recebe o valor integral produzido após uma jornada diária de trabalho? Evidentemente que não, pois essa é a fonte da acumulação capitalista privada e de sustentação do Estado liberal capitalista.

É justamente a produção de valor, aliada à apropriação indevida desse valor, aquilo que faz a roda do capitalismo girar, seja ele estatal ou privado, e essa é a identidade capitalista entre Cuba e EUA, razão primeira das suas necessárias aproximações no plano comercial, guardadas as diferenças no plano político.

Não é por acaso que Barack Obama em seu discurso falou da importância do intercâmbio comercial entre os dois países e do incremento de atividades empresariais de pequeno porte, no que foi aplaudido por Raul Castro. É que ambos precisam urgentemente da reprodução do capital nesses tempos de desemprego estrutural mundo afora e de depressão econômica fruto do limite interno absoluto do capitalismo como forma de suas próprias sobrevivências políticas, embora isso seja negativo para o povo.

A fome do moloch capitalista desnuda a farsa política.

O autor, Dalton Rosado, é advogado, escritor e compositor. Foi secretário de Finanças de Fortaleza no governo de Maria Luíza Fontenele.

 

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