De Moçambique ao ROL, Makala Sankara Anzuruni!

Entre a tecnologia e a literatura, o novo colunista escreve à sombra do embondeiro sobre identidade e esperança.

Makala Sankara Anzurumi

Makala Sankara Anzurumi, natural de Nampula, Moçambique, é escritor, cronista e profissional de Tecnologias de Informação. Licenciado em Informática, com habilitação para o ensino de Informática pela Universidade Licungo, é também mestre em Ação Humanitária e Desenvolvimento Sustentável.

A sua trajetória cruza tecnologia, educação, escrita e desenvolvimento, áreas que se encontram no seu percurso profissional e na sua forma de interpretar a realidade.

Olhar literário e causas sociais

Na escrita, dedica especial atenção às experiências humanas e às questões sociais, explorando temas como:

  • Deslocamento e pertença;
  • Identidade e memória;
  • Juventude, exclusão e esperança na África.

Tecnologia e o Futuro

Como articulista, escreve também sobre tecnologia, inovação e transformação digital, refletindo sobre o papel dessas áreas na educação, no desenvolvimento e na construção de sociedades mais inclusivas.

Makala inicia sua jornada ROLiana com o texto Quando o lar deixa de nos reconhecer, uma crônica reflexiva e tocante, pela qual aborda de forma profunda a complexidade da migração, do exílio e da construção da identidade.

Quando o lar deixa de nos reconhecer

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Há pessoas que atravessam uma fronteira com uma mala na mão e um país inteiro escondido no peito.

Na bagagem vai quase sempre pouco: duas camisas, alguns documentos, uma fotografia dobrada tantas vezes que já conhece a marca dos dedos e, talvez, uma chave. A chave é importante. Quem parte leva-a porque, mesmo quando tudo indica o contrário, ainda guarda a ténue esperança de voltar.

Foi assim que muitos partiram: sem tempo para despedidas, sem o último abraço à porta, sem vizinhos reunidos a desejar boa viagem, sem uma fotografia que eternizasse aquele instante. Há partidas que acontecem depressa demais para serem chamadas de despedida. Há apenas o medo. E quando o medo avança, ninguém pergunta se estamos preparados — ele ensina-nos simplesmente a andar.

Do outro lado da fronteira começa uma vida fora dos planos. É preciso aprender tudo outra vez: onde comprar o pão, onde apanhar o chapa, como pedir ajuda, que palavras usar e como cumprimentar sem que a pronúncia denuncie a nossa origem distante. Aprende-se onde dormir, onde trabalhar e como explicar o próprio nome sem ter de contar a história inteira que o acompanha.

E surge aquela pergunta pequena, quase inocente, mas carregada do peso de uma vida:

De onde és?

No princípio, a resposta é simples. Dizemos o nome da cidade, o país, a terra que ficou para trás, como quem aponta para uma fotografia antiga e afirma:

É ali que eu pertenço.

Depois, o tempo corre.

Cinco anos. Dez anos.

Os filhos crescem. A língua transforma-se ligeiramente: o sotaque perde algumas palavras da infância e ganha os termos da terra que nos acolheu. Aprendemos as ruas e os caminhos; sabemos onde o chapa passa mais cheio, onde comprar o essencial e onde nos abrigar quando a chuva cai de repente. Aprendemos a reconhecer a manhã pelo cheiro e a tarde pela luz que se desdobra sobre os telhados.

Construímos amizades, arranjamos trabalho, amamos, casamos e temos filhos. Enterramos alguns dos nossos mortos e celebramos aniversários. Começamos a cruzar-nos com pessoas que já não perguntam de onde viemos, porque passaram a tratar-nos pelo nome.

Sem percebermos, criamos raízes.

Primeiro frágeis.

Depois profundas.

Até que, um dia, alguém volta a perguntar:

Mas tu és de onde?

A resposta já não cabe numa palavra.

Depois de tantos anos, há algo de nós que permaneceu naquele lugar distante e algo que nasceu neste novo chão.

Se dizemos onde nascemos, ouvimos:

Ah, então és estrangeiro.

Se dizemos onde vivemos, respondem:

Não. Tu não és daqui.

Ficamos suspensos entre duas respostas.

É um lugar sem nome, onde carregamos duas terras no peito, mas nenhuma nos reconhece por completo.

Talvez a maior dor do exílio não seja perder uma casa, mas perder a certeza de que alguma casa ainda nos pertence.

O exílio não termina quando atravessamos a fronteira.

Ele continua.

Continua quando precisamos de justificar a nossa existência, quando o nosso nome é pronunciado como algo estranho ou quando os nossos filhos, nascidos e criados nestas mesmas ruas de Maputo, Nampula ou Pemba, continuam a ouvir a mesma interrogação:

Vocês são de onde?

Como se o nascimento dos filhos tivesse de responder pelos passos dos pais.

Como se uma fronteira pudesse atravessar gerações.

Contudo, há memórias que nenhuma fronteira consegue travar.

A memória não pede passaporte.

Basta a chuva, um aroma, uma música ou uma palavra dita de certa forma para que o presente desapareça por alguns segundos.

Regressa a rua da infância.

Regressa a voz da mãe.

Regressa a casa antiga.

Regressa a voz de quem já morreu.

O corpo pode estar numa rua de Moçambique, mas a memória viaja para longe sem autorização, sem fronteira e sem posto de controlo.

Existe, porém, outra fronteira invisível.

Não surge nos mapas, não tem bandeira nem exige documentos.

Habita dentro das pessoas.

É a barreira que se ergue quando se diz:

Eles são estrangeiros.

Como se a nacionalidade resumisse uma vida.

Como se um documento pudesse medir a dimensão de uma perda.

Como se o lugar onde uma pessoa nasceu fosse mais importante do que o lugar onde aprendeu a amar, a trabalhar, a criar os filhos e a sonhar.

Talvez precisemos de reaprender a palavra lar.

Lar talvez não seja apenas a terra onde nascemos.

Talvez seja também o lugar onde conseguimos continuar.

Onde alguém conhece o nosso nome.

Onde os nossos filhos aprendem a andar.

Onde penduramos uma fotografia na parede.

Onde sabemos qual caminho tomar quando a tarde começa a cair.

Onde alguém pergunta por nós quando faltamos.

Onde a nossa ausência é finalmente sentida.

Talvez lar seja isso:

um espaço que, gradualmente, deixa de nos tratar como passageiros.

Quando vemos alguém chegar com uma mala pequena e um olhar maior do que a estrada percorrida, a bagagem pode vir quase vazia, mas ninguém divisa o que vai no peito.

Ali estão os mortos.

As fotografias.

As vozes.

As ruas.

Os medos.

As saudades.

E a angústia de já não saber onde pertence.

Criar raízes num novo chão não é trair as origens.

É sobreviver.

É continuar.

É permitir que a vida recomece.

O lar começa num gesto simples.

Quando pousamos a mala, sem pressa nem medo, e percebemos que não precisamos de pedir desculpa por existir.

É quando escutamos a palavra:

Fica.

E simplesmente ficamos.

Não porque esquecemos a terra natal.

Não porque a saudade desapareceu.

Mas porque compreendemos que há raízes que não crescem onde nascemos.

Crescem onde a vida nos permite continuar.

Makala Sankara Anzuruni

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Fabrício Santos: 'Primeira igreja brasileira a ter uma Via-Sacra da cultura africana'

Comendador Fabrício Santos

Primeira igreja brasileira a ter uma Via-Sacra da cultura africana

No ano de 2014, fui convidado pelo padre Renato Dutra Borges SDN, em visita ao país, a representar uma Via-sacra com motivos africanos. O Missionário Pe. Renato se preparava para regressar a Angola e seu plano inicial era que as obras compusessem a nova igreja na paróquia que assumira naquele país. Para ajudar na elaboração do projeto, Pe. Renato enviou para mim por e-mail, as obras do artista plástico e escritor africano Samuel Bullen Ajak Alier, autor de diversas obras sacras e do livro “African Posters To Teach The Bible Guide Book – Nairobi, Kenya, 2002”. São de Samuel Alier as obras presentes no livro “Via Sacra” de Cristóvão Owczarek, que me inspiraram a dar início à confecção das 15 telas, fazendo uma releitura do trabalho de Samuel Alier.

Utilizando a técnica mista de desenho a carvão e pinturas com tinta acrílica e aquarela sob papel eucatex, a pintura apresenta paisagens que remetem à África e todos os personagens retratados são negros. Dispostos em armações de madeira, cada peça mede 70cm por 50cm. De todo trabalho realizado, que recebeu o título de Via-Sacra da Cultura Africana, 14 telas foram doadas e estão expostas na Igreja de Nossa Senhora Aparecida, pertencente à Paróquia de São Lourenço de Manhuaçu.

A obra foi finalizada em 2014, todavia, por questões burocráticas ligadas ao envio das peças, Pe. Onésio Magno da Silva, que assumira a responsabilidade do transporte, uma vez que Pe. Renato já se encontrava em missão, não conseguiu transportá-las para a Paróquia Santo Antônio de Nana Candundo, em Kavungo, Moxico no país de Angola.

Em seu lugar, Pe. Odésio levou cópias impressas em lona das obras, que foram dispostas conforme o pároco pretendia, nas paredes da nova igreja em Kavungo. O original ficou comigo pois a igreja não havia pago pelos serviços, ficando somente com as cópias que foram impressas e doadas por mim ao Pe. Odésio.

Em 2017, a organização RankBrasil Livros dos Recordes Brasileiros reconheceu o meu ineditismo e pioneirismo da minha obra no país, concedendo-me o recorde de primeiro brasileiro a pintar uma Via-Sacra Africana. Em 11 de outubro daquele mesmo ano, Santos formalizou a doação da obra à Igreja de Nossa Senhora Aparecida (Paróquia de São Lourenço), durante as comemorações dos 300 anos da Aparição da Imagem de Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil, em missa presidida pelo Pe. Aureliano de Moura Lima – Superior Geral dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora – SDN.

No ano de 2018, o Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Manhuaçu – COMPAC, realizou o inventário das 15 obras da Via-Sacra Africana e posteriormente solicitou que fosse feito um Dossiê de Tombamento como Bem Imóvel por integrar a Igreja Nossa Senhora Aparecida como a 1ª Igreja do Brasil a ter uma via sacra baseada na cultura africana. O tombamento do Quadros da Via-Sacra Africana teve como objetivo salvaguardar o conjunto de obras de arte de extrema importância para a comunidade do município de Manhuaçu, principalmente aquele que visitam com frequência a Igreja de Nossa Senhora Aparecida e lá, expressam sua fé. A Via-Sacra fica permanentemente exposta nas paredes internas da Igreja, acessível a qualquer visitante. A doação do conjunto de obras teve grande relevância para a comunidade, pois a Igreja contava com pouquíssimas obras sacras.

O conjunto artístico, além de seus atributos técnicos e estéticos, possui grande simbologia, uma vez que pode ser considerado o único conjunto representativo da Via-sacra da cultura africana no Brasil, configurando um importante marco cultural para o município. Ademais, a obra tem a intenção de reforçar a pluralidade de culturas que formam a nossa sociedade, principalmente da cultura negra, que historicamente vem sendo tratada de forma coadjuvante em relação aos bens culturais provindos da herança europeia. Dessa forma, a obra de arte reafirma os valores e a importância da cultura africana e se presta como um instrumento de reconhecimento e de resistência negra.

No ano de 2020, o Conselho COMPAC finalizou o processo administrativo de tombamento definitivo da Via-sacra Africana e a Prefeitura homologou através do Decreto nº461 de 01 de dezembro de 2020 em conformidade com os fins estabelecidos na Lei nº2.219/2000, que estabelece a proteção do patrimônio cultural e histórico do município de Manhuaçu/MG.

 

Por Fabrício Santos – Artista Plástico/Diretor Municipal do Patrimônio Cultural de Manhuaçu e Presidente do COMPAC 2021-2023.

 

 

 

 

 

 




Trupe Benkady realizará, nos dias 17 e 18, no Sesc Sorocaba, oficina de dança africana

A oficina tem como base a releitura das danças dos balés da Guiné-Conacri

Trupe Benkady realizará nos dias 17 e 18, quarta e quinta, das 15h às 17h, uma oficina de dança africana que tem como base a releitura das danças dos balés da Guiné-Conacri. A prática é acompanhada por música ao vivo, seguindo a linha tradicional em que a conversa entre os tambores e o corpo em movimento entram em profunda sincronia formando uma harmônica coreografia.

17/07, às 15h

A retirada dos ingressos acontece com 01 hora de antecedência

Gratuito

Sesc Sorocaba – Rua Barão de Piratininga, 555 – Jd. Faculdade

(15) 3332-9933

www.sescsp.org.br/sorocaba