Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

Renata Barcellos: ‘Instituto Histórico e Geográfico brasileiro’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Instituto Histórico e Geográfico do Brasil
Foto por Renata Barcellos

No Brasil, a história dos Institutos Históricos e Geográficos (IHGs) começa com a criação desta instituição em 1838. Esta ocorre por iniciativa de membros da elite intelectual e política, incluindo figuras imperiais, a fim de construir uma identidade nacional, preservar a memória e consolidar a identidade brasileira pós-independência. Teve como modelo uma instituição francesa muito semelhante, criada em 1834. D. Pedro II foi um grande incentivador, cujo resultado foi a formação de uma rede de institutos estaduais e municipais. Hoje, estes atuam na preservação da cultura e história locais. O mais antigo é o fundado no Rio de Janeiro em 21 de outubro de 1838, por iniciativa dos maçons: marechal Raimundo José da Cunha Matos e cônego Januário da Cunha Barbosa. Estes redigiram a proposta de criação desta instituição. A justificativa da criação foi seu caráter pedagógico que beneficiaria a administração pública e traria “esclarecimento” a todos os brasileiros. Destacaram ainda as dificuldades as quais estavam sujeitas as investigações acerca da história da pátria devido à carência desta instituição, a fim de centralizar os documentos que se encontravam espalhados pelas províncias do Império.

  • Objetivo Principal: reunir, organizar e preservar documentos para escrever uma “história nacional”, a fim de pensar o Brasil como nação, consolidar a identidade nacional e fomentar pesquisas históricas e geográficas.

2. O IHGB e a Construção da Nação:

  • Atividades Iniciais: criação de Arquivo, Biblioteca e Museu; financiamento de pesquisas; publicação da Revista do IHGB; correspondência com instituições estrangeiras.
  • Monopólio Histórico: por décadas, o IHGB deteve o monopólio da produção de conhecimento histórico no país. 

3. A Rede de Institutos:

  • Expansão: o IHGB estimulou a criação de entidades congêneres nas províncias (hoje estados), como o Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano (1862) e o de Minas Gerais (1907). 
  • Descentralização: no século XX, universidades e outros centros surgiram, mas os IHGs mantiveram sua importância, focando na memória local e regional. 

4. Legado e Função Atual:

  • São pilares na preservação de bibliotecas, arquivos e museus.
  • Coordenam uma rede nacional (Sistema Nacional de Institutos Históricos) e mantêm intercâmbio com instituições globais.
  • Continuam sendo referências na pesquisa e valorização do patrimônio cultural brasileiro, atualizando sua missão de pensar o Brasil. 

Curiosidades 

  • Instalações do primeiro IHGB: Em 1839, aos cuidados de D. Pedro II, o Convento do Carmo abrigou o IHGB. E a inauguração das novas instalações ocorreu em 15 de dezembro de1849, na rua Teixeira de Freitas, região da Glória, Rio de Janeiro.
  • Influência de Von Martius: o concurso de 1846 para escrever a história do Brasil foi vencido pelo alemão Karl Friedrich Von Martius com a proposta intitulada Como se deve escrever a história do Brasil. Nesta, propôs um modelo focado na harmonia entre as três raças (indígenas, brancos, negros) e o território, influenciando gerações. Escrito em 1843, ele propõe que a história indígena merece atenção, pois integra a história do Brasil. De acordo com ele, uma sugestão seria a elaboração de um dicionário da língua indígena principalmente o Tupi, por parte de linguistas integrantes do Instituto, tratando o idioma enquanto documento a ser conhecido e pesquisado.
  • Conexões Internacionais: mantêm intercâmbio com instituições estrangeiras, como a Academia Portuguesa de História e a Real Academia de la Historia da Espanha.
  • Alguns dos atuais gestores:

Artur Cláudio da Costa Moreira (educação: Artes Cênicas, Expressão Corporal, Técnicas Comerciais, Administração, Economia e Matemática. Formação: Ciências Econômicas, especialização em Recursos Humanos e Matemática. Liderança e Gestão: Direção de entidades culturais e atuação estratégica no IHG São João del-Rei, coordenando projetos editoriais, documentais e de preservação histórica. Artes e Comunicação: Experiência em direção teatral e locução radiofônica, unindo técnica cênica à divulgação doutrinária espírita com foco em impacto social e cultural. Pesquisa e Formação: Especialista dedicado ao resgate histórico e acadêmico, com sólida competência em redação oficial, administrativa e análise crítica de acervos): “O Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei (IHG-SJDR) consolida-se como uma das mais prestigiadas instituições culturais de Minas Gerais. Atuando como o legítimo “guardião da memória” de uma cidade central para o ciclo do ouro e para a identidade mineira, o Instituto é o elo entre o passado colonial e o compromisso com as futuras gerações.

Fundação e Contexto Histórico

Fundado em 1º de março de 1970, o IHG-SJDR nasceu da mobilização de intelectuais, historiadores e cidadãos são-joanenses. Um dos catalisadores de sua criação foi a tentativa desesperada (embora sem sucesso) de impedir a demolição da Secular Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, à época pretendida pelo Padre Jacinto Lovatto. Apesar da perda do templo, o episódio reforçou a necessidade urgente de um órgão dedicado ao estudo e à salvaguarda sistemática do patrimônio barroco e das tradições centenárias da região.

Natureza Jurídica e Administrativa

Legalmente constituído como pessoa jurídica de direito privado e sem fins lucrativos, o Instituto é uma associação de duração ilimitada, inscrita no CNPJ sob o nº 18.994.319/0001-45. Com sede e foro em São João del-Rei, é regido por estatuto próprio, registrado em cartório, e funciona como uma entidade civil mantida pela dedicação de seus sócios efetivos, correspondentes e honorários.

Natureza Jurídica e Administrativa

Legalmente constituído como pessoa jurídica de direito privado e sem fins lucrativos, o Instituto é uma associação de duração ilimitada, inscrita no CNPJ sob o nº 18.994.319/0001-45. Com sede e foro em São João del-Rei, é regido por estatuto próprio, registrado em cartório, e funciona como uma entidade civil mantida pela dedicação de seus sócios efetivos, correspondentes e honorários”.

Dilercy Aragão Adler (psicóloga, doutora em Ciências Pedagógicas, mestre em Educação e Associada Efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), tendo exercido a Presidência da instituição no quadriênio 2021–2025): “O IHGM, Casa de Antônio Lopes, foi fundado em 20 de novembro de 1925, nos moldes do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Seu diferencial reside no fato de ter sido criado intencionalmente por iniciativa de Antônio Lopes, no ano do centenário de nascimento de Dom Pedro II, grande mecenas da cultura, da ciência e das artes no Brasil.

Treze anos e cinco meses após a fundação do IHGB, Dom Pedro II recebeu oficialmente o patronato da instituição, sendo reconhecido como seu Patrono e Protetor. Em 2025, iniciaram-se as comemorações do Centenário do IHGM e do Bicentenário de nascimento de Dom Pedro II.Em 2007, Dilercy Aragão Adler recebeu o honroso convite da então presidente, Profa. Eneida Vieira da Silva Ostria de Canedo, para ingressar no IHGM, ocupando a Cadeira nº 1, patronada por Claude d’Abbeville. Trata-se de um frade capuchinho autor da obra Histoire de la mission des Pères Capucins en l’Isle de Maragnan et terres circonvoisines (1614), reconhecida como o primeiro livro a descrever detalhadamente a região do Maranhão.

Em 2012, apresentou o projeto “Mil Poemas para Gonçalves Dias”, desenvolvido em São Luís, Caxias e Guimarães, com ampla participação de escritores do Brasil e do exterior. O projeto compreendeu duas antologias, uma de poemas e outra de estudos e pesquisas sobre Gonçalves Dias, além de extensa programação nas três cidades. Na programação de São Luís, teve como marco a fundação da Academia Ludovicense de Letras, a Academia da cidade de São Luís, fato considerado histórico diante do intervalo de 401 anos entre a fundação da cidade e a criação de sua Academia de Letras”.

Paulo Roberto de Sousa Lima (sociólogo, pela FAFICH/UFMG (1968); Professor universitário (Faculdade de Educação – UFMG: 1969 a 1988); Professor/Pesquisador e Consultor em Gestão Pública (FJP – 1981-1985); Professor em Gestão em Saúde Pública (ESMIG/FUNED: 1986/2004); Militante social em gestão comunitária (Instituto Macunaíma – Casa de Cultura/Escola de Cidadania – Belo Horizonte e Biblioteca da Comunidade – Tiradentes-MG: 2004-2015); Historiador, membro do IHG-SJDR (desde 2015, titular da Cadeira Perpétua nº 02, cujo patrono é o emboaba José Mattol); Presidente do IHG-SJDR (2018-2023); Membro da Academia de Ciências e Letras da Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira e da Academia de Letras João Guimarães Rosa, da PM-MG): “Um olhar sobre o estado da arte dos atuais Institutos Históricos e Geográficos brasileiros, com os quais tenho interagido, nos permite reconhecê-los como legítimos herdeiros, desde o século XIX, da tradição europeia de estudos, via pesquisa em campos específicos de conhecimentos, já que antecederam a criação, no início do século XX, de Universidades no Brasil. Isto os torna credores do reconhecimento como entidades cuidadoras e geradoras de conhecimentos históricos, socioeconômicos e ambientais que foram significativos para a cultura nacional”. 

Tereza Cristina Cerqueira da Graça (doutora em educação, vice-presidente do Instituto e editora-gerente da sua revista): “O Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, fundado em 1912, é a instituição de guarda da memória mais antiga do Estado. Desde então, tem reunido os mais expressivos intelectuais de Sergipe e estimulado a produção de estudos sobre nossa terra. Inclusive publicando trabalhos de pesquisa sobre a história, a geografia e a cultura sergipana na sua revista também centenária, uma vez que teve sua 1a edição em 1913 e até hoje está ainda em circulação. Publicou a última edição agora em dezembro de 2025 e, recentemente,  recebeu a classificação A na avaliação da Capes/Qualis. Também abrigamos um dos maiores acervos de documentos, jornais e livros antigos do Estado, servindo aos pesquisadores e á comunidade em geral”.

Renata Barcellos

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Homenagem à Câmara Municipal de Niterói 

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho

Câmara Municipal de Niterói: Patrimônio Arquitetônico, Cultural e Casa do Povo

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
O prédio da Câmara Municipal de Niterói é um edifício histórico na Praça da República, situado na Av. Ernani do Amaral Peixoto, 625 - Centro, Niterói – RJ
O prédio da Câmara Municipal de Niterói é um edifício histórico na Praça da República,
situado na Av. Ernani do Amaral Peixoto, 625 – Centro, Niterói – RJ

A Câmara Municipal de Niterói destaca-se como um dos mais relevantes símbolos da história política, cultural e institucional do município. Localizada em posição de destaque no cenário urbano, sua arquitetura imponente e harmoniosa constitui um verdadeiro marco do patrimônio histórico da cidade, refletindo o cuidado estético e o valor simbólico que acompanham sua trajetória ao longo das décadas.

O edifício, de inspiração clássica, expressa solenidade, equilíbrio e nobreza, características que dialogam diretamente com a função que abriga: a representação legítima da vontade popular. Cada detalhe arquitetônico – das colunas à fachada, dos ornamentos aos espaços internos – contribui para reafirmar o compromisso histórico da instituição com a democracia, a cultura e a vida pública.

Mais do que um espaço físico de rara beleza, a Câmara Municipal de Niterói é reconhecida como a verdadeira Casa do Povo. É ali que se materializa o exercício democrático por meio do debate de ideias, da elaboração de leis e da fiscalização dos atos do Poder Executivo. Em seus plenários e comissões, vozes diversas se encontram para discutir os rumos da cidade, fortalecendo a participação cidadã e o diálogo institucional.

Ao longo de sua história, a Câmara tem desempenhado papel fundamental na construção de políticas públicas que impactam diretamente a vida dos niteroienses, sempre pautada pelos princípios da legalidade, da transparência e do interesse coletivo. Sua atuação contínua reafirma a importância do Legislativo municipal como pilar essencial do Estado Democrático de Direito.

Além de sua função política, o prédio da Câmara Municipal ocupa lugar de destaque na preservação da memória e da identidade cultural de Niterói. Como patrimônio arquitetônico e histórico, o edifício representa um elo entre o passado e o presente, conectando gerações e mantendo vivas as tradições institucionais da cidade.

Celebrar a Câmara Municipal de Niterói é, portanto, reconhecer não apenas a beleza de sua arquitetura, mas também seu papel essencial na promoção da cidadania, na valorização da cultura e na consolidação da democracia. Trata-se de uma instituição que, ao longo do tempo, permanece firme em sua missão de servir ao povo, honrando sua história e projetando-se para o futuro com responsabilidade e compromisso público.

Mensagem do Presidente da FEBACLA

É com imensa alegria, profundo orgulho e sincera satisfação que me dirijo à comunidade acadêmica, cultural e ao público em geral para expressar meu reconhecimento pela realização de grandes e memoráveis eventos promovidos pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA, na Câmara Municipal de Niterói.

A Câmara Municipal de Niterói, com sua arquitetura imponente e simbologia cívica, constitui um espaço de elevada relevância institucional e cultural. Realizar eventos de tamanha grandeza em um ambiente que representa a Casa do Povo e a essência da democracia confere ainda mais significado às iniciativas da FEBACLA, fortalecendo o diálogo entre cultura, arte, ciência e sociedade.

Como Presidente da FEBACLA, sinto-me honrado por ver nossa instituição ocupar um espaço tão nobre, promovendo solenidades que exaltam o saber, valorizam personalidades ilustres e celebram a produção intelectual e artística em suas mais diversas expressões. Cada evento realizado naquele recinto histórico reafirma nosso compromisso com a promoção da cultura, da educação e do pensamento crítico, pilares fundamentais para o desenvolvimento humano e social.

Registro, com especial apreço, minha gratidão à Câmara Municipal de Niterói por abrir suas portas à FEBACLA, acolhendo com respeito e cordialidade nossas atividades e permitindo que a cultura e o conhecimento encontrem eco em um espaço de tamanha representatividade institucional.

Que essa parceria continue a florescer, fortalecendo laços, ampliando horizontes e contribuindo para a valorização da cultura, das letras, das artes e das ciências, em benefício da sociedade e das futuras gerações.

Em um instante tecido pela emoção e pelo nobre orgulho institucional, os acadêmicos da FEBACLA reúnem-se diante da Câmara Municipal de Niterói para celebrar o Bicentenário de Nascimento de D. Pedro II. Sorrisos luminosos, braços erguidos ao céu e a pelerine acadêmica compõem uma cena de júbilo coletivo, onde o saber, a cultura e a memória histórica se entrelaçam em harmonia solene.

A imponência do edifício público empresta gravidade e significado ao momento, enquanto o estandarte alusivo ao Imperador D. Pedro II ergue-se como símbolo vivo do respeito à herança intelectual e do compromisso perene com a educação, a ciência, as letras e as artes – valores que definiram o homenageado e continuam a inspirar gerações.

Mais do que um registro fotográfico, este instante é um retrato pulsante da união fraterna dos acadêmicos da FEBACLA: homens e mulheres celebrando a História do Brasil com entusiasmo, reverência e espírito de missão cultural, transformando o espaço público em palco de memória, honra e alegria compartilhada.

A solenidade promovida pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), realizada em 12 de dezembro de 2025, na Câmara Municipal de Niterói, constituiu-se em um dos mais significativos momentos de exaltação à memória histórica, ao saber e à cultura brasileira. Em celebração ao Bicentenário de Nascimento de Sua Majestade o Imperador D. Pedro II, Patrono da FEBACLA, o evento reuniu acadêmicos, autoridades, convidados e homenageados em um ambiente de elevada solenidade, emoção e confraternização.

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho

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Dom Pedro II

Alexandre Rurikovich Carvalho

‘Dom Pedro II: O Imperador Erudito que transformou o Brasil
pela Ciência, pela Cultura e pela Educação’

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Arte em estilo vintage apresentando curiosidades sobre Dom Pedro II, com fundo em tom sépia, tipografia clássica e um retrato central do imperador. Ao redor da imagem, dez curiosidades destacam seu conhecimento, paixão pela ciência, tecnologia, educação, artes e simplicidade pessoal.
Arte em estilo vintage criada por IA do ChatGPT, apresentando curiosidades sobre Dom Pedro II, com fundo em tom sépia, tipografia clássica e um retrato central do imperador. Ao redor da imagem, dez curiosidades destacam seu conhecimento, paixão pela ciência, tecnologia, educação, artes e simplicidade pessoal.

Matéria Especial Bicentenário de Dom Pedro II

INTRODUÇÃO – UM GOVERNANTE FORJADO PELO SABER

No cenário político e cultural do século XIX, poucas figuras tiveram impacto tão profundo e duradouro quanto Dom Pedro II, o último imperador do Brasil. Educado desde a infância para governar, tornou-se um símbolo singular da monarquia tropical: um soberano que fez da inteligência, da moderação e da cultura as bases de seu reinado.

Durante quase meio século, guiou o país por caminhos de estabilidade, modernização e abertura intelectual. O Brasil Imperial tornou-se, nas palavras de muitos historiadores, um “país de ideias”, movido por um líder que colocava livros acima de cerimônias e professores acima de nobres.

I. O IMPERADOR ERUDITO

Um Estudante Infatigável em um Trono de Livros

Dom Pedro II teve uma formação acadêmica sem precedentes na história brasileira. Aos 5 anos, iniciou uma rotina de estudos que duraria a vida inteira: despertava às 6h, estudava diversas disciplinas até a noite e tinha pouco tempo para descanso ou lazer.

• Um Poliglota Excepcional

A lista de idiomas que dominava inclui:

  • Francês, inglês, alemão, italiano e espanhol (línguas modernas),
  • Latim, grego antigo, hebraico e árabe (línguas clássicas e orientais),
  • Tupi, provençal, russo e sânscrito, entre outros.

Ele lia jornais estrangeiros diariamente, sem tradutores, e mantinha correspondência com intelectuais de vários países.

Cadernos, Diários e a Disciplina do Saber

Seus cadernos pessoais registram as mais diversas leituras: poesia, filosofia, química, matemática, história natural, política e até manuais astronômicos.
Documentos mostram que chegava a ler mais de 200 páginas por dia.

II. O SOBERANO DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA

Um Monarca Cientista em Pleno Século XIX

Dom Pedro II foi um dos governantes mais abertos à tecnologia de seu tempo. Ele não apenas conhecia invenções modernas – frequentava laboratórios, patrocinava pesquisas e buscava aplicar novidades no Brasil.

• O Encontro Histórico com Thomas Edison

Durante viagem aos Estados Unidos, visitou pessoalmente o laboratório de Thomas Edison. Ao testar o fonógrafo, encantou-se imediatamente. A imprensa americana relatou o assombro do imperador e destacou sua capacidade de compreender detalhes técnicos da máquina.

• Fotografia e Documentação

Foi um dos primeiros monarcas do mundo a ser fotografado, mas não se limitou a posar:

  • Fotografava pessoalmente,
  • Desenvolvia imagens em laboratório próprio,
  • Incentivava fotógrafos profissionais,
  • Registrava expedições científicas e eventos nacionais.

Seu apoio à fotografia ajudou a consolidar o Brasil como um dos primeiros países do mundo a possuir documentação fotográfica sistemática.

• Instituições Científicas e Pesquisadores

Sob seu patrocínio avançaram projetos como:

  • Observatório Nacional
  • Museu Nacional
  • Comissão Geológica do Império
  • Expedições naturalistas estrangeiras
  • Estudos sobre astronomia, meteorologia e geografia física

Seu nome figurou em mais de 50 academias científicas internacionais, incluindo prestigiadas sociedades europeias.

III. O MECENAS DAS ARTES E DAS LETRAS

O Imperador que Conversava com Gênios

A cultura foi um dos eixos centrais do reinado de Dom Pedro II. Ele acreditava que a arte civilizava e que o conhecimento preenchia o espírito humano.

• Relações com Personalidades Globais

Trocou cartas e visitas com grandes nomes da literatura e da música:

  • Victor Hugo admirava sua postura humanitária,
  • Richard Wagner agradecia seu incentivo às artes,
  • Franz Liszt o recebeu em recitais privados,
  • Ernest Renan e Camille Flammarion discutiam ciência e filosofia com o Imperador.

Ele também apoiou artistas brasileiros como Pedro Américo, Vítor Meireles, Rodolfo Amoedo, Porto-Alegre e muitos outros.

• Instituições de Cultura

Durante seu reinado, fortalecem-se e modernizam-se:

  • Biblioteca Nacional (o maior acervo das Américas no século XIX),
  • Museu Nacional,
  • Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
  • Academia Imperial de Belas Artes,
  • Escolas de música, teatro e pintura.

IV. EDUCAÇÃO COMO PILAR DO FUTURO

A Obra de um Imperador Professor

Dom Pedro II percebia a educação como a verdadeira força da modernidade. Era defensor de escolas públicas, incentivo aos professores e pesquisa científica.

• Reformas e Ações Estruturais

• Reformas e Ações Estruturais

Entre suas contribuições:

  • Ampliação da instrução básica,
  • Envio de estudantes brasileiros para Europa,
  • Modernização de colégios e liceus,
  • Financiamento pessoal para professores e pesquisadores.

Ele dizia:
“A instrução é a base da liberdade. Sem educação, o Brasil não poderá ser grande.”

V. O IMPERADOR HUMANISTA E A ABOLIÇÃO

A Consciência Moral de um Líder

Dom Pedro II era abertamente contrário à escravidão desde a juventude. Considerava o sistema “degradante” e contrário aos princípios cristãos e civilizatórios.

• Atuação e Influências

Embora não pudesse abolir por decreto, apoiou medidas gradualistas, como:

  • Lei do Ventre Livre (1871),
  • Lei dos Sexagenários (1885),
  • Incentivo à libertação voluntária,
  • Participação indireta no movimento abolicionista.

Sua filha, Princesa Isabel, recebeu forte influência de sua postura, culminando na Lei Áurea (1888).

VI. EXÍLIO, SOLIDÃO E UM AMOR QUE NÃO SE APAGOU

O Fim de Um Reinado e a Memória do Brasil

Derrubado pelo golpe militar de 1889, Dom Pedro II embarcou para a Europa sem resistir. Levou consigo poucos pertences: essencialmente livros, cadernos e memórias.

• Uma Vida Modesta em Paris

Recusou pensão do governo republicano e viveu de forma simples em hotéis europeus. Sua rotina no exílio era marcada por leituras, passeios discretos e saudades profundas do Brasil.

• A Morte e o Regresso

Faleceu em 1891, aos 66 anos. Ao seu lado, havia um saco com terra brasileira, que foi depositado sob sua cabeça no caixão – símbolo comovente de sua conexão eterna com o país.

Seu corpo retornou ao Brasil apenas em 1921, já em tempos republicanos.

CONCLUSÃO – UM IMPERADOR PARA ALÉM DA MONARQUIA

Dom Pedro II permanece como uma das figuras mais admiradas da história nacional. Seu reinado deixou marcas profundas na ciência, na cultura, na literatura, na educação e na identidade do Brasil. Em um período em que muitos monarcas europeus viviam para o luxo e a pompa, o soberano brasileiro vivia para estudar, estimular e construir.

Um intelectual no trono.
Um mecenas em meio à política.
Um homem simples que carregou um império.
E um brasileiro cuja grandeza continua a inspirar gerações.

REFERÊNCIAS

Obras clássicas e biografias:

  • CALMON, Pedro. História de Dom Pedro II. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.
  • CARVALHO, José Murilo de. Dom Pedro II: Ser ou Não Ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
  • SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
  • BARMAN, Roderick. Citizen Emperor: Pedro II and the Making of Brazil, 1825–1891. Stanford: Stanford University Press, 1999.

Documentos e fontes primárias:

  • Diários de D. Pedro II – Arquivo Nacional / IHGB.
  • Correspondências Epistolares – Coleções da Biblioteca Nacional.
  • Acervo Fotográfico Imperial – Museu Imperial de Petrópolis.

Estudos complementares:

  • COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República. São Paulo: UNESP, 1999.
  • FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 1994.
  • HILSDORF, Maria Lúcia. História da Educação no Brasil. São Paulo: Global, 2004.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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CARTA AO IMPERADOR

Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho

Carta ao Imperador

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Pedro II - Imagem criada por IA
Dom Pedro II – Imagem criada por IA do ChatGPT

À Augusta Memória de Sua Majestade Imperial, Dom Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil (in memoriam):

Não me dirijo apenas ao soberano coroado que a História consagrou, mas ao homem cuja maior riqueza foi a simplicidade do espírito e a nobreza silenciosa de um coração devotado ao bem.

Recordo, com reverente gratidão, aquele que, mesmo assentado no trono, preferia habitar entre livros, manuscritos, instrumentos científicos e obras de arte, como um eterno discípulo diante da vastidão do conhecimento humano. Vossa Majestade, que fez da curiosidade um farol e da sabedoria um princípio de Estado, ensinou-nos que o poder sem cultura é cego, e que a autoridade sem virtude é vazia.

Não governastes somente por decretos e instituições, mas, sobretudo, pela força moral que emanava de vosso exemplo. Soubestes ouvir o povo, compreender-lhe as dores e abraçar, com serena humildade, os desafios de um país jovem que buscava sua identidade entre as nações civilizadas.

Mostrastes que a grandeza de um monarca não reside na pompa dos palácios, mas na firmeza de caráter, na doçura do trato e na capacidade de servir com dedicação aquele mesmo povo que vos confiou o destino da Pátria.

Vosso amor pela educação abriu horizontes luminosos às gerações vindouras; vosso apreço pela ciência impulsionou descobertas, debates e instituições que moldaram o pensamento brasileiro; vossa paixão pela cultura fez resplandecer a alma deste vasto Império, conferindo-lhe dignidade, reconhecimento e estima além de suas fronteiras. Fostes, para o Brasil, não apenas o Imperador, mas o patrono das luzes, o incentivador dos talentos e o guardião de um ideal de civilização.

Ao recordar-vos neste solene Bicentenário de vosso nascimento, não enxergo apenas o chefe de Estado cuja biografia habita os anais da História, mas o amigo da sabedoria, o espírito magnânimo que acreditava no progresso humano e o homem de alma serena que, mesmo no exílio, jamais deixou de amar a Terra de Santa Cruz.

Vossa vida – marcada pela dignidade nos dias de glória e pela grandeza nos dias de dor – permanece como uma das mais puras expressões do dever e do patriotismo.

É, pois, com devoção, orgulho e profundo respeito, que dedico à Vossa Augusta Memória esta singela e sincera homenagem.

Obrigado por terdes sido mais que um governante;

Obrigado por terdes sido humano;

Obrigado por terdes sido luz.

Com a mais elevada deferência e eterna gratidão.

Dom Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho

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O Golpe que Destituiu a Monarquia no Brasil

Alexandre Rurikovich Carvalho

‘O Golpe que Destituiu a Monarquia no Brasil: Contexto, Dinâmicas e Consequências’

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
 Arte em estilo vintage criada por IA do ChatGPT, apresentando curiosidades sobre Dom Pedro II, com fundo em tom sépia, tipografia clássica e um retrato central do imperador. Ao redor da imagem, dez curiosidades destacam seu conhecimento, paixão pela ciência, tecnologia, educação, artes e simplicidade pessoal. apresenta uma pintura histórica em estilo acadêmico, com forte inspiração nos grandes quadros cívicos do século XIX, retratando o momento da Proclamação da República no Brasil, em 15 de novembro de 1889.
Arte em estilo vintage criada por IA do ChatGPT, apresentando curiosidades sobre Dom Pedro II, com fundo em tom sépia, tipografia clássica e um retrato central do imperador. Ao redor da imagem, dez curiosidades destacam seu conhecimento, paixão pela ciência, tecnologia, educação, artes e simplicidade pessoal. apresenta uma pintura histórica em estilo acadêmico, com forte inspiração nos grandes quadros cívicos do século XIX, retratando o momento da Proclamação da República no Brasil, em 15 de novembro de 1889.

Introdução

A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, é frequentemente descrita como um marco fundacional do Brasil republicano. No entanto, por trás do discurso oficial de “transformação pacífica”, há um processo político marcado por tensões, articulações militares e ações planejadas que configuram um golpe de Estado contra a monarquia constitucional do Imperador Dom Pedro II. Este artigo examina os fatores que conduziram à queda do regime imperial, os agentes envolvidos no movimento e os impactos imediatos e duradouros da abrupta mudança de ordem política.

1. A Crise do Segundo Reinado

O final do Segundo Reinado foi marcado pela convergência de tensões políticas, econômicas, sociais e ideológicas que corroeram as bases do regime. Embora a monarquia tivesse oferecido ao Brasil um raro período de continuidade institucional – sobretudo quando comparado aos demais países latino-americanos -, a década de 1880 apresentou sinais de desgaste que, somados, criaram o cenário favorável ao movimento golpista de 1889.

Os fatores dessa crise não se limitaram às chamadas “três questões” clássicas (Religiosa, Militar e Abolicionista). Eles incluíam mudanças culturais, pressões internacionais, novas correntes de pensamento político, ascensão de classes urbanas emergentes e profundas disputas pelo controle do Estado moderno. A seguir, cada uma dessas dimensões é analisada em profundidade.

1.1. A Questão Militar: De Força Secundária a Protagonista Político

Durante grande parte do Império, o Exército desempenhou papel secundário na estrutura do poder. A Guarda Nacional – composta por elites locais – era responsável pela segurança interna, enquanto o Exército era visto como força técnica e pouco prestigiada.

Todavia, após a Guerra do Paraguai (1864–1870), os militares retornaram fortalecidos e conscientes de seu peso político. A campanha havia consolidado uma cultura corporativa e um sentimento de missão histórica.

Alguns fatores contribuíram para o crescente conflito entre o Exército e o governo imperial:

  • consciência de classe militar: jovens oficiais passaram a reivindicar autonomia, reconhecimento profissional e tratamento igualitário frente à elite civil;
  • penetração das ideias positivistas: Benjamin Constant e outros formadores elevaram o Exército a um “partido fardado” com vocação reformista;
  • insatisfação com punições disciplinares: episódios como o de Sena Madureira, punido por manifestar apoio a um escritor republicano, alimentaram tensões;
  • percepção de desprestígio: militares viam o Império como excessivamente civilista, resistente a suas demandas.

Assim, ao final dos anos 1880, o Exército não era apenas uma corporação desconfortável; era um ator político articulado, com ideologia própria e liderado por oficiais que acreditavam que a república era o caminho natural da modernização.

1.2. A Questão Religiosa: Conflito entre Ultramontanismo e Regalismo

A disputa entre a Igreja Católica e o governo imperial, ocorrida principalmente entre 1872 e 1875, teve raízes profundas. A atuação das irmandades maçônicas, a tentativa da Santa Sé de reforçar seu controle sobre o clero (ultramontanismo) e o regalismo herdado do período colonial criaram um choque de legitimidades.

O Império se via como responsável pela administração das questões religiosas, enquanto a Igreja buscava autonomia espiritual e política. A prisão dos bispos de Olinda e Belém, por desobedecerem a ordens imperiais, radicalizou o conflito.

As consequências foram profundas:

  • parte do clero passou a ver a monarquia como obstáculo moral;
  • movimentos católicos se aproximaram, paradoxalmente, do republicanismo;
  • a autoridade imperial foi abalada internamente.

Embora Dom Pedro II tenha resolvido a crise por meio de anistia, o desgaste institucional permaneceu. A Igreja, importante base moral da sociedade, deixou de ser um pilar incondicional do regime.

1.3. A Questão Abolicionista: Ruptura com a Velha Elite Agrária

A partir da década de 1870, o movimento abolicionista ganhou força com o apoio de intelectuais, jornalistas, artistas, advogados e grupos urbanos. A escravidão, além de moralmente insustentável, tornara-se economicamente atrasada para o País que buscava integrar-se ao capitalismo mundial.

O governo imperial, embora progressista, adotou uma postura gradualista:

  • Lei Eusébio de Queirós (1850): fim do tráfico;
  • Lei do Ventre Livre (1871);
  • Lei dos Sexagenários (1885);
  • Lei Áurea (1888).

A abolição foi um triunfo moral, mas produziu uma ruptura política decisiva:

  • a elite escravista sentiu-se abandonada pelo Estado;
  • republicanos ruralistas — sobretudo paulistas — intensificaram o apoio ao novo regime;
  • o Império perdeu sua base política histórica, os grandes proprietários de terra.

Esse desalinhamento foi mortal para um regime que se sustentava sobre alianças oligárquicas e instituições moderadoras.

1.4. Transformações Socioeconômicas e Urbanização

A dissolução da monarquia não pode ser entendida apenas por seus conflitos internos. O Brasil dos anos 1880 vivia transformações profundas:

  • expansão das ferrovias e telegrafia;
  • crescimento das cidades (Rio de Janeiro, São Paulo, Recife);
  • surgimento de uma burguesia comercial e industrial;
  • introdução de novas ideias políticas (liberalismo radical, positivismo, republicanismo).

Essas mudanças criaram uma nova elite urbana, mais dinâmica, mais conectada ao mundo e menos identificada com o sistema monárquico.

A monarquia, com sua estrutura tradicional, foi percebida por alguns como símbolo de atraso administrativo e lentidão modernizadora, embora historiadores contemporâneos ressaltem que Dom Pedro II promovia reformas constantes — apenas de forma gradual e cautelosa.

1.5. O Cansaço Político e Pessoal do Imperador

A figura de Dom Pedro II é elemento central da crise. Nos últimos anos de vida pública, o Imperador demonstrava sinais de exaustão:

  • problemas de saúde debilitantes;
  • longas ausências do país;
  • desapontamento com disputas políticas que considerava mesquinhas.

Dom Pedro II jamais cultivou o personalismo. Sua visão de poder era quase burocrática e altamente filosófica. Entretanto, sua postura austera e avessa ao protagonismo político foi interpretada por alguns como desinteresse.

Essa percepção enfraqueceu a imagem da monarquia diante de setores que aguardavam um líder energicamente envolvido na política diária.

1.6. A Ruptura Política Entre Liberais e Conservadores

A alternância de poder entre Liberais e Conservadores – alicerce da estabilidade imperial – entrou em crise no final do século XIX. Os partidos se tornaram:

  • facções personalistas;
  • estruturas envelhecidas e distantes da sociedade;
  • incapazes de incorporar novas demandas urbanas e militares.

O sistema bipartidário, sustentado pelo Moderador, já não conseguia canalizar tensões.

O Império, cuja robustez fora construída sobre equilíbrio político, perdeu a capacidade de acomodar conflitos emergentes.

1.7. Pressões Internacionais e o Avanço das Ideias Republicanas

O contexto geopolítico internacional também influenciava o ambiente interno. Em toda a América do Sul, a monarquia brasileira destacava-se como exceção. Nos círculos diplomáticos e intelectuais, a república era vista como símbolo de modernidade política.

As relações com os Estados Unidos – já república consolidada – tornaram-se mais intensas, assim como a influência cultural francesa, onde o positivismo e o anticlericalismo ganhavam força.

O Brasil inseria-se em um fluxo ideológico global que valorizava:

  • laicidade;
  • constitucionalismo republicano;
  • centralização estatal modernizante.

Embora não determinantes por si só, esses elementos ajudaram a legitimar a ideia de que a monarquia era um regime ultrapassado.

2. A Construção do Movimento Golpista

A derrubada da monarquia brasileira não foi um acontecimento repentino, nem fruto de uma revolta popular. A Proclamação da República foi o desfecho de um processo articulado por grupos militares, civis e econômicos que atuaram de forma coordenada – ainda que nem sempre consciente – para desestabilizar o Império e preparar as condições políticas, ideológicas e psicológicas que permitiram o golpe de 15 de novembro de 1889.

O movimento republicano no Brasil, diferentemente do que ocorreu em países como Estados Unidos, França ou Chile, não emergiu de mobilização de massas, mas sim de elites urbanas, círculos militares e setores agremiados contra o governo imperial. Este capítulo examina as forças que construíram o movimento golpista, suas disputas internas, suas alianças táticas e a formação da mentalidade que tornou possível a queda do regime.

2.1. A Identidade Política do Exército e a Doutrinação Positivista

O Exército foi o principal vetor da mudança institucional, mas o caminho até seu protagonismo político foi gradual. Após a Guerra do Paraguai, cresceu uma cultura militar baseada em mérito, disciplina e nacionalismo, que contrastava com a política imperial, vista como conciliadora e excessivamente moderadora.

2.1.1. O Positivismo como Ideologia de Poder

A doutrina positivista de Auguste Comte, difundida nas escolas militares por Benjamin Constant e seus seguidores, exerceu papel decisivo. O positivismo pregava:

  • centralização técnica do Estado;
  • primazia da razão sobre a tradição;
  • “ditadura científica” como etapa necessária para a ordem;
  • rejeição de instituições “arcaicas”, como a monarquia;
  • valorização moral e cívica das Forças Armadas.

Essas ideias penetraram profundamente entre jovens oficiais, que passaram a se ver como vanguarda moral da nação, responsáveis por conduzir o país a um novo estágio de progresso.

2.1.2. A Radicalização da Questão Militar

Os choques com o governo imperial – punições disciplinares, desprestígio institucional, interferências civis – alimentaram ressentimentos corporativos. Nas casernas, formou-se uma cultura de oposição ao gabinete monárquico.

A soma de ideologia (positivismo) e ressentimento (Questão Militar) criou um Exército politizado e inclinado a intervir.

2.2. O Movimento Republicano Civil e o Papel das Elites Urbanas

Embora a queda da monarquia tenha sido executada pelo Exército, o movimento republicano civil teve papel crucial na preparação do terreno.

2.2.1. Os Clubes Republicanos

Desde 1870, multiplicavam-se clubes republicanos em centros urbanos como:

  • Rio de Janeiro
  • São Paulo
  • Pernambuco
  • Rio Grande do Sul

Eles funcionavam como espaços de doutrinação política e propaganda ideológica. Muitos eram formados por jovens advogados, jornalistas, professores e comerciantes, que viam a república como símbolo de modernização política.

2.2.2. A Imprensa Republicana

Jornais como A República, Gazeta da Tarde e O Radical foram fundamentais para criar uma narrativa de desgaste da monarquia:

  • ridicularizavam a figura do Imperador;
  • atacavam ministros;
  • exaltavam modelos republicanos estrangeiros;
  • difundiam a ideia de “inevitabilidade histórica” da república;
  • retratavam a monarquia como obstáculo ao progresso.

Essa pressão cultural produziu mudanças de opinião entre setores influentes da sociedade.

2.2.3. As Elites Agrárias Paulistas

A elite cafeeira paulista, ressentida com a Abolição, viu na república uma oportunidade de recuperar influência política, ampliar autonomia estadual e romper com o centralismo imperial.

Embora inicialmente não liderassem o movimento, tornaram-se importantes financiadores e apoiadores ideológicos.

2.3. Intelectuais, Maçons e Modernizadores: A Cultura Política da Mudança

Uma rede de intelectuais, maçons e reformadores sociais também se articulou em torno do ideal republicano.

  • A maçonaria oferecia espaços de sociabilidade política.
  • Professores das escolas militares disseminavam positivismo.
  • Juristas debatiam novos modelos constitucionais.
  • Artistas e escritores exaltavam valores modernos e seculares.
  • Cientistas buscavam participar mais ativamente da política nacional.

A república emergiu como símbolo de racionalidade, ciência e progresso — conceitos cada vez mais valorizados nas cidades em transformação.

2.4. A Rivalidade Pessoal e Política entre Deodoro e Ouro Preto

Um dos elementos mais conhecidos, porém, frequentemente subestimados, é o papel das rivalidades pessoais.

2.4.1. Deodoro: Monarquista por convicção, golpista por circunstância

O marechal Deodoro da Fonseca era amigo pessoal de Dom Pedro II e, até poucos meses antes do golpe, um monarquista convicto. Entretanto:

  • estava debilitado por doença;
  • tinha relações conflituosas com o presidente do Conselho, Visconde de Ouro Preto;
  • foi manipulado por rumores de que seria preso.

Republicanos civis e oficiais encantados pelo positivismo aproveitaram o antagonismo pessoal para persuadi-lo de que derrubar Ouro Preto era ato de salvação nacional.

2.4.2. A Falsa Acusação de Prisão

Agentes republicanos difundiram a informação falsa de que Ouro Preto havia expedido ordem de prisão contra Deodoro. Isso foi decisivo. O marechal, orgulhoso e sensível à honra militar, deixou-se levar ao movimento.

Dessa forma, a queda da monarquia dependeu não apenas de macroprocessos políticos, mas também de intrigas pessoais que catalisaram ações militares decisivas.

2.5. A Desarticulação da Monarquia: O Golpe como Oportunidade

A monarquia, apesar de suas forças estruturais, encontrava-se fragilizada politicamente:

  • o Imperador estava enfermo;
  • o gabinete de Ouro Preto era impopular entre militares;
  • a elite agrária desertara;
  • a princesa Isabel não consolidara alianças com setores conservadores;
  • os principais ministros civis subestimavam a conspiração.

Quando as tropas tomaram as ruas, o governo não reagiu — não por fraqueza militar, mas por ausência de vontade política de enfrentar concidadãos em combate.

Essa passividade foi interpretada pelos conspiradores como sinal de inevitabilidade histórica, abrindo espaço para transformarem a deposição do gabinete em deposição da monarquia.

2.6. A Aliança Tática entre Militares e Republicanos Civis

O golpe de 1889 foi resultado de uma aliança tática entre grupos distintos, que tinham interesses diferentes:

  • Militares positivistas: buscavam centralização técnica e moralização política.
  • Republicanos civis: queriam uma constituição laica e democrática.
  • Elite cafeeira paulista: desejava maior autonomia regional e menor intervenção estatal.
  • Intelectuais urbanos: almejavam modernização cultural e científica.

Embora unidos contra o Império, esses grupos divergiam profundamente sobre o tipo de república a ser construída — tensões que emergiriam logo após o golpe.

3. O Golpe de 15 de Novembro

Na manhã de 15 de novembro de 1889, tropas marcharam em direção ao Ministério da Guerra, pressionando o gabinete e forçando a renúncia de Ouro Preto. O objetivo inicial não era a derrubada da monarquia, mas sim a troca ministerial. No entanto, nas horas seguintes, republicanos civis e militares manipularam a situação para transformar o ato em ruptura total. Sem resistência armada e sem mobilização popular significativa, o Império foi deposto. Dom Pedro II recebeu comunicação oficial durante a tarde e, com serenidade exemplar, decidiu evitar qualquer derramamento de sangue.

No dia 16, a família imperial foi intimada a deixar o país em 24 horas. No dia 17, embarcou para o exílio na Europa.

4. A Legitimidade Questionada

A Proclamação da República não passou por referendo, plebiscito ou consulta pública. Foi um movimento preparado por minorias e realizado por ação militar direta – características típicas de um golpe de Estado.

Documentos e testemunhos da época revelam:

  • ausência de revoltas populares pró-república;
  • perplexidade da população, que assistiu aos acontecimentos como espectadores;
  • continuidade administrativa abrupta, com mudanças apenas no topo do poder.

Dessa forma, o novo regime nasceu sem base social sólida, sustentando-se principalmente na autoridade do Exército.

5. Consequências Imediatas e de Longo Prazo

5.1. Exílio da Família Imperial

A expulsão sumária dos Bragança representou uma ruptura dolorosa na história nacional. Dom Pedro II faleceu em 1891, em Paris, ainda amado por muitos brasileiros.

5.2. Militarização da Política

A República Velha foi marcada pela tutela militar. Os presidentes marechais (Deodoro e Floriano) ilustram a influência direta do Exército nos rumos da jovem república.

5.3. Centralização e Controle

O novo regime buscou consolidar-se controlando a imprensa, reprimindo revoltas (Canudos, Contestado, Revolta da Armada) e limitando a participação popular.

5.4. A Persistência do Debate Monarquia x República

Com o passar das décadas, cresceu o reconhecimento de que o Império oferecia estabilidade institucional rara na América Latina. Historiadores contemporâneos debatem as consequências do golpe e questionam se a transição poderia ter sido gradual e democrática.

Conclusão

O golpe que destituiu a monarquia em 1889 foi resultado da convergência de insatisfações políticas, interesses corporativos e articulações militares que encontraram um Império fragilizado por crises sucessivas. Apesar de sua narrativa oficial, a Proclamação da República não representou um clamor popular, mas sim uma manobra conduzida por minorias organizadas.

Ainda hoje, o episódio provoca reflexões sobre a legitimidade do poder, o papel das Forças Armadas na vida política e o processo de construção institucional no Brasil. Revisitar esses acontecimentos é essencial para compreender a natureza do Estado brasileiro e os desafios que historicamente marcam sua trajetória política.

Referências

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SODRÉ, Nelson Werneck. História da República Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

Alexandre Rurikovich Carvalho




A Família Imperial Brasileira Após o Exílio

Alexandre Rurikovich Carvalho

‘A Família Imperial Brasileira Após o Exílio (1889–1922): Experiências, Destinos e os Últimos Anos de Dom Pedro II, Teresa Cristina, Princesa Isabel e Conde d’Eu’

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Pintura em estilo clássico rcriado por IA do ChatGPT, etratando a partida da Família Imperial do Brasil: Dom Pedro II e seus familiares a bordo de um navio, sob um clima de despedida solene e melancólica, simbolizando o fim do Império e o início do exílio.
Pintura em estilo clássico rcriado por IA do ChatGPT, etratando a partida da Família Imperial do Brasil: Dom Pedro II e seus familiares a bordo de um navio, sob um clima de despedida solene e melancólica, simbolizando o fim do Império e o início do exílio.

1. Introdução

A queda do Império brasileiro e a subsequente expulsão da família imperial marcaram de forma profunda a história política do país. A Proclamação da República, em 1889, rompeu abruptamente com um reinado de quase meio século, forçando Dom Pedro II e seus familiares ao exílio (BARMAN, 2012). Como observa Schwarcz (2019), a ruptura foi marcada por forte simbolismo: “a monarquia terminou sem resistência, mas carregando consigo o peso de um mundo que se acreditava superado”.

2. A partida para a Europa e os primeiros anos do exílio

A deposição de Dom Pedro II em 15 de novembro de 1889 ocorreu de forma abrupta, sem violência física, mas com profunda carga simbólica e emocional. O marechal Deodoro da Fonseca, líder do movimento republicano, decretou a imediata expulsão da Família Imperial, proibindo sua permanência no território brasileiro por tempo indeterminado. O decreto determinou que o imperador e seus familiares deixassem o país no prazo de apenas 24 horas, o que impossibilitou qualquer preparação adequada ou organização de bens e documentos pessoais.

Em 17 de novembro de 1889, escoltados por tropas republicanas, os membros da família embarcaram no vapor Alagoas, rumo à Europa. O embarque foi marcado por uma cena que a historiografia descreve como solene e melancólica: sem protestos populares, mas com forte presença de simpatizantes discretos, testemunhou-se a despedida de uma família que, por quase meio século, representara o centro político do país. Dom Pedro II, já debilitado pela diabetes e pela idade avançada, manteve postura serena, demonstrando seu histórico estoicismo diante de adversidades, característica amplamente descrita em sua correspondência pessoal.

A viagem transatlântica durou aproximadamente três semanas e foi marcada por incertezas políticas. A família não sabia em qual país se radicaria, tampouco se haveria apoio diplomático europeu. O primeiro destino escolhido foi Lisboa, considerando os laços históricos da Casa de Bragança com Portugal. Entretanto, ao chegar à capital portuguesa, verificou-se que o governo luso adotara postura cautelosa. Temendo comprometer relações com a recém-instalada República brasileira, a monarquia portuguesa evitou recepções oficiais, deixando a família praticamente sem apoio logístico.

Ainda assim, Dom Pedro II foi recebido com respeito pela população de Lisboa, que nutria admiração pela figura do imperador. Contudo, a estadia foi curta. Sem residência adequada e diante do agravamento da saúde da Imperatriz Teresa Cristina – profundamente abalada pelo exílio e pelo brusco desenraizamento -, tornou-se necessário buscar novo refúgio.

A família seguiu então para Madri, onde Teresa Cristina, de origem napolitana e aparentada com a família real espanhola, poderia encontrar ambiente mais acolhedor. Entretanto, a capital espanhola também não ofereceu condições estáveis. Após poucas semanas, a família decidiu estabelecer-se em Paris, cidade que, desde o século XIX, era centro cultural, científico e político da Europa. Essa escolha representava não apenas uma estratégia pragmática – considerando a infraestrutura urbana e as redes intelectuais da capital francesa, mas também afinidade pessoal de Dom Pedro II, frequentador assíduo da cidade durante viagens anteriores.

Os primeiros anos de exílio em Paris foram marcados por dificuldades financeiras. O novo governo brasileiro confiscou propriedades da família e interrompeu o pagamento de pensões oficiais. Dom Pedro II, que vivia com modéstia mesmo enquanto reinante, passou a depender de economias pessoais limitadas e do auxílio de amigos e simpatizantes. Também houve tentativas de restituição de alguns bens móveis e papéis, a maioria sem sucesso.

Apesar das restrições econômicas, o círculo intelectual da família expandiu-se significativamente. Dom Pedro II passou a ser convidado para conferências científicas, encontros literários e eventos culturais nos quais era tratado como estadista de alta respeitabilidade. Entretanto, essa vida cultural intensa contrastava com o sofrimento emocional vivido pela família, encerrada em luto contínuo pelos rumos políticos do Brasil e pela deterioração da saúde de Teresa Cristina, que não resistiria muito aos efeitos do exílio.

Assim, os primeiros anos pós-1889 representam uma fase de transição complexa: da condição de soberanos de um vasto império à de exilados politicamente inconvenientes para as diplomacias europeias. Essa experiência moldaria o comportamento e as expectativas dos membros da Casa Imperial ao longo das décadas seguintes, estabelecendo bases para seu papel político e simbólico no cenário internacional.

3. A Imperatriz Teresa Cristina: saudade, saúde fragilizada e morte em exílio

A Imperatriz Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, conhecida por sua personalidade reservada, benevolente e pela dedicação à família, sofreu de forma intensa a ruptura abrupta de sua vida no Brasil. Diferentemente de Dom Pedro II – cuja formação intelectual o tornava mais apto a se adaptar à vida cosmopolita europeia – Teresa Cristina sentia-se profundamente enraizada na sociabilidade da Corte do Rio de Janeiro, onde exercia papel fundamental como patrona das artes e das obras de caridade.

Durante a viagem a bordo do Alagoas, testemunhas relatam que a imperatriz mantinha comportamento silencioso e abatido. A mudança repentina, aliada às condições climáticas do inverno europeu, agravou sua doença pulmonar. Em Lisboa, tentou-se preservar alguma rotina familiar, mas seu estado emocional permaneceu instável. A ausência de recepção oficial da monarquia portuguesa também contribuiu para um sentimento de deslocamento e desamparo.

A passagem pela Espanha tampouco trouxe alívio. Apesar de parentesco com figuras da monarquia espanhola, Teresa Cristina viu sua saúde deteriorar-se rapidamente. O choque emocional da deposição, somado à idade avançada (67 anos) e ao desgaste físico, culminou em seu falecimento em 28 de dezembro de 1889, apenas quarenta dias após o exílio.

Sua morte causou comoção na imprensa europeia e impacto profundo em Dom Pedro II, que passou a demonstrar melancolia crescente. Teresa Cristina foi sepultada provisoriamente no Panteão dos Braganças, em Lisboa. Seu corpo, juntamente com o de Dom Pedro II, só seria trasladado ao Brasil em 1921, já sob a República, num gesto de reconciliação histórica.

4. Dom Pedro II em Paris: intelectualidade, solidão e os últimos anos

Após a morte da imperatriz, Dom Pedro II deslocou-se definitivamente para Paris, cidade que simbolizava para ele o dinamismo cultural e científico do século XIX. Ali instalou-se, de forma modesta, no Hotel Bedford, onde viveria de maneira simples, quase austera, sustentado por rendimentos pessoais e por auxílio de amigos como o Conde d’Eu.

Sua rotina transformou-se em uma espécie de “exílio intelectual”. Frequentava bibliotecas, museus, universidades e sessões de academias científicas. Mantinha correspondência com personalidades como Victor Hugo, Pasteur e Renan, e participava de debates sobre astronomia, linguística, fotografia e história natural. Era presença constante nos círculos da Sorbonne e muito respeitado pelos intelectuais franceses.

Apesar dessa vida cultural intensa, vivia imerso em profundo sentimento de perda. Seus diários e cartas revelam nostalgia, saudade do Brasil e tristeza por estar afastado de seu povo, especialmente em um momento em que acreditava que ainda poderia contribuir para a modernização do país.

Em 1891, sua saúde, já debilitada por diabetes, agravou-se. Em 5 de dezembro daquele ano, Dom Pedro II faleceu no próprio Hotel Bedford, aos 66 anos. Em seu quarto, encontraram uma pequena bandeira do Brasil dobrada – símbolo de sua afeição à pátria. Após funeral em Paris, seu corpo permaneceu na Igreja de São Vicente de Paulo até o traslado para o Brasil em 1921, quando recebeu honras de chefe de Estado.

5. A Princesa Isabel e o Conde d’Eu: liderança da casa imperial, exílio prolongado e legado 

5.1. Vida em Eu-sur-Seine e papel político da Princesa Isabel

Com a morte de Dom Pedro II, a Princesa Isabel tornou-se chefe da Casa Imperial no exílio. Instalou-se com o marido, o Conde Gastão de Orléans, no Castelo d’Eu, na Normandia – uma propriedade da família Orléans. Ali viveram por décadas, criando os três filhos e mantendo relações com monarquistas brasileiros.

Isabel, profundamente religiosa, desenvolveu intensa atividade social e filantrópica. Tornou-se referência para movimentos católicos franceses e preservou a memória da abolição da escravidão, de que foi signatária em 1888. Parte da imprensa europeia a celebrava como “a Redentora americana”.

Embora fosse figura central para os monarquistas brasileiros, afastou-se da política ativa, atuando mais como símbolo moral do que como articuladora prática. Era vista como guardiã de um ideal monárquico baseado em valores cristãos, disciplina, austeridade e caridade.

5.2. O Conde d’Eu e a preservação da memória militar

Gastão de Orléans dedicou-se à escrita, especialmente revisitando sua participação na Guerra do Paraguai. Envolveu-se em polêmicas historiográficas sobre a figura de Caxias e a condução das campanhas militares. Defendia a honra das tropas brasileiras e o papel do Império no conflito, posicionando-se contra interpretações críticas emergentes nos círculos republicanos.

Administrou também o patrimônio familiar e cuidou da educação dos filhos, preparando-os para possíveis cenários de restauração monárquica.

5.3. Últimos anos de Isabel e Gastão

A partir de 1910, Isabel passou a sofrer de artrite severa, o que limitou sua mobilidade. Suas dores intensificaram-se após a morte de seu filho Luís, em 1920. A princesa faleceu em 14 de novembro de 1921, em Eu, meses antes do traslado dos restos mortais de seus pais ao Brasil.

O Conde d’Eu, por sua vez, sobreviveu-lhe por apenas um ano. Faleceu em 1922, deixando vasta documentação pessoal, correspondência e memórias que contribuíram significativamente para a historiografia monárquica brasileira.

6. Considerações finais

O exílio da Família Imperial Brasileira após a Proclamação da República constitui um momento singular na história política e social do Brasil, pois representa não apenas a ruptura institucional entre dois regimes, mas também um processo de ressignificação identitária que atravessou os protagonistas daquele período. A trajetória da família – marcada por deslocamento, sofrimento, adaptação e resiliência – revela facetas pouco exploradas na narrativa tradicional sobre o fim do Império. Longe da esfera de poder, seus membros desempenharam papéis simbólicos que contribuíram para a formação da memória nacional em torno do Segundo Reinado.

Dom Pedro II, cuja vida no exílio foi marcada pela dedicação quase monástica ao estudo, tornou-se exemplo da figura do estadista que, mesmo destituído, manteve compromisso moral e intelectual com ideais de progresso, civilidade e modernização. Como observa Schwarcz (2019), sua rotina parisiense ilustra a permanência de um “ethos ilustrado” que ultrapassou as fronteiras políticas impostas pela República. Barman (2012) reforça essa interpretação ao argumentar que o imperador, ao adotar postura digna e discreta diante da queda, consolidou uma imagem internacional de integridade que permaneceria na memória histórica do Brasil.

A Imperatriz Teresa Cristina, por sua vez, simboliza o impacto humano do exílio e a vulnerabilidade daqueles que, ainda que integrantes da elite imperial, não estavam preparados para a brusca ruptura institucional. Sua morte precoce, poucas semanas após a expulsão, evidencia a violência emocional e simbólica do processo. A historiografia, ao resgatar essa dimensão, amplia a compreensão sobre os efeitos do fim do Império sob a perspectiva individual e afetiva (NEVES, 2014).

A Princesa Isabel e o Conde d’Eu representam, no período pós-1889, a continuidade dinástica e a manutenção de um imaginário monárquico ativo, ainda que deslocado geograficamente. Conforme argumenta Villa (2015), o casal não assumiu protagonismo político direto, mas atuou como referência moral e intelectual para grupos monarquistas brasileiros que se reorganizaram na virada do século XX. A atuação filantrópica e religiosa de Isabel, bem como as obras militares e memorialísticas do Conde d’Eu, constituem importantes fontes para a compreensão da construção simbólica do Império no período republicano.

Além disso, a trajetória da família no exílio influenciou profundamente a reintegração de sua memória ao cenário político brasileiro. O retorno dos restos mortais de Teresa Cristina e Dom Pedro II em 1921, seguido décadas mais tarde pelo translado de Isabel e de Gastão, reforça o processo de reconciliação simbólica entre Estado republicano e legado monárquico. Esse movimento demonstra que a República, ao mesmo tempo em que se consolidava politicamente, reconhecia a importância histórica do Império na formação da identidade nacional.

Por fim, compreender o exílio da Família Imperial é compreender também o Brasil que emergia no final do século XIX: um país em busca de novos modelos de organização política, ainda permeado por tensões sociais e dilemas modernizadores. A experiência do exílio – vivida com dignidade, intelectualidade e resiliência pelos membros da família – oferece uma chave interpretativa para refletir sobre o papel das instituições, da memória histórica e dos personagens na construção do Brasil contemporâneo.

Assim, o estudo da trajetória pós-1889 da Família Imperial Brasileira não apenas ilumina o destino individual de seus membros, mas também contribui para uma leitura mais ampla da transição política brasileira. Ao reconhecer a complexidade desse período e a importância de seus protagonistas, a historiografia reforça a necessidade de compreender o passado imperial não como vestígio superado, mas como parte constitutiva da formação histórica, cultural e institucional do Brasil.

Referências

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WIESEBRON, Marianne. A Última Imperatriz do Brasil: Teresa Cristina de Bourbon. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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D. Pedro II e a Bíblia

Alexandre Rurikovich Carvalho

‘D. Pedro II e a Bíblia: Um Estudo Ampliado Sobre a Relação do Imperador com as Escrituras Sagradas e a Cultura Religiosa do Século XIX’

Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Dom Alexandre Rurikovich Carvalho
Retrato artístico de D. Pedro II em estilo clássico, criado por IA do ChatGPT. “O Imperador e a Bíblia: um encontro entre história e espiritualidade.”
Retrato artístico de D. Pedro II em estilo clássico, criado por IA do ChatGPT. “O Imperador e a Bíblia: um encontro entre história e espiritualidade.”

Resumo. Este artigo examina de forma aprofundada a relação do Imperador Dom Pedro II (1825–1891) com a Bíblia e com os estudos religiosos, analisando sua formação intelectual, sua biblioteca, sua visão ética, filosófica e ecumênica, bem como o papel que a leitura bíblica desempenhou em sua vida pública e privada, especialmente durante o exílio. Por meio de uma abordagem historiográfica e documental, argumenta-se que a Bíblia exerceu influência duradoura sobre o imaginário, o comportamento e o pensamento do Imperador, sendo parte constitutiva de sua identidade como monarca culto, humanista e cosmopolita. Este estudo contribui para o entendimento da religiosidade no Brasil do século XIX e de como D. Pedro II conciliou fé, razão e tolerância religiosa em um contexto de modernização política e cultural.

Palavras-chave: Dom Pedro II; Bíblia; Religião e Política; História do Brasil; Império; Cultura Literária.

1. Introdução

A figura de Dom Pedro II tem sido amplamente estudada pela historiografia brasileira e estrangeira. Sua imagem está associada à erudição, ao cosmopolitismo e ao incentivo às instituições educativas e científicas no Brasil. Contudo, um aspecto frequentemente mencionado, mas ainda insuficientemente explorado em profundidade, é sua relação com a Bíblia.

Embora tenha governado um Estado oficialmente católico, D. Pedro II cultivava uma religiosidade marcada por estudo, reflexão e tolerância. A leitura da Bíblia, para ele, não era apenas um exercício devocional, mas também intelectual e cultural. Assim, compreender sua ligação com as Escrituras é fundamental para interpretar sua formação moral, sua conduta pública e sua visão de mundo.

Este artigo propõe uma análise ampliada dessa relação, contextualizando-a a partir de fontes primárias (diários, cartas e discursos) e secundárias (biografias, estudos historiográficos e análises culturais).

2. Contexto histórico: religião, política e cultura no Brasil do Segundo Reinado

Durante o Segundo Reinado (1840–1889), o Brasil vivenciou ampla transformação institucional, social e cultural. O catolicismo era religião oficial do Estado, e o Imperador exercia o tradicional padroado, prerrogativa que lhe concedia influência sobre a nomeação de autoridades eclesiásticas.

Entretanto, como demonstram autores como Lilia Schwarcz (1998) e José Murilo de Carvalho (2007), D. Pedro II demonstrava postura mais moderada e progressista que outros monarcas católicos da época. Interagia com protestantes, judeus e orientais, lia autores iluministas e clássicos, e mantinha relações intelectuais com pensadores europeus laicos.

Dentro desse panorama, a Bíblia surgia como obra essencial, não apenas religiosa, mas literária e moral, apropriada por D. Pedro II em múltiplos níveis de leitura.

3. Formação intelectual e domínio das línguas bíblicas

Desde a infância, D. Pedro II recebeu educação excepcional, ministrada por alguns dos principais intelectuais do Império. O estudo de línguas foi parte central dessa formação.

Segundo Carvalho (2007), o Imperador dominava mais de dez idiomas, entre eles:

  • hebraico;
  • grego antigo;
  • latim;
  • árabe;
  • alemão;
  • francês;
  • italiano.

Essa erudição permitia-lhe ler a Bíblia em suas versões originais, sobretudo o Antigo Testamento em hebraico e o Novo Testamento em grego koiné. Tal hábito o aproximava dos grandes estudiosos europeus do século XIX e permitia-lhe interpretar as Escrituras com autonomia crítica.

Nos Diários de D. Pedro II (IHGB) encontra-se a célebre anotação:

“Leio a Bíblia todos os dias. Nela encontro força e consolo.”

A frase sintetiza tanto sua disciplina intelectual quanto sua espiritualidade.

4. A Bíblia na biblioteca imperial: materialidade, colecionismo e erudição

A biblioteca pessoal de Dom Pedro II, atualmente preservada em parte no Museu Imperial de Petrópolis, constitui uma das coleções privadas mais notáveis do século XIX brasileiro. Ali encontram-se diversas edições da Bíblia:

  • edições críticas em hebraico, com notas masoréticas;
  • edições gregas com aparato filológico;
  • traduções francesas e alemãs;
  • exemplares árabes;
  • Bíblias ilustradas do século XIX;
  • comentários e obras teológicas.

O colecionismo bíblico do Imperador reflete:

  1. interesse filológico (comparação de traduções e variantes textuais);
  2. interesse histórico (contexto das civilizações hebraica e greco-cristã);
  3. interesse moral e filosófico (interpretação ética dos textos).

Anotações marginais feitas de próprio punho indicam leitura atenta e sistemática, semelhante ao trabalho de um estudioso acadêmico.

5. A visão ética e filosófica da Bíblia

Embora a historiografia reconheça que Dom Pedro II não era um devoto no sentido estritamente religioso, sua admiração pela Bíblia era profunda. Ele a considerava base moral essencial da civilização ocidental.

Em discurso de 1876 no IHGB, afirmou:

“As lições da Sagrada Escritura são eternas; delas depende o progresso moral dos povos.”

Sua visão refletia o espírito do século XIX, no qual monarquias liberais conciliavam fé e ciência, religião e progresso. O Imperador enxergava a moral bíblica como complemento da racionalidade moderna, e não como antagonista.

Além disso, há registros de que aplicava preceitos de justiça, compaixão e honestidade – presentes tanto na ética cristã quanto em tradições humanistas – à prática do governo.

6. A Bíblia no exílio: espiritualidade, consolo e introspecção

O exílio, iniciado em 1889, foi um dos períodos mais difíceis da vida do Imperador. A perda do trono, da pátria e da família provocou nos últimos anos de sua vida profunda melancolia.

Nesse contexto, a leitura bíblica intensificou-se.

Em anotações de 1890, escreveu:

“A Palavra de Deus consola o coração cansado. No deserto da saudade, a fé é meu abrigo.”

A Bíblia tornou-se instrumento de resistência emocional e fonte de sentido em meio à adversidade. Essa postura aproxima-o dos grandes estadistas exilados que encontraram na leitura e na espiritualidade uma forma de resiliência moral.

7. Ecumenismo, tolerância e diálogo inter-religioso

Talvez o aspecto mais singular da religiosidade de Dom Pedro II seja sua postura ecumênica.

O Imperador estudava:

  • o Talmude e a tradição rabínica;
  • o Alcorão;
  • textos hindus como o Bhagavad-Gītā;
  • obras budistas;
  • literatura religiosa oriental.

Essa prática era incomum entre monarcas católicos e indicava abertura intelectual e respeito pela diversidade espiritual.

Lins (1944) destaca que, ao visitar comunidades judaicas, protestantes e muçulmanas, o Imperador demonstrava sincero interesse, frequentemente dialogando na língua nativa dos interlocutores.

Seu ecumenismo não apenas precedeu o movimento ecumênico do século XX, como também refletiu a modernidade cultural brasileira em formação.

8. A Bíblia e o exercício da função imperial

A influência da Bíblia na conduta governamental de D. Pedro II merece atenção específica. Embora não fosse teocrata, o Imperador:

  1. defendia a moralidade pública baseada em valores éticos universais;
  2. proteg ia a liberdade religiosa, inclusive de comunidades protestantes e judaicas;
  3. condenava injustiças e arbitrariedades, como demonstrado em diversas cartas;
  4. manifestava senso de responsabilidade e serviço, inspirado em princípios cristãos sobre liderança;
  5. incentivava a educação moral, frequentemente citando parábolas e princípios bíblicos.

Seu governo, embora laico na estrutura, possuía fundo moral claramente influenciado pelos valores encontrados nas Escrituras.

9. Considerações finais

A análise ampliada da relação entre Dom Pedro II e a Bíblia revela um monarca cuja espiritualidade estava profundamente integrada à sua vida intelectual e à sua conduta pública. Para ele, as Escrituras eram:

  • fonte de estudo filológico;
  • instrumento de formação moral;
  • base para reflexão ética;
  • símbolo de identidade cultural ocidental;
  • companhia espiritual nos momentos de adversidade.

O ecumenismo, a erudição e a tolerância religiosa que caracterizaram sua relação com a Bíblia inserem Dom Pedro II no rol dos monarcas humanistas do século XIX – figura rara e admirável, cuja religiosidade dialogava com a ciência, a política e a cultura de seu tempo.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II: Ser ou Não Ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Diários e Correspondência de D. Pedro II.

LINS, Álvaro. O Poder e a Graça – D. Pedro II: um Imperador no Exílio. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944.

MUSEU IMPERIAL DE PETRÓPOLIS. Coleção Biblioteca de D. Pedro II. Petrópolis.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira: O Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema: a formação do Estado Imperial. São Paulo: Hucitec, 2004.

Alexandre Rurikovich Carvalho

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