Manual de propriedade do nada

Clayton Alexandre Zocarato

‘Manual de propriedade do nada’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O primeiro artigo deste manual estabelece que o nada não pode ser possuído

O segundo corrige o primeiro e informa que tudo aquilo que não pode ser possuído desperta imediatamente o desejo de posse. 

O terceiro artigo revoga os anteriores e declara que a propriedade é apenas uma ficção criada pelo medo de desaparecer. O restante deste documento consiste na lenta assinatura de um contrato invisível entre o ser e o vazio.

No início havia apenas uma pequena rachadura.

Nada dramático.

Uma fissura discreta atravessando o pensamento como uma linha de ferrugem sobre uma lâmina antiga. 

Não era tristeza. 

Não era desespero. Era apenas a sensação de que todas as coisas estavam ligeiramente deslocadas de si mesmas. 

As palavras já não coincidiam com os objetos. 

Os espelhos refletiam superfícies, mas não devolviam identidades. 

Os dias surgiam iguais uns aos outros como páginas impressas por uma máquina cansada.

Foi então que apareceu a escritura.

Nenhuma assinatura era exigida.

Nenhuma testemunha.

Nenhum cartório.

O documento já estava assinado desde sempre.

O ser apenas descobria, tarde demais, que seu nome habitava aquelas cláusulas.

A primeira delas era simples:

“Concede-se ao proprietário o direito irrestrito de cultivar ausências.”

E as ausências começaram a crescer.

Primeiro como ervas daninhas entre os pensamentos.

Depois como árvores.

Depois como florestas inteiras.

A paisagem interior tornou-se um território de corredores vazios. As ideias passaram a ecoar sem encontrar paredes.

As perguntas reproduziam-se em velocidade assustadora, enquanto as respostas desapareciam como pássaros migratórios que jamais regressam.

O vazio intelectual não chegou como ignorância.

Chegou como excesso.

Excesso de informação.

Excesso de ruído.

Excesso de opiniões.

Uma avalanche de palavras cobrindo lentamente o significado das coisas.

Bibliotecas inteiras foram transformadas em desertos.

Os livros permaneciam sobre as estantes, mas já não eram lidos.

As frases permaneciam sobre as páginas, mas já não eram compreendidas.

O pensamento converteu-se numa fábrica de repetições.

Produzia reflexões em série.

Embalava conceitos.

Vendia certezas.

Distribuía convicções prontas para consumo.

E, ao final de cada expediente, recolhia cuidadosamente qualquer vestígio de dúvida.

O nada sorria.

Era um proprietário paciente.

Nunca exigia pagamento imediato.

Preferia os juros.

Acumulava pequenas parcelas de desistência.

Uma renúncia hoje.

Outra amanhã.

Uma reflexão abandonada.

Uma pergunta esquecida.

Uma inquietação silenciada.

Até que o território inteiro passasse para seu domínio.

Então veio a segunda cláusula.

“Concede-se ao proprietário o direito de transformar relações em superfícies.”

E o vazio social iniciou sua expansão.

As vozes multiplicaram-se.

As conversas desapareceram.

As multidões aumentaram.

Os encontros tornaram-se raros.

Jamais houvera tantas janelas abertas para o mundo.

Jamais houvera tantos quartos fechados por dentro.

A comunicação tornou-se uma ponte construída apenas até a metade do rio.

Os gestos perderam profundidade.

Os abraços passaram a tocar apenas tecidos.

Os olhares atravessavam rostos sem encontrar presença.

Todos pareciam próximos.

Ninguém realmente chegava.

O ser começou a colecionar contatos como quem coleciona sombras.

Milhares de nomes.

Milhares de imagens.

Milhares de ecos.

Nenhuma companhia.

A solidão já não era ausência de pessoas.

Era ausência de significado.

Era uma praça lotada de estátuas.

Um mercado repleto de fantasmas.

Uma festa onde cada convidado conversava exclusivamente com seu próprio reflexo.

O nada ampliava seus domínios.

Silenciosamente.

Metodicamente.

Sem violência.

Como a ferrugem.

Como a poeira.

Como a noite.

Depois surgiu a terceira cláusula.

A mais extensa.

A mais perigosa.

“Concede-se ao proprietário o direito de substituir valores por conveniências.”

E o vazio moral encontrou terreno fértil.

As palavras virtude, honra, compromisso e responsabilidade tornaram-se objetos arqueológicos.

Peças de museu.

Relíquias de uma civilização esquecida.

Tudo passou a ser medido por utilidade.

Tudo passou a ser calculado por vantagem.

Tudo passou a ser avaliado por rentabilidade.

O bem deixou de ser uma direção.

Transformou-se numa estratégia.

A verdade deixou de ser uma busca.

Transformou-se numa ferramenta.

A consciência deixou de ser uma voz.

Transformou-se num ruído de fundo facilmente ajustável.

O ser observava tudo isso sem perceber que assinava novas páginas do contrato.

Cada concessão parecia insignificante.

Cada renúncia parecia temporária.

Cada acomodação parecia razoável.

Mas o nada era um colecionador de fragmentos.

Sabia que montanhas são feitas de grãos.

Sabia que abismos começam como rachaduras.

Sabia que desertos nascem da morte lenta de pequenas fontes.

O contrato crescia.

As páginas multiplicavam-se.

As cláusulas estendiam-se para além do horizonte.

E o proprietário do nada tornava-se cada vez mais rico.

Até que chegou o momento inevitável.

A vistoria.

O ser caminhou pelos corredores da própria existência.

Abriu portas.

Examinou gavetas.

Percorreu arquivos.

Investigou memórias.

Procurou algo que ainda lhe pertencesse.

Encontrou apenas espaços vazios.

As estantes estavam intactas.

Mas os livros haviam desaparecido.

As molduras permaneciam nas paredes.

Mas as imagens haviam evaporado.

Os relógios continuavam funcionando.

Mas o tempo já não acontecia.

Tudo estava presente.

Nada existia.

Foi então que compreendeu a natureza da propriedade.

Jamais possuíra o nada.

Era o nada quem o possuía.

A escritura sempre estivera invertida.

O proprietário era a propriedade.

O senhor era o terreno.

O dono era a mercadoria.

A assinatura no final do contrato não representava uma conquista.

Representava uma rendição.

E naquele instante surgiu uma pergunta.

Talvez a última pergunta.

Talvez a única pergunta verdadeira.

Se o nada podia ser proprietário de tudo, o que existiria além dele?

Nenhuma resposta apareceu.

Apenas silêncio.

Um silêncio vasto.

Profundo.

Antigo.

Mas pela primeira vez esse silêncio não parecia vazio.

Parecia possibilidade.

Como um campo antes da semeadura.

Como uma página antes da escrita.

Como uma madrugada antes do primeiro pássaro.

Talvez o nada não fosse apenas destruição.

Talvez fosse também um espelho.

Um lugar onde todas as ilusões de posse terminam.

Um tribunal onde todas as propriedades são revogadas.

Uma fronteira onde o ser descobre que jamais possuiu coisa alguma.

Nem riquezas.

Nem ideias.

Nem pessoas.

Nem tempo.

Nem a si mesmo.

E ao compreender isso, algo inesperado aconteceu.

O contrato começou a desaparecer.

As cláusulas dissolveram-se.

As assinaturas tornaram-se poeira.

Os selos evaporaram.

As páginas transformaram-se em vento.

Restou apenas a existência.

Nua.

Sem títulos.

Sem escrituras.

Sem garantias.

Sem proprietários.

Sem propriedade.

Diante da imensidão silenciosa do universo, o ser finalmente compreendeu que a liberdade talvez começasse exatamente onde terminava a posse.

E que o verdadeiro Manual de Propriedade do Nada continha apenas uma frase escrita em letras invisíveis:

“Aquilo que tenta possuir o vazio acaba descobrindo que era o vazio quem o possuía desde o princípio.

Mas a revelação não trouxe conforto.

A liberdade, quando surge depois de uma vida inteira de servidão invisível, possui a textura do abismo. 

Não há celebração na descoberta de que todas as muralhas eram imaginárias. Não há júbilo imediato quando se percebe que os alicerces sobre os quais se ergueu uma existência inteira foram construídos sobre névoa.

O ser permaneceu diante daquele horizonte sem nome.

Já não havia contratos.

Já não havia cláusulas.

Já não havia o nada como proprietário.

Mas também não existiam as antigas referências.

Era como despertar em uma cidade cujos mapas haviam sido queimados durante a noite.

As ruas continuavam lá.

As construções permaneciam de pé.

Entretanto, nenhum caminho conduzia a lugar algum conhecido.

E foi nesse instante que surgiu o mais profundo dos vazios.

Não o vazio da ausência.

Mas o vazio da possibilidade.

Não o vazio da perda.

O espaço aberto.

A página em branco.

A vertigem de quem descobre que não existe um destino previamente desenhado.

Durante muito tempo o ser acreditara que sua angústia vinha da falta de sentido.

Agora compreendia algo mais inquietante.

O sentido nunca estivera ausente.

Apenas jamais fora entregue pronto.

Era necessário construí-lo.

Pedra por pedra.

Pergunta por pergunta.

Fracasso por fracasso.

E essa tarefa parecia mais pesada do que carregar qualquer corrente.

Ao redor, o mundo continuava funcionando com sua habitual maquinaria de distrações.

Mercados vendiam felicidade embalada.

Discursos prometiam respostas definitivas.

Doutrinas ofereciam atalhos para a eternidade.

Ideologias distribuíam identidades prontas.

Tudo parecia convidar novamente para a velha assinatura.

Tudo parecia dizer:

“Retorne ao contrato.”

“Entregue outra vez sua inquietação.”

“Troque sua liberdade por uma explicação confortável.”

Mas o ser já conhecia o preço.

Sabia que toda certeza absoluta escondia uma pequena cláusula escrita em letras microscópicas.

Sabia que todo dogma carregava consigo uma cerca.

Sabia que toda prisão começa oferecendo proteção.

Então permaneceu imóvel.

Escutando.

Observando.

Esperando.

E no centro daquele silêncio começou a perceber algo estranho.

Muito estranho.

O nada não havia desaparecido completamente.

Continuava ali.

Mas sua forma era diferente.

Antes era um proprietário.

Agora era apenas espaço.

Antes era cárcere.

Agora era horizonte.

Antes era ausência de significado.

Agora era possibilidade de criação.

A diferença parecia mínima.

Entretanto continha universos inteiros.

Uma folha em branco pode ser uma condenação para quem espera respostas.

Mas pode ser também uma promessa para quem deseja escrever.

O mesmo vazio.

Dois destinos.

Dois olhares.

Duas interpretações.

Foi então que o ser compreendeu a natureza secreta do abismo.

Durante toda a existência acreditara que estava olhando para dentro dele.

Na verdade, era o abismo que olhava para dentro dele.

E tudo o que enxergava refletido em suas profundezas eram as próprias renúncias.

As desistências.

Os medos.

As acomodações.

As máscaras cuidadosamente colecionadas ao longo dos anos.

O vazio jamais fora um inimigo.

Apenas um espelho radical.

Um espelho incapaz de mentir.

Um espelho que removia todos os adornos.

Todas as justificativas.

Todas as ficções.

Diante dele, restava apenas aquilo que realmente existia.

Ou aquilo que realmente não existia.

O ser então caminhou.

Sem direção definida.

Sem roteiro.

Sem garantias.

Cada passo parecia inaugurar o mundo pela primeira vez.

As coisas tornaram-se novamente estranhas.

Eram familiares e desconhecidas ao mesmo tempo.

Uma árvore já não era apenas uma árvore.

Era um milagre biológico flutuando entre a terra e o céu.

Uma pedra já não era apenas uma pedra.

Era uma memória mineral atravessando milênios.

Uma respiração já não era apenas um reflexo.

Era uma negociação permanente entre o corpo e o infinito.

Tudo adquiria uma intensidade esquecida.

Como se a realidade estivesse sendo devolvida ao seu estado original.

Como se o excesso de explicações tivesse finalmente saído do caminho.

O ser percebeu que o vazio intelectual havia nascido quando deixou de admirar.

O vazio social havia crescido quando deixou de escutar.

O vazio moral havia prosperado quando deixou de responsabilizar-se por suas escolhas.

Nenhum deles surgiu de uma única vez.

Foram sedimentações lentas.

Camadas.

Poeira acumulada sobre a consciência.

E talvez a reconstrução também precisasse ocorrer lentamente.

Sem milagres.

Sem revelações grandiosas.

Sem promessas de redenção.

Apenas através de pequenos gestos.

Uma pergunta verdadeira.

Uma conversa sincera.

Uma leitura realizada sem pressa.

Um pensamento levado até suas últimas consequências.

Uma recusa em aceitar respostas fáceis.

Uma coragem silenciosa para permanecer humano em um mundo que frequentemente recompensa a superficialidade.

O nada continuava existindo.

Sempre continuaria.

Porque o nada é a sombra inevitável de toda existência.

Onde há ser, há possibilidade de não-ser.

Onde há significado, há possibilidade de vazio.

Onde há construção, há possibilidade de ruína.

Mas essa descoberta já não provocava terror.

Produzia humildade.

O ser percebeu que viver talvez não consistisse em derrotar o nada.

Ninguém derrota o nada.

Nenhuma filosofia.

Nenhuma religião.

Nenhuma ciência.

Nenhum império.

Todos terminam encontrando-o em alguma esquina do tempo.

Talvez viver significasse apenas atravessá-lo.

Reconhecê-lo.

Dialogar com ele.

Sem entregar-lhe a escritura da própria alma.

Sem permitir que se tornasse proprietário daquilo que ainda pulsa.

E assim, diante de uma existência que permanecia sem garantias, sem explicações finais e sem manuais definitivos, o ser compreendeu a última ironia.

O verdadeiro proprietário do nada não era aquele que o possuía.

Era aquele que aceitava sua presença sem tornar-se seu escravo.

Porque somente quem aprende a caminhar ao lado do vazio consegue impedir que ele ocupe todos os cômodos da casa.

E enquanto o universo prosseguia expandindo-se em silêncio entre galáxias indiferentes, estrelas moribundas e futuros inimagináveis, uma pequena centelha persistia.

Frágil.

Quase invisível.

Mas real.

A centelha da consciência.

A capacidade de perguntar.

De criar.

De negar.

De escolher.

De resistir.

E talvez fosse exatamente isso que nenhuma escritura do nada jamais conseguiria confiscar por completo.

Pois enquanto houver uma única pergunta atravessando a escuridão, uma única inquietação recusando o conforto das respostas prontas, uma única consciência disposta a contemplar o abismo sem entregar-se a ele, o contrato permanecerá incompleto.

E o nada, por mais vasto que seja, continuará encontrando diante de si a única propriedade que jamais poderá registrar em cartório algum: a liberdade inquieta de existir.

Clayton Alexandre Zocarato

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O existencialismo de Ingmar Bergman

COLUNA CINEMA EM TELA

Marcus Hemerly: Artigo ‘O existencialismo de Ingmar Bergman’

Banner da coluna Cinema em Tela: O existencialismo de Ingmar Bergman
Banner da coluna Cinema em Tela: ‘O existencialismo de Ingmar Bergman’

“Neste vazio dentro de mim nasceu algo que não compreendo, cujo nome não sei…”

Através de um Espelho, 1961.

Sorvendo da fonte europeia existencialista, as derivações daquela escola filosófica não passaram ao largo das retratações cinematográficas. Aliás, todas as formas de produção artística desenham as feições, ainda que inconscientes, de seus idealizadores, se não aquilo que é concebido, o que é sentido.

A imersão nas dicotomias e incongruências que compõem a complexidade humana são rica matéria-prima para a articulação da expressão individual. À luz dessa diegese*,  poder-se-ia desembaraçadamente citar a filmografia do diretor sueco Ingmar Bergman, que paralelizou desde os questionamentos metafísicos até as águas revoltosas que permeiam os sentimentos mais animalescos do homem.

Deparamo-nos com o jogo de xadrez com a morte, a partir de seu filme mais famoso, ‘O Sétimo Selo’ de 1957, até o encontro de sua personificação num simbolismo que será recorrente em toda obra do diretor: a existência em sua forma mais substancial para, num segundo momento, amoldar a vida, essência, amalgamando a criação/origem até a forma de interação com o meio circundante/evolução.

Ora, o que é a Filosofia, senão uma eterna inserção de questionamentos sobre proposições tidas como absolutas, ou mesmo, abstratas em sua natureza?

Ainda trilhando a vereda investigativa quanto às formatações humanas em seus liames racionais e sentimentais, é possível concluir que tais conceituações são indissociáveis para o direcionamento inquisitivo existencial tratado na obra de Bergman.

Não raro, se escuta o conceito ‘crise existencial’ em atividades atreladas à vida hodierna, e, de igual modo, quando relacionadas às representações fílmicas. Personagens densos, introspectivos, insatisfeitos em sua inquietação não aparente, e, por fim, comumente rotulados sob a pecha de existencialistas.

Voltando o olhar para seus primeiros trabalhos, nos quais identificamos as emoções e pulsões de forma mais primitiva, como vingança, no caso de ‘A fonte da donzela’, em seus roteiros ulteriores é possível perceber que o trilhar, ou talvez seria dizer, ‘brincar,’ com a inquietude do amadurecimento emotivo de seus personagens é uma intenção recorrente.

Na chamada trilogia do silêncio, somos apresentados a personagens que, numa análise perfunctória, poderiam ser erroneamente classificados de superficiais. Contudo, nada mais enganoso. 

Na produção ‘Através de um Espelho’, 1961, Karin, a jovem retorna ao seio familiar após uma temporada em um hospital psiquiátrico, e vivendo em uma ilha com seu solitário irmão, o marido (Max von Sydow), ator recorrente na filmografia do diretor, e o pai,  se desenha um deterioramento no relacionamento daquele núcleo, quando a instabilidade de Karin ganha força, fazendo com  que os próprios conflitos de seus pares, principalmente de seu pai, aflorem. Identificamos a fragilidade na inteligência racional contraposta à emocional.

 Em ‘Luz de Inverno’, 1963, o amor e suas contradições são experimentados pelo pastor Tomas Ericsson, que sofre uma intensa crise de fé quando relutantemente se apaixona pela professora Märta Lundberg.

Finalmente, em ‘O Silêncio’ de 1963, título mais polêmico e que encerra a trilogia, conhecemos as irmãs, Ester e Anna, que viajam para um país da Europa Central durante a guerra e levam com elas o filho de Anna, o garoto Johan de 12 anos.

Naquele espaço, a trama de desenvolve num hotel quase inabitado, que atua perifericamente à próprias conscientizações de seus tormentos, desejos e pretensões de exploração íntima. Temas/cenas como autoerotismo feminino, sugestão de relacionamento incestuoso e desejo velado pela morte, exsurgem de maneira palpável e desconfortante até mesmo ao espectador.

Assim como a aplicação psicanalítica, o que se desvela num tom flagrante nos roteiros, até mesmo na forma de estilo/conceito cunhados ao que se convencionou chamar de ‘bergmaniano’, de feição adjetiva, é identificada a partir de proposições.

Estas, em uma primeira intenção, simples, mas que estimulam a reflexão e incursão interior por meio de estímulos livres. Conflitos familiares, sexuais, de relacionamento, culpa, entre outros, são emoções basilares que descortinam os elementos mais caracterizadores do ser humano.

A partir dessa ideia, os vieses psicanalíticos permeiam todas as concepções daquele recorte do cineasta, que recebeu o epíteto de pintor do existencialismo. Descrevendo-o, o diretor francês Jean-Luc Godard ponderou: “O cinema não é um ofício, é uma arte. Cinema não é um trabalho de equipe. O diretor está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é se fazer perguntas; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico“.

Repise-se, tal como a própria metodologia psicanalítica de discurso e autoconhecimento indutivo, títulos inesquecíveis como ‘Sonata de Outono’, e ‘Gritos e Sussurros’, são exemplos de diálogos fluidos que tocam o cotidiano e roupagens travestidas de abordagens singelas, mas que, em verdade, obscurecem redemoinhos emocionais muito mais arraigados e merecedores de apreciação e retratação. O que se faz de modo preciso e inquietante por Ingmar Bergman.

Talvez, um dos filmes mais característicos de tal ênfase existencial na cronologia de sua cinematografia é apontada em ‘Persona’ – título sugestivo – no qual a dualidade humana e os enigmas da mente são despidos de forma engenhosamente orquestrada.

Decerto, a análise pontual de cada filme citado, bem como acerca dos pontos sobre os quais lastreiam-se o norte psicológico da carreira do diretor, são suficientes a robustecer teses acadêmicas, mas, de igual forma, neste espaço mais sintético, estimular a descoberta aos leitores e apreciadores das imagens – e questionamentos – em movimento.

Se no Brasil, o diretor do cinema marginal Carlos Reichembach se autodenominava o último utopista, Bergman, por sua vez, pode ser identificado com o grande existencialista, intencionalmente ou não. A indagação ecoa à espera de resposta.

Marcus Hemerly

N.E. Diegese é o ato de narrar ou descrever uma história, seja no teatro, no cinema ou literatura. É quando o artista, ou personagem, se torna locutor, assumindo assim sua própria identidade para descrever ou comentar um acontecimento.

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