Rafael Peñas Cruz: ‘Romería – Una película de Carla Simon’
Rafael Peñas CruzTrailer oficial do filme Romería, de Carla Simon
Una película no apta para quienes no disfrutan del cine lento. Comparada con el bombardeo frenético e incesante de imágenes de los anuncios y tráileres previos a la proyección, el tercer largometraje de la joven cineasta catalana Carla Simón avanza a paso de tortuga.
No sucede gran cosa cuando Marina, una joven que necesita el certificado de defunción de su padre para solicitar una beca, viaja a Galicia, donde vive la familia paterna.
Allí, unos padres a los que no llegó a conocer, adictos a la heroína, pasaron sus últimos días antes de separarse, incapaces de seguir juntos, asfixiados por la niebla tóxica de las drogas en la que sus altos ideales habían ido a morir.
La historia nos resulta familiar a todos los españoles de cierta edad: los años ochenta, las esperanzas de libertad de una nueva generación que creció tras el cruel régimen de Franco. La «Movida» en Madrid, el «rollo» en Barcelona y sus equivalentes en todas las ciudades españolas: una búsqueda de liberación inspirada en los movimientos hippie y punk que, con frecuencia, terminaba entre la espada y la pared, ya fuera en un monótono trabajo de oficina o en alguna ocupación artística financiada por el gobierno, o, como en el caso de Alfonso, el padre de la protagonista, en el callejón sin salida de la adicción a la heroína.
Marina, incipiente cineasta, sigue la huella que dejaron sus padres a través de las voces de familiares y amigos, reconstruyendo las piezas del rompecabezas de sus vidas. Navega entre estas olas de descubrimiento y dolor armada con una cámara de vídeo y el diario de su madre, del que lee fragmentos mientras recorre los escenarios donde se desarrolló la tragedia de sus padres: la ciudad gallega de Vigo y las islas Cíes, un foco de movimiento hippie y estilo de vida alternativo en aquellos ya lejanos tiempos.
Los encuentros con diferentes personas durante su peregrinación -la romería del título- tejen un tapiz de la vida en España en el tiempo que transcurre entre la vida de sus padres y la suya propia. Reconocemos ciertos patrones, vemos su origen: la hipocresía autoritaria tras la aparente respetabilidad de la época de Franco, encarnada por sus abuelos, gente de frialdad indiferente, heredada en diferente medida por sus hijos.
Marina descubre una vida con la que se siente desconectada, pero que forma parte de sus orígenes, y a la que debe enfrentarse. Marina es un ángel enviado del cielo para ayudarnos a comprender y reconciliarnos con el pasado.
Vemos las imágenes que captura con su cámara y presenciamos con ella las pequeñas crueldades de la novela familiar en la que de repente se encuentra inmersa, sintiéndose a la vez interesada y distante.
La película es un viaje a través de un pasado que todos reniegan con ahínco. Las generaciones más jóvenes fuman y consumen drogas, pero, para bien o para mal, sin el afán de liberación y expansión mental con el que lo hacía la generación de los padres de Marina, como descubrimos en los fragmentos del diario de su madre.
Probablemente sea lo mejor, pensamos, pero ¿qué pasó con esos altos ideales, con ese espíritu romántico y aventurero que animaba la vida de los padres de Marina? ¿Qué pasó con las utopías que tanto anhelaban? ¿Es eso todo lo que hay, se pregunta la película, la disyuntiva entre la espada y la pared?
Los anteriores largometrajes de Carla Simón, «Verano 93» y «Alcarrás», profundizaban en su biografía, aunque de forma superficial, como también lo hace en «Romería». Los detalles cambian y hay una imprecisión y una reticencia a ser específica al respecto. Lo que le importa a la directora no son los hechos en sí, sino la reconstrucción imaginativa de la vida mediante el poder narrativo del cine.
Sí, la película puede ser lenta, pero está impregnada de la poesía de una visión unificada, la de Marina, un alter ego de la directora en su propia búsqueda por reconstruir una historia a partir de los pecios que deja el naufragio de la vida.
‘E se’: Vidas Passadas e os fios invisíveis do destino
Bianca Agnelli: “‘E se’: Vidas passadas (Past Lives) e os fios invisíveis do destino”
Bianca Agnelli “’E se’: Past Lives e i fili invisibili del destino”
Bianca Agnelli
O ano de 2024 está chegando ao fim e, como todo amante do cinema que se preza, me pego fazendo um balanço mental. Quais filmes eu amei? Quais eu vou esquecer antes do próximo jantar? E aí tem aqueles que ficam, como uma música que não sai da cabeça. Para mim, este ano, Past Lives foi esse filme.
Eu o assisti no Dia dos Namorados, com um copo de Coca-Cola com sabor de framboesa (obviamente) transbordando, rodeada de casais em um cinema que cheirava vagamente a rosas e pipoca. Não exatamente o contexto mais confortável para uma romântica incurável e uma solteira convicta… Mas algo me dizia que seria especial. Spoiler: foi.
Você conhece aquela lenda do fio vermelho? A que diz que toda pessoa importante na sua vida está ligada a você por um fio invisível, que pode se esticar, se emaranhar, até se romper, mas nunca completamente? Pois bem, Vidas Passadas fala sobre essas conexões que atravessam o tempo e o espaço.
Dirigido com uma sensibilidade rara, o filme nos arrasta para uma história de amor e nostalgia, contada através de silêncios carregados de significado. A trama é simples, mas profunda, como aquelas cartas antigas que você encontra no sótão e que te fazem chorar sem saber exatamente por quê. Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo) se conhecem desde crianças na Coreia do Sul. Eles se amam, ou melhor, se amam como duas crianças podem se amar: sabe, aquele sentimento inocente e verdadeiro que, no entanto, nunca consegue se concretizar de fato. Então Nora se muda com a famiglia para o Canada e o fio deles se estica, se distancia: eles seguem vidas diferentes. A distância é real, física, emocional.
Doze anos depois, Hae Sung a encontra no Facebook. Não é um grande gesto cinematográfico, não há corrida no aeroporto sob a chuva. Só uma mensagem: “Como você está?”
Eles conversam por Skype. Se reencontram. Se conectam. Mas a vida é uma narradora perversa e nunca segue o roteiro que esperamos. E assim, outros caminhos se abrem e os dois se afastam novamente.
Passam-se mais doze anos, e então, um encontro em New York. E aqui estamos, lançados no jogo do “E se?”
E se a nossa vida tivesse tomado um rumo diferente?
E se eu tivesse ficado?
E se você não tivesse se casado?
E se eu nunca tivesse soltado sua mão?
E se eu tivesse seguido aquele fio até o fim?
É aqui que Vidas Passadas se transforma em uma dança. Uma dança de olhares, de mãos que se tocam, de silêncios que gritam mais alto do que qualquer diálogo. O filme não tenta te dar respostas. Não te diz se o destino é um fio ou uma ilusão. Ele te deixa com uma pergunta: E se?
Celine Song, a diretora, nos conduz por essa história com uma delicadeza que parece quase mágica. Cada cena é íntima, como se você estivesse espiando a vida de alguém pela janela, mas sem nenhum senso de culpa. A fotografia, cuidada por Shabier Kirchner, é quente e nostálgica, com New York se tornando uma terceira protagonista: fascinante, complicada, cheia de histórias nunca contadas.
E então há os silêncios. Ah, aqueles silêncios. Em um mundo que fala demais, Vidas Passadas escolhe silenciar. Deixa que sejam os gestos, os detalhes, a contar tudo. Como naquela cena em que as mãos de Nora e Hae Sung se aproximam, mas nunca se tocam.
É nessas pausas, nesses momentos de respiração, que o filme encontra sua voz mais poderosa.
Do ponto de vista do roteiro, Celine Song adota uma abordagem sóbria e minimalista, evitando diálogos desnecessários.
Na frenética verborragia do cinema contemporâneo, Vidas Passadas é um oásis de quietude. Celinecaptura a essência de momentos fugazes: um sorriso tímido, um olhar que fala de arrependimentos e desejos não expressos. Não há necessidade de explicar nada, porque o silêncio aqui não é um vazio a ser preenchido, mas uma linguagem em si mesma.
Como uma apaixonada por cinema, não posso deixar de admirar essa escolha corajosa. O não dito em Vidas Passadas não é um vazio, mas uma presença tangível. É a prova de que o cinema não precisa de palavras para contar histórias poderosas. As imagens, os gestos, os silêncios são a verdadeira linguagem da alma.
Nos bastidores, a diretora Song adotou abordagens únicas para manter a autenticidade das interações. Por exemplo, ela evitou qualquer contato físico entre os atores Greta Lee (Nora) e Teo Yoo (Hae Sung) até o momento em que seus personagens se tocam no filme, criando uma tensão palpável que se reflete na tela.
A trilha sonora, composta por Christopher Bear e Daniel Rossen dos Grizzly Bear, acrescenta uma camada extra de delicadeza à narrativa, com músicas que se entrelaçam perfeitamente com as imagens, amplificando as emoções sem jamais sobrecarregá-las.
Vidas Passadas recebeu amplos elogios da crítica, com resenhas que destacam sua sensibilidade e simplicidade, considerando-o uma obra-prima que transmite uma mensagem universal e extremamente atual. O filme recebeu vários prêmios e indicações, incluindo 2 indicações ao Oscar, 5 ao Globo de Ouro, 3 ao BAFTA, 1 ao British Independent.
A diretora parece realmente conhecer os segredos desses fios invisíveis. Talvez ela tenha realmente visto, eles se entrelaçarem e brilharem na noite. Talvez ela saiba que o cinema, assim como a vida, é feito de sombras e luzes, sons e silêncios, e ela os transpondo para uma obra que não fala apenas sobre destino, tempo ou amor. Fala sobre nós, sobre os caminhos que não tomamos e sobre os que ainda podem nos levar aonde nem sabemos que queremos ir.
Assim, enquanto volto para casa, caminhando sob o céu estrelado com um cachecol um pouco longo demais, percebo que ainda estou pensando neles. Em Nora e Hae Sung. Mas também em mim, em você, em nós. Nas vidas que poderíamos ter vivido e nas que ainda estamos procurando.
“’E se’: Past Lives e i Fili Invisibili del Destino“
L’anno 2024 sta finendo, e come ogni amante del cinema che si rispetti, mi ritrovo a fare un bilancio mentale. Quali film ho amato? Quali dimenticherò prima della prossima cena? E poi ci sono quelli che restano, come una canzone che non riesci a toglierti dalla testa. Per me, quest’anno, Past Lives è stato quel film.
L’ho visto il giorno di San Valentino, con un bicchiere troppo pieno di Coca Cola aromatizzata al lampone (ovviamente), circondata da coppie in un cinema che sapeva vagamente di rose e popcorn. Non proprio il contesto più confortante per un’inguaribile romantica e una single incallita.. Ma qualcosa mi diceva che sarebbe stato speciale. Spoiler: lo è stato.
Sai quella leggenda del filo rosso? Quella che dice che ogni persona importante nella tua vita è legata a te da un filo invisibile, che può tendersi, aggrovigliarsi, persino spezzarsi, ma mai del tutto? Ecco, Past Lives ci parla di queste connessioni che attraversano il tempo e lo spazio.
Diretto con una sensibilità rara, il film ci trascina in una storia d’amore e nostalgia, raccontata attraverso silenzi carichi di significato. La trama è semplice ma profonda, come una di quelle vecchie lettere che trovi in soffitta che ti fanno piangere senza sapere esattamente perché. Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo) si conoscono da bambini in Corea del Sud. Si amano, o meglio, si amano come due bambini possono amarsi: sai, quel sentimento innocente e vero che però non riesce mai sul serio a concretizzarsi. Poi Nora si trasferisce in Canada, e il loro filo si tende, si allontana: intraprendono vite diverse. La distanza è reale, fisica, emotiva.
Dodici anni dopo, Hae Sung la cerca su Facebook. Non un grande gesto cinematografico, niente corsa in aeroporto sotto la pioggia. Solo un messaggio: “Come stai?”.
Parlano su Skype. Si ritrovano. Si connettono. Ma la vita è una narratrice dispettosa e non segue mai il copione che speriamo. E così, altre strade si aprono e i due si allontanano di nuovo.
Passano altri dodici anni, e poi, un incontro a New York. Ed eccoci catapultati nel gioco del “E se”.
E se la nostra vita avesse preso una piega diversa?
E se fossi rimasto?
E se non ti fossi sposata?
E se non avessi mai lasciato la tua mano?
E se avessi seguito quel filo fino alla fine?
È qui che Past Lives diventa una danza. Una danza di sguardi, di mani che si sfiorano, di silenzi che urlano più forte di qualsiasi dialogo. Il film non cerca di darti risposte. Non ti dice se il destino sia un filo o un’illusione. Ti lascia con una domanda: E se?
Celine Song, la regista, ci porta dentro questa storia con una delicatezza che sembra quasi magica. Ogni scena è intima, come se stessi sbirciando nella vita di qualcuno dalla finestra, ma senza alcun senso di colpa. La fotografia, curata da Shabier Kirchner, è calda e nostalgica, con New York che diventa una terza protagonista: affascinante, complicata, piena di storie mai raccontate.⠀⠀
E poi ci sono i silenzi. Oh, quei silenzi. In un mondo che parla troppo, Past Lives sceglie di tacere. Lascia che siano i gesti, i dettagli, a raccontare tutto. Come quella scena in cui le mani di Nora e Hae Sung si avvicinano ma non si toccano mai.
È in queste pause, in questi momenti di respiro, che il film trova la sua voce più potente.
Dal punto di vista della sceneggiatura, Celine Song adotta un approccio sobrio e minimalista, evitando dialoghi superflui.
Nella frenesia verbale del cinema contemporaneo, Past Lives risulta un’oasi di quiete. Celine cattura l’essenza di momenti fugaci: un sorriso appena accennato, uno sguardo che parla di rimpianti e desideri inespressi. Non c’è bisogno di spiegare nulla, perché il silenzio qui non è un vuoto da riempire, ma un linguaggio a sé stante.
Come appassionata di cinema, non posso fare a meno di ammirare questa scelta coraggiosa. Il non detto in Past Lives non è un vuoto, ma una presenza tangibile. È la prova che il cinema non ha bisogno di parole per raccontare storie potenti. Le immagini, i gesti, i silenzi sono il vero linguaggio dell’anima.
Dietro le quinte, la regista Song ha adottato approcci unici per mantenere l’autenticità delle interazioni. Ad esempio, ha evitato qualsiasi contatto fisico tra gli attori Greta Lee (Nora) e Teo Yoo (Hae Sung) fino al momento in cui i loro personaggi si toccano nel film, creando una tensione palpabile che si riflette sullo schermo.
La colonna sonora, composta da Christopher Bear e Daniel Rossen dei Grizzly Bear, aggiunge un ulteriore strato di delicatezza alla narrazione, con brani che si intrecciano perfettamente con le immagini, amplificando le emozioni senza mai sovrastarle.
Past Lives ha ricevuto ampi consensi dalla critica, con recensioni che lodano la sua sensibilità e semplicità, definendolo un capolavoro che veicola un messaggio universale ed estremamente attuale. Il film ha ottenuto diversi riconoscimenti, tra cui 2 candidature a Premi Oscar, 5 candidature a Golden Globes, 3 candidature a BAFTA, 1 candidatura a British Independent.
La regista sembra conoscere davvero i segreti di quei fili invisibili. Forse li ha visti davvero, intrecciarsi e brillare nella notte. Forse sa che il cinema, come la vita, è fatto di ombre e di luci, di suoni e di silenzi, e li ha trasposti in un’opera chenon parla solo del destino, del tempo o dell’amore. Parla di noi, delle strade che non abbiamo preso e di quelle che ancora potrebbero portarci dove non sappiamo di voler andare.⠀
Così, mentre torno a casa, camminando sotto il cielo stellato con una sciarpa un po’ troppo lunga, mi accorgo che sto ancora pensando a loro. A Nora e Hae Sung. Ma anche a me, a te, a noi. A tutte le vite che avremmo potuto vivere, e a quelle che stiamo ancora cercando.
Exibido no Festival de Cannes e indicado em nove categorias no prêmio da Academia Italiana de Cinema, o David di Donatello, – entre elas, Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator – NOSTALGIA é um longa sobre o passado pelo olhar do presente, as transformações e mudanças pelas quais passaram tanto Nápoles quanto seu protagonista, Pierfrancesco Favino (“O Traidor”), quando retorna à sua cidade.
É nesse tom que se desenvolve o filme dirigido por Mario Martone, que chega aos cinemas do Brasil no próximo dia 5 de outubro, com distribuição da Pandora Filmes. Confira neste release trailer e pôster oficiais da produção.
Favino interpreta Felice Lasco, um homem que volta à sua cidade natal, depois de quatro décadas e a encontra totalmente transformada, quase irreconhecível. Mas será que só a cidade mudou ou ele também?
Com roteiro assinado por Martone e Ippolita Di Majo, o longa é inspirado no livro homônimo de Ermanno Rea. Martoni, que era amigo de Abbas Kiarostami, falou em entrevista que acredita que o mestre iraniano iria gostar do filme, pois teve o cinema do Irã como inspiração.
“Gosto do cinema iraniano por vários motivos. Os filmes dos diretores iranianos são rodados na rua, você vê pessoas reais, e aí eles têm força para ainda serem contos morais, NOSTALGIA é um pouco disso também, e isso não é mais comum”, comenta o cineasta.
Nascido em Roma, Favino, por sua vez, conta que o maior desafio para o papel foi aprender o dialeto napolitano. “Na Itália, há um enorme respeito pela língua napolitana. Todos os nossos dramaturgos vêm de Nápoles. E há uma história incrível de atores napolitanos que sempre admirei. E eu estava cercado por napolitanos, então não só tive que aprender, mas também temi o julgamento deles.” Além disso, ele também aprendeu um pouco de árabe para o filme, pois seu personagem vive no Oriente Médio.
O diretor explica que busca em NOSTALGIA algo muito próximo da atualidade, deixando o longa aberto aos acontecimentos durante a filmagem. “Fiquei fascinado com a ideia de fazer um filme não dentro de uma cidade, mas dentro de um bairro, como se fosse um tabuleiro de xadrez, e por isso todas as ruas, casas e indivíduos que aparecem no filme são exclusivamente do Rione Sanità, um bairro napolitano separado do mar.”
Para conseguir a naturalidade e desbravar o bairro, ele conta que convidou elenco e equipe a andar pelas ruas, a se perder naquele lugar, como um labirinto, e, só assim, começar a entender o que realmente é aquele lugar. “Com a câmara nos ombros, começamos a caminhar pelas ruas, na nossa interpretação do cinema da realidade. Encontro após encontro, vida após vida, história após história, acabamos filmando a última cena nos perguntando qual seria o seu significado, e não conseguimos encontrá-la. Talvez não haja sentido, talvez nunca tenha havido. Existe o labirinto e existe a nostalgia, que é o destino de muitos, e talvez de todos nós.”
Desde sua exibição em Cannes, o filme tem sido muito bem recebido, tendo diversas críticas elogiosas. “O filme lindamente filmado e soberbamente composto de Mario Martone oscila à beira de algo especial”, diz Peter Bradshaw, no jornal The Guardian. “Com o queixo sempre contraído e a testa sempre franzida, o estoicamente carismático Favino é a âncora humana certa para este projeto: simpático de uma forma forte e silenciosa, mas igualmente capaz de se fundir nos quadros movimentados e sombrios da agitação urbana do filme”, escreve Guy Lodge, na Variety.
SINOPSE Após 40 anos longe de casa, Felice retorna ao lugar onde nasceu, no centro de Nápoles, e redescobre os lugares em que andava, os códigos do bairro e um passado que o devora. Baseado no romance homônimo, de Ermanno Rea (1927–2016). Seleção oficial do Festival de Cannes 2022.
FICHA TÉCNICA Direção: Mario Martone
Roteiro: Martone, Ippolita di Majo, baseado em livro de Ermanno Rea
Produção: Luciano Stella, Roberto Sessa, Maria Carolina Terzi, Carlo Stella
Elenco: Pierfrancesco Favino, Francesco Di Leva, Tommaso Ragno, Aurora Quattrocchi, Sofia Essaidi, Nello Mascia, Emanuele Palumbo, Artem, Salvatore Striano, Virginia Apicella
Direção de Fotografia: Paolo Carnera
Desenho de Produção: Carmine Guarino
Montagem: Jacopo Quadri
Gênero: drama
País: Itália
Ano: 2022 Duração: 117 minutos
SOBRE A PANDORA FILMES
A Pandora é uma distribuidora de filmes independentes que há 30 anos busca ampliar os horizontes da distribuição de filmes no Brasil, revelando nomes outrora desconhecidos no país como Krzysztof Kieślowski, Theo Angelopoulos e Wong Kar-Wai, e relançando clássicos memoráveis em cópias restauradas, de diretores como Federico Fellini, Ingmar Bergman e Billy Wilder.
Sempre acompanhando as novas tendências do cinema mundial, os lançamentos recentes incluem “O Apartamento”, de Asghar Farhadi, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; e os vencedores da Palma de Ouro de Cannes: “The Square: A Arte da Discórdia”, de Ruben Östlund e “Parasita”, de Bong Joon-ho.
Paralelamente aos filmes internacionais, a Pandora atua com o cinema brasileiro, lançando obras de diretores renomados e também de novos talentos, como Ruy Guerra, Edgard Navarro, Sérgio Bianchi, Beto Brant, Fernando Meirelles, Gustavo Galvão, Armando Praça, Helena Ignez, Tata Amaral, Anna Muylaert, Petra Costa, Pedro Serrano e Gabriela Amaral Almeida.
O documentarista paulista Sérgio Roizenblit (O Milagre de Santa Luzia) apresentará sua primeira ficção AGRESTE no 27º Cine PE – Festival do Audiovisual, que acontece entre 4 e 9 de setembro. Esta será a première mundial do longa, que tem produção assinada pela Miração Filmes (SP), em coprodução com BR153 Filmes e SPCine. A distribuição nacional será da Pandora Filmes.
O roteiro, que participou do Lab Franco Brasileiro de Roteiros – Festival Varilux de Cinema Francês 2017, é uma adaptação da premiada peça homônima, do dramaturgo pernambucano radicado em São Paulo Newton Moreno, que assina o roteiro com Marcus Aurelius Pimenta. O filme se passa no interior do Nordeste e narra o conflito entre a intolerância religiosa e moral e uma história de amor e liberdade, protagonizada por um trabalhador rural, Etevaldo (Aury Porto), e Maria (Badu Morais), uma jovem prometida a um casamento arranjado.
Apaixonados, eles fogem juntos pelo sertão, e acabam se abrigando na casa de Valda (Luci Pereira), uma mulher extremamente religiosa, que vê Maria como uma filha. Porém, quando um crime passa a ser investigado na região, o romance entre Etevaldo e Maria é ameaçado.
O cineasta aponta que o tema central do filme é a intolerância. “A diferença confronta a intolerância quando as pessoas relutam em aceitar um amor incondicional. O contraste é construído desde a pureza e a inocência, a intimidade e a descoberta de novas formas de amor, à intolerância, ao preconceito violento e ao fanatismo. Esses temas formam a base do enredo e transformam o filme em uma fábula ambientada no ermo sertão nordestino, que, no entanto, remete também à modernidade, ao presente e a qualquer outro espaço”, explica.
O sertão surge, no filme, como uma força, praticamente, um mundo particular. “É um cenário visual, aparentemente, anacrônico que contrasta com a paisagem expandida: uma dádiva para a cinematografia do filme. Eu faço uso de um plano zenital, de uma distância muito acima da paisagem, como o ponto-de-vista de Deus dos personagens de um meio estéril e vazio. A paisagem é, portanto, um personagem do enredo, como já foi utilizada antes, tanto no Cinema Novo brasileiro como por diretores como Lars von Trier, em ‘Ondas do Destino’.”
Em AGRESTE, o cineasta explica que pretende honrar a humanidade das casas simples em uma paisagem inóspita. “Essa é a razão pela qual a cena de fuga nos lembra de filmes como ‘Vidas Secas’, de Nelson Pereira dos Santos, embora aqui o tema é diferente, pois revela a relação entre um ambiente árido, tanto natural quanto social, e uma história de amor invencível.”
O elenco principal e coadjuvante conta com atores de diversos estados do Brasil. A equipe de produção contou com profissionais de São Paulo (estado de origem da produção), Bahia e Pernambuco. As filmagens foram feitas em Curaçá e Juazeiro (BA), em 2019.
Nos teatros, a peça AGRESTE, que estreou em 2003, teve montagem dirigida por Marcio Aurelio Pires de Almeida, com público de mais de 300 mil pessoas, e ganhou os prêmios APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e Shell de melhor texto.
A produção é assinada por Gustavo Maximiliano, Viviane Rodrigues e Sergio Roizenblit, e codirigida por Ricardo Mordoch. A música original é composta por Dante Ozzetti.
O filme foi realizado com recursos públicos incentivados, através da Lei do Audiovisual e do Fundo Setorial do Audiovisual, administrados pela ANCINE, e com investimento da Sabesp, através do PROAC-SP, e da SPCine, através do Edital de Complementação de Produção de Longas-Metragens (2019).
A exibição do filme no CinePE será dia 6 de setembro (véspera do feriado), no Teatro do Parque, na cidade do Recife.
SINOPSE AGRESTE é uma história de amor no Sertão brasileiro. Etevaldo é um trabalhador rural solitário e reservado, recém-chegado ao vilarejo. Encontra Maria, jovem de espírito livre, porém prometida em casamento a um senhor da vizinhança. Ambos se apaixonam e fogem. São acolhidos por Valda, uma senhora profundamente religiosa, que vê Maria como uma filha. Quando um suposto sequestro passa a ser investigado na região, Etevaldo teme que seu passado seja revelado.
FICHA TÉCNICA Direção: Sérgio Roizenblit Codireção: Ricardo Mordoch Roteiro: Newton Moreno, Marcus Aurelius Pimenta Elenco: Aury Porto, Badu Morais, Luci Pereira, Jaedson Bahia, Roberto Rezende, Mohana Uchôa, Terena França, Emilly Nogueira, Lidiane de Castro, Paulo Henrique Reis de Melo, Márcia Galvão, Hertz Félix Produção: Gustavo Maximiliano, Viviane Rodrigues, Sergio Roizenblit Produção Executiva: Gustavo Maximiliano, Upex, Viviane Rodrigues, Marina Puech Leão, Sergio Roizenblit Direção de Fotografia: Humberto Bassanello Direção de Arte: Laura Carvalho Figurino: Diana Moreira Maquiagem: Mari Figueiredo Música Original: Dante Ozzetti Trilha Sonora: Dante Ozzetti, Du Moreira Som Direto: Phelipe Joannes, Pedro Garcia Montagem: Olivia Brenga, Sergio Roizenblit Música Original: Dante Ozzetti Desenho de Som e Mixagem: Nicolau Domingues, A3pS Consultoria de Roteiro: Gualberto Ferrari Consultoria de Montagem: Gualberto Ferrari, Eduardo Serrano Empresa Investidora: Sabesp Apoio Institucional: Prefeitura Municipal de Curaçá (BA) Apoio Cultural: Agrovale, Vinícola VSB, Hoteis Lazar (Juazeiro e Petrolina), Fazenda Caraíba Gênero: drama País: Brasil Ano: 2023
Sobre Sérgio Roizenblit Sérgio Roizenblit é fotógrafo e documentarista. Iniciou sua carreira na TV Educativa do Piauí, onde escrevia, produzia, dirigia e editava programas educativos. Sua criação diversificada inclui trabalhos exibidos em espaços de arte, como “Rede de Tensão” (Bienal de São Paulo). Seu primeiro documentário de longa-metragem, “O Milagre de Santa Luzia” (2009) foi premiado no Festival de Brasília, resultando na série homônima com três temporadas, um panorama sobre a música popular brasileira. Ele também dirigiu o longa documental “Médicos Cubanos” e as séries documentais “Arquiteturas”, “BR3” e “Habitar”, entre outras. Como diretor de fotografia, fez “Segundo Tempo”. Hoje é sócio diretor da Miração Filmes. AGRESTE é sua estreia na direção de longa-metragem de ficção.
Sobre a Miração Filmes Com mais de 20 anos de atuação, a Miração Filmes (SP) é uma produtora audiovisual brasileira que exibe grande diversidade temática em filmes sobre o País, com produções sobre sustentabilidade, educação, terceiro setor, mobilidade e questões urbanas, questões raciais e de gênero, música, artes plásticas, moda, dança, teatro e religião, dentre outros.
Seu foco genuíno no Brasil e nas questões brasileiras está ancorado em uma sensibilidade extrema para as principais questões nacionais e de seu povo, o que é demonstrado em extensa lista de trabalhos de inflexão local, em todas as regiões brasileiras, com destaque para a Amazônia, o sertão nordestino e o Pantanal.
Possui um catálogo de mais de 300 filmes e 20 séries documentais realizados, incluindo produções exibidas em canais como GloboNews, Bandeirantes, TV Cultura, HBO, Futura, Canal Brasil, TV Brasil, Canal Curta, Cine Brasil TV e TV Sesc, entre outros, além de dez longas-metragens premiados em todos os grandes festivais de cinema do Brasil, incluindo Festival do Rio, Festival de Brasília e Festival de Tiradentes, entre outros. Destacam-se os longas “O Milagre de Santa Luzia”, “Solidão e Fé”, “Democracia em Preto e Branco”, “SLAM: Voz de Levante” e “Segundo Tempo”. Além das séries “Arquiteturas”, eleita melhor série documental da America Latina, “Transversal do Tempo”, “Móbilis”, “Habitar Habitat”, “Brasil 2050” que está na sua terceira temporada, entre outras.
A produtora realizou uma das séries mais longevas da TV Brasileira, “O Milagre de Santa Luzia”, com três Temporadas e 117 episódios, licenciada para diversos canais do País.
Com pontuação máxima na Ancine nas categorias TV e Cinema, a Miração Filmes conta com projetos em fase de desenvolvimento e captação de recursos, como os longa-metragem ficcional “Imortais”; os documentários “Nicolelis, Desafiando o Impossível”,”Batuque Diferente: 50 Anos das Quebradas do Mundaréu”; e as séries “Pedro Moraleida, a Canção do Sangue Fervente”, “Cooperação Amazônica com Rubens Ricupero”, “As Krianças do Cariri”, “Facas e Sangue na Cidade” e “Txai Macedo e as Diferentes Etnias”, entre outros.
Sobre a Pandora Filmes A Pandora é uma distribuidora de filmes independentes que há 30 anos busca ampliar os horizontes da distribuição de filmes no Brasil, revelando nomes outrora desconhecidos no país, como Krzysztof Kieślowski, Theo Angelopoulos e Wong Kar-Wai, e relançando clássicos memoráveis em cópias restauradas, de diretores como Federico Fellini, Ingmar Bergman e Billy Wilder. Sempre acompanhando as novas tendências do cinema mundial, os lançamentos recentes incluem “O Apartamento”, de Asghar Farhadi, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; e os vencedores da Palma de Ouro de Cannes: “The Square: A Arte da Discórdia”, de Ruben Östlund e “Parasita”, de Bong Joon Ho.
Paralelamente aos filmes internacionais, a Pandora atua com o cinema brasileiro, lançando obras de diretores renomados e também de novos talentos, como Ruy Guerra, Edgard Navarro, Sérgio Bianchi, Beto Brant, Fernando Meirelles, Gustavo Galvão, Armando Praça, Helena Ignez, Tata Amaral, Anna Muylaert, Petra Costa, Pedro Serrano e Gabriela Amaral Almeida.
Barbie: um filme filosófico que vai além do feminismo
Letícia Mariana: Crítica ‘Barbie: um filme filosófico que vai além do feminismo’
Letícia Mariana
Na terça-feira, dia 25, fui assistir ao aclamado filme da boneca Barbie. Uma figura amada por muitas e questionada neste século, pôde, finalmente, mostrar o seu verdadeiro propósito.
A marca mais questionada pelo movimento feminista mostrou empoderamento feminino, sensibilidade e muita maturidade nas telas do cinema mundial. Arrecadando milhões em bilheteria, Barbie pôde emocionar homens, mulheres, idosos e crianças, trazendo reflexões filosóficas com um tom cômico e crítico.
Na Barbielândia, todas as mulheres de plástico podem ser tudo o que quiserem, assim como o slogan do brinquedo. As Barbies ganham o Nobel de Jornalismo e Literatura, a Barbie Presidente é justa e forte, mulheres têm diplomas, mestrados, doutorados, profissões e espaço num mundo que é delas.
Mas os Kens, bem, eles são somente os Kens. As sombras delas neste universo majoritariamente feminino. Algo que era normal e conveniente para quase todos os homens da Barbie World, menos para um deles – de forma aparentemente inconsciente
Quando a Barbie estereotipada começa a ter pensamentos depressivos e “pés retos”, seu destino é visitar o mundo real e resolver os problemas da suposta criança que a controla. Contra sua vontade, Ken segue neste caminho incerto em busca da restauração da boneca.
Tudo parece estranho. Os trabalhos são majoritariamente masculinos, empresas são feitas por homens e até o presidente é um homem! Barbie, ocupada demais pensando em seu encontro com a criança deprimida, não percebe que o mundo real não é feminino – muito menos feminista.
Contrapartida, Ken sente orgulho ao notar que é respeitado, valorizado e exaltado. Busca livros sobre patriarcado e resolve retornar ao mundo das Barbies para contar a novidade aos Kens, assim, transformando Barbielândia num espaço masculino e totalmente machista.
Não gostaria de estragar a surpresa e relatar a continuação, mas o Ken não é o vilão como muitos dizem ser nas críticas. O final surpreende e traz a mensagem de amor-próprio, união entre homens e mulheres e, claro, uma crítica sobre o nosso sentimento em relação ao machismo. Junto com isso, nós, mulheres, também passamos a compreender muitas das fragilidades masculinas, seus medos, pesos, ansiedades.
Parece um filme bobo no início, mas se transforma num sensacional mergulho da psiquê humana. Cada centavo do ingresso vale a pena – principalmente com pipoca.
A noite das vampiras: o ressuscitar do cinema fantástico nacional
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Marcus Hemerly: ‘A noite das vampiras’
Entrevista com o diretor Rubens Mello
Quando se lança um olhar linear sobre a evolução histórica do cinema nacional, inúmeros fenômenos ou movimentos exsurgem evidenciados. De um lado, apontamos o chamado Cinema Novo, com expoentes como Glauber Rocha, Cacá Diegue e Rui Guerra; estilo cinematográfico mais imerso em questões ou provocações sobre problemáticas sociais e existenciais, similar à Nouvelle Vogue francesa.
Aponta-se o Cinema Marginal, de pronunciadas feições experimentais e autorais, que se integrou às produções da Boca do Lixo paulistana, reduto onde se produziu o maior percentual de títulos no Brasil durante mais de duas décadas. Desde as chanchadas da Atlântida, a diversidade da Vera Cruz, e a multitude de temas tratados na também chamada Boca do Cinema (Boca do Lixo), é inolvidável reconhecer a gama criativa e força do cinema brasileiro.
Imprescindível ressaltar a palavra versatilidade, pois, filmou-se bangue bangue, policiais, musicais, seja estilo discoteca ou caipira, e até mesmo, o terror. E, à obviedade, quando se menciona o sinônimo de terror, o primeiro nome que assoma à mente é o do saudoso cineasta José Mojica Marins, mundialmente famoso como “Zé do caixão” ou Coffin Joe, no exterior, personagem por ele imortalizado em sua primeira incursão ao gênero na produção “À meia-noite levarei sua alma”, de 1964. A obra de José Mojica, seu tom fortemente inovador e criativo, quase no sentido visceral instintivo, merece não apenas um artigo, mas livros, ensaios e estudos fílmicos.
Nesse passo, Mojica era também conhecido pelos inúmeros discípulos, um em especial, sobre quem conheceremos um pouco da carreira. Recentemente, o cineasta guarulhense Rubens Mello, ator e autor de excelentes curtas-metragens encerrou as filmagens e processo de edição de seu primeiro longa, o terrir “A noite das vampiras”.
O projeto conta com participações ilustres como as atrizes Nicole Puzzi e Débora Munhyz, musas do cinema paulista e estrelas de inúmeras produções famosas, além da atriz, roteirista e escritora Liz Marins Vamp, filha do mestre Mojica, falecido em 2020.
É cediço que a popularização e consumo do cinema nacional fortemente identificado nos anos 60, 70 e início dos anos 80, teve um decréscimo produtivo, inclusive concomitante à extinção da Embrafilme, nos anos 90. Desde então, o cinema brasileiro vem enfrentando dois extremos: vislumbrar-se, numa vertente, as produções com super financiamentos de concepção mais comercial, e de outro lado, um sufocamento à realização independente, tornando cada vez mais difícil fazer arte em terras brasileiras.
Digno de nota que o cinema fantástico e de terror, ainda sobrevive pontualmente, mesmo não revestindo-se de feições massificantes no que tange a distribuição ao grande público, mas permanecendo constante e crescendo cada vez mais em número e visibilidade. É o que se percebe pelos festivais e projetos cinematográficos governamentais ou privados daqueles que ainda ousam deixar a fera criativa da sétima arte se sobrepor às dificuldades práticas.
De forma recorrente, pontua-se que ao artista, além da capacidade criativa, agasalham-se as peculiaridades heroicas da ousadia e coragem. Nesse espaço, conheceremos um pouco sobre a carreira do diretor Rubens Mello e o processo de filmagem do longa que estreia no dia 05 de julho na Cinemateca Brasileira, um dos pontos mais celebrados da cultura nacional, o que, novamente, assimila dupla e inspirada congratulação ao cineasta e equipe.
ENTREVISTA: CONHECENDO O CINEASTA RUBENS MELLO
Compartilhe com os leitores um pouco da sua formação e cultivo da paixão pelo cinema. Como nasceu esse amor pela sétima arte, e, principalmente, o gênero de horror?
Desde pequeno sempre fui ligado no audiovisual. Grande parte da minha infância e juventude, ao contrário dos vizinhos, que brincavam empinando pipa, jogando bola e outras brincadeiras tradicionais para a época, eu sempre me vi sentado em frente à televisão. Assistia de tudo, desde os programas infantis a filmes e séries de aventura.
Mas o cinema fantástico entrou em minha vida, quando, aos cinco anos de idade, assisti ao pé da escada o filme que meus pais assistiam: “O Fantasma da Ópera”, a versão de 1925 – com Lon Chaney. O contraste entre a luz e as sombras me assombrou por tempos, nas imagens oníricas que o filme proporcionou, e que ficarão imersas em meu subconsciente. O amor pelo fantástico se concretizou com “King Kong”, a versão original, de 1933. Imbatível até nos dias de hoje.
Sabemos que além de discípulo do saudoso José Mojica Marins, você foi cotado para ser o substituto do mestre, e com ele desenvolveu uma relação próxima. Conte-nos um pouco a respeito.
Minha avó morava próximo à “sinagoga” do Mojica, localizada no bairro do Brás. Era inevitável cruzar com o “Zé do Caixão” quando íamos visitá-la. Eu, uma criança de colo com uns três anos de idade, acredito, morria de medo ao ver aquela figura de negro com unhas enormes.
Com o passar do tempo, desenvolvi o hábito de acordar de madrugada, para assistir filmes de terror na televisão, cuja programação vinha numa cessão dedicada a filmes de terror, nos jornais distribuídos no bairro, e assim, descobri os filmes do “Zé do Caixão”.
Em 1998, descobri, por acaso, que o Mojica procurava um ator que interpretasse o personagem “Zé do Caixão” no filme que encerraria sua trilogia, o “Encarnação do Demônio”, que originalmente, se passaria na época dos outros anteriores, “À meia-noite Levarei sua alma” e “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver”.
O filme acabou sendo produzido pela Gullane Filmes e Olhos de Cão, que queriam o Mojica como o personagem, sendo a história alterada para 40 anos depois dos eventos dos dois primeiros filmes. Mas acabamos por criar uma relação de amizade incrível, e sempre colaboramos um com o outro em diversos projetos. Vivia ao seu lado em momentos cotidianos. Íamos ao mercado, jogávamos na loteria, assistíamos filmes juntos, fazíamos sonhos e planos e por aí vai. Até fui cobaia de seus experimentos culinários (risos). São momentos que levarei para sempre com muito carinho.
Como você enveredou ao mundo do cinema?
Antes mesmo de conhecer o Mojica, eu já escrevia histórias e gravava os diálogos com amigos e vizinhos. Meu pai havia construído para mim uma caixa que eu chamava de “Lanterna Mágica”, que era uma caixa de madeira com o fundo recortado e uma peça de vidro transparente era colocada no espaço. Dentro da caixa tinha duas manivelas e três lâmpadas, uma azul (para noite) uma branca/amarelada (para dia) e uma vermelha (para momentos tensos). Na manivela inferior, eu colocava enrolado um rolo de desenhos colados sequencialmente, contando uma história, como um quadrinho sem balão de texto, pois os diálogos, como disse, eram gravados e sonorizados.
Aos 16 anos, meu pai ganhou numa rifa um projetor e uma câmera de super 8. A câmera não funcionava, mas o projetor sim. Tenho guardado até hoje uma versão do “Drácula”(a versão de 1979) em película. Depois, acabei ganhando uma câmera VHS.
Em meados de 2004, se não me falha a memória, a Liz Marins, filha do Mojica, que tinha um estúdio próximo à Paulista. Nos reuníamos muito lá para assistir filmes, tomar vinho, fumar narguilé e fomentar arte e cultura.
Numa destas ocasiões, tinha exibido meu média metragem ‘Lâmia Vampiro”, e a Liz veio conversar comigo. Ela elogiou o filme, elogiou minha criatividade, mas também disse que eu tinha capacidade de fazer melhor, com enquadramentos etc. etc… ela me contou depois que ficou apreensiva sobre seu comentário, pois eu poderia interpretar mal o conselho dado.
Mas, ao contrário, entendi o que ela havia dito e guardei no coração e agradeço por tudo, pois logo após essa produção, produzi o curta que me deu 4 prêmios- “A História de Lia”. Inclusive, gravamos uma cena no estúdio dela. Liz é para mim uma irmã e também minha madrinha no audiovisual. Tudo que sei e que faço, aprendi observando o Mojica e ouvindo os conselhos da Liz, minha maior incentivadora e apoiadora.
Minha saúde é muito frágil. Sou transplantado há 30 anos, e constantemente estou em hospitais por conta da baixa imunidade e doenças oportunistas, além de que, em decorrência da medicação que tenho que tomar, trouxe vários efeitos colaterais…e em todos os momentos, bons e ruins, ela esteve e está ao meu lado.
Em 2002 dediquei parte da vida participando de filmes publicitários, participei de alguns curtas e longas metragens como “Carandiru’, ‘Meninos de Kichute’, “Encarnação do Dêmonio”. Sigo escrevendo e produzindo minhas histórias, tendo minha formação também como ator e locutor.
Quais as dificuldades principais em filmar no Brasil, e como se constrói as etapas de confecção de um longa-metragem?
O Brasil é um país complexo. Produzir arte-cultura não é tarefa fácil. Os instrumentos que possuímos, (editais e leis de incentivo) não são de fácil acesso e, geralmente, sempre ganham as “mesmas cartas marcadas”, mas toda regra tem exceção!
Meus filmes são produzidos de forma independente, ou seja, conto com apoio cultural, e todo o resto sai de meu bolso. Já tentei duas vezes fazer essas plataformas de apoio e arrecadações virtuais e por meio de vaquinhas, mas os apoios sempre foram poucos. Desisti!
A solução era: ou põe a mão bolso, ou não faz. Ai, entra um grande exemplo que é do próprio Mojica, que vendeu até suas coisas pessoais para realizar o “À Meia Noite Levarei sua Alma”. E foi assim que realizei meu primeiro longa – “A Noite das Vampiras”, que tem sua estreia no dia 05/7 na Cinemateca Brasileira.
As etapas de produção consistem em:
Argumento/roteiro
Pré-Produção
Cronograma/orçamento
Equipe/elenco
Ensaios
Estética
Decupagem
Filmagem/produção
Montagem/Pós-produção
Festivais/distribuição
A despeito de termos no Brasil grandes representantes do “Terrir”, união de horror a “pitadas” cômicas, a exemplo do cineasta Ivan Cardoso, tal vertente do cinema havia sido negligenciado nas últimas décadas, o que lhe inspirou a conceber o longa “A Noite das Vampiras” como uma releitura do gênero?
Antes de nos isolarmos por conta da pandemia, estávamos gravando, em fevereiro de 2020, o que seria meu primeiro longa, o filme “O Aniversário”
Estávamos na sexta diária e tivemos que interromper para ficarmos em quarentena. No início de 2021, escrevi “A Noite das Vampiras”, inspirado por um curta que editei para a amiga Patty Fang, “Os Crimes da Rua do Arvoredo”. A ideia era fazer algo descontraído, um típico filme B, mas acho que derrubei fermento acidentalmente e o projeto cresceu, (risos).
Não quis retornar ao “O Aniversario”, pois a temática era pesada e cheio de temas tabus. Havia perdido muitos amigos, inclusive meu guitarrista. Então, queria algo leve, queria rir, descontrair, estar perto de pessoas que amo e me fazem bem. Já tinha pensado em Debora Munhyz e Liz Marins “Liz Vamp”, e, numa conversa com a Debora, especulei sobre a possibilidade da Nicole Puzzi topar. E que presente foi ela ter dito sim. Hoje ela mora no meu coração e faz parte da minha vida. Sou só agradecimentos.
É impossível não relacionar o filme ao Ivan Cardoso – Mestre do Terrir Nacional – até porque a Nicole já tinha trabalhado com ele no longa “As Sete Vampiras”.
Como você vislumbra o cenário atual do cinema brasileiro fantástico, e existe ainda espaço para os amantes da arte se aventurarem no processo de movie making?
Segundo Carlos Primatti, mestre no horror Brasileiro, cenário atual é a época mais prolífica em quantidade, qualidade e diversidade de propostas do horror no cinema brasileiro ao longo de toda a trajetória do gênero nas telas, desde o surgimento de Zé do Caixão, na metade dos anos 1960, passando pelo experimentalismo udigrúdi, o horror existencialista, o Cinema da Boca, de horror e as comédias e paródias de terror dos anos 1970 e 80, bem como o Cinema da Retomada, dos anos 1990 e 2000.
Atualmente, o cinema nacional circula mais que nunca fora do país. A disponibilidade de filmes em diversos formatos – e principalmente formatos digitais – aumentou bastante nos últimos anos, não apenas em festivais e mostras, mas também em locadoras e serviços de streaming.
Portanto, o espaço para novas produções existe e está acessível à produções que tenham um mínimo de qualidade.
Sabemos que, além de ator e cineasta, também é músico. Quais são seus futuros projetos artísticos, seja no cinema ou em outras veredas criativas?
Penso em retomar “O Aniversário”, também já tenho o argumento para “A Volta das Vampiras” e um sonho que é realizar “O Asema”, meu primeiro roteiro para longa, mas de difícil realização por conta de efeitos e maquiagens. “O Asema – Quando a Noite Chega” é um filme caro.
Também compus algumas canções e estou louco de vontade de entrar um estúdio para tirar do papel.
A Noite das Vampiras (2023)
Estreia: Dia 05/07/2023, na Cinemateca brasileira.
Endereço: Largo Sen. Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino, São Paulo – SP, 04021-070
Os ingressos poderão ser retirados com uma hora de antecedência.
Sinopse: Justine, uma famosa atriz de TV, criada por pais adotivos, é convidada para conhecer sua família biológica. O encontro se dá às vésperas de uma festa, que acontece anualmente, para celebrar o sucesso do açougue gerido pela sua família. Mas, o que era para ser apenas uma reaproximação com sua verdadeira família, se torna algo sinistro, onde coisas absurdas acontecem, levando Justine a conhecer o verdadeiro segredo do sucesso dos negócios da família.
Elenco:
Debora Munhyz – Lenôra
Nicole Puzzi – Alecsandra
Liz Marins – Caterina
Alice Tarsitano – Justine
Marcio Farias – Eduardo
Petter Baiestorf – Dr. Hellstilingue
Cleiner Micceno – Astolfo Margarino
Dominique Brand – Marcela
Larissa Brito – Camila
Morgana Loren
Asteroides Trio
Equipe Técnica:
Direção e roteiro – Rubens Mello
Assistente Direção – André Okuma/Cleiner Miceno
Direção de Arte -André Okuma
Figurinos – Reiko Otake e Mayumi Otake (OTAKE-UP)
Fotografia – Nelson Simplício e Wesley Gabriel
Produção e produção executiva – Paulo Aros
Coprodução – Rubens Mello
Direção de Produção: Albino Ventura
Produção DE SET – Filipe Fritos
Assistente Produção – José Lino Silva
Som Direto – Guilherme Andrade
Gaffer – Filipe Fritos
TRILHA Kalau Franco
Efeitos Práticos – Estúdio Marítimo e Rubens Mello
MAQUIAGEM FX – Willyam Ferrari, Ales de Lara e Karen Furbino
A minissérie Missa da Meia-Noite e uma reflexão sobre a eternidade
Bruna Rosalem
COLUNA PSICANÁLISE E COTIDIANO
“Missa da Meia-Noite, no original Midnight Mass, é uma minissérie de 2021 do gênero terror que traz narrativas, no mínimo, intrigantes.”
Bruna Rosalem
Missa da Meia-Noite, no original Midnight Mass, é uma minissérie de 2021 do gênero terror que traz narrativas, no mínimo, intrigantes.
De ambientação inóspita, nos transportamos para uma remota ilha de pescadores chamada Crockett, cercada de paisagens frias, cinzentas, quase que sem vida e cores, exceto pelos poucos 128 moradores que buscam tornar aquele lugar ainda habitável.
Abordando temáticas um tanto espinhosas como fanatismo religioso, dominação via discurso opressor e inquisidor, manipulação da fé das pessoas, promessas de cura e milagres, desde que haja total devoção e obediência às pregações, controle pelo medo, entre outras que poderíamos citar, há um questionamento muito interessante que a série nos apresenta através da personagem do padre, Monsenhor Pruitt, o líder do templo, que toma uma decisão extrema.
Após quarenta anos de intenso trabalho na paródia, os habitantes frequentadores da igreja, financiaram uma viagem a Israel para Pruitt conhecer os caminhos percorridos por Jesus, como forma de agradecimento pelos anos de dedicação e devoção. Como o padre já apresentava alguns indícios de demência, acabou se perdendo do grupo de turistas, refugiando-se em uma caverna após uma tempestade de areia. Lá ele recebe a visita de uma criatura alada, um misto de demônio e vampiro que lhe propõe algo tentador: renunciar ao inevitável fim da vida e conquistar a eternidade!
Após a criatura beber seu sangue, ele se vê jovem e belo novamente, ao passo que retorna a ilha como padre Paul. Porém este ato tem seu preço a pagar: o ser demoníaco estará junto com ele para todo o sempre, alimentando-se de seu sangue e das pessoas da ilha. Mais um detalhe: agora rejuvenescido, Paul não poderá mais ver a luz do dia, pois isso o fará queimar até a morte. Ao escolher ser jovem e nunca mais envelhecer, nem adoecer, o padre passa então a viver a maior parte do tempo recluso, mais restrito ao templo, refém da escuridão. Tanto é que passa a fazer os cultos somente à noite.
A chegada do padre Paul à ilha foi recebida com animosidade pelos moradores que sequer poderiam imaginar que era o velho Monsenhor Pruitt. Acreditavam que era apenas um substituto mais jovial que traria vigor à igreja.
De fato. Com uma abordagem mais radical, agressiva e distorcida dos textos bíblicos, as pregações de Paul eram ousadas, provocativas e chegavam a suscitar indagações aos fiéis acerca dos conteúdos do livro sagrado.
Realmente, os discursos proferidos pelo padre Paul eram sedutores e manipuladores. Ninguém desconfiava que aqueles dizeres estavam redimensionando a fé daquelas pessoas, atribuindo uma nova roupagem para as crenças. E uma das cenas mais marcantes foi a presença do demônio/vampiro junto aos fiéis que o viam como um anjo, mesmo sendo evidente que sua aparência não era nada angelical. Não houve espanto, nem incômodo. A criatura transitou livremente em meio a eles. E tão logo, o “anjo” mostrou a que veio: alimentar-se abundantemente de sangue.
Milagres foram realizados, e dois chamaram a atenção: a garota cadeirante voltou a andar e uma velha senhora, uma antiga paixão do padre Pruitt, rejuvenesceu assustadoramente, ficando ainda mais jovem que sua própria filha. Apesar dos rostos surpresos dos fiéis, eles estavam tão alienados que mal percebiam que tudo aquilo era muito estranho.
Gradativamente, a presença daquela figura infernal foi tornando a ilha caótica. Os habitantes que tiveram seu sangue sugado, transformaram-se em seres vampirescos, fadados às trevas, a viver em sombras, impossibilitados de sentir a luz solar.
O padre Paul, apesar de seu regozijo genuíno por voltar a ser jovial e de ter um corpo forte e saudável, começa a reconhecer que pagou um preço alto demais pela eternidade e que talvez não valesse tanto a pena se for às custas do sangue de inocentes que acreditavam em suas palavras e na fé que carregavam em seus corações.
Pela formosura da pele restaurada, pelo poder de não envelhecer, nem de sucumbir a doenças, Paul vendeu sua alma. No entanto, aprisionou-se para sempre neste abismo. Se formos pensar neste momento, o fator mais natural de nossa vida é a morte. Parece paradoxal que vivemos para morrer um dia. Mas se não for assim, qual o sentido que daremos a nossa existência?
Será mesmo que conseguiríamos suportar uma vida eterna? Transitar por gerações e gerações, vivenciar guerras, colapsos, pandemias, tsunamis, contágios em massa, doenças “novas e velhas”, infecções, mudanças climáticas? Claro que não vivenciaríamos somente aspectos negativos, mas será que é justamente neste ínterim, entre momentos bons e ruins, que enxergamos a beleza da vida? Que buscamos realizar sonhos e alimentar desejos, pois sabemos que um dia deixaremos de existir?
Missa da Meia-Noite é repleto de diálogos e monólogos muito ricos acerca do que é a vida e a morte. Nos convida a refletir de diversas maneiras e nos deixa livres para atribuir nosso peculiar sentido a estas indagações. Afinal, é extremamente subjetivo as respostas que buscamos para o nosso viver.
As batalhas são diárias, vencemos umas, perdemos outras. A única luta que certamente já nascemos derrotados é para a morte. E não haverá nada a se fazer.