Entrevista com o mestre romeno Gigi Căciuleanu
Rhea Cristina
‘Entrevista com o mestre romeno Gigi Căciuleanu’

“É preciso muito talento, grande habilidade, autodisciplina e autocensura para conseguir inventar não apenas algo novo, mas também algo realmente válido!” (Gigi Căciuleanu)
Caros amigos, tenho o grande prazer e a honra de dar continuidade à minha série de entrevistas na maravilhosa revista Jornal Cultural ROL com esta entrevista realizada com o renomado bailarino e coreógrafo francês de origem romena, Gigi Căciuleanu.

A entrevista foi publicada no meu quarto livro de entrevistas, ROMENOS DO SÉCULO XXI. Entrevistas-documento com personalidades romenas (editora Pro Universitaria, 2013).
O volume contém 32 entrevistas com 29 personalidades (culturais e sociopolíticas) da Roménia contemporânea, nas quais analiso diversos aspetos da vida política, socioeconómica e cultural da Roménia, bem como as formas pelas quais estas foram afetadas pela ideologia comunista e pela transição para a democracia após 1989.
Os temas de discussão destas entrevistas abordam a ideia da nação romena, o destino do povo romeno nos planos cultural, social, histórico e político, analisando o processo do comunismo na Roménia, o período de transição pós-comunista e a fase da monarquia constitucional da Roménia.

Conhecido como bailarino e coreógrafo em quatro continentes, dançarino ao lado de Pina Bausch, coreógrafo em diversas ocasiões em sua companhia, coreógrafo e parceiro de Maya Plisetskaya, entre tantas outras colaborações internacionais, além de diretor artístico do Ballet Nacional Chileno, “El Banch”, Gigi Căciuleanu é, por sua maneira de ser, uma combinação singular de originalidade, sensibilidade artística e humor.
Gigi Căciuleanu é primeiro bailarino e professor de dança contemporânea de renome mundial, fundador da companhia de dança que leva seu nome. É um dos mais importantes bailarinos, coreógrafos e professores romenos de dança contemporânea, com uma notável carreira internacional desenvolvida na Romênia, França, Chile e em diversos outros países.
Nascido em Bucareste e formado pela Escola Nacional de Coreografia, descobriu a dança contemporânea aos 14 anos, sob a orientação de Miriam Răducanu, participando das célebres “Nocturnas 9½”. Complementou sua formação artística no Teatro Bolshoi, em Moscou, e tornou-se solista da Ópera Romena de Bucareste, onde interpretou papéis de destaque e inspirou a criação de partituras coreográficas especialmente concebidas para ele.
Desde o início da década de 1970, destacou-se internacionalmente ao conquistar importantes prêmios de coreografia: o Prêmio de Coreografia no Concurso Internacional de Varna (1970) e, por duas vezes, o Primeiro Prêmio no Concurso Internacional de Coreografia de Colônia (1971 e 1972). Entre 1972 e 1973, integrou a companhia Folkwang Ballet, em Essen, dirigida por Pina Bausch, onde criou dez obras originais.
Em 1973, com o apoio de Rosella Hightower, fundou em Nancy, na França, o Estúdio de Dança Contemporânea, que posteriormente se transformaria nos “Ballets de Lorraine – Danse Contemporaine de France”.
Entre 1974 e 1978, dirigiu o Balé do Grand Théâtre de Nancy, contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento da dança contemporânea francesa. Tornou-se membro da SACD e um dos fundadores do Conselho Internacional da Dança da UNESCO, organizando festivais, turnês e encontros coreográficos, além de promover numerosos artistas da nova geração.
No período de 1978 a 1993, foi diretor artístico do Centro Nacional Coreográfico de Rennes e do Teatro Coreográfico Rennes/Bretagne. Colaborou com personalidades de renome mundial, como Astor Piazzolla, Pina Bausch, Maya Plisetskaya e Jean-Michel Jarre. Suas coreografias passaram a integrar o repertório de importantes instituições culturais de Paris, Hamburgo, Roma, Veneza, Cardiff, Montevidéu, São Paulo e Israel. Nessa mesma fase, organizou numerosas turnês internacionais e consolidou sua reputação como um criador inovador.
Seu reconhecimento internacional foi confirmado por diversas distinções. Em 1984, recebeu na França o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras. Em 1991, conquistou o Prêmio de Coreografia da revista Actualitatea Muzicală e, em 1992, criou para Maya Plisetskaya o espetáculo A Louca de Chaillot (Nebuna din Chaillot), apresentado com grande sucesso em Moscou. Suas criações foram transmitidas por importantes emissoras internacionais de televisão.
A partir de 1994, estabeleceu-se em Paris e fundou a Companhia Gigi Căciuleanu, com a qual desenvolveu inúmeros espetáculos e turnês internacionais. Paralelamente, colaborou com instituições e companhias de dança da Europa e da América Latina.
Em 2001, assumiu a direção artística do Balé Nacional do Chile, onde criou diversos espetáculos amplamente aclamados e recebeu importantes prêmios, incluindo o Prêmio Altazor, equivalente chileno do Oscar das artes.
Nas décadas de 2000 e 2010, continuou a criar espetáculos na França, Chile, Uruguai e Romênia, a ministrar oficinas e masterclasses e a participar de júris internacionais de dança. Em 2007, fundou em Bucareste a Gigi Căciuleanu Romania Dance Company. Sua atividade foi recompensada com inúmeras distinções, entre elas o Prêmio Especial UNITER pelo conjunto da carreira (2010), o Prêmio ROMAinDANZA pela contribuição ao desenvolvimento do teatro-dança contemporâneo (2011), o título de Professor Honoris Causa da Universidade de Artes de Târgu Mureș (2012) e a Medalha Reitoral da Universidade do Chile.
Por meio de sua atividade artística, pedagógica e de gestão, Gigi Căciuleanu contribuiu de forma decisiva para a afirmação e o desenvolvimento da dança contemporânea em nível internacional, sendo considerado uma das grandes personalidades da coreografia mundial.
Em agosto de 2009, tive o privilégio de realizar uma entrevista com o mestre Gigi Căciuleanu. Um homem da comunicação e da excelência artística. Um artista seduzido pelo próprio voo, pelo conhecimento humano da Arte. E um ser de rara modéstia.
Reproduzo agora, na íntegra, esta fascinante entrevista.
Rhea Cristina: Antes de dezembro de 1989, qual era o significado do repertório da Ópera? O termo “bailarino” tinha o mesmo significado que “dançarino”? E depois de 1989?
Gigi Căciuleanu: Prefiro que me chamem de “dançarino”. Nunca gostei do termo “bailarino”. É uma espécie de equivalente masculino de “bailarina”. A bailarina é aquela que faz as jovens sonharem. O dançarino (tanto no masculino quanto no feminino) é aquele que faz pensar. Isso vale tanto antes quanto depois de 1989.
Voltando ao repertório. Considero que, no que diz respeito ao Balé (e à Ópera), a situação na Romênia (assim como nos demais países do Leste Europeu) era muito positiva. Qualquer pessoa podia assistir, a qualquer momento, a qualquer obra do repertório. Isso se perdeu ou nunca existiu no Ocidente.
As criações são produzidas e descartadas conforme o gosto do momento, mas nada permanece. O que teria acontecido com O Lago dos Cisnes se não existisse a noção de repertório e se a obra não tivesse sido integrada a ele?… Ou com Molière sem a Comédie-Française e Bertolt Brecht sem o Berliner Ensemble?… E o que teria sido da pintura moderna (e das artes plásticas em geral) se tivéssemos jogado fora as telas de Da Vinci, Rafael, Rembrandt, Picasso, Dalí etc., depois de vê-las apenas uma única vez?
Rhea Cristina: O que a dança representa, em nível europeu e mundial, em 2009?
Gigi Căciuleanu: A dança, apesar de ser talvez a arte mais antiga e mais completa que existe (afinal, não há uma única parte, não apenas do corpo, mas de todo o ser humano, que não participe do ato de dançar!), continua sendo… a quinta roda da carroça. Não por culpa do público ou das diferentes “autoridades” culturais, mas sobretudo por culpa… nossa, dos artistas da dança.
Minha opinião é a seguinte:
- A dança é uma arte tão antiga quanto ainda inexplorada;
- Para que ela saia da sua “idade da pedra”, é necessário PROFISSIONALISMO em um nível muito elevado.
Não se deve aceitar qualquer coisa, a qualquer momento e de qualquer pessoa…
Claro que tudo é possível!
Beethoven também era uma possibilidade, mas, entre infinitas possibilidades, até hoje surgiu… apenas um único Beethoven!
Para ser um artista da dança, é preciso conhecer o próprio instrumento, ou seja, o CORPO, e isso não apenas em cada átomo do ser físico, mas até nas profundezas do cérebro.
Para ser Verdi, não basta ter algumas ideias ou saber organizar uma melodia; é preciso também conhecer as cordas vocais.
Para ser verdadeiramente um coreógrafo (e não apenas um organizador de movimentos), considero indispensável ter passado pela prova de fogo do palco, ter dançado centenas ou milhares de horas seguidas, ter morrido dançando entre quatro paredes e ressuscitado outras tantas vezes.
Rhea Cristina: Nesse contexto, onde se situa o dançarino romeno? Ele é um bastardo da Europa? Faz parte da elite da coreografia europeia ou mundial?
Gigi Căciuleanu: Não devemos confundir a noção de dançarino com a noção mais ampla de artista coreográfico, de coreógrafo, de coreautor (definição criada por Serge Lifar). O dançarino, assim como o artista circense, é uma espécie de bastardo não apenas da Europa, mas das artes em geral. Mas não por muito tempo.
Assim que a necessidade de uma linguagem universal se impuser como uma necessidade, como uma forma de sobrevivência, a linguagem do corpo se tornará o veículo de uma arte maior, no mesmo nível (ou talvez ainda mais necessária e elevada) que a música, o teatro etc. E as diversas imposturas (inclusive as internacionais) desaparecerão por si mesmas…
Porque a dança não é apenas movimento ou emoção (como no circo ou nos programas de variedades da televisão), mas sobretudo — pelo menos para mim — significado.
Independentemente de considerações geográficas ou político-materiais, faz realmente parte da elite da dança aquele que consegue fazer com que apenas a dança possa verdadeiramente expressá-lo, e que, por sua vez, consegue expressar-se através do movimento. De forma sincera e sem cálculo. Simplesmente pela necessidade de sobreviver (e não apenas fisicamente) por meio de sua arte. Aquele que realmente não consegue viver sem tornar-se um só com sua arte.
Ao mesmo tempo, deve ter a coragem de ser e permanecer ele mesmo (sem imitar este ou aquele). Permanecer fiel a si próprio não apenas em sua loucura, mas também em seu próprio conhecimento. Cultivar ambos, passo a passo. E aceitar, apesar do canto das sereias ou das exigências momentâneas de alguma moda, ser uma “singularidade”. Não apenas desfrutando de seus aspectos maravilhosos, mas também aceitando — e sendo capaz de suportar — as numerosas e agressivas desvantagens que essa condição representa.
Rhea Cristina: O que significava, para o coreógrafo romeno, participar de um concurso internacional de balé nas condições do marasmo totalitário comunista anterior a 1989?
Gigi Căciuleanu: Antes de 1989, era a única possibilidade de sair do país ou até mesmo de “fugir”, ou, como se dizia de forma mais elegante, de “ficar”. Em outras palavras, uma oportunidade de “escolher a liberdade”.
Rhea Cristina: E atualmente?
Gigi Căciuleanu: Participar de um concurso artístico, onde quer que ele aconteça, foi, é e continuará sendo uma loteria. Assim como os membros dos diversos júris e comissões. Muitas vezes também retirados do chapéu do acaso…
Não há como avaliar a arte de maneira objetiva. Digo isso porque participei de inúmeros concursos, dos dois lados do espelho: tanto como concorrente quanto como membro do júri. Como concorrente, tive sorte todas as vezes. Como jurado, procurei não esquecer os momentos em que minha própria arte foi julgada e pontuada, ficando à mercê de um veredicto tão subjetivo quanto aquilo que eu apresentava…
Rhea Cristina: Quais são as frustrações, as motivações e a força criadora de sua arte?
Gigi Căciuleanu: Muito frequentemente, essas noções se entrelaçam e se devoram mutuamente justamente para… alimentar o ato criador.
Rhea Cristina: Depois de 1989, podemos falar de um fracasso da coreografia romena ou de uma explosão de talentos que puderam se afirmar?
Gigi Căciuleanu: Eu falaria antes da existência permanente de grandes figuras da dança romena. Elas sempre existiram, existem e continuarão existindo. As flores não começaram a florescer depois de 1989, assim como não esperaram 1944 para fazê-lo.
Se eu tivesse de mencionar apenas uma dessas personalidades, pensaria em Miriam Răducanu. E somente por sua existência já podemos considerar que a dança romena está muito mais do que à altura…
Rhea Cristina: Na Romênia, o valor é apreciado ou desencorajado?
Gigi Căciuleanu: Voltemos ao exemplo de Miriam. Se percebermos que uma grande Dama da Dança romena (não apenas da dança moderna) — e não apenas da Romênia — não possui em seu próprio país sequer um espaço de um centímetro quadrado dedicado à sua arte (uma arte tão valiosa internacionalmente quanto específica e singular), deixo que a senhora mesma responda à pergunta…
Rhea Cristina: A dança está diretamente ligada à evolução da sociedade civil romena? Ela exerce uma ação catártica? O diálogo com o público ocorre de forma definidora e substancial na Romênia? E no Ocidente?
Gigi Căciuleanu: Não sou crítico nem historiador de arte ou de dança — e nem desejo ser.
Para descontrair um pouco: pessoalmente, tenho diante da dança a mesma atitude que tenho diante do AMOR: gosto de praticá-lo eu mesmo e não de ficar olhando os outros…
Brincadeiras à parte (embora talvez nem fosse brincadeira): a Dança, com letra maiúscula, como arte maior, está sem dúvida ligada à evolução da sociedade. Só que hoje, com a explosão dos meios de comunicação, entre os quais a Internet (a circulação de informações e vídeos) é a mais revolucionária e poderosa, já não se pode dizer que essa evolução esteja ligada apenas à sociedade romena. Estamos, na dança como em todos os outros domínios, “condenados” à globalização.
Uma ação catártica? Sem a menor dúvida. Tanto no sentido aristotélico quanto no da psicanálise.
Para mim, a dança é ao mesmo tempo doença e remédio. Doença e droga porque, se você estiver realmente “contaminado”, não consegue viver sem ela. E é também um remédio, sem qualquer dúvida, para muitas de nossas feridas físicas e emocionais. E até filosóficas, existenciais.
Uma espécie de elixir dos alquimistas, obtido não apenas pela manipulação física e/ou pela transmutação dos elementos, mas sobretudo pela transfiguração essencial da própria pessoa que provoca e conduz esse processo.
Rhea Cristina: Fale-nos um pouco sobre as origens de sua família…
Gigi Căciuleanu: Uma origem que, como se dizia antes de 1989, era o mais “não saudável” possível…
Antes de 1944, eu teria sido considerado alguém de “boa família”…
Rhea Cristina: Desde 2001, o senhor é diretor artístico do Balé Nacional do Chile, em Santiago.
Gigi Căciuleanu: Existem diretores porque são políticos (da cultura ou simplesmente da política). Outros são artistas porque são diretores. No meu caso, é diferente: sou diretor porque sou artista.
O Chile, depois da França, foi o país que me confiou o destino de uma companhia nacional. Lamento que não tenha sido a Romênia a me conceder essa honra. Mas quem sabe? Talvez um dia…
Rhea Cristina: Como isso aconteceu?
Gigi Căciuleanu: No Chile, assim como na França, deram-me a oportunidade de propor. E gostaram daquilo que eu propunha. Em Santiago, encontrei novamente um terreno fértil, como se diz na botânica.
Rhea Cristina: Como é o espaço cultural da América do Sul?
Gigi Căciuleanu: Não sou político. Nem mesmo um político da cultura…
Ele se parece com qualquer outro espaço “cultural”. Cultura não significa arte. A arte é a mesma em qualquer lugar. Ou seja, é praticada por personalidades — ou melhor, por “singularidades”.
Essas singularidades não se definem nem politicamente nem geograficamente, e evoluem não na horizontal, mas na vertical de uma espécie de escala de valores, semelhante à escala Richter dos terremotos.
Rhea Cristina: Quem foi/é Miriam Răducanu no contexto do balé romeno e mundial?
Gigi Căciuleanu: Ela é uma Mestra. Como eu dizia antes: universal, mas também única. Além de qualquer definição.
Rhea Cristina: Como a dança contemporânea se relaciona com o balé clássico, do tipo tchaikovskiano? Poderia me dar uma definição, se possível?
Gigi Căciuleanu: Dança é… dança. Uma grande crítica de dança parisiense, Dinah Maggie, dizia que o balé clássico é a dança contemporânea da época de Luís XIV. Tchaikovsky foi apenas compositor, não coreógrafo, e Petipa foi extremamente moderno para o seu tempo.
Hoje, como sempre, virar a página é algo tão necessário quanto difícil. Precisamos propor algo que supere aquilo que existiu antes, e não que o reduza. É preciso muito talento, grande habilidade, autodisciplina e autocensura para conseguir inventar não apenas algo novo, mas também algo realmente válido!
Rhea Cristina: Que tipo de esperança e de desesperança existe na sociedade romena contemporânea?
Gigi Căciuleanu: A mesma que existe no mundo inteiro, acrescida dos parâmetros específicos do espaço miorítico. Isso explica, na minha opinião, por que, apesar de termos artistas, intelectuais e cientistas excepcionais em abundância, ainda não temos nenhum Prêmio Nobel!…
Rhea Cristina: O que o público romeno espera atualmente dos coreógrafos romenos?
Gigi Căciuleanu: Provavelmente a mesma coisa que eu espero, e que qualquer um de nós espera…
A questão principal é: o que nós, artistas e criadores, somos capazes de oferecer a esse público?
Rhea Cristina: Que tipo de público de balé existe na Romênia, em comparação com a Europa e os Estados Unidos?
Gigi Căciuleanu: Tenho a impressão de que é o mesmo. “La même Jeannette mais autrement coiffée” (“A mesma Jeannette, apenas penteada de outra maneira”). Minha ideia é que o público é, em toda parte — do Chile ao Vietnã, da Romênia ao Canadá, da Grécia Antiga à moderna Nova York ou à decadente Paris — uma entidade mais inteligente ou, pelo menos, muito mais informada do que o autor de uma obra ou o intérprete em cena. E isso pela simples razão de que o público, sendo mais numeroso, representa uma quantidade maior (e também uma qualidade maior) de massa cinzenta e de antenas emocionais.
Rhea Cristina: Recentemente, em 2009, o senhor montou Sinfonia Fantástica na Ópera de Bucareste; em 2007 fundou a companhia de dança que leva seu nome, presente também no espetáculo Răzvan Mazilu e seus convidados; e, em 2009, lançou a versão em língua romena de seu livro Vento, Volumes, Vetores (Vânt, Volume, Vectori), publicado na coleção “Urban” da editora Curtea Veche, na qual descreve os símbolos alquímicos de sua arte.
Pouco antes, o senhor dançou no palco da Ópera Nacional de Bucareste ao som de La Vie en Rose, como convidado especial do evento de Răzvan Mazilu, organizado em apoio às escolas de coreografia (a última vez que o senhor havia dançado na Romênia foi em 1973, no espetáculo Um Americano em Paris, de Gershwin)…
Gigi Căciuleanu: Uau! Fui eu mesmo quem fez tudo isso???
Rhea Cristina: O que representam para o senhor a Romênia, a língua romena e o povo romeno? Qual é sua motivação para continuar vivendo e criando dança na Romênia, para os romenos?
Gigi Căciuleanu: A Romênia representa para mim um público com o qual me identifico plenamente do ponto de vista cultural, tanto pelo humor quanto pelo amor. Um público que, acredito, me compreende melhor do que qualquer outro e que eu não apenas compreendo, mas também gosto de compreender. E, pelo que me foi dado ver e viver, tenho a impressão de que o público romeno é mais apto a compreender o universal do que o público de países que se consideram depositários da “universalidade”!…
A língua romena? É a minha língua. Minha língua materna. Em determinado momento, no início do exílio, ela me ajudou a sobreviver psicologicamente. Hoje, ela me ajuda a viver. Quando não danço, escrevo. Embora eu também escreva em francês e em espanhol, e às vezes em russo, italiano ou até inglês, penso a minha dança em romeno. E aquilo que escrevo não são textos, mas dança.
Rhea Cristina: Por que o senhor decidiu se estabelecer definitivamente no Ocidente (França, Paris)?
Gigi Căciuleanu: Não fui eu que me estabeleci lá. Foi ele que se estabeleceu em mim…
Apaixonei-me por Paris desde o primeiro instante. Eu estava em Paris a caminho dos Estados Unidos quando, ao passar pela Embaixada Americana para retirar os documentos necessários à minha emigração, decidi reconstruir minha vida — ou melhor, renascer — ali, e não em outro lugar. Coupe de foudre! — amor à primeira vista!…
Rhea Cristina: Em 2009, Paris ainda é a “capital mundial da cultura”?
Gigi Căciuleanu: A capital do Artista é onde ele se encontra. Nesta época em que percebemos não apenas que a Terra é um planeta redondo, mas sobretudo que é um planeta muito pequeno, o umbigo do mundo pode estar em qualquer lugar.
Rhea Cristina: Ainda se lê poesia em Paris?
Gigi Căciuleanu: Não muito. Mas ainda se escreve.
Rhea Cristina: Qual é atualmente a situação do balé na capital francesa?
Gigi Căciuleanu: Como em qualquer outro lugar: muitas bobagens, alguns artistas maravilhosos (poucos, mas excelentes); tudo isso promovido mais pelos critérios de uma determinada política cultural do momento do que pelos da verdadeira Arte, que é atemporal e universal.
Rhea Cristina: Quais são seus maiores arrependimentos e suas maiores realizações?
Gigi Căciuleanu: Como na canção de Edith Piaf: “Non, rien de rien, non, je ne regrette rien…” (“Não, nada de nada, não me arrependo de nada…”). Quanto às minhas maiores realizações: espero que elas ainda estejam me esperando no futuro!
Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina.
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