A promessa de qualquer caminho
Um conto sensível sobre a liberdade, a história e o cotidiano, inspirado na canção ‘Any Way You Want It’ (1980) do Journey – por Clayton Alexandre Zocarato


Naquela noite, a música atravessou a janela como se soubesse o seu caminho. Vinha do rádio pequeno, de antena torta, apoiado sobre a geladeira, e ocupava a cozinha com uma confiança que ninguém ali possuía. “Any Way You Want It”, dizia o título, e para a menina sentada junto à mesa aquelas palavras pareciam menos uma promessa de amor do que uma ordem dirigida ao futuro: escolha, mova-se, seja.
Lá fora, o bairro seguia escuro, com seus postes falhando e seus portões fechados; dentro de casa, porém, o refrão abria uma estrada que não constava nos mapas. Ela não sabia ainda que toda liberdade cantada tem uma fronteira, nem que o desejo de escolher pode conviver com estruturas que escolhem por nós. Sabia apenas que a guitarra fazia o mundo parecer maior do que a sala.
Era o começo dos anos 1980, e o mundo parecia oscilar entre a promessa e o medo. Nos Estados Unidos, a eleição de Ronald Reagan, em 1980, anunciava uma década de conservadorismo político e de valorização do mercado; a Guerra Fria continuava a organizar o imaginário, como uma sombra extensa projetada sobre qualquer esperança de paz.
A inflação, o desemprego e as tensões internacionais faziam da estabilidade uma palavra desejada e, para muitos, distante. Ao mesmo tempo, as rádios difundiam canções que falavam de movimento, prazer, juventude, escolha.
O rock oferecia uma sensação de desobediência que cabia num disco, numa jaqueta de couro, numa noite de dança. A liberdade parecia estar ali, na voz que não pedia licença para existir. Mas o som não apagava as desigualdades; apenas lhes dava, por alguns minutos, uma trilha sonora.
No Brasil, a esperança tinha outro peso. A ditadura militar ainda não havia terminado, embora a abertura política estivesse em curso, marcada por avanços, recuos e disputas. A censura deixara cicatrizes nas palavras, e a vida pública era atravessada pela cautela: havia frases interrompidas antes de chegar à mesa, notícias escutadas com atenção, silêncios que os adultos chamavam de prudência.
A menina percebia esse clima sem conhecer seus nomes. Via no rosto da mãe a preocupação com as contas, no pai a raiva contida diante das notícias, nos vizinhos a conversa que mudava de rumo quando alguém se aproximava. A canção estrangeira, com sua energia luminosa, chegava como uma fresta. Não explicava o país, mas fazia imaginar um lugar onde o corpo pudesse decidir o próprio passo.
“Any way you want it”: de qualquer jeito que você quiser. Naquela frase curta, ela ouvia uma espécie de utopia pessoal. Não a liberdade dos discursos oficiais, feita de palavras solenes, mas uma liberdade miúda: poder escolher uma roupa, atravessar a rua sem medo, gostar de alguém sem pedir autorização ao mundo inteiro.
O futuro, para ela, não era uma teoria; tinha a forma de uma cidade vista de longe, com luzes acesas e portas abertas. Mais tarde, aprenderia que a frase também podia ser lida como produto: a escolha oferecida pelo mercado, limitada às opções que alguém já preparou. Herbert Marcuse havia advertido que uma sociedade pode absorver a contestação e transformar o desejo de liberdade em consumo, oferecendo satisfações que não alteram as estruturas da vida (MARCUSE, 1964). Mas naquela cozinha ninguém discutia teoria. A música começava, e a menina dançava.
Ela dançava sem técnica, com os braços abertos e os pés descalços, como se pudesse desatar os nós que os adultos carregavam nos ombros. A mãe fingia que estava ocupada com a louça, embora sorrisse quando pensava que ninguém via. O pai, sentado perto da porta, acompanhava o ritmo com os dedos sobre o joelho.
Por instantes, os três eram menos uma família apertada por dificuldades do que três pessoas dividindo uma possibilidade. A canção não os libertava do aluguel, da instabilidade nem da história política que avançava por cima das suas vidas. Ainda assim, fazia alguma coisa importante: devolvia-lhes a percepção de que eram mais do que suas obrigações.
Michel Foucault escreveu sobre as formas pelas quais o poder atravessa os gestos cotidianos, moldando comportamentos e definindo o que parece possível (FOUCAULT, 1979).
Talvez por isso dançar fosse também um gesto de resistência: não porque derrubasse o poder, mas porque recusava, por um momento, ser reduzida ao medo.
Na escola, a liberdade tinha outro vocabulário. Era uma palavra presente nos livros e ausente de certas conversas. Os professores falavam de datas, governos e civismo; alguns, porém, encontravam maneiras discretas de ensinar a fazer perguntas. A menina ainda não compreendia a dimensão política de uma pergunta bem colocada. Sabia apenas que havia respostas que pareciam prontas demais e que a realidade, quando observada com cuidado, nunca cabia inteira nelas. Em casa, os adultos falavam de mudança. A campanha pelas Diretas Já, em 1984, levaria multidões às ruas em defesa do voto direto para presidente; em 1985, o regime militar chegaria ao fim, e a Constituição de 1988 afirmaria novos direitos.
Os acontecimentos pareciam grandes demais para uma criança, mas ela os reconhecia no tom das conversas, na emoção de quem voltava das manifestações, no modo como a palavra “amanhã” começava a ser pronunciada com menos desconfiança.
A música continuou acompanhando os anos, sem pertencer inteiramente a eles. Reaparecia em festas, em rádios de carros e em lembranças inesperadas. A menina cresceu, mudou de bairro, estudou, trabalhou, amou e aprendeu que a vida não oferece escolhas em condições iguais. Para alguns, o caminho se abre com facilidade; para outros, cada porta exige uma prova de resistência.
A ideia de que basta desejar para conseguir pode ser cruel quando transforma obstáculos sociais em falhas individuais. O desejo, contudo, não se torna inútil por isso. Ele pode iluminar a distância entre o mundo existente e aquele que ainda precisa ser construído. A liberdade não é só fazer o que se quer: é também dispor de condições reais para escolher, participar e existir sem que a pobreza, a discriminação ou a violência decidam tudo de antemão.
Quando chegou o novo século, a promessa de escolha mudou de cenário. A vitrine já não ficava apenas nas lojas: cabia numa tela, cabia na palma da mão. As pessoas passaram a apresentar versões editadas de si mesmas, reunindo imagens, opiniões e pequenas provas de felicidade.
O mercado aprendeu a falar a língua da autonomia: compre, personalize, expresse-se. A tecnologia aproximou vozes e encurtou distâncias, mas também tornou a atenção uma mercadoria disputada e a intimidade uma superfície exposta. A escolha parecia infinita; o tempo, cada vez menor. Zygmunt Bauman descreveu uma modernidade em que vínculos e certezas se tornam mais frágeis, enquanto os indivíduos são pressionados a administrar sozinhos os riscos de uma vida instável (BAUMAN, 2000).
A velha utopia da canção permanecia, mas agora ecoava entre notificações, comparações e a ansiedade de estar sempre disponível.
A mulher que um dia dançara na cozinha observava esse presente com uma mistura de curiosidade e cansaço. Via jovens capazes de falar publicamente sobre direitos que sua geração aprendera a discutir com cautela. Via também discursos de ódio se espalharem com a velocidade de um clique e a desigualdade persistir sob formas que pareciam novas, embora carregassem histórias antigas.
Pensava que a liberdade de expressão não significava que todas as vozes fossem igualmente ouvidas; a liberdade de escolher não anulava as barreiras que limitam certas escolhas; a liberdade de circular não era igual para todos. O sociólogo e filósofo não precisavam estar ao seu lado para que ela percebesse o problema. Bastava olhar para as ruas, para as diferenças entre os bairros, para quem podia errar sem perder tudo e para quem era punido por simplesmente ocupar espaço.
Em algumas noites, ela voltava a pôr a canção. O som tinha agora uma textura de memória: a guitarra parecia vir de muito longe, e a voz, de uma parte de si que não envelhecera por completo. Já não escutava a promessa como uma garantia de que tudo seria possível.
Escutava-a como desejo, e talvez o desejo fosse mais honesto do que a promessa. Marcuse ajudava a pensar que uma sociedade verdadeiramente livre não se contentaria em oferecer prazer como mercadoria; precisaria transformar as condições que produzem a necessidade e a opressão. Paulo Freire, por sua vez, lembrava que ninguém se emancipa sozinho nem recebe a liberdade como presente: ela se aprende na relação com os outros, na leitura crítica do mundo e na ação coletiva (FREIRE, 1996).
A canção não dizia isso em palavras. Mas podia acompanhar esse pensamento, como uma luz que não revela tudo e, mesmo assim, impede a escuridão de parecer natural.
Talvez por isso a menina, agora adulta, tenha compreendido que a utopia não é uma fotografia de um futuro perfeito. É uma tensão dentro do presente, uma recusa a aceitar que as coisas devam permanecer como estão.
A liberdade cantada pelo Journey tinha o brilho de uma juventude que queria mover-se sem pedir desculpas; vista de hoje, ela também revela os limites de uma cultura que tantas vezes confunde autonomia com consumo e felicidade com desempenho. Não era preciso condenar a canção por isso. A música não tinha obrigação de oferecer um programa político. Bastava reconhecer o que ela despertara: a sensação de que a vida não precisava ser apenas repetição, de que o corpo podia desejar mais do que lhe haviam permitido imaginar.
Na última vez em que dançou ao som do rádio, a mulher percebeu que o gesto já não era o mesmo. Seus joelhos reclamavam, a cozinha tinha outras marcas, e muitas pessoas queridas já não estavam ali. Ainda assim, quando a guitarra tomou o espaço, alguma coisa se abriu.
Não era a mesma porta de antes; era uma porta construída com memória, lucidez e um pouco de coragem. Do lado de fora, o mundo continuava desigual, cheio de ruídos e promessas não cumpridas. Do lado de dentro, por alguns minutos, ela voltou a sentir que podia escolher o próximo passo. Não qualquer passo, nem em qualquer condição, mas um passo seu, consciente de que a liberdade individual depende também da liberdade dos outros.
Quando a música terminou, o silêncio não pareceu uma derrota. A mulher desligou o rádio e permaneceu imóvel por um instante, escutando a noite. Pensou nos anos 1980, na esperança política que saíra às ruas, no medo que ainda sobrevivia dentro das casas e na energia de uma canção que cruzara oceanos para pousar numa cozinha brasileira. Pensou também no presente, que oferece ferramentas novas sem resolver as antigas injustiças.
Talvez nenhuma geração receba a liberdade pronta. Talvez cada uma precise reconhecê-la, disputá-la e ampliá-la, sem confundir uma promessa sonora com a realidade inteira.
Do outro lado da janela, uma luz se acendeu. A vida continuava, imperfeita e aberta, e nela ainda cabia a possibilidade de escolher, junto com os outros, um caminho menos estreito.