A comunhão dos ímpios
Ramos António Amine: ‘A comunhão dos ímpios’


Comungam
no altar da hipocrisia
os que atiram pedras à luz do dia
e à noite compram o mesmo corpo
que fingem não desejar.
Comungam
os que escrevem leis
com a tinta do cálice alheio
e as cumprem
de olhos baixos
e consciência muda.
Comungam
os que nunca tocaram a ferida
mas repartem o pão
feito do sangue que não lhes pertence.
Comungam
os que se ajoelham
não para pedir perdão
mas para rir
com os lábios ainda húmidos de vinho.
Comungam
os que chamam a prostituta de terreno baldio
e nunca perguntam
quem a devastou primeiro.
Comungam
os que veem o mal passar
e desviam o olhar
como quem observa a chuva
sem sentir frio.
Comungam
os que oferecem um cálice amargo
e exigem silêncio
enquanto ela bebe.
Comungam
os que cavam fossos
e depois condenam
quem cai neles.
Comungam
os que nunca perguntaram
como ela chegou ali
mas perguntam todos os dias
por que ainda não saiu.
Comungam
os que acreditam
que sair é vontade
e não oportunidade.
Comungam
os que creem
que a fome escolhe
e que a miséria não empurra.
Comungam
os que chamam prostituição de causa
e nunca de consequência
de um mundo
que aprendeu a vender tudo,
até o que não tem preço.
Comungam
os que aplaudem a exclusão
e depois fogem dos seus efeitos.
Comungam
os que exigem pureza
de quem nunca teve escolha.
Comungam
os que pagam para olhar
e chamam isso de normalidade.
Comungam
os que dizem que a prostituta está morta
sem perceber
que o cadáver é outro:
a sensibilidade coletiva,
a ética moldada à conveniência.
Comungam
os que pensam que ela pede salvação
quando o que pede
é humanidade.
Comungam
os que a sacrificam todos os dias
para que a sociedade
continue limpa por fora.
Comungam
os que normalizam a dor
para vender facilidade.
Comungam
os que acreditam
que o altar da hipocrisia é eterno.
Mas não sabem
que ele não cai pela força,
nem pelo fogo,
nem pelo grito
basta
retirar-lhe
o silêncio cúmplice
que o alimenta.