A poesia visual de Jairo Fará

Renata Barcellos: ‘A poesia visual de Jairo Fará’

Renata Barcellos
Renata Barcellos
Jairo Fará e Renata Barcellos – Foto por Renata Barcellos

Minicurrículo: Jairo Faria Mendes (Jairo Fará): escritor, artista visual, jornalista e professor do Curso de Jornalismo da UFSJ. Pós-doutor em Jornalismo pela Universidade de Coimbra (Portugal) e em Comunicação Social pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).  Autor de livros sobre jornalismo como O Ombudsman e o Leitor (O Lutador, 2001), Minas Impressas (Literíssima, 2023) e Barão de Itararé: Riso é Resistência (Literíssima, 2024), além de obras literárias como Cidadezinha Biruta (Literatura infantil, Páginas, 2019), O Ovo do Minerim (poesia, Jararaca Books, 2011), Livro de Bolso (livro-objeto, 2014), Minas são Moitas (microlivro, 2024), Trégua e Paz (microlivro, 2025), Passe pela Catraca (poesia, Literíssima, 2026) de peças teatrais, roteiros e participações em inúmeras coletâneas.

Em 2022, lançou o CD de música e poesia Outras Esquinas (em parceria com Vaninho Vieira). Encontra-se com muitos projetos na gaveta e nos pensamentos, mas prefere viajar no mundo da poesia.

A partir da produção de Jairo Fará e da análise de seus textos, constatamos tratar-se de um artista multifacetado. Ao analisar sua produção, visualizamos como ele reordena as letras e as constituem em outros termos. Ele imprime cor em seus textos, seja no sentido real, seja no figurado. Utiliza o recurso do humor e aborda temáticas artísticas, literárias, sociais… O “olhos de águia” (como o caracterizaremos a partir da análise de sua obra), verificamos como explora as suas inúmeras possibilidades (orais e escritas) e de imagens, de modo que as linguagens verbal e icônica se complementem. Com muita técnica, ele utiliza os mais variados suportes e meios de difusão. Assim, criando suas surpreendentes soluções de apresentação da poesia.

O termo poesia experimental (nome que se dá a toda e qualquer forma de poesia moderna que utiliza recursos fora do texto versificado tradicional, aquele tipo de escrita que se ligava a um mundo em desaparecimento, ou, ao menos, em transformação) se desenvolveu por dois caminhos: da poesia sonora e o da poesia visual. Esta englobou todas as formas de recursos gráficos que a poesia moderna havia incorporado, enquanto a poesia sonora reuniu em seu interior todos os tipos de trabalhos com o som que os movimentos poéticos modernos tinham produzido. (MENEZES, 1998, p.15).

De acordo com E. M. de Melo e Castro (1993), a poesia visual aparece de uma forma consistente quatro vezes na história da arte ocidental: durante o período alexandrino, na renascença carolíngea, no período barroco e no século XX. Datando de 300 anos antes de Cristo e realizadas na Alexandria, as tecnofanias3 de Sírnias de Rodes constituem os primeiros poemas visuais conhecidos. São elas: “O Machado”, “As Asas” e “O Ovo”.

Quem é Jairo Fará? O que é Poesia Visual? Qual a relevância deste poeta? São perguntas que você, leitor, deve estar se fazendo… O que podemos lhe advertir: cuidado, você corre o risco de ter seu olhar extasiado com as múltiplas linguagens exploradas e, por consequência, seus olhos queiram percorrer as várias esferas da Poesia Visual deste poeta. Não hesite!!! Alumbre-se!!!

Uma característica própria da Poesia Visual é o hibridismo entre linguagem verbal e icônica e de gêneros textuais. A partir disso, a polêmica: qual o limite dos gêneros textuais? Entre poesia e artes? Segundo Menezes (1991, p.11), quando se pensa em Poesia Visual, devemos associá-la com o espírito de experimentação, ou seja, o desejo de ousar, de utilizar diferentes recursos para compô-la. E isso o poeta domina; a cada trabalho é capaz de surpreender seu leitor de modo diferenciado, como se fosse a primeira vez.

De acordo com Lopes (2007), podemos inferir que o poeta dispõe-se da linguagem como forma de buscar novas expressões, utilizando recursos que possibilitam transgredir a forma tradicional da palavra escrita. O poeta não só explora a linguagem comum, mas também a desvia do uso convencional, transformando-a em uma outra linguagem, a da poesia. O desvio e a transgressão da linguagem são a desverbalização da palavra, um modo de transformá-la em palavra imagética.

Podemos dizer ainda que a experimentação deste autor vai além do aspecto visual que adentra a profundidade do signo. Ele mobiliza elementos da contemporaneidade, dentre eles, a metalinguagem (a linguagem usada para descrever e explicar a própria linguagem, nos seus mais diferentes estilos: gramatical, artístico, musical, informacional etc. A sua poesia explora a capacidade poética por meio de diversos recursos.

Trata-se de uma produção intersemiótica (base linguística relacionada às Artes Visuais), a fim de abordar temáticas diversas em termos de sua consciência crítica e de seu posicionamento na sociedade. Conforme Perrone (2003), a criação intersemiótica é definida como “a interação de signos linguísticos variados: a palavra impressa em múltiplas representações tipográficas e espaciais, o verso ilustrado, o projeto gráfico, a fotografia e a mistura disto tudo”.

Assim, o poeta possibilita o trânsito da poesia por novos espaços, com novos leitores e novos olhares. Sua produção é diferenciada dos outros poetas da mesma vertente de poesia pelo fato de ele apropriar-se da linguagem, de recursos e de suportes na forma singular como leva o leitor ao “espanto”. Sobre isso, conforme Smith, a Poesia Visual é “o espanto do falante perante a própria língua, concretizado em evento estético na frágil fronteira entre percepção óptica e linguística” (1983). Isso em quem lê/vê sua obra devido à forma como desbrava a linguagem em suas múltiplas possibilidades de expressão.

Por fim, a produção poética de Jairo Fará configura-se como um espaço de confluências de diferentes linguagens e formas de veiculação (redes sociais – livro digital – videopoema – exposições – publicações impressas …). O leitor comunga com a poesia e penetra no poema tendo a possibilidade de produzir sentidos diversos e a recriar em outros gêneros textuais. E é esse refazer ou reconstruir poético do leitor que revela o homem reflexivo e criativo no universo disponibilizado pela comunicação.

A Poesia Visual é um espelho de nossa cultura contemporânea e o retrato contundente dos caminhos que a literatura pode trilhar na era tecnológica. Que este ensaio tenha despertado o prazer da leitura e instigado a reflexão sobre os temas aqui abordados!

Dicas de eventos: o poeta visual Jairo Fará está com uma exposição na galeria de arte do Museu Regional de São João del Rei (para quem ainda não conhece a cidade, vale a pena conferir), no período de 10 de dezembro de 2025 a 22 de fevereiro de 2026. Nesta, estão poemas clássicos, que já participaram de várias exposições como o “Poomo”, “Poemaço”, “Meia Homenagem a Drummond” e “Cuidado com o Não”. E poemas mais recentes como “Minifúndio”, “O Pregador”, “Poema Não Objeto” e “Papelão Social”. A exposição já recebeu mais de 2 mil visitas, em pouco mais de um mês. Um destaque é o poema-interativo “Poetize Aqui”, um mapa do Brasil em tamanho A2, no qual os visitantes escrevem seus poemas ou suas ideias.

E o lançamento do livro “Passe pela Catraca”. Este ocorrerá dia 7 de fevereiro, na Casa Literíssima, em BH. O livro está sendo produzido pela Editora Literíssima, sem custo nenhum para o autor. Por enquanto, está ocorrendo a pré-venda. E em São João del Rei, será lançado dia 25 de fevereiro, na Taberna do Omar. Nos dois lançamentos, os poetas presentes poderão ler seus poemas. O livro é o resultado dos últimos 15 anos de trabalho do poeta Jairo Fará. São 80 páginas coloridas, com poemas visuais, poemas verbais e textos de prosa poética.

Leia a entrevista e análise de poema visual no ebook gratuito: https://drive.google.com/file/d/132aElYGsRfyhazWQI2E7qpIihaoxUNbX/view?usp=sharing

Renata Barcellos

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Mostra ‘Cria: experiências de invenção’

Com curadoria de Marconi Drummond a mostra chega ao Sesc Sorocaba e ficará disponível para visitação até 28/4/2024 

CRIA_experiências de invenção | Foto: Pedro Negrão. 
CRIA_experiências de invenção | Foto: Pedro Negrão
Link de fotos em alta:
https://photos.app.goo.gl/Z9AjoLt8kciYQdbh7
 

O título da exposição é baseado nas palavras criação, crianças e cria – significados conectados à criatividade e como sinônimo de filhote.  

Seu propósito é permitir que o público, principalmente as crianças, tenham experiências interativas e sensoriais por meio de obras concebidas especialmente para essa exposição. 

A mostra conta com artistas que operam, nas suas criações, questões e experiências passíveis de serem articuladas e partilhadas com o público infantil, reunindo esculturas sonoras, fotografias, jogos ancestrais, poesia visual, videoarte e intervenções gráficas, invenções dos artistas Bruno Rios, Cao Guimarães, Cássia Macieira, Guilherme Mansur, Guto Lacaz, O Grivo, Origem (Patrícia Sabino e Maurício Lima), Regina Silveira, Stela Barbieri, Warja Lavater, além dos fotógrafos José Medeiros, Otto Stupakoff e Thomaz Farkas.   

Segundo o curador, diferente da maior parte dos adultos, que imagina a ideia da arte intocável e até mesmo inacessível, as crianças são movidas pela curiosidade e pela capacidade investigativa, livres de prejulgamentos. Todos os componentes da cadeia expositiva – o mobiliário, a sinalização, as peças gráficas, o projeto educativo e os dispositivos de acessibilidade –, estarão alinhados com a proposta da curadoria e do público-alvo: as crianças. 

A exposição ficará disponível até dia 28/4/2024. Os horários de visitação acontecem de terças a sextas, das 9h às 21h30; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30. Classificação livre. Grátis.  

Para mais informações acesse: sescsp.org.br/sorocaba/CRIA. 

SERVIÇO 

Sesc Sorocaba       

Rua Barão de Piratininga, 555 – Jardim Faculdade.       

Fone: (15) 3332-9933.     

Prefira o transporte público 

Terminal São Paulo 

Linha 13: Santa Izabel/ Jd. Europa 

Linha 71: Campolim via Raposo Tavares 

Terminal Santo Antônio 

Linha 65: Campolim 

BRT 

Linha D200: Terminal Vitória Régia/ Campolim 

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