João Bobo e João Esperto.

Resenha do livro João Bobo e João Esperto, de Sérgio Merli, pela Editora Paulus.

Capa do livro João Bobo e João Esperto de Sérgio Merli, pela Editora Paulus.

RESENHA

Um livro que aborda assuntos importantes de uma forma tranquila em um universo conhecido por todos nós.

Um coronel, muito esperto, usa de artifícios para continuar tendo poder sobre o povo.

E um cidaddão comum, simples e pacato, usa sua inteligência para, com poucos recursos, manter a missão que lhe foi dada.

Fala sobre política, cidadania e honestidade.

Um livro muito importante para introduzir estes assuntos com as crianças, apesar de não ser um livro infantil.

Super recomendo!!

Amei!!

Assista à resenha do canal @oqueli no Youtube

SINOPSE

Em Vila Virgulina, o Coronel João Esperto, um prefeito demagogo que ganha um bom dinheiro vendendo água potável aos pobres durante o período da seca, reelege-se cumprindo sua principal promessa de campanha: construir “a maior cisterna jamais vista na história da cidade”.

A iniciativa é um sucesso, fornecendo água gratuitamente à população nos períodos de seca. Contudo, manter-se no poder não é o suficiente para o Coronel.

Ele percebe que, com a cisterna em atividade, perdeu boa parte do lucro obtido com a venda de água ao povo da vila e decide agir!

Seguro de ser uma autoridade acima de qualquer suspeita, ordena a Tião, seu fiel capataz, que destrua a cisterna, a fim de que volte a ter o lucro de outrora.

Para facilitar seu trabalho, nomeia como guardião do reservatório João Bobo, a pessoa considerada por ele, como a mais bocó da cidade.

A missão do capataz parece fácil, mas o que Tião e o Coronel João Esperto não imaginam é que destruir a cisterna será muito mais difícil, tendo de enfrentar um guardião honesto e dedicado como João Bobo.

A obra é uma trama repleta de ação, cenas e personagens engraçados, que nos faz pensar sobre a política, os valores éticos e as relações de poder.

SOBRE A OBRA

O autor no conta que a ideia do livro surgiu a partir de reflexão sobre o que é o chamado “Jeitinho Brasileiro”.


A expressão, amplamente popular no Brasil, caracteriza o comportamento do brasileiro médio no imaginário popular, remete aos aspectos positivos como a criatividade e à capacidade de encontrar solução a partir de recursos escassos, mas também aos aspectos negativos, como sinônimo de corrupção ou de gambiarra. Sérgio Merli


A partir desta reflexão sobre as relações de poder e o acesso à cidadania, Sérgio desenvolveu sua narrativa, cheia de mensagens importantes.

Nela, o personagem João Bobo é um guardião honesto e dedicado que, com poucos recursos, consegue defender a cisterna de Vila Virgulina, representando o lado positivo do “jeitinho brasileiro”.

Já o Coronel João Esperto é um político demagogo que usa o cargo público em benefício próprio e sem qualquer escrúpulo, representando o lado negativo do famoso “jeitinho brasileiro”.

As principais fontes de inspiração de João Bobo e João Esperto foram a cultura nordestina, a política brasileira e obras como “O Bem Amado”, de Dias Gomes e “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna.

SOBRE O AUTOR

Sérgio Merli é escritor, ilustrador e designer gráfico.

Imagem de Sérgio Merli, autor de João Bobo e João Esperto,  pela Editora Paulus

Ele tem atividades variadas: cria projetos para publicidade, ilustrações, projetos gráficos para livros, realiza oficinas e faz palestras.

Para o autor, o ato de escrever e ilustrar livros é a atividade que mais lhe proporciona realização criativa.

Sua carreira literária se inicia em 2011, quando publicou O Camelo, o Burro e a Água, livro que se tornou sucesso de público.

Desde então, ele escreveu e ilustrou várias obras publicadas por importantes editoras do mercado brasileiro.

Sergio Merli é conhecido por seu texto bem-humorado e por abordar diferentes temas para jovens leitores, como criatividade, cidadania, ética, consumo e meio ambiente.

Ele já participou de diversos eventos e projetos literários, levando suas palestras para as escolas e inspirando jovens leitores em todo o Brasil.

Suas apresentações são acompanhadas por desenhos feitos ao vivo, o que as torna ainda mais interessantes e interativas.

Sua primeira obra foi “O Camelo, o Burro e a Água”, lançado em 2011 e publicado pela Editora Melhoramentos.

Esse fui um sucesso e até hoje tem boas vendas em escolas de todo o Brasil.

Desde então, escreveu e ilustrou 10 livros, além de ilustrar várias obras para outros autores.

Regularmente, visita escolas que adotam seus livros.

Já tendo participado de vários eventos literários, exposições e workshops.

Para saber mais sobre o autor e seus livros, acesse: www.sergiomerli.com.br.

OBRAS DO AUTOR

Capa do livro João Bobo e João Esperto, de Sérgio Merli, pela Editora Paulus

Capa do livro "O Camelo, o Burro e a Água, de Sergio Merli, pela Editora Melhoramentos

ONDE ENCONTRAR


Resenhas da colunista Lee Oliveira




Celso Lungaretti: 'Prescrição da pena de Luigi Bergamin abre precedente que poderá fazer cessar a vendetta contra Cesare Battisti'

Celso Lungaretti

celso lungaretti

Uma esperança para Cesare Battisti: a justiça italiana afinal se lembrou de que penas prescrevem. Havia esquecido

A Agência de notícias italiana Ansa informa que, nesta 3ª feira (11), o Tribunal de Justiça de Milão reconheceu a prescrição da pena de 16 anos e 11 meses de prisão pendente contra  Luigi Bergamin, fundador do grupo Proletários Armados pelo Comunismo, ao qual pertenceu o escritor Cesare Battisti.

 
A condenação prescrevera no último dia 8. Bergamin, que estava foragido na França e havia se entregado à polícia de Paris no dia 29, acabou não passando nem duas semanas detido. E foi muito! 
Encaro como um absurdo e uma desumanidade quererem enterrar atualmente um idoso numa masmorra por conta de atos a ele imputados (a Justiça italiana era totalmente tendenciosa e iníqua nos anos de chumbo, razão pela qual há muito se impõe minha anulação de todos esses julgamentos de cartas marcadas!), ocorridos no final da década de 1970.  
Quatro décadas se passaram desde então.  Digam o que quiserem os revanchistas, mantenho minha posição de que há um limite de tempo para que se faça justiça, caso contrário, quando os acusados estão reduzidos a decrépitos anciãos, a coisa vira mera vingança.
Nem mesmo em casos extremos como os de Hitler ou Bolsonaro, eu concordaria com que fossem encarcerados várias décadas depois de terem cometido seus crimes, talvez já gagás e sem se darem conta do que lhes ocorresse…

Aliás, a sentença italiana espantosamente reconheceu tal obviedade:

 

Não só se passaram mais de 40 anos desde os crimes gravíssimos pelos quais Bergamin foi responsabilizado, mas, sobretudo, mais de 30 anos desde a irrevogabilidade da sentença. E em 8 de abril já passou o prazo máximo fixado.

Quando foi julgado no STF o pedido de extradição apresentado pela Itália de Berlusconi contra o Cesare, o relatório do ministro Cezar Peluso, um fanático religioso cujo catolicismo exacerbado o fazia defender preceitos medievais que até a própria Igreja abandonara, me fez lembrar aquelas partidas de futebol pré-árbitro de vídeo, nas quais, em quatro ou cinco lances polêmicos, o árbitro, favorecia invariavelmente o mesmo time e era qualificado por torcedores e pela imprensa de ladrão!
Pois bem, de umas dez alegações importantes da defesa de Battisti, o tal Peluso favoreceu a Itália… em todas! Inclusive quanto à prescrição da pena, que, segundo os cálculos do companheiro Carlos Lungazo (então pertencente à Anistia Internacional), do advogado Barroso e de um sem-número de juristas, já havia ocorrido.
Peluso, acuado, esquivou-se, afirmando que não tivera tempo de aprofundar o assunto em seu relatório (!). Risível, se não fosse trágico pretender desgraçar um homem sem ter certeza de que ainda era legal julgá-lo…

O que me trouxe esta ocorrência de uma década atrás à lembrança é o fato de que uma juíza também de Milão decidira interromper a contagem de tempo para a prescrição utilizando o pretexto de que Bergamin havia se tornado um delinquente habitual (quiçá uma expressão equivalente ao nosso crime continuado, que o tradutor terá vertido ao pé da letra), 

Felizmente, na decisão desta terça-feira o tribunal não caiu na esparrela e decidiu pela prescrição, pois a sentença que condenara Bergamin a mais de 16 anos era provisória (por tratar-se de um réu ausente, já que estava fora da Itália).
A corte ressaltou que, decorridos 30 anos de uma sentença que impôs pena provisória a um acusado fora do seu alcance, “cessa o interesse do Estado na sua execução”.
Também nisto o precedente de hoje poderá beneficiar o Cesare, pois sua condenação à prisão perpétua se deu em 1987 e, segundo tal raciocínio, já estaria prescrita quando ele foi reconduzido à Itália em janeiro de 2019.
Há uma luz no fim do túnel para Battisti. (por Celso Lungaretti)

 

 

 

 

 




Celso Lungaretti: 'Um maximiza o extermínio, outros dois estão dispostos a pisar em todos os cadáveres necessários para se elegerem'

Tão obcecados quanto o Bolsonaro pela faixa presidencial, o Lula e o Ciro hoje agem como facilitadores do genocídio

Temos:
a) dois problemas gravíssimos (a pandemia e a depressão econômica), que exigem solução ainda em 2021, caso contrário este país explodirá;
b) um presidente provavelmente sem condições mentais para ocupar o cargo e certamente sem condições morais nem intelectuais para tanto, que passa o tempo todo agravando os problemas acima, de forma que sua remoção é condição sine qua non para começarmos a sair do buraco sem fundo em que nos metemos;
c) duas lideranças oposicionistas que, ao invés de cuidarem do absolutamente urgente e necessário neste momento dramático da nossa História, estão desde já em campanha para a eleição de outubro de 2022, na prática desviando a atenção daquela que deveria ser a única preocupação atual dos brasileiros conscientes e ajudando a perpetuar o genocida no cargo (ou seja, a única preocupação de ambos é de que seja até lá mantido um cenário favorável a suas ambições eleitorais, e que se danem todos os brasileiros que morrerem doravante por causa do governo catastrófico).
Precisarmos unir forças para salvar o Brasil hoje da destruição, caso contrário é capaz de nem haver eleição daqui a um ano e meio. E quem, como o Lula, vem há tempos fazendo tudo que pode para que o Bolsonaro continue sangrando no poder mas não seja dele afastado antes da eleição, cumpre, na prática, o papel de facilitador de genocídio.
Infelizmente, agora o Ciro o está secundando nessa faina de iludir o povo, à medida que também incute nos ingênuos a esperança de que a solução seja a eleição. Não é, de jeito nenhum.

 

 

 

 




Celso Lungaretti: 'A celebração da infâmia'

Celso Lungaretti

O que há para celebrar-se neste dia, senhor ministro? uma abominação?

Manda uma ordem-do-dia do  ministro da Defesa recém-empossado para uma permanência mínima no cargo,  pois o governo ao qual serve agoniza, que seja hoje (31) comemorado o aniversário da virada de mesa institucional responsável por 21 anos perdidos e por um festival de horrores que até hoje envergonha os brasileiros civilizados. 
 
O blog terá prazer em dar sua colaboração, recapitulando-a para os contemporâneos da infâmia e apresentando para as novas gerações o que foi a usurpação de poder verdadeiramente consumada no dia da mentira de 1964 e não na véspera (vide aqui), bem como a nada branda ditadura dela resultante, ainda hoje reverenciada por seus carrascos impunes, incensada por suas patéticas viúvas e louvada pelos cuervos  que o totalitarismo criou.
Como frisou a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, caberia a nós, sobreviventes do pesadelo, o papel de sentinelas do corpo e do sacrifício dos nossos irmãos que já se foram, assegurando-nos de que a memória não morresse – mas, pelo contrário, servisse de vacina contra novos surtos da infestação virulenta do despotismo. 
 
Infelizmente, não estivemos nos últimos anos à altura de nossa missão, daí a catástrofe que se abateu sobre o Brasil, com um herdeiro espiritual do pesadelo anterior produzindo o maior morticínio gratuito da nossa dolorosa História (pouco importa se o chamarmos de genocídio ou de crime contra a humanidade, as discussões semânticas são um escárnio num momento  destes!). 
 
Mais de 100 mil conterrâneos já morreram de óbitos que poderiam ter sido evitados se o gerenciamento da pior crise sanitária de nossa História não estivesse entregue a um insano negacionista, sabotador dos esforços para a salvação de vidas. 
 
E é incerto o número de mortes escamoteadas das estatísticas oficiais, a ponto de já terem sido desmascaradas tramoias para o ocultamento de cadáveres sob os tapetes burocráticos (quem nos garante que outras tramoias do mesmo tipo não tenham escapado à vigilância dos cidadãos decentes?).

Nessa efeméride negativa, o primeiro ponto a se destacar é que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa série de articulações e tentativas golpistas, nada tendo de espontânea nem sendo decorrente de situações conjunturais; estas foram apenas pretextos, não causa.


Há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo. Mas, é incontestável que a ultradireita vinha há muito tempo tentando usurpar o poder.
Em novembro/1955, uma conspiração de políticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada graças, principalmente, à posição legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Segurança Nacional e eminência parda do ditador Geisel.
 
Em fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, os militares já se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.
 
Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças.
 
E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart e iniciaram, juntamente com os conspiradores civis, a constituição de um governo ilegítimo. 
 
Mas, refugaram diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil.
Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados grupos dos 11 brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado contragolpe preventivo, mas, tão somente, um golpe de Estado para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA, como os documentos sigilosos que foram sendo revelados ao longo destes 57 anos comprovaram cabalmente.. 
 
Derrubou-se um governo democraticamente constituído, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos legítimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidadãos.
 
A esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações.

Até que, com a edição do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e do Judiciário Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidadãos), em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. 
Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.
 
As organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses.
 
Em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio momentâneo da classe média.
 
Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio premeditado dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.
 
Casa da Morte de Petrópolis (RJ) e o assassinato sistemático dos combatentes do Araguaia estão entre as páginas mais vergonhosas da História brasileira – daí a obstinação dos carrascos envergonhados em darem sumiço nos restos mortais de suas vítimas, acrescentando às chacinas a ocultação de cadáveres.
 
milagre brasileiro, fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970, teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem.
O aparato repressivo implantado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam de empresários direitistas vultosas recompensas por cada subversivo preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor em posse dos resistentes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que sua remuneração normal lhes proporcionaria.
 
Daí terem resistido encarniçadamente à disposição do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de Estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. 
 
Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o ministro do Exército

Foi responsável pela morte dos 434 opositores relacionados pela Comissão Nacional da Verdade, pela prisão arbitrária de uns 50 mil brasileiros e pela tortura de, no mínimo, 20 mil cidadãos, afora ocorrências praticamente impossíveis de quantificar, como os abusos sexuais.

Há quem sustente consistentemente que outros 600 camponeses, sindicalistas, líderes rurais e religiosos, padres, advogados e ambientalistas tenham sido assassinados por motivos políticos nos grotões do país entre 1961 e 1988. 

E respeitados antropólogos denunciam a ocorrência de um verdadeiro genocídio indígena nos anos de chumbo.]

É esta efeméride sinistra que sua ordem do dia manda ser comemorada nos quartéis, senhor general?  

 
Isto me indigna tanto, como participante e vítimas desses acontecimentos –até hoje lesionado e até hoje inconformado com a morte de duas dezenas de estimados companheiros que entregaram a vida em nome da dignidade nacional!–, que evitarei dar-lhe uma resposta ditada por minhas emoções. 
[Correria o risco de fornecer pretexto para uma intimidação como as muitas que têm sido perpetradas contra blogueiros e articulistas, lastreadas em lei que não passa de um repulsivo entulho autoritário.]
 
Então, prefiro encerrar parafraseando a Bíblia (Lucas 23.34), na esperança de que ela não tenha entrado no índex destes tempos hediondos: Pai, perdoai-o, pois ele não sabe o que faz!
.
(por Celso Lungaretti, jornalista, escritor e ex-preso político – a foto ao lado foi tirada no DOI-Codi/RJ em 1970, ainda na fase das torturas, durante os 75 dias de incomunicabilidade)

 

 




Celso Lungaretti: "Hoje o Lula só discursou e deu entrevista. O lançamento da nova 'carta aos brasileiros' ficou para depois…'

Celso Lungaretti

celso lungaretti

Conciliação das elites em marcha: sem surpresa nenhuma, lula evidencia que vai repetir seu papel histórico de 2002

Comecei o dia lendo que os dirigentes petistas aconselharam Lula a evitar atos e palavras contundentes, passando a interpretar o papel de um estadista, de forma a aproveitar a mais gritante vulnerabilidade do Jair Bolsonaro. 
 
mito que nunca foi nada além de um mico, em suas aparições públicas, aparenta quase sempre ser um doido recém-evadido do hospício (e o genocídio decorrente de seus surtos psicóticos durante a pandemia a cada dia convence mais brasileiros de que ele é, na verdade, um doido que, para infelicidade geral da nação, esqueceram de colocar no hospício). 
 
Em discurso e entrevista coletiva na manhã desta 4ª feira (10), Lula seguiu à risca a recomendação, chegando a arrastar-se aos pés do empresariado, como em 2002: 

 

Se ele quer dinheiro, tem que gostar de mim. Se quer ver o povo consumir, tem que gostar de mim. (…) Eu não entendo esse medo, eu era chamado de conciliador quando presidia. Quantas reuniões fazia com os empresários? Dizia: ‘O que vocês querem? Então, vamos construir juntos’.

 Má escolha de verbo, construir lembra Odebrecht

 
A performance teria sido perfeita caso ele houvesse resistido à tentação de proclamar em tom apoteótico que ficara provada sua inocência, quando, na verdade, a decisão do ministro Edson Fachin foi apenas de considerar que os processos contra ele deveriam ter tramitado em Brasília e não em Curitiba, daí tê-los anulado e devolvido à 1ª instância. 
 
Como o que impedia Lula de disputar eleições era a Lei da Ficha Limpa, tal obstáculo foi removido quando as condenações viraram pó e lhe restituíram condição de réu ainda não julgado. Demagogia à parte, foi só isto que aconteceu.

Não recuo um milímetro do que sempre escrevi: se todos os presidentes, governadores e prefeitos do Brasil respondessem a processos rigorosos por corrupção, os inocentes seriam, quanto muito, um em cada cem.

 
Utilizou-se contra Lula um inusitado rigor e os grandes empresários com os quais seu governo se acumpliciou não precisaram de nenhum DOI-Codi para cantarem como passarinhos. Sem nenhum tapa ou choque elétrico, apenas para saírem logo da cana, confessaram até que assaltavam as lancheiras dos colegas no primário. E  devolveram os lanches…   
 
Caso Lula tivesse superado seu lado mitômano, jamais pretenderia ter sido vítima vítima “da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história”. Por que não falar, simplesmente, a verdade? 
 
Seria esta: “Meu governo apenas atuou segundo o figurino de todos os governos do Brasil, recorrendo à corrupção para conseguir aprovar seus projetos no Legislativo e para financiar suas campanhas políticas. Se não prenderam todos os outros governantes deste século e dos séculos passados, mas tão-somente a mim, violentaram escandalosamente a igualdade de todos perante a lei”.
 
Temo que morrerei sem ver um político profissional fazendo tal confissão. Mas, fiel ao rumo que escolhi para minha vida em 1967, continuarei proclamando sempre a verdade, que é revolucionária, e não lorotas convenientes. Devo ter nascido no país errado para adotar tal postura, mas a manterei até o fim.
 
De resto, fica cada vez mais evidente que Lula será o grande trunfo do sistema para o lugar do Bolsonaro, cujo governo derrete a olhos vistos. A contagem regressiva chegará ao fim em semanas, o mais tardar em meses. É isso ou o caos.
Mas, impeachments demoram demais e tanto a crise sanitária quanto a depressão econômica precisam de respostas urgentes, caso contrário o extermínio de coitadezas atingirá proporções inimagináveis.
 

Só vejo uma saída: os que botaram o Bolsonaro no Palácio do Planalto tirarem-no de lá interditando-o por insanidade mental ou forçando-o à renúncia. Nos bastidores da política brasileira, como os bem informados sabem muito bem, os realmente poderosos sempre arrumam um jeito de viabilizar esses passes de mágica.

 
Difícil mesmo seria arrumarem uma desculpa para a entrega imediata  do poder ao Lula. Mas, o objetivo principal –evitar que o Brasil exploda– poderia ser alcançado com Mourão cumprindo o restante do mandato, à frente de um governo de salvação nacional do qual o Lula fosse o principal destaque e cartão de visita.
 
As prioridades, obviamente, seriam:
— reverter  todas as lambanças cometidas por Bolsonaro na área de saúde, fazendo com que nela voltassem a vigorar unicamente os critérios científicos;
— realizar em regime de urgência total a vacinação em massa contra a covid;
— criar opções para a sobrevivência dos desempregados, dos excluídos, dos vulneráveis e dos mais pobres em geral, rudemente golpeados pela pandemia.
 
Ou muito me engano, ou será assim que a ópera bufa acabará, com a conciliação de sempre, as elites desarmando bombas-relógios prestes a explodir e nada realmente se resolvendo. 
 
Na arte de empurrar as crises com a barriga e ir adiando o inadiável mediante gambiarras institucionais, a classe dominante brasileira é uma virtuose. (por Celso Lungaretti) 

 

 

 

 

 




Celso Lungaretti: 'O novo pacto dos poderosos não tirará o Titanic da economia brasileira do rumo que a encaminha diretamente ao encontro do iceberg'

Celso Lungaretti

celso lungaretti

Resumo da ópera: o Centrão dá demonstração de força, o Bozo sai diminuído e o STF obtém seu desagravo

Em junho de 2020 o Bozo se rendeu ao Centrão, trocando a quimera do autogolpe pelo fortalecimento de suas defesas contra o impeachment e os processos que rondam a ele e seus filhos por cometimento de crimes nos quais a culpa deles todos é indiscutível.

A recente derrota eleitoral de Donald Trump confirmou que a onda ultradireitista morreu mesmo na praia, pulverizando quaisquer esperanças que o genocida ainda pudesse ter de adiante poder exumar a pauta golpista.

E, em 21 de fevereiro de 2021, ao negar apoio ao deputado bolsonarista (um louco furioso!) num episódio que poderia inclusive desembocar no novo AI-5 que ele sempre defendeu, o palhaço sinistro arrancou de vez a máscara, assumindo-se como a rainha da Inglaterra que será daqui em diante, com permissão para praticar suas bufonarias em áreas tidas como secundárias pelos poderosos, mas tendo de submeter-se a eles, sem chiar nem bufar, naquilo que para os donos do PIB realmente importa.

Centrão deu formidável demonstração de força, pois dele dependeu que o episódio do vídeo de esgoto  não terminasse num conflito entre Poderes, mas sim no apaziguamento geral, com a Câmara Federal aceitando entregar a cabeça do deputado bolsonarista.

Com isto, o Supremo pôde recuperar um pouco de sua desgastada imagem, que piorara ainda mais por ter vindo a público que ele amarelara vergonhosamente em 2016, curvando-se às pressões e ao blefe dos fardados.
 
Então, o jogo termina com o Centrão dominante, o Bozo dominado (uma megera domada!), o STF dependendo da boa vontade de corruptos com carteirinha assinada para ganhar uma parada crucial para um mínimo resgate de sua credibilidade e os bolsonaristas-raiz, órfãos inconsoláveis e incontroláveis, prometendo provocar muitas encrencas daqui para a frente.
 
Mas, o novo pacto dos poderosos não os tirará do rumo que os encaminha diretamente ao choque com o iceberg: a pandemia acabará sendo controlada, embora com enorme atraso e um excesso monumental de mortes evitáveis que não terão sido evitadas; mas, da depressão econômica que nos castigará impiedosamente, devendo atingir o auge lá pela metade deste ano, não há saída possível ou imaginável sem o apoio das economias mais avançadas.
 
Parece-me bem  difícil que EUA, Europa e China perdoem para valer o amadorismo delirante com que foram conduzidas nossas relações exteriores em 2019 e 2020. Então, para um país que necessitará desesperadamente de boias para não ir a pique, só uma rápida substituição do maluco sem beleza por um presidente de verdade garantirá que o socorro chegue em tempo de evitar o pior.    
Por último, a esquerda tem de se dar conta de que, no jogo de cartas marcadas da democracia burguesa, perderá sempre, pois, de um jeito ou de outro, o poder econômico invariavelmente fará prevalecer sua vontade, instrumentalizando para tanto os outros Poderes, a grande mídia, as Forças Armadas, etc. É o que acaba de ser mais uma vez comprovado.
 
Então, ou reaprende que sua força não está nas urnas, mas sim no povo na rua e na disposição de lutar por uma nova ordem econômica e social, ou se tornará cada vez mais impotente e irrelevante, como vem sucedendo desde 2016.
(por Celso Lungaretti)

 

 




Celso Lungaretti: 'Será Lula o Petain brasileiro?'

Celso Lungaretti

Será o Lula o Pétain brasileiro?

Henri Philippe Benoni Omer Joseph Pétain, mais conhecido como Marechal Pétain, foi um herói francês da 1ª Guerra Mundial, aclamado principalmente por sua liderança militar excepcional na Batalha de Verdun, mas que se tornaria colaboracionista com o nazismo no conflito mundial seguinte.
 
Em 1940, com a queda iminente da França, o presidente Lebrun o nomeou primeiro-ministro da França. Pétain logo retiraria o que restava do seu governo para uma região que ainda não havia sido invadida pelas tropas alemãs: a cidade de Vichy e seu entorno. 
 
Solicitou o armistício a Hitler, conformando-se com que a República da França ficasse sob a ocupação direta do inimigo histórico, com exceção do regime de Vichy, que permaneceria como um Estado teoricamente autônomo, mas, na verdade, uma miniatura do nazismo, incluindo a perseguição aos judeus.
 
Condenado à degradação militar e à morte depois da Libertação, Pétain teve sua pena comutada para prisão perpétua em função de seus méritos anteriores e de sua idade avançada (89 anos).
 
É o exemplo histórico mais emblemático do qual me recordo de um grande homem numa fase tornar-se o oposto noutra. Embora Pétain provavelmente acreditasse estar prestando serviço aos franceses ao evitar que uma parte deles ficasse sob a dominação direta de Hitler, o fato é que seu regime fantoche só se diferenciava do das nações ocupadas pela terceirização da tirania nazista, já que os locais se incumbiram do serviço sujo.
 
Não especularei sobre os motivos que levam o ex-presidente Lula a estar agindo de forma parecida desde que foi libertado em novembro de 2019. O certo é que ele tudo tem feito para evitar que a esquerda brasileira assuma firmemente a bandeira do impeachment de Jair Bolsonaro:

— quando, mais do que nunca, deveria pacificar e unir a dita cuja, continuou insistindo em manter a postura imperial e arrogante do PT que é um enorme estorvo para qualquer tentativa de formação de uma frente abrangente de todos que estão contra o pior presidente do Brasil de todos os tempos;

— boicotou as manifestações de secundaristas e torcedores de futebol que reconquistaram as ruas para o nosso lado, contribuindo para que o mentecapto decidisse moderar seu golpismo e voltar para os braços do Centrão, com o ônus de ter sido obrigado a abrir mão de bandeiras que ainda lhe davam alguma aura de idealismo, como o combate à corrupção e à velha política
— explicita ou veladamente, Lula tem sempre desestimulado o impeachment do genocida e favorecido a inconcebível permanência do dito cujo no cargo até janeiro de 2023 (como se a explosão social que ele está incubando não fosse ocorrer muito antes disso!);
— acaba de unir forças com o bolsonarismo na eleição para presidente do Senado.
Não vou embarcar em teorias da conspiração incomprováveis, mas a mim parece bem claro que Lula voltou à cena política para salvar o PT e não para livrar o Brasil do celerado que o está destruindo.
É possível que Lula não tenha pactuado com o inimigo e que suas decisões deploráveis e aparentemente incompreensíveis se devam ao fato de ter como aspirações máximas as que convém ao seu futuro político, mas não, necessariamente, ao do Brasil: sua reabilitação judicial e conquista do 3º mandato. E, seja o que for que as inspire, a consequência prática de suas posturas acaba sendo o pior possível.
Assim, o Lula pavimentou o caminho para a vitória do demente em 2018, puxando o tapete de Ciro Gomes (o que detonou as chances de união da esquerda em torno de uma candidatura única) e desperdiçando tempo precioso com a palhaçada da candidatura fantasma, que até as pedras das ruas sabiam ser insuficiente para mudar a decisão do TSE.
 
E agora chega ao ponto mais baixo de sua trajetória, exatamente num ano em que são enormes as possibilidades de salvarmos brasileiros da infinidade de mortes inúteis causadas: 
— pela administração catastrófica da pandemia de covid-19 (pois, apesar da vacinação enfim ter começado, a forma caótica como está sendo feita retardará por vários meses a imunidade de rebanho); e 
— pela devastação econômica decorrente da adoção de políticas simplesmente insanas, que tende a acentuar-se cada vez mais ao longo de 2021. 
Ou seja, fazendo exatamente o jogo desse sórdido inimigo a quem convém magnificar o pleito distante para desviar a atenção das desgraças atuais, Lula incumbe Fernando carisma zero Haddad de sair pelo Brasil trombeteando a candidatura petista para a eleição de 2022.
 

Novamente Haddad é escolhido como candidato-estepe, pois Lula também deve estar ciente de que sua candidatura nem desta vez será consentida, como antecipou a Mônica Bergamo e eu reproduzi. Se acontecer o improvável, Lula é quem vai ser o candidato e o Haddad ficará chupando o dedo.

 
Então, quando muitos contingentes de esquerda se mostram dispostos a não trair seus princípios e travar o bom combate que ora se impõe, Lula faz uma verdadeira chantagem com todos partidos e forças do nosso lado, contando com que, por medo de perder o trem da História, eles adiram à candidatura petista ou lancem desde já outro candidato.
 
Nos dois casos, isso contribuirá para mudar o foco da esquerda, do flagrantemente imperativo (o afastamento do sociopata com a máxima urgência) para o absolutamente irrelevante neste momento (a eleição que, se não for levada de roldão pela explosão social, ocorrerá daqui a 20 intermináveis meses).
 
De minha parte, não tenho mais nenhuma dúvida de que as prioridades máximas da esquerda, no curto prazo, sejam derrubar Bolsonaro e superar Lula, as duas faces da moeda do populismo que é uma âncora do atraso nos impedindo de avançar para estágios superiores de civilização. (por Celso Lungaretti)