Elvis não morreu

Entre espelhos, nomes trocados e uma abdução extraterrestre, até Elvis Presley pode ter uma crise de identidade — aos 48 anos!

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Homem jovem de terno escuro com topete e costeletas, semelhante a Elvis Presley, em pé de frente para um espelho em um ambiente escuro e mal iluminado. No reflexo do espelho, aparece sua imagem encarando-o. Ao fundo, sentado no chão encostado na parede, um homem calvo de camisa verde-oliva olha para cima com expressão apreensiva. Cena em orientação retrato com clima tenso e cinematográfico.
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Acordou completamente grogue de sono naquele sábado, 16 de agosto de 2025. Levantou-se e se arrastou até o banheiro a fim de desaguar na privada, cuja tampa permanecia levantada desde que a esposa o abandonara por um praticante de artes marciais do Lago Sul. 

                Olhou-se no espelho e não conseguiu enxergar seus olhos azuis, já que eram castanhos, nem mesmo o topete, haja vista a calvície avançada. Os parcos cabelos, que ainda cismavam em se fazer presentes, que um dia teriam sido completamente pretos, agora dividiam o espaço com fios brancos. Tentou dizer algo e, talvez pelo bocejo que lhe tomou, a voz tenha saído fina como de costume, bem distinta daquela rouquidão aveludada que nunca teve. 

               — Pois é, seu Elvis Presley, o senhor chegou aos 48 anos. Aposto que você nunca se imaginou tão velho assim.

               Apesar do autodesprezo, o sujeito, mesmo desgastado pelo tempo, não poderia ser considerado um idoso. Tivera uma infância boa, mas a adolescência foi terrível, pois carregava o peso de ser xará do mais famoso cantor de toda uma geração, sem contar que o gajo parecia cada vez mais vivo a cada dia. E, tentando se afastar daquela sina, chegou a se apresentar com outro nome.

                — João, mas pode me chamar de Johnny.

                — Johnny?

                — Sim, Johnny.

                E o nome pegou tanto, que começou a causar problemas, a ponto do nosso Elvis, não daquele outro mais famoso, precisar ser enfático e dar um basta:

                — Meu nome não é Johnny!

               Por falar em nome, recebeu o seu por mera fatalidade. Quer dizer, mera é modo de dizer, já que o inesquecível dia 16 de agosto de 1977 foi marcado por um cataclismo, quando um certo rapaz de costeletas, que já não era tão rapaz assim, resolveu aceitar o convite de extraterrestres e, então, deu o pinote da Terra. Há outras teorias, bem sabemos, todavia, nenhuma tão plausível como essa. 

               Mas voltemos ao exato momento em que o nosso Elvis estava diante do espelho. Ele deu mais uma olhada em seu reflexo, abaixou a cabeça e lavou o rosto com uma boa quantidade de água gelada. E, assim que retornou os olhos para o espelho, viu algo quase inacreditável, caso não tivesse acontecido exatamente como aconteceu. Pois é, lá estava ele com o famoso topete, aqueles olhos azuis penetrantes, alto, esbelto, belo que nem, que nem, que nem… Ah, sim, belo que nem o outro Elvis, aquele mesmo que fora abduzido por alienígenas há exatos 48 anos. 

              Elvis de frente para o próprio Elvis. Como seria possível, ninguém sabia. Entretanto, antes que ele pudesse refletir sobre aquela alucinação, o coração parou e, finalmente, Elvis estava morto. 

Eduardo Cesario-Martínez

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Contrato de permanência com o nada

Clayton Alexandre Zocarato desvenda as pequenas mentiras cotidianas e o abismo de um homem diante da própria consciência.

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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Naquela manhã, o homem acordou antes que o despertador tocasse. Não havia motivo para isso. O corpo simplesmente abandonara o sono como quem abandona uma cidade condenada. 

Durante alguns segundos permaneceu imóvel, olhando para o teto, tentando descobrir se havia alguma diferença entre acordar e continuar dormindo. O teto estava ali, branco, indiferente, perfeitamente inútil. Uma pequena rachadura atravessava a pintura e terminava exatamente sobre sua cabeça. 

Pensou que talvez aquela rachadura fosse a única coisa verdadeiramente honesta naquele quarto. Ela não prometia nada. Não escondia sua existência. Não procurava justificar-se.

Levantou-se lentamente. O chão estava frio. Caminhou até o banheiro e observou o próprio rosto no espelho. Não reconheceu imediatamente aquele homem. Havia olhos, barba, pele, rugas discretas e uma expressão que parecia pertencer a alguém que já havia desistido de esperar alguma coisa. Aproximou o rosto do espelho. Durante alguns instantes teve a impressão de que seu reflexo respirava depois dele. Recuou. Piscou. O reflexo continuou imóvel por uma fração de segundo antes de imitá-lo. Sorriu involuntariamente. O outro não sorriu.

Naquele instante compreendeu uma coisa que não conseguiu formular: talvez nunca tivesse sido o homem diante do espelho. Talvez tivesse sido apenas o reflexo de alguma coisa que se recusava a existir.

Preparou café. A água ferveu. O ruído da chaleira ocupou a cozinha com uma espécie de alegria mecânica. Colocou açúcar na xícara, mexeu lentamente e observou o líquido escuro girar. Pensou que a vida talvez fosse aquilo: uma substância amarga que alguém insistia em adoçar para suportá-la. O problema era que, depois de algum tempo, até o açúcar se dissolvia e deixava apenas o gosto original.

Saiu para trabalhar.

‘ Na rua, as pessoas caminhavam depressa. Todas pareciam saber para onde estavam indo. Ele desconfiava disso. Talvez ninguém soubesse. Talvez a pressa fosse apenas uma forma socialmente aceita de esconder o medo.

Os homens carregavam pastas, as mulheres carregavam bolsas, crianças carregavam mochilas maiores do que seus corpos. Os automóveis avançavam uns contra os outros como animais treinados para disputar alguns segundos de existência.

Parou diante de uma faixa de pedestres. Uma senhora ao seu lado segurava duas sacolas de supermercado. Ela respirava com dificuldade. Olhou para ele e perguntou se aquele ônibus passava pelo centro. Ele respondeu que sim, embora não tivesse certeza.

A mulher agradeceu.

Foi embora.

Ele continuou parado.

Pensou que talvez toda relação humana fosse construída sobre pequenas mentiras necessárias. Ela acreditara nele. Ele acreditara que precisava responder alguma coisa. Nenhum dos dois sabia a verdade. Ainda assim, por alguns segundos, tinham dividido uma certeza falsa. Talvez fosse isso que as pessoas chamavam de convivência.

No trabalho, cumprimentou os colegas. Sentou-se diante do computador. 

A tela acendeu e pediu uma senha. Digitou. O sistema carregou lentamente. Na parte superior aparecia seu nome completo, seguido de um número de identificação. Ficou olhando para aquilo durante muito tempo.

Seu nome parecia menor que o número.

O número parecia mais importante que seu rosto.

Sentiu uma estranha vontade de rir.

Havia passado anos tentando construir uma identidade e agora descobria que bastavam alguns algarismos para substituí-la.

Abriu os arquivos. Respondeu mensagens. Preencheu formulários. Conferiu documentos. O mundo continuava funcionando sem precisar de sua presença interior. Isso o incomodou mais do que deveria. Percebeu que poderia desaparecer naquele instante e, provavelmente, algumas pessoas só perceberiam depois de algumas horas. Outras depois de alguns dias. Algumas talvez nunca percebessem.

O pensamento não o entristeceu.

Pior.

O pensamento lhe pareceu lógico.

Durante o intervalo, foi até a janela. Lá embaixo, centenas de pessoas atravessavam a rua. Observou uma criança correndo atrás de um pombo. O animal levantou voo. A criança parou e riu.

Ele ficou olhando.

Havia uma crueldade naquela cena.

A criança ainda acreditava que correr atrás das coisas era suficiente para alcançá-las.

Ele já sabia que não era.

Talvez crescer fosse exatamente isso: descobrir lentamente a distância entre o desejo e aquilo que o mundo permite. Primeiro desejamos brinquedos. Depois pessoas. Depois reconhecimento. Depois dinheiro. Depois tranquilidade. Finalmente desejamos apenas não desejar mais nada.

E mesmo isso nos é negado.

À tarde, recebeu uma ligação de sua mãe. Ela perguntou se ele estava bem. Respondeu que sim.

Outra mentira.

Ela perguntou se havia comido.

Disse que sim.

Outra.

Perguntou quando iria visitá-la.

Disse que no domingo.

Não sabia se iria.

Desligou.

Ficou olhando para o telefone.

A culpa apareceu, mas não como arrependimento. Era uma culpa antiga, quase doméstica, como um móvel esquecido dentro da consciência. Pensou na mãe envelhecendo. Pensou no pai morto. Pensou nas fotografias guardadas em caixas. Pensou nas pessoas que amamos apenas depois que percebemos que não poderemos mais conversar com elas.

Talvez amar fosse isso: assinar antecipadamente um contrato de sofrimento.

Quanto mais amamos alguém, mais garantimos a nós mesmos uma futura ausência.

Essa ideia lhe pareceu terrível.

Depois lhe pareceu verdadeira.

Ao sair do trabalho, caminhou sem destino. A cidade começava a acender suas luzes. As vitrines exibiam roupas caras, relógios, aparelhos eletrônicos, objetos que prometiam melhorar a existência. Entrou em uma loja e observou um relógio de pulso. Era bonito. Custava mais do que seu salário mensal.

O vendedor aproximou-se.

— Posso ajudá-lo?

Ele olhou para o relógio.

— Quanto tempo ele dura?

O vendedor sorriu, sem entender.

— É um excelente relógio. Tem garantia.

— Não perguntei sobre a garantia.

O vendedor ficou em silêncio.

— Perguntei quanto tempo ele dura.

— Muitos anos.

O homem agradeceu e saiu.

Na calçada, percebeu que não queria comprar o relógio. Queria comprar a sensação de que o tempo pudesse ser possuído.

Não podia.

Ninguém podia.

O tempo era o único proprietário de todos.

Continuou andando.

Entrou em um bar quase vazio. Sentou-se no fundo. Pediu uma bebida. O homem atrás do balcão serviu sem perguntar nada. Aquilo lhe agradou. Havia uma espécie de delicadeza no silêncio de desconhecidos.

Um homem mais velho estava sentado próximo à porta lendo um jornal. De vez em quando franzia a testa. Depois dobrava a página. Depois voltava a ler.

Ele perguntou:

— O senhor encontra alguma coisa importante aí?

O velho levantou os olhos.

— Nada importante.

— Então por que continua lendo?

O velho pensou.

— Porque preciso ocupar o tempo.

O homem sorriu.

— E se o tempo não precisasse ser ocupado?

O velho dobrou o jornal.

— Então teríamos de descobrir o que fazer com nós mesmos.

Nenhum dos dois falou durante alguns minutos.

Depois o velho voltou ao jornal.

Aquela frase permaneceu dentro dele.

Talvez o maior medo humano não fosse a morte.

Talvez fosse o intervalo.

O instante em que não houvesse mais distrações suficientes para impedir alguém de encontrar a própria consciência.

Pagou a conta e voltou para casa.

No caminho, começou a chover.

Não procurou abrigo.

Andou lentamente enquanto a água escorria pelo rosto. Algumas pessoas corriam para debaixo das marquises. Ele continuou.

A chuva não o incomodava.

Havia algo quase reconfortante em ser molhado por uma coisa que não tinha intenção alguma.

Chegou ao prédio.

O elevador estava parado no quinto andar.

Apertou o botão.

Esperou.

Nada.

Subiu pelas escadas.

No terceiro andar ouviu uma televisão ligada atrás de uma porta. Alguém discutia sobre política. No quarto, uma criança chorava. No quinto, um casal discutia.

No sexto, silêncio.

Parou diante da própria porta.

Antes de abrir, ouviu alguém atrás dele.

Virou-se.

Não havia ninguém.

Olhou novamente.

No corredor vazio, uma segunda porta aparecera onde antes havia apenas uma parede.

A porta era antiga, de madeira escura.

Havia uma placa pequena.

Nela estava escrito:

CONTRATO DE PERMANÊNCIA COM O NADA.

Ele ficou olhando.

Pensou que aquilo fosse uma alucinação.

Estendeu a mão.

A maçaneta estava fria.

Abriu.

Do outro lado havia o mesmo corredor.

Exatamente o mesmo.

Mas não havia portas.

Apenas uma extensão interminável de paredes brancas.

Entrou.

A porta desapareceu atrás dele.

Continuou caminhando.

Não havia chão visível, mas seus pés tocavam alguma superfície. Não havia teto, mas não sentia o céu. Não havia vento, mas sua roupa se movia.

Depois de algum tempo encontrou uma mesa.

Sobre ela havia, um folha de papel.

Sentou-se.

Leu:

“Você deseja permanecer?”

Abaixo havia duas opções.

SIM.

NÃO.

Ele ficou olhando.

Parecia uma pergunta simples.

Não era.

Se respondesse sim, permaneceria.

Se respondesse não, o que aconteceria?

Procurou uma terceira opção.

Não havia.

Pensou em tudo aquilo que havia vivido. Os trabalhos. As conversas. Os amores interrompidos. As pequenas alegrias. Os fracassos. As esperanças que morreram antes de se transformarem em alguma coisa concreta.

Pensou na mãe.

Pensou na criança correndo atrás do pombo.

Pensou no velho lendo jornal.

Pensou no relógio.

Pensou no espelho.

Pensou na rachadura do teto.

Talvez existir fosse sempre escolher entre duas formas de perda.

Escolheu SIM.

A folha desapareceu.

Outra surgiu.

“Você aceita permanecer sem promessa de sentido?”

Ele respirou profundamente.

A pergunta lhe pareceu quase ofensiva.

Sentido?

Durante anos procurara sentido como quem procura uma casa. Talvez tivesse imaginado que em algum lugar existisse uma resposta esperando por ele. Uma estrutura secreta organizando tudo. Uma razão escondida atrás das coisas.

Mas talvez não houvesse nada.

Talvez o universo não fosse um livro.

Talvez fosse apenas uma página em branco onde criaturas desesperadas escreviam justificativas para não enlouquecer.

Pegou a caneta.

Escreveu:

ACEITO.

A folha desapareceu.

Outra apareceu.

“Você aceita que nenhuma escolha sua seja capaz de derrotar a morte?”

Ele respondeu:

SIM.

“Você aceita que aqueles que ama irão desaparecer?”

SIM.

“Você aceita que também será esquecido?”

Demorou.

Depois escreveu:

SIM.

A sala ficou escura.

Uma voz perguntou:

— Então por que deseja permanecer?

Ele não respondeu.

A voz insistiu:

— Por quê?

Ele tentou encontrar uma resposta.

Não encontrou.

Talvez permanecesse porque não sabia partir.

Talvez a vida não fosse vontade de existir, mas incapacidade de desaparecer.

Lembrou-se de uma ideia que havia lido muitos anos antes: o sofrimento nasce porque desejamos aquilo que o mundo não tem obrigação alguma de nos oferecer. Outra lembrança surgiu: a existência não vinha acompanhada de instruções. 

Depois outra: somos lançados no mundo e obrigados a escolher mesmo quando nenhuma escolha parece boa. E uma última ideia, ainda mais terrível, apareceu dentro dele: talvez a liberdade fosse apenas o nome elegante que damos à nossa condenação de escolher.

A voz perguntou:

— Você ainda quer permanecer?

Ele respondeu:

— Não sei.

Pela primeira vez, a voz pareceu satisfeita.

— Finalmente.

As paredes começaram a desaparecer.

O corredor transformou-se no quarto de sua casa.

Ele estava deitado na cama.

O despertador tocava.

A luz da manhã atravessava a janela.

Levantou-se.

Foi ao banheiro.

Olhou para o espelho.

O reflexo sorria.

Dessa vez, ele não.

A rachadura continuava no teto.

O café estava sobre a mesa.

O telefone tocou.

Era sua mãe.

Ele atendeu.

— Filho?

Ficou em silêncio.

— Você está aí?

— Estou.

— Você vem domingo?

Olhou para a janela.

A cidade estava começando novamente.

— Venho.

Desligou.

Foi até a cozinha.

Preparou café.

Sentou-se.

Durante alguns minutos, permaneceu olhando para a xícara.

Depois percebeu alguma coisa escrita em sua mão.

Não se lembrava de ter escrito.

Era uma frase curta:

“Permanecer também é uma forma de morrer.”

Esfregou a pele.

A frase não saiu.

Lavou as mãos.

Continuou ali.

Naquele momento compreendeu que o contrato nunca havia sido assinado naquela sala impossível. 

Ele vinha sendo assinado todos os dias, silenciosamente, através de pequenas concessões: acordar quando não queria, trabalhar quando não acreditava, sorrir quando estava vazio, amar sabendo que perderia, esperar sabendo que a espera também envelhecia.

O contrato era a própria rotina.

O nada não precisava buscá-lo.

O nada já estava dentro de tudo.

Estava no café que esfriava.

No telefone que parava de tocar.

Na cadeira vazia.

Na fotografia de alguém morto.

No emprego que consumia anos.

Nas palavras que não foram ditas.

Nas palavras que foram ditas tarde demais.

No corpo que envelhecia enquanto a pessoa continuava fingindo ser a mesma.

Levantou-se.

Foi até a porta.

Antes de sair, olhou uma última vez para o espelho.

Dessa vez, o reflexo não o acompanhou.

Ficou parado.

Ele abriu a porta.

O reflexo ficou parado.

Desceu as escadas.

No terceiro andar, ouviu uma televisão.

No quarto, uma criança chorava.

No quinto, um casal discutia.

No sexto, silêncio.

Saiu para a rua.

A senhora das sacolas estava no ponto de ônibus.

Ela olhou para ele.

— Esse ônibus passa pelo centro?

Ele hesitou.

Dessa vez, respondeu:

— Não sei.

Ela sorriu.

— Tudo bem.

O ônibus chegou.

Ela entrou.

Ele ficou.

A cidade continuou.

Os carros passaram.

As pessoas caminharam.

As lojas abriram.

Os relógios avançaram.

E, em algum lugar invisível entre um segundo e outro, alguém assinou novamente o contrato.

Sem testemunhas.

Sem promessa.

Sem Deus.

Sem sentido.

Apenas a permanência.

E o nada, paciente, permaneceu esperando.

Clayton Alexandre Zocarato

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O imóvel que respira no escuro

Conto de Clayton Alexandre Zocarato narra os segredos de uma misteriosa casa viva

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
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O imóvel respirava.

            Ninguém sabia dizer quando aquilo havia começado, e talvez essa fosse a primeira mentira contada pela casa, porque toda coisa que respira já respirou antes de ser percebida.

            O problema não era ouvir o ar entrando pelas paredes, nem perceber o pequeno movimento das janelas durante a madrugada, nem mesmo a insistência de um ruído semelhante ao pulmão de um animal adormecido.

            O problema era que o imóvel respirava sem possuir pulmões, e isso fazia com que todas as explicações possíveis parecessem imediatamente ridículas.

            Durante o dia, a casa permanecia imóvel, obediente à geometria das coisas que não possuem vontade. Era um imóvel como tantos outros: paredes, portas, janelas, corredores, tomadas, uma escada estreita, um quintal coberto por uma espécie de silêncio vegetal.

            Havia poeira sobre os móveis e uma lâmpada que demorava alguns segundos para acender. Havia também uma torneira que pingava sempre às três horas da tarde, embora ninguém tivesse encontrado qualquer vazamento.

            À noite, porém, tudo mudava.

            Não era uma mudança visível. O imóvel não crescia, não se deslocava, não alterava a posição das portas. Nada acontecia que pudesse ser fotografado.

             Ainda assim, às duas horas e dezessete minutos, aproximadamente, as paredes pareciam adquirir uma espessura diferente, como se deixassem de separar o interior do exterior e passassem a separar o possível do impossível.

            Era nesse momento que começava a respiração.

            Primeiro, um sopro quase imperceptível.

            Depois, um longo recolhimento.

            Em seguida, o estalo das vigas.

            E então o imóvel inspirava.

            Inspirava como quem espera alguma coisa.

            Expirava como quem se arrepende.

            Ninguém morava ali havia muitos anos. Isso, entretanto, nunca significou que o imóvel estivesse vazio. O vazio é uma palavra inventada pelos vivos para nomear aquilo que não conseguem ocupar. Uma casa abandonada não está vazia. Está cheia de ausências. E algumas ausências possuem mais peso do que pessoas.

            O antigo proprietário havia desaparecido sem deixar explicações. Não havia sangue, não havia cartas, não havia roupas abandonadas sobre uma cama. Havia apenas uma fotografia encontrada na sala, virada para a parede. Nela aparecia a fachada do imóvel, ainda recém-construído, mas havia uma diferença perturbadora: todas as janelas estavam abertas, embora a fotografia tivesse sido tirada em um dia de inverno.

            No verso da fotografia havia uma frase:

            “Não venda a casa. Ela ainda não terminou de existir.”

            Ninguém compreendeu.

            Frases assim costumam sobreviver porque não precisam ser compreendidas.

            Durante anos, corretores tentaram vender o imóvel. Alguns desistiram depois de visitá-lo. Outros simplesmente desapareceram dos registros, como se nunca tivessem trabalhado com imóveis.

            Um deles afirmou que havia entrado na cozinha e saído pela infância. Outro jurou ter encontrado, no segundo andar, uma porta que dava para uma sala idêntica à sala de entrada, mas habitada por móveis que pertenciam à sua própria casa.

            Ninguém acreditou.

            É sempre mais fácil acreditar na loucura de alguém do que na arquitetura de uma casa.

            O imóvel permaneceu fechado.

            Até que certa noite alguém entrou.

            Não porque desejasse comprar.

            Não porque procurasse abrigo.

            Não porque estivesse perdido.

            Entrou porque teve a impressão de que a casa o chamava.

            Era uma sensação absurda, quase infantil. Um chamado sem voz. Uma inclinação invisível do mundo. Como se todas as ruas daquela cidade tivessem sido construídas para conduzi-lo àquela porta.

            Parou diante da fachada.

            A noite estava úmida.

            As árvores permaneciam imóveis.

            Nenhum carro passava.

            Então ouviu.

            Um som profundo.

            Lento.

            Respiratório.

            O imóvel inspirou.

            Ele recuou.

            O imóvel expirou.

            Ele aproximou-se.

            Durante alguns segundos ficou diante da porta, tentando decidir se aquilo que sentia era medo ou apenas a percepção tardia de que nunca havia estado realmente seguro em lugar algum.

            Tocou a maçaneta.

            Estava quente.

            Isso o perturbou mais do que qualquer outra coisa.

            Uma maçaneta quente significa que alguém esteve ali.

            Ou que a própria casa possui temperatura.

            Ou que a realidade é apenas uma forma educada de esconder aquilo que não conseguimos explicar.

            Abriu a porta.

            A sala estava escura.

            Não havia eletricidade, mas alguma luminosidade cinzenta penetrava pelas frestas das janelas. A poeira suspensa parecia formar pequenas constelações. Por alguns instantes ele teve a impressão de que o chão se movia.

            Não era o chão.

            Era a respiração.

            As paredes avançavam alguns milímetros e recuavam.

            Avançavam.

            Recuavam.

            Como se o imóvel estivesse tentando aprender a permanecer vivo.

            Ele entrou.

            A porta fechou-se atrás dele.

            Não houve estrondo.

            Apenas um clique.

            O tipo de clique que uma decisão produz quando já não pode ser desfeita.

            Olhou para trás.

            A porta estava lá.

            Mas parecia distante.

            Muito distante.

            Não fisicamente.

            Existencialmente.

            Aquela porta ainda era uma porta, mas havia deixado de ser uma saída.

            Foi então que compreendeu que certas coisas não precisam estar trancadas para impedir uma fuga.

            Caminhou pela sala.

            Havia um relógio sobre a parede.

            O ponteiro dos segundos girava para trás.

            Ele aproximou-se.

            O relógio marcava duas horas e dezessete minutos.

            Sempre.

            O ponteiro dos minutos tremia.

            O dos segundos recuava.

            O das horas parecia imóvel.

            Encostou o ouvido na parede.

            Ouviu um coração.

            Afastou-se imediatamente.

            Depois riu.

            Riu porque a alternativa seria aceitar.

            E rir diante do inexplicável é uma das últimas formas de soberania que restam ao homem.

            — É apenas madeira — disse.

            A parede respondeu:

            — Sim.

            Ele ficou imóvel.

            Não havia boca.

            Não havia voz.

            A resposta parecia ter surgido dentro de sua cabeça, mas possuía uma textura estranha, como se outra consciência tivesse utilizado sua memória para falar.

            — Quem disse isso?

            Silêncio.

            — Eu perguntei quem disse isso.

            A casa respirou.

            — Ninguém.

            Ele olhou para o teto.

            — Então quem respondeu?

            A casa permaneceu imóvel.

            — Você.

            — Eu não disse nada.

            — Ainda.

            A palavra caiu dentro dele como uma pedra.

            Ainda.

            O que significava ainda?

            Ainda não havia dito?

            Ainda não existia?

            Ainda não havia morrido?

            A casa respirou novamente.

            Ele começou a caminhar.

            No corredor havia sete portas.

            Tinha certeza de que eram seis.

            Contou novamente.

            Sete.

            Abriu a primeira.

            Um quarto vazio.

            Abriu a segunda.

            Outro quarto vazio.

            A terceira dava para uma pequena biblioteca.

            Livros ocupavam as estantes.

            Todos sem títulos.

            Retirou um volume.

            Abriu.

            As páginas estavam em branco.

            Virou outra.

            Em branco.

            Outra.

            Em branco.

            Até chegar à última página.

            Ali havia uma única frase:

            “Você está lendo o lugar errado.”

            Fechou o livro.

            Devolveu-o à estante.

            Foi então que percebeu que os livros respiravam.

            As capas se elevavam lentamente.

            Subiam.

            Desciam.

            Subiam.

            Desciam.

            Centenas de pequenos pulmões de papel.

            Ele saiu da biblioteca.

            A casa parecia observá-lo.

            Não havia olhos.

            Mas havia observação.

            Talvez os olhos sejam apenas uma forma primitiva de observar.

            Talvez observar seja algo que as paredes fazem melhor do que nós.

            Entrou em outro quarto.

            Havia uma cama.

            Sobre ela, um casaco.

            O casaco estava molhado.

            Ele reconheceu o tecido.

            Era seu.

            Passou a mão sobre a roupa.

            Estava fria.

            No bolso encontrou uma chave.

            Não sabia de que porta era.

            Guardou-a.

            Então ouviu passos no andar superior.

            Um.

            Dois.

            Três.

            Pararam.

            Depois quatro.

            Cinco.

            Seis.

            Ele contou.

            Eram os passos de alguém descendo.

            Mas não havia escada naquela direção.

            Mesmo assim, os passos aproximavam-se.

            O som atravessava o teto.

            Descia pelas paredes.

            Entrava no chão.

            Até que parou diante dele.

            — Quem está aí?

            A casa respondeu:

            — Você.

            — Eu estou aqui.

            — Não este.

            Ele sentiu frio.

            — Quantos de mim existem?

            A casa demorou a responder.

            — Depende de quando você pergunta.

            Ele começou a compreender que não deveria fazer perguntas.

            Mas o ser humano, diante do abismo, costuma fazer perguntas justamente porque não sabe fazer outra coisa.

            — A casa está viva?

            Silêncio.

            — A casa está viva?

            O imóvel respirou profundamente.

            — A pergunta é pequena demais.

            — Então o que você é?

            As paredes estalaram.

            — Aquilo que permanece quando ninguém mais acredita.

            Ele sentou-se na cama.

            Durante alguns minutos não disse nada.

            A casa também não.

            Foi o primeiro momento de paz.

            Talvez a paz seja apenas a suspensão temporária das perguntas.

            Fechou os olhos.

            Pensou em sua infância.

            Não lembrava do rosto da mãe.

            Isso o assustou.

            Tentou lembrar do pai.

            Também não conseguiu.

            Lembrou da escola.

            Dos corredores.

            Da primeira vez em que sentira vergonha.

            Do primeiro beijo.

            Da primeira morte.

            Mas tudo parecia acontecer dentro daquela casa.

            A casa não mostrava lembranças.

            Ela fabricava passado.

            E talvez essa fosse sua verdadeira perversidade.

            Ela não precisava matar ninguém.

            Bastava alterar aquilo que alguém acreditava ter vivido.

            Levantou-se.

            No corredor, agora havia oito portas.

            Depois nove.

            Depois dez.

            Cada vez que olhava, uma nova porta aparecia.

            — Isso não é possível.

            A casa respondeu:

            — Possível para quem?

            Ele não respondeu.

            A casa continuou:

            — Você chama de impossível tudo aquilo que não sabe suportar.

            — E o que é possível?

            — Tudo o que já aconteceu.

            — E o que não aconteceu?

            — Também.

            Ele fechou os olhos.

            — Você não faz sentido.

            A casa respirou.

            — Finalmente.

            Foi então que ele percebeu que o absurdo não era a casa respirar.

            O absurdo era ele esperar que o mundo tivesse obrigação de fazer sentido.

            A casa não era louca.

            Louca era a expectativa.

            Aquela pequena crença humana de que paredes deveriam permanecer imóveis, relógios deveriam avançar, portas deveriam conduzir a lugares e mortos deveriam permanecer mortos.

            A casa apenas retirava essas convenções.

            E, sem elas, o mundo revelava sua verdadeira arquitetura.

            Uma arquitetura sem arquiteto.

            Caminhou até o fim do corredor.

            Encontrou uma porta diferente.

            Era branca.

            Sem maçaneta.

            Sobre ela havia uma inscrição:

            “ENTRE QUANDO TIVER CERTEZA.”

            Ele sorriu.

            — Nunca entrarei.

            A casa respondeu:

            — Já entrou.

            A porta abriu-se.

            Do outro lado havia uma sala completamente iluminada.

            Ele reconheceu o lugar.

            Era a sala de sua própria casa.

            Seu sofá.

            Sua televisão.

            Sua mesa.

            Seu relógio.

            Seu retrato.

            Mas havia alguém sentado no sofá.

            Ele mesmo.

            A outra versão levantou-se.

            Olhou para ele.

            Sorriu.

            — Você demorou.

            Ele não conseguiu falar.

            — Quanto tempo estou aqui?

            O outro respondeu:

            — Desde antes de você entrar.

            — Isso é impossível.

            — Você continua usando essa palavra.

            — Quem é você?

            — A pergunta errada.

            — Então qual é a pergunta certa?

            O outro aproximou-se.

            — Por que você precisa ser alguém?

            Ele ficou em silêncio.

            O outro continuou:

            — Você passou a vida inteira tentando transformar existência em propriedade. Meu corpo. Minha casa. Meu nome. Minha profissão. Minha memória. Meu passado. Meus medos. Até a morte você queria possuir.

            — Eu apenas fiquei.

            A frase pareceu produzir uma rachadura no ar.

            O imóvel respirou.

            As duas versões dele permaneceram diante uma da outra.

            Então o outro desapareceu.

            Não morreu.

            Não saiu.

            Apenas deixou de estar onde estava.

            Ele entrou na sala.

            Era sua casa.

            Mas não era.

            Sobre a mesa havia uma fotografia.

            Pegou-a.

            Era a fachada do imóvel.

            Virou.

            No verso estava escrito:

            “Não venda a casa. Ela ainda não terminou de existir.”

            Ele deixou a fotografia cair.

            Sentiu vontade de chorar.

            Não chorou.

            Talvez porque naquele momento percebeu que até suas lágrimas pertenciam à casa.

            Saiu.

            A porta estava novamente diante dele.

            Abriu.

            Do lado de fora amanhecia.

            A rua estava cheia.

            Pessoas caminhavam.

            Carros passavam.

            Um cachorro latia.

            Uma mulher varria a calçada.

            Tudo parecia normal.

            Olhou para trás.

            O imóvel estava silencioso.

            Nenhum movimento.

            Nenhuma respiração.

            Nada.

            Ele caminhou alguns metros.

            Sentiu alívio.

            Então ouviu um som.

            Inspirou.

            Expirou.

            Parou.

            Percebeu que o som vinha de dentro dele.

            Respirou novamente.

            A casa respirou junto.

            Ou talvez ele respirasse como a casa.

            Voltou-se.

            A fachada permanecia imóvel.

            No segundo andar, uma janela abriu-se lentamente.

            Ele não viu ninguém.

            Mas teve certeza de que havia alguém olhando.

            Continuou caminhando.

            Durante meses tentou esquecer.

            Conseguiu esquecer durante alguns dias.

            Depois durante algumas horas.

            Depois durante alguns minutos.

            Até perceber que o esquecimento também era uma forma de permanência.

            Começou a sonhar com o imóvel.

            Todas as noites.

            Nos sonhos, nunca entrava.

            Ficava diante da porta.

            Esperando.

            A casa respirava.

            Ele respirava.

            E ambos aguardavam alguma coisa que nenhum dos dois sabia nomear.

            Certa manhã, recebeu uma carta.

            Não havia remetente.

            Dentro havia apenas uma folha.

            Nela estava escrito:

            “Você deixou sua chave aqui.”

            Ele verificou os bolsos.

            A chave encontrada no quarto ainda estava consigo.

            Colocou-a sobre a mesa.

            Naquela noite, dormiu mal.

            Às duas horas e dezessete minutos, acordou.

            Ouviu o som.

            Inspirar.

            Expirar.

            Inspirar.

            Expirar.

            O som vinha do corredor.

            Levantou-se.

            Abriu a porta do quarto.

            A chave estava no chão.

            Não sobre a mesa.

            No chão.

            Brilhava sob a luz fraca.

            Ele pegou.

            Não sabia por quê.

            Vestiu-se.

            Saiu de casa.

            Andou pelas ruas vazias.

            A cidade parecia outra.

            Ou talvez ele fosse outro.

            Chegou ao imóvel pouco antes do amanhecer.

            A porta estava aberta.

            Entrou.

            Desta vez não sentiu medo.

            Sentiu reconhecimento.

            O que era pior.

            A casa respirou.

            — Você voltou.

            Ele respondeu:

            — Eu nunca saí.

            A casa permaneceu em silêncio.

            — Então acabou?

            — O quê?

            — Tudo isso.

            — Tudo isso ainda nem começou.

            Ele olhou para o corredor.

            Havia apenas uma porta.

            A mesma porta.

            Branca.

            Sem maçaneta.

            Sobre ela havia uma nova frase:

            “SAIA QUANDO TIVER CERTEZA.”

            Ele sorriu.

            Empurrou.

            A porta abriu.

            Do outro lado havia uma rua.

            A rua estava cheia.

            Pessoas caminhavam.

            Carros passavam.

            Um cachorro latia.

            Uma mulher varria a calçada.

            Era a mesma manhã.

            Era a mesma cidade.

            Era o mesmo mundo.

            Ele saiu.

            A porta fechou.

            Olhou para trás.

            Não havia imóvel.

            No lugar da casa existia apenas um terreno vazio.

            Nenhuma parede.

            Nenhuma janela.

            Nenhuma escada.

            Nenhum vestígio.

            Um homem passou por ele.

            Ele perguntou:

            — O senhor sabe o que havia aqui?

            O homem olhou para o terreno.

            — Nada.

            — Nunca houve uma casa?

            — Não.

            — Tem certeza?

            O homem sorriu.

            — Tenho.

            Ele continuou caminhando.

            Depois de alguns metros, colocou a mão no bolso.

            Encontrou a chave.

            Parou.

            Olhou para ela.

            Não havia nenhuma porta.

            Mas a chave existia.

            Talvez uma chave não precise de fechadura.

            Talvez sua função verdadeira seja lembrar ao homem que toda abertura contém a possibilidade de um fechamento.

            Guardou-a novamente.

            Continuou.

            A cidade despertava.

            O céu clareava.

            As pessoas começavam a falar.

            O mundo recuperava sua aparência habitual.

            Mas, em algum lugar atrás das coisas, havia uma respiração.

            Lenta.

            Profunda.

            Quase imperceptível.

            Ele caminhou mais depressa.

            A respiração acompanhou.

            Parou.

            Ela parou.

            Voltou a caminhar.

            Ela voltou.

            Então compreendeu.

            Não era o imóvel que respirava.

            Era o espaço entre ele e o imóvel.

            Era aquilo que permanecia quando a casa desaparecia.

            Era a distância.

            Era a ausência.

            Era o intervalo entre uma coisa e seu nome.

            Talvez fosse Deus.

            Talvez fosse o nada.

            Talvez fosse apenas o ruído do próprio sangue procurando uma saída.

            Ele não soube.

            E, pela primeira vez, não precisou saber.

            Sentou-se numa praça.

            Observou as pessoas.

            Todas caminhavam como se soubessem para onde iam.

            Ele achou aquilo profundamente comovente.

            Uma criança corria atrás de uma bola.

            Um homem discutia ao telefone.

            Uma mulher chorava discretamente.

            Um velho alimentava pássaros.

            Nada fazia sentido.

            Tudo continuava.

            E talvez esse fosse o único sentido possível.

            Continuar.

            Não porque houvesse destino.

            Não porque houvesse promessa.

            Não porque alguém tivesse escrito uma finalidade escondida atrás das paredes.

            Continuar porque o movimento é a forma mais discreta que o absurdo encontrou para não confessar sua derrota.

            Ele fechou os olhos.

            Respirou.

            Inspirou.

            Expirou.

            Por um instante, ouviu novamente o imóvel.

            Mas agora o imóvel estava dentro dele.

            Ou ele estava dentro do imóvel.

            Ou nunca existira imóvel algum.

            Abriu os olhos.

            A praça continuava ali.

            As pessoas continuavam ali.

            O mundo continuava.

            No bolso, a chave permanecia quente.

            Ele apertou-a entre os dedos.

            E ouviu, muito distante, uma porta se abrindo.

            Depois outra.

            Depois outra.

            Depois milhares.

            Todas ao mesmo tempo.

            Nenhuma levava a lugar algum.

            E, justamente por isso, todas levavam para dentro.

            Ele sorriu.

            Não havia mais casa.

            Não havia mais saída.

            Não havia mais pergunta.

            Apenas a respiração.

            Apenas o escuro.

            Apenas aquele estranho lugar onde o ser, cansado de existir, finalmente descobria que o nada também precisava respirar.

Clayton Alexandre Zocarato

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Paulo Roberto Costa: 'Sonhos de um dia de verão'

“(…) O som do motor da moto recém-adquirida lhe dava uma sensação inebriante não somente pela potência que transmitia, mas, muito mais, pelos olhares que recebia dos pedestres que o observavam com um misto de admiração e inveja.”

 

Domingo de manhã. O sol pálido e morno de um verão surpreendentemente ameno fornecia uma luminosidade suave e uma leve brisa transmitia uma tranquilidade que remetia ao murmúrio de riachos entre pedras em paisagens bucólicas.

O motociclista descia lentamente a avenida saboreando todo esse raro momento, propiciado pela ausência de carros e da poluição da semana. O som do motor da moto recém-adquirida lhe dava uma sensação inebriante não somente pela potência que transmitia, mas, muito mais, pelos olhares que recebia dos pedestres que o observavam com um misto de admiração e inveja.

Sentia-se grato e radiante por toda essa felicidade e pela expectativa de chegar ao local onde, aos domingos de manhã, jogava futebol com os amigos de infância que, certamente, também iriam sufocá-lo de perguntas sobre a nova aquisição.

A motocicleta e o futebol eram suas paixões, pois permitiam tanto exibir seu sucesso profissional quanto suas habilidades com as pernas, dignas de um promissor atleta.

A mente vagava por todo o labirinto de seu ego em um devaneio tal que somente se deu conta de que estava em um cruzamento de avenidas quando ouviu um barulho assustador de um carro em alta velocidade freando inutilmente e o som do choque inevitável de metais.

Por alguns instantes, que não soube precisar quanto, tudo desapareceu. Lentamente, porém, começou a recobrar os sentidos. Ouvia ao longe o som indistinto de vozes e percebia, mais do que via, a correria de pessoas. Não sentia dor alguma. Na verdade, não sentia nada e sentiu-se feliz apenas por não ter batido a cabeça. Não conseguia imaginar como, mas já estava sem o capacete que, ou fora arrancado pela batida ou havia sido retirado de sua cabeça por alguém. Não sabia dizer. Girou lentamente a cabeça e tentou focar em alguma coisa. Foi quando viu alguma coisa que lhe gelou o sangue. Ao lado de seu corpo, mas totalmente separado dele conseguia ver o que parecia ser uma de suas pernas ensanguentada, parecendo ter sido arrancada na altura da coxa. O pânico e o pavor lhe secaram a boca. Arregalou os olhos em total incredulidade. O horror tomou conta de todo o seu ser e começou a gritar, gritar, gritar e chorar com todas as suas forças.

Foi quando acordou! Ainda gritando. Não estava mais no chão da avenida no domingo de manhã! Estava em uma cama, no meio da noite, encharcado de suor e com o coração que parecia querer sair pela boca.

Meu Deus! Estivera sonhando! Graças a Deus! Graças a Deus! Sentiu um alívio tal que parecia ter se livrado do peso do mundo todo de suas costas. Com um suspiro profundo, tentou se localizar na escuridão do quarto enquanto repassava o enorme pesadelo do qual havia acordado.

Sentia o corpo pesado e tinha certa dificuldade de se mover. Não conseguia sequer raciocinar direito. Foi quando alguém, provavelmente alertado pelos seus gritos, entrou correndo no quarto e acendeu a luz. Uma enfermeira! Não estava em sua casa! Estava em um quarto de hospital! Enquanto a enfermeira corria atendê-lo, sentindo que o terror lhe assaltava novamente, reuniu todas as suas forças para levantar-se um pouco enquanto olhava desesperado para o final da cama. Puxou as cobertas e contemplou aturdido o vazio na cama onde deveriam estar suas pernas. Voltou a gritar e a chorar. Queria se levantar e fugir, fugir desse pesadelo. Gritou, gritou, gritou e, de repente, acordou….




Ranielton Dario Colle: 'Um lapso Marina…'

Ranielton Dario Colle: ‘Um lapso Marina…’

– Oi – disse Marina olhando em meus olhos com seu jeito casual, e “oi” eu lhe respondi de forma indiferente e quase rude… A verdade é que eu estava cansado, há uma semana que não dormia direito e não tinha paciência para conversar com ninguém, por mais que eu gostasse da pessoa. E eu gostava de Marina, gostava não como mulher, mas, sem dúvida, como uma amiga, quase que como uma irmã…

Era um fim de tarde nublado e não me recordo direito se era uma sexta-feira ou a véspera de um feriado. Porém eu jamais imaginaria que aquele “oi”, daquele fim de tarde, seria o último que trocaríamos em nossas vidas.

Lembro de sua expressão vívida, e de sua felicidade ao me ver expressada em seu rosto através daquele simples oi; felicidade essa que murchou ante a minha apatia e aparente indiferença. E ela era uma amiga tão intima, tão querida…

Será que, se eu soubesse que nunca mais nos veríamos, teria agido diferente? Eu não sei… É provável que eu me esforçasse para parecer mais simpático, só que a evidente falta de assunto provocada pelo meu cansaço mental não deixaria a conversa ir muito mais longe.

O consolo? Depois de cumprimentá-la na padaria, onde sempre passava todos os fins de tarde para comprar pão, fui direto para casa e não fiz outra coisa se não cair na cama, e dormir…

Sabe aquela sensação gostosa de sono, que você acorda e volta a dormir várias e várias vezes e, cada vez que você acorda, parece que está em uma outra dimensão? E então vai tendo esses sonhos que se revelam sagas e que faz com que você simplesmente não queira mais acordar? Sim… sabe essa sensação entorpecida e de prazer que te prende na cama e faz com que você durma muito mais do que seria o saudável, e que ainda queira dormir mais? Sabe essa sensação? Ela não me largava!

E quando eu finalmente venci a batalha com a cama, já era fim de tarde, embora eu pensasse que ainda era de manhã.

Quando eu levantei, após lavar o rosto inchado de tanto dormir, decidi sair de casa, caminhar, andar pelas ruas, que eram as mesmas ruas de sempre.

Após caminhar um pouco percebi, não obstante, que tudo parecia tão diferente, e que, de alguma forma, estava tudo igual. Eu fiquei com essa sensação confusa, com um certo mal estar: Havia uma aura estranha nas coisas. As pessoas conhecidas com as quais eu cruzava me cumprimentavam, e sorriam, todavia pareciam diferentes e eu não sabia explicar o porquê.

Você leu, ou assistiu ao filme “Os Invasores de Corpos”, de Jack Finney? Então… a sensação que eu tinha era parecida com a do protagonista no começo. Como se as pessoas continuassem a ser as pessoas mas, ao mesmo tempo, não fossem mais elas! Por um instante parei, fechei os olhos e respirei fundo: “Será que estou enlouquecendo?”, pensei… Só que não tinha lógica para isso, eu não tinha feito nada diferente no dia anterior, eu nunca usara nenhuma droga pesada em minha vida, só tomava álcool socialmente e, ainda assim, detestava os destilados…

Continuei a andar, e tentei prestar atenção nas ruas para ver se notava alguma diferença, afinal eu conhecia aquela cidade como a palma da minha mão. Eu andara por ela durante os últimos dez anos de minha vida. Então eu a conhecia, não? Não… na verdade descobri que não é tão fácil perceber as coisas assim. A gente pensa que está vendo tudo todos os dias, mas só vê é o que já está acostumado e não presta muita atenção nos detalhes; pelo menos não até algo nos chame a atenção e nos obrigue a ver. Tem uma explicação para isso: o nosso cérebro é superotimizado, ele não perde tempo analisando informações que não são relevantes no dia a dia, porque se ele fosse fazer isso o nosso processo de tomada de decisões seria muito mais lento e cansativo, e talvez só ocorresse quando já fosse muito tarde para qualquer coisa… É como em uma partida de xadrez, por exemplo, enquanto um computador normal analisa todas as jogadas possíveis mesmo aquelas mais absurdas e sem sentido, a nossa mente ignora essas e pensa apenas nas jogadas que tem nexo.

Por isso eu olhava e não notava nada de diferente na rua: pode ser que uma placa aqui e outra ali, a cor de um letreiro… mas tudo isso poderia ter sido trocado há dias e eu não percebera antes por não prestar atenção…

 

– Ei cara? Ei cara? Está tudo bem? Desculpe… eu não vi você, só que você deveria prestar mais atenção nas coisas né?

– Ãh? O que? Onde eu estou?

– Na rua Expedicionários, como assim? Você… está tudo bem?

– Não, desculpa… eu tenho que ir para casa…

– Olha, eu esbarrei sem querer em ti e você desabou… precisa de ajuda?

– Não tudo bem… eu vou indo

– Você bateu a cabeça tem certeza de que está Ok?

– Tenho, claro, obrigado…

 

 

Havia um canteiro de rosas na praça, e eu gostava delas, não de colhê-las e levar para casa, não, eu gostava delas ali, vivas, enfeitando a cidade feia e morta.

Quando cheguei em casa e abri a porta, Marina estava ali e sorriu para mim:

– Chegou mais cedo hoje? Assim não vale, estragou a surpresa! – e me deu um beijo. Eu fiquei perplexo! O que ela estava fazendo ali? E por que parecia diferente? Por que beijara a minha boca? Ela estava alguns anos mais velha e, ao mesmo tempo, mais bonita. E eu senti uma vontade irresistível de pegá-la e carregá-la até o meu quarto, beijá-la novamente e fazer amor: “Mas não… Pára! O que está acontecendo?” – pensei comigo mesmo e reagi:

– Cheguei sim Marina, mas o que você está fazendo aqui?

– Como assim? Você não está feliz porque eu voltei de viagem mais cedo?

– Não é que… eu te cumprimentei ontem na padaria e depois…

– Amor, para de brincadeira, você está me assustando… eu fiquei uma semana fora, e para mim parece que foi um mês, de tanta saudade que eu estava sentindo!

Foi então que percebi a aliança em seu dedo e olhei instintivamente para minha mão percebendo que nela também havia uma. Esse foi o primeiro erro que eu notei no quadro, como num jogo de sete erros, como eu não havia notado antes? Havia um porta-retratos com uma foto da gente, dela com vestido de noiva… ela… ela era minha esposa! E eu não conseguia entender mais nada…

 

 

– Ei cara! Ei… tudo bem com você? – disse o homem de terno parado à minha frente.

–Ã… ãh? Não, sim, tudo bem, eu vou indo. Obrigado.

 

Quando eu tive o apagão? Era difícil dizer, no entanto, foi como se eu acordasse em um lugar diferente com pessoas diferentes e que eram as mesmas… A última coisa que eu me lembrava ao certo era de ter dado oi para a Marina na padaria, e eu tenho certeza de que a gente nunca trocou nem mesmo um beijo. Ela era como uma irmã para mim, uma amiga e confidente, e agora ela estava casada comigo! E deve ter percebido que eu estava estranho… tudo que eu pensei em fazer foi ir até a padaria e tentar reconstituir aquele dia que, eu tinha certeza, tinha sido ontem… mas a padaria era agora uma farmácia… quanto tempo havia se passado?

 

– Ei amor… eu queria te fazer uma surpresa ontem!

– Eu sei… desculpa tá, é que está tudo tão… tão estranho… não sei o que aconteceu com o mundo, ou comigo… o que houve com aquela padaria da rua Expedicionários?

– Ah, para de fazer graça comigo, sério, você está me assustando.

– Não, desculpa, mas eu preciso que você me diga…

– Como você sabe há quase dez anos seu dono faleceu e eles fecharam… ficou fechado por uns dois anos até que abriram uma farmácia ali… mas porque isso agora? O que é que está acontecendo?

– Marina – eu disse – eu acho que estou enlouquecendo – e lágrimas começaram a rolar de meu rosto  – Em que ano nós estamos?

– Em 2017… – disse ela ainda sem conseguir assimilar o que eu estava falando… 2017, eu estava em 2005, minha memória era de sair daquela padaria em junho de 2005. Então, notei pela primeira vez também que todos os móveis e toda a decoração de meu apartamento estava diferente, e pela janela vi prédios que não existiam antes, e quis muito que a Marina fosse só aquela Marina que era minha amiga e confidente para que eu pudesse desabafar com ela, mas aquela Marina não existia mais, e eu nunca mais a veria…