Da Romênia ao ROL, o filólogo, escritor e poeta Felix Nicolau!

Filho do País dos Cárpatos, Felix Nicolau traz ao ROL “a clareza e profundidade do discurso literário, explorando as dimensões hermenêuticas, culturais e comunicativas da arte e da sociedade” (Rhea Cristina)!

Felix Nicolau
Felix Nicolau

Felix Nicolau, natural de Bacau (Romênia), é filólogo, escritor, poeta, professor e doutor em Estudos Literários pela Universidade de Bucareste, tendo lecionado nas universidades Complutense de Madrid, Universidade de Granada e Universidade de Lund, na Suécia.

Membro da União dos Escritores da Romênia e colabora com numerosas revistas literárias e científicas, tanto nacionais como estrangeiras

Entre os seus livros destacam-se: Știința minciunii responsabile. Tratat de embolii culturale; Istoria nucleară a culturii. Cuante hermeneutice; Ingen fara på taket; You Are not Alone. Culture and Civilization; Morpheus: from Text to Images. Intersemiotic Translation; Take the Floor. Professional Communication Theoretically Contextualized; Cultural Communication: Approaches to Modernity and Postmodernity; Homo imprudens.

Publicou vários livros de poesia e dois romances: Kamceatka. Time is Honey; Pe mâna femeilor; Tandru şi rece, Bach, manele şi Kostel; Cucerirea râsului; Salonul de invenţii.

Felix Nicolau inicia sua colaboração ROLiana com o surpreendente poema A vida é mórbida, versos que denotam a tensão profunda entre Eros e Tânatos, a dualidade amor e morte.

A vida é mórbida

Imagem criada pelo ChatGPT - https://chatgpt.com/c/6a0dec22-51e4-83e9-944e-3d2dca9b9457
Imagem criada pelo ChatGPT – https://chatgpt.com/c/6a0dec22-51e4-83e9-944e-3d2dca9b9457

se tu também entrasses como as outras
quase à hora do canto dos galos
furtivamente e soltando aquele cheiro
de escaravelhos vermelhos típico dos cemitérios armênios
mas tu não
quase me acordas mergulhando
no meu sonho com a boca aberta
e as pálpebras frias
quase consigo sentir teu coração pulsando
sobre o meu peito
mesmo aproveitando-me de ti enquanto dormes
ainda sou capaz de estender o braço esquerdo
para verificar se

a tua alma está lá
congelada e enorme

se continua lá congelada e enorme
enquanto tu insistes que uma vida noturna intensa
estimula o pulso
acelerando o ridículo

Felix Nicolau

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Félix Nicolau

Entrevista com o escritor e professor universitário romeno
Félix Nicolau

Logo da seção Entrevistas ROLianas
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“Um intelectual está aberto a um debate totalmente livre e pronuncia-se
contra a censura”. (Félix Nicolau)

Professor Felix Nicolau - Arquivo pessoal
Professor Felix Nicolau – Arquivo pessoal

Caros amigos do Jornal Cultural ROL, e´ com grande prazer que vos apresento Félix Nicolau, um erudito e uma das personalidades da literatura romena contemporânea, com uma carreira complexa e multifacetada que combina, com naturalidade, a criação literária, a reflexão crítica e a atividade académica. 

Licenciado em Filologia e Filosofia, obteve o título de Doutor em Filologia em 2003, com uma tese de literatura comparada. A sua estreia editorial ocorreu em 1996 com o livro de poesia Ascultând cerurile, publicado na revista Arca de Arad, marcando o início de uma atividade literária prolífica e diversificada. 

É membro da União dos Escritores da Romênia e colabora com numerosas revistas literárias e científicas, tanto nacionais como estrangeiras.  

Ao longo do tempo, Felix Nicolau publicou uma obra rica que inclui poesia (quatro volumes), prosa (dois romances) e ensaios e crítica literária (nove livros). 

No domínio da poesia, obras como Kamceatka, Time is Honey (2014), Bach, manele & kostel (2003), Salonul de invenții (2002) e Cucerirea râsului (1996) revelam um poeta preocupado com o jogo semântico, a ironia cultural e a expressão lúdica.

No que se refere à prosa, os romances Tandru și rece (2007) e Pe mâna femeilor (2011) são exemplos do seu interesse pela exploração das relações interpessoais e dos paradigmas socioculturais do espaço pós-moderno romeno. 

No domínio da crítica literária e da teoria cultural, Nicolau publicou vários volumes de ensaios e estudos que refletem profundas preocupações teóricas. Entre as suas obras de referência, destacam-se: Homo Imprudens (2006), Anticanonice (2009), Codul lui Eminescu (2010), Estetica umană: de la postmodernism la Facebook (2013) e os volumes de 2014: Cultural Communication: Approaches to Modernity and Postmodernity e Comunicare și creativitate. Interpretarea textului contemporan e Take the Floor. Professional Communication: Theoretical Contextualization. Mais recentemente, Nicolau publicou Istoria nucleară a culturii. Cuante hermeneutice (2021) e Știința minciunii responsabile. Tratat de embolii culturale (2024), no qual aborda temas atuais relacionados com a hermenêutica, a identidade e o discurso cultural na era digital.

Além da paixão pela escrita e pela crítica, Felix Nicolau é um professor universitário dedicado e respeitado. Leciona literatura, comunicação e estudos culturais em diversas instituições académicas, nomeadamente como professor convidado do Instituto da Língua Romena (ILR) na Universidade Complutense de Madrid e na Universidade de Granada, como professor na Universidade Técnica de Construções Civis de Bucareste, na Roménia, e como professor convidado na Universidade de Lund, na Suécia.

Além disso, é afiliado à Escola de Doutoramento em Filologia da Universidade “1 de Dezembro de 1918” de Alba Iulia, na Roménia, onde contribui para a formação de investigadores nas áreas da literatura e da comunicação.

A obra e a atividade de Felix Nicolau inserem-se nos debates contemporâneos sobre literatura e cultura, dado que o autor participa ativamente na vida jornalística e académica, tanto romena como internacional, colaborando com publicações como o Swedish Journal of Romanian Studies, a Littera Nova ou a Bucovina literară.

Através das suas abordagens teóricas, ensaísticas e criativas, Felix Nicolau procura conferir clareza e profundidade ao discurso literário, explorando simultaneamente as dimensões hermenêuticas, culturais e comunicativas da arte e da sociedade.

Rhea Cristina: Conhece e fala sete línguas estrangeiras: inglês, italiano, francês, espanhol, alemão, português e sueco. O que o levou a estudar português? O que representam para si o Brasil e a América do Sul em geral?

Felix Nicolau: Há muitos anos, frequentei cursos de língua e cultura portuguesas na embaixada do Brasil em Bucareste. Com certeza irei frequentar um novo curso num instituto para atualizar os meus conhecimentos da língua. Por isso, conheço melhor o português do Brasil, que, aliás, tem uma pronúncia mais clara. 

Sempre me interessei pela cultura de expressão portuguesa, devido à sua vastidão temporal e espacial. O Brasil e a América do Sul são um caldeirão de culturas que não se pode deixar de conhecer. E como nós, romenos, também usamos uma língua neolatina, seria uma pena não aceder ao original do que as culturas de expressão portuguesa têm para oferecer.

Rhea Cristina: O que significam para si as palavras «história», «identidade» e «memória individual e coletiva»? 

Felix Nicolau: São conceitos essenciais para o ser humano. Por exemplo, não basta uma pessoa falar com um certo grau de correção a língua portuguesa ou a língua romena para se poder dizer que é brasileira ou romena. A identidade, que inclui os tipos de memória, significa conhecer a história sem distorções, as tradições e a cultura em causa. Sem isso, ninguém pode assumir uma identidade específica. 

Pelo contrário, se um estrangeiro aprender bem essas coisas, então torna-se mais nativo do que um habitante local que não se esforça para desenvolver a sua identidade. Portanto, a identidade conquista-se, não é algo que se tenha por direito. É em vão que muitos se gabam de ter nascido num determinado lugar. Podiam ter nascido noutro qualquer lugar. 

A falta de pensamento crítico e os automatismos são pragas da humanidade que só podem ser curadas através da exposição à cultura autêntica. No entanto, isso está a tornar-se cada vez mais difícil, pois a educação está cada vez mais diluída. Especialmente para se obter o ser humano globalizado, o homem de plasticina.

Rhea Cristina: Durante os 50 anos de totalitarismo, a Europa de Leste produziu apenas cultura de propaganda? A cultura da Europa de Leste submeteu-se totalmente aos cânones da ideologia oficial? Que ensinamentos sobre os valores do ser humano nos legou essa cultura?

Felix Nicolau: …De modo algum. É verdade, porém, que apenas a cultura alinhada com o sistema comunista foi promovida. Além disso, era mesmo perigoso produzir cultura não alinhada. Muitos acabaram na prisão, foram mortos ou perderam o estatuto social por causa disso. Em suma, apenas os fanáticos, os idiotas e os oportunistas se submeteram aos cânones da cultura oficial. 

A verdadeira cultura, a não alinhada, revelou o lado absurdo, ou mesmo feroz, do mundo. Não existe uma cultura do Leste europeu, mas sim várias. Os romenos promovem criações com um toque folclórico, mas também o absurdo e as vanguardas. Os checos têm um sentido de humor ingênuo-absurdo no cinema. Os húngaros têm uma inclinação para o absurdo sofisticado e para uma visão romântica e misteriosa. E assim sucessivamente. São povos com matrizes culturais semelhantes, mas também diferentes. 

Daí os frequentes conflitos e a incapacidade de estabelecer uma aliança político-militar-econômica em toda a região. Isso diz muito sobre as diferenças.

Rhea Cristina: Num mundo com grandes mudanças geopolíticas, como o atual, qual é ou qual deveria ser o papel da cultura a nível mundial? Que importância tem a cultura europeia? E a literatura sul-americana? 

Felix Nicolau: A cultura tem, como sempre, um papel duplo: preservar identidades e tradições elevadas, não bárbaras, e construir pontes interculturais. Não é uma tarefa fácil e, infelizmente, muitos promotores culturais têm um domínio limitado da cultura, limitando-se a procurar um lugar confortável em diversas instituições e projetos. Além disso, há muitos projetos supostamente culturais, mas centrados em aspectos da moda e ideologizados que, na verdade, não contribuem em nada para a vida cultural. 

A literatura sul-americana tem um papel especial precisamente devido à cultura de onde provém. Como se sabe, esta literatura abordou, com meios estilísticos espetaculares, temas relacionados com a ditadura e o autoritarismo. Afinal, é isso que a literatura deve fazer: propor novas formas narrativas e desenvolver a humanidade, expondo temas e situações de forma desideologizada. Não impor uma única forma de leitura.

Rhea Cristina: Qual é, atualmente, o estatuto do escritor, filósofo e tradutor no espaço cultural europeu e mundial? 

Felix Nicolau: Existem diferenças significativas entre estas três figuras. O escritor tornou-se um pilar da sociedade do espetáculo e um crítico desta, apenas na medida em que não é movido pelo desejo de receber prêmios. Refiro-me aos escritores representativos, aqueles que são apoiados pelos sistemas. No entanto, também existem escritores livres que não se deixam condicionar pelas relações comerciais em busca do sucesso. 

Ultimamente, os filósofos representativos têm recuperado a vantagem perdida face aos escritores. Surgem filósofos-influenciadores que dão conselhos, sobretudo, sobre a felicidade. Quanto aos tradutores, tinham alcançado um certo nível de respeitabilidade, sobretudo sob a pressão dos estudos de tradução. No entanto, a explosão de programas baseados em inteligência artificial irá reduzir a sua contribuição. Ficarão muito poucos tradutores, que se dedicarão mais a aperfeiçoar as traduções feitas com IA. 

Porém, os escritores também começaram a criar textos de forma pós-algorítmica com a ajuda da IA, embora poucos o reconheçam. De qualquer forma, um artista define-se pela liberdade na sua arte. Enquanto o artista se preocupar em incorporar a correção política do momento no seu processo criativo, a sua arte estará morta a nível ontológico. Por mais prêmios que receba.

Rhea Christina: Que tipo de intelectual existe atualmente na Europa e na cultura sul-americana? Estão presentes na cena cultural mundial?

Felix Nicolau: Na minha opinião, um intelectual não é apenas um especialista ou um homem de cultura pago pelo Sistema. O intelectual é alguém que está genuinamente em busca da verdade, com espírito crítico, e que se esforça por acumular informação de tantos domínios quanto possível. Essa informação é depois integrada no seu sistema cultural com base em critérios de valor, e não em função de ofertas e oportunidades. 

Um intelectual está aberto a um debate totalmente livre e pronuncia-se contra a censura. Poderia dizer que uma pessoa amplamente aceite pelo Sistema e multipremiada não pode, de forma alguma, ser um intelectual. A função do intelectual consiste, acima de tudo, em lutar pela decência e pelos direitos, e não em alinhar com os diversos discursos do poder. Da mesma forma, um intelectual esforça-se por construir a sua cultura através de várias línguas estrangeiras. 

A verdade é que esta condição humana é extremamente rara e, na maioria dos casos, é marginalizada. A história mostra-nos que a espécie humana não gosta de jogos justos e baseados em regras. Desde sempre que os sistemas têm influenciado o resultado do jogo e da competição. O mundo poderia ter sido um paraíso para todos, mas está longe disso. 

O mito do robô que libertará o homem do trabalho e lhe permitirá dedicar-se à construção cultural não passa de um mito. A proliferação dos robôs empurra o homem verdadeiramente trabalhador, que não usufrui de diversos privilégios imerecidos, para fora do panorama, tornando-o inútil e dispensável. É uma perspetiva sombria, nada intelectual.

Rhea Cristina: Qual é a sua mensagem para a comunidade romena no Brasil e para a comunidade cultural brasileira?  

Felix Nicolau: Uma mensagem de coragem e abertura cultural, ou seja, de esforço intelectual contínuo, de acumulação e interpretação. Não nos limitemos à superfície das culturas; estudemos com energia durante toda a vida. Só assim as culturas podem permanecer verdadeiramente vivas e não se transformar em mecanismos festivos para a promoção de diversos funcionários. 

Lutem pela verdade e não se deixem levar apenas pelos influenciadores culturais. Procurem os verdadeiros sábios. Pensem, portanto, na vitória e na alegria.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

Todos los derechos reservados © Rhea Cristina, www.cristinarhea.wordpress.com

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Entrevista com o mestre romeno Sergiu Anghel

“Neste momento, somos um viveiro de valores que partem e um cemitério de elefantes que retornam.” (Sergiu Anghel)

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Sergiu Anghel - Arquivo pessoal
Sergiu Anghel – Arquivo pessoal

Queridos amigos, tenho a grande satisfação e honra de dar continuidade à minha série de entrevistas no maravilhoso Jornal Cultural ROL, com trechos da minha entrevista com o distinto coreógrafo Sergiu Anghel.

Ele é professor universitário doutor (Universidade Nacional de Arte Teatral e Cinematográfica “I. L. Caragiale”, Diretor do Departamento de Direção-Coreografia, Bucareste, Romênia) e Vice-Presidente da União dos Intérpretes, Coreógrafos e Críticos de Música e Dança da Romênia.

A entrevista foi publicada no meu quarto livro de entrevistas, ROMENOS DO SÉCULO XXI. Entrevistas-documento com personalidades romenas (editora Pro Universitaria, 2013). 

O volume contém 32 entrevistas com 29 personalidades (culturais e sociopolíticas) da Romênia contemporânea, nas quais analiso diversos aspetos da vida política, socioeconómica e cultural da Roménia, bem como as formas pelas quais estas foram afetadas pela ideologia comunista e pela transição para a democracia após 1989.

Os temas de discussão destas entrevistas abordam a ideia da nação romena, o destino do povo romeno nos planos cultural, social, histórico e político, analisando o processo do comunismo na Romênia, o período de transição pós-comunista e a fase da monarquia constitucional da Romênia.

Nascido em 12 de fevereiro de 1954, o mestre Sergiu Anghel é uma personalidade artística única no âmbito do balé romeno e internacional. Um artista cujas criações possuem uma capacidade máxima de integração na arte coreográfica europeia e mundial.

Aluno dos liceus de coreografia de Cluj e de Bucareste (ambas grandes cidades da Romênia), posteriormente formado pela Faculdade de Letras de Bucareste, na seção romeno-francês, com uma tese de graduação em francês: „Athanor – alchimie des archétypes dans l’œuvre d’Arthur Rimbaud“.

Ele realizou estudos de composição coreográfica nos Estados Unidos, na Duke University, Carolina do Norte, no âmbito do ADF (American Dance Festival), em Nova York com Linda Turney, Stuart Hodes, Betty Jones e Carman Moore, e na Amsterdam Summer University, com Richard Fine. Em 1990, foi convidado pela USIA (United States Information Agency), no âmbito do “International Visitor Program”. Recebeu vários prêmios e diplomas nacionais e internacionais (Medalha de ouro no Festival Internacional de Videoarte – Bar, Montenegro). Fundador e coreógrafo do grupo Contemp, de 1973 até 1988.

Assinou o libreto, a direção e a coreografia de numerosos espetáculos de balé em teatros e nas principais cenas culturais da Romênia. Logo após a Revolução Romena de 22 de dezembro de 1989, encenou a obra de teatro experimental „Cartea lui Prospero“, com a qual realizou turnês em Liverpool, Londres, Bonn, Freiburg, Budapeste e Bratislava.

A partir de 1993, tornou-se diretor artístico da Companhia Orion Ballet do Centro de Cultura “Tinerimea Română”, em Bucareste. Nessa função, montou os espetáculos: „Anotimpuri“, „Barocco Party“, „Miss Prophana“ e „Nostalgia“.

Um artista de consciência, um analista de profundidade implacável, o coreógrafo Sergiu Anghel cria o espaço de liberdade e atenção necessário a uma sociedade democrática, propondo-nos que sejamos rigorosos e objetivos conosco mesmos – por um amor sincero ao povo romeno e à história romena. Ele constrói/reconstrói para nós, romenos, o pensamento lúcido e objetivo de que precisamos para erguer/reerguer de forma sólida e eficiente o nosso futuro.

Seus espetáculos de balé recebem o reconhecimento da crítica internacional, sendo geralmente considerados obras-primas do gênero teatro-dança, e a sua companhia, Orion Ballet, um autêntico laboratório de criação original.

Em 1999, quando tive a honra de conversar com o mestre Sergiu Anghel, chamou-me imediatamente a atenção a inteligência e a notável mobilidade intelectual deste artista, profundamente devotado tanto à sua arte quanto ao povo romeno. No âmbito desta entrevista, em um tom sóbrio, objetivo, mas sincero, o coreógrafo Sergiu Anghel examina de forma rigorosa, porém eficaz, à semelhança de um cirurgião que utiliza o bisturi em benefício do paciente, algumas das questões culturais essenciais da história e da cultura romenas: a moda dos espetáculos de balé soviéticos dos anos 70, o significado do repertório da Ópera Romena, o valor da dança no contexto europeu, o sucesso de um espetáculo de dança em uma sociedade totalitária e/ou democrática, a situação profissional do bailarino romeno e a moeda “euro” no espaço cultural europeu.

Selecionei deste fascinante entrevista alguns excertos, aqueles ligados a temas culturais.

Rhea Cristina: Antes de 1989, qual era o significado do repertório da Ópera Romena? Como os bailarinos romenos descobriam e que valor tinha para eles a Verdade?

Sergiu Anghel: O repertório da Ópera Romena era moldado à imagem e semelhança do mausoléu de Lenin. Um repertório morto, mas empalhado segundo todas as rigorosidades da ciência. Um lugar de peregrinação cultural para subretas e recrutas em serviço militar, afastados dos perigos do decadentismo ocidental.

É injusto perguntar-me como os bailarinos romenos descobriam a verdade, quando os filósofos e intelectuais romenos cultivavam a mentira. O seu silêncio foi de ouro.

Rhea Cristina: O que significa a dança no contexto europeu em 1999? Quais são as suas direções e qual é a situação profissional do bailarino romeno?

Sergiu Anghel: A Europa financia a criação original pelo seu valor patrimonial. É um investimento a longo prazo. Na Romênia investe-se na interpretação, ou seja, no perecível. Nada mudou nas políticas culturais das duas zonas, da Idade Média até hoje. (…)

Na televisão não existem fundos para produções vendáveis no mercado ocidental; em compensação, existem recursos para a aquisição de espetáculos de teatro que, dessa forma, perdem o seu público local. Na Romênia não existe uma política cultural coerente. E, o que é mais grave, ninguém presta contas de nada a ninguém. A política cultural na Romênia é feita entre amigos, em volta de um copo de bebida (spritzer – nota do jornalista).

Na Europa, a coreografia é o fenômeno cultural mais dinâmico, em torno do qual gravitam todas as outras artes.

Na Romênia, a coreografia é uma arte mal administrada, quando não chega mesmo a ser marginalizada. Os festivais de teatro raramente têm uma seção de dança ou de teatro-dança. Nesse contexto, os bailarinos — os melhores — partem, e a sua inserção é muito mais fácil no Ocidente do que a dos atores que permanecem por patriotismo do handicap da língua.

Rhea Cristina: O comunismo tentou sublinhar a identidade cultural da Europa de Leste. O que trouxe de novo e o que a Romênia preservou nesse espaço geográfico no que diz respeito à coreografia? Após 1989, podemos falar de um fracasso da coreografia romena ou de uma explosão de novos talentos? O valor na Romênia é apreciado ou desencorajado? Podemos falar de um vazio legislativo na promoção dos valores nacionais? O que garante a durabilidade e o sucesso de um espetáculo de dança numa sociedade totalitária e/ou democrática?

Sergiu Anghel: Não tínhamos grande coisa para preservar. No período entre as guerras, existiu um pequeno movimento coreográfico com Gabriel Negry, Floria Capsali etc. A verdadeira história da coreografia começa, infelizmente para o período mencionado, apenas na era dos meios de vídeo. O resto é pura factologia. Azar deles ou talvez sorte. Digo “sorte” porque vi o único filme com Isadora Duncan, de aproximadamente 45 segundos; era lamentável em comparação com o mito criado em torno dela.

As únicas novidades surgiram por volta dos anos 60, até 1977, no âmbito dos espetáculos “Nocturn 9 ½” do teatro “Țăndărică”. Miriam Răducanu e depois nós, com o grupo “Contemp”, ainda conseguimos fazer algumas coisas na relação cada vez mais difícil com a censura.

Após dezembro de 1989, as coisas começaram a entrar na normalidade. Surgem cada vez mais coreógrafos, e o tempo fará a necessária depuração. O infortúnio da nova geração é que ela provém de um liceu degradado nos últimos anos da era Ceaușescu. A alguns dos meus estudantes ainda corrigia erros de ortografia no quarto ano, antes da tese de licenciatura. A minha intransigência muitas vezes os magoou. Alguns me odeiam e me acusam de não terem aprendido nada comigo.

Mas o simples fato de que nenhum deles se prostitui artisticamente, mesmo nas condições miseráveis pelas quais passamos, significa que o “pattern” existiu, o modelo funcionou. Essa é uma satisfação que compensa a ingratidão deles.

O sucesso e a durabilidade de uma obra numa sociedade democrática são assegurados pela quantidade de “éter” da obra. Numa sociedade totalitária, o sucesso ainda precisa do ingrediente da ‘lagartixa no éter’.

Rhea Cristina: O apoliticismo dos artistas é benéfico para a sociedade romena contemporânea? O bailarino romeno em 1999 está preparado para enfrentar a competição europeia? Podemos falar de um complexo do Leste, surgido após ’89? Para quem e por que se realizam atualmente espetáculos de dança? Que papel terá o balé/dança no futuro da sociedade romena?

Sergiu Anghel: O apoliticismo não pode ser benéfico. A mimetização do papel de político pode, no entanto, ser maléfica. O Parlamento às vezes me aparece como um grande workshop de pantomima. Mas, como prelúdio da linguagem, essa pantomima é necessária.

Os bailarinos estão preparados para enfrentar a competição europeia. O problema é que são formados com o dinheiro do contribuinte romeno, e acabam indo participar das necessidades culturais dos contribuintes estrangeiros. O “Badea Gheorghe” financia a coreografia europeia sem saber, e o senhor Marga (ex-ministro da Educação na Romênia – nota do jornalista) a financia sem se importar com o “Badea Gheorghe” (“Badea” é um termo popular romeno que significa o camponês, o homem do campo – nota do jornalista.)

Întotdeauna existaram complexados. Os artistas romenos podem ter complexos, mas de superioridade em relação aos ocidentais. Quanto mais o nível de cultura crescer, mais pessoas vão precisar desse tipo de espetáculo. Depende da inteligência dos romenos em estabelecer, de forma equilibrada, a relação entre suas potencialidades e a exploração delas. Os incas desapareceram por causa do ouro que possuíam. Hoje, o potencial artístico romeno é efetivamente “aspirado” pelo Ocidente com a cumplicidade inconsciente dos governantes. Se esse aspirador não for desligado, não apenas a coreografia deixará de ter qualquer papel na Romênia de amanhã, como nenhuma das artes sobreviverá. No momento atual, somos um viveiro de valores que partem e um cemitério de elefantes que retornam.

De qualquer forma, a dança ajudará muitos a chegar ao Registro Civil com plena consciência, e o balé os apoiará para não permanecerem eminentemente teatrais.

Rhea Cristina: Tinha medo de algo ou de alguém antes de dezembro de ’89? E depois da Revolução Romena de 1989? (A Revolução Romena de 1989 levou à derrubada do regime comunista na Romênia – nota do jornalista)

Sergiu Anghel: (…) Posso lhe dizer que tinha medo porque não tinha onde me esconder. Para os comunistas, a coreografia nem sequer existia, e os meus espetáculos, a única forma de defesa, não tinham vida porque não tinham acesso ao público. A coreografia vive publicamente através da televisão. Ora, a mídia, naquela época, estava confiscada por Ceaușescu. (Nicolae Ceaușescu governou a Romênia entre 1965 e 1989, durante o período do regime comunista – nota do jornalista.)

Depois de ’89, não tenho mais medo senão do dia de amanhã… financeiramente falando. Mas esse é um medo humano que me mantém desperto. Antes de dezembro de ’89, o medo era quase hipnótico.

Rhea Cristina: Sente-se um homem livre na Romênia de 1999? Que tipo de esperança e de desesperança existem na sociedade romena contemporânea? O que o público romeno espera dos coreógrafos romenos? Que tipo de público de balé existe na Romênia, em paralelo com o público da Europa e da América?

Sergiu Anghel: És livre na medida em que te sentes ligado ao teu país. A minha liberdade, vista de forma absoluta, será relativa enquanto eu sentir essa ligação. No fundo, não podemos esquecer: só quando morrermos seremos livres. E mesmo assim não é muito certo…

A sociedade romena espera ganhar no “Bingo Europa” e fica desesperada por não ganhar.
(“Bingo Europa” era um programa de TV extremamente popular na Romênia dos anos 90–2000, no qual as pessoas compravam bilhetes e esperavam ganhar grandes somas de dinheiro – nota do jornalista).

Não tenho muita certeza de que o público romeno saiba o que é um coreógrafo. Aqueles do Ministério da Cultura, que deveriam conhecer essas coisas, ainda hoje usam a sintaxe híbrida e inculta de “mestre coreógrafo”.

O público é o mesmo em todo o mundo; vi que os ingleses, que não têm nenhuma desculpa para serem mais incultos do que os romenos, se entusiasmam diante das elucubrações de um “paricopitado” como o stepper Flatlay, num espetáculo que atinge as grandezas do kitsch desde o primeiro “step” até o título; segurem-se: “The Lord of the Dance”.

Rhea Cristina: A moeda “euro” criará uma nova Europa, definitivamente separada de qualquer sistema totalitário?

Sergiu Anghel: A moeda “euro” criará uma nova especulação financeira, desta vez por cima das cabeças das moedas nacionais. Os aquedutos impressos nas notas de “euro” apenas matarão a sede de dinheiro daqueles que já construíram, com antecedência, os seus reservatórios. Parece-me que, exatamente como na época de José, nós teremos sete vacas magras, enquanto eles terão os reservatórios cheios…

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

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