Dona Dolores e as minhas bochechas

Eduardo Cesario-Martínez

‘Dona Dolores e as minhas bochechas’

Eduardo Cesario-Martínez
Eduardo Cesario-Martínez
Imagem gerada por IA do Gemini
Imagem gerada por IA do Gemini

As pessoas reunidas naquela sala, poucas próximas ao féretro, a maioria encostada nas paredes, talvez enojadas pela aparência decrépita da finada ou, ainda, pelo odor desagradável que escapava daquelas carnes em processo de decomposição. No meu canto, apenas observava as duas mãos da velha Dolores, agora repousadas sobre o busto, como se detentoras apenas de ações bondosas enquanto quentes. Que nada! Como sofri com beliscões nas bochechas proeminentes desde menino.

Minha mãe, que ali se encontrava entre as mais despojadas do recinto, acabara de depositar uma coroa de margaridas sobre a defunta. Até eu, um completo néscio em jardinagem, bem sei o que são margaridas. No entanto, caso não fosse pelo comentário lisonjeiro que ouvi do grupo ao lado, jamais saberia que tais flores representam as boas lembranças vividas. Minhas bochechas que o digam!

Mendonça, eis o dono do infeliz comentário. Certamente é um dos próximos da fila, haja vista o avançar da idade. É verdade que posso eu ser o seguinte, pois saúde e meus 28 anos não garantem que o próximo carro desgovernado não me encontrará em alguma esquina. Saravá! Oxalá! Aproximei-me da sucumbida e, discretamente, dei três batidas no caixão. Vai quê!

Olhei ao redor para ver se ninguém me flagrou. A princípio, me senti aliviado, até que percebi o olhar risonho da Sônia, a bela e jovem esposa do Armando. Deve ter no máximo 35. E que carnes! Ela continuou me encarando com aqueles olhos amendoados, como se fosse se entregar para mim. Não consigo encará-la e meu olhar foi direto naquelas pernas torneadas.

A mulher deve ter percebido meu desejo, pois se virou. Fiquei na dúvida se ela se sentiu ofendida ou, então, apenas quis me mostrar a retaguarda. Alcei os olhos para observá-la melhor, mas, antes de chegar ao meu intento, fui despertado do devaneio pelas mãos de minha mãe.

— Maciel, vá ajudar a levar o caixão da Dolores.

Contrariado, peguei numa das alças e, com mais cinco homens, levei o ataúde da velha até o destino final. Destino final do corpo, é verdade, pois a alma, se é que aquela desalmada possuía uma, iria direto lá para baixo fazer companhia ao Jurupari. Imagino até a cena de espanto quando o Tinhoso der de cara com aquela bruxa. Na certa que ele não iria gostar. Capaz até de mandar a velha ressuscitar só pra se ver livre. Deus me livre!

O enterro demorou mais do que o esperado. Tudo por culpa do velho Silas, que veio com um discurso maior do que o do padre. Aliás, esse tagarela bem que deve beirar em idade com o Mendonça. Enquanto ele falava, fiquei imaginando que o defunto era ele. Quem sabe em breve não será esse caduco? Que vão ele e o Mendonça juntos de uma vez. Assim, economiza no velório.

Não sei se sorri sonhando acordado. Talvez tenha até feito cara de quem ganhou beijo de mulher de lábios carnudos. Seja como for, quando pensei em me recompor, eis que a minha mãe me puxou para o canto e me cochichou nos ouvidos.

— Maciel, preciso te contar uma coisa!

Fui arrastado pelo braço até mais adiante. Finalmente, minha mãe me disse que a senhora Dolores havia doado, há quase dois anos, todos os seus bens para mim. Isso mesmo! Aquela boa alma, como não possuía parentes, desejou me fazer o seu único herdeiro.

Não fiquei rico, mas agora tenho uma bela casa para morar, além de uma substancial quantia no banco, o que me dará, por baixo, dois ou três anos de pura esbórnia. Que Deus seja misericordioso!

Eduardo Cesario-Martínez

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Carlos da Terra: 'A Reunião'

Carlos da Terra

A Reunião

Ninguém me convidou… apenas um aviso informal…
Mas eu vim! Na realidade incomodava-me muito a ideia covarde de não comparecer. Nem mesmo a garoa fria e os compromissos assumidos para o dia seguinte, conseguiam me dissuadir. Eu, na verdade, não queria ir mas era compelido.
Fui sozinho. Tinha um pressentimento, quase certeiro, que ninguém queria ir comigo; não pelo clima inóspito reinante naquela tarde fria e garoenta. Muitas outras vezes, lembrei-me assim que me pus a caminho, que outrora convidei outras pessoas para jornadas alvissareiras e tive como resposta o desânimo e até mesmo a dissuasão por parte da maioria, que se preocupava dia após dia, com a mesmice de suas ideias e desejos jamais satisfeitos. A jornada de hoje não era alvissareira e então a probabilidade de alguém me acompanhar parecia ainda menor.
Fui então sozinho mesmo e ao chegar à porta da casa que era do Roberval eu senti um clima desagradabilíssimo. Tive a impressão que os outros amigos, sempre companheiros do Roberval, não estariam lá nesse dia.
De fato, logo notei que havia poucas pessoas e, surpreendentemente algumas desconhecidas para mim. Eu não sabia que o Roberval tinha aquele tipo de amigos. Mas afinal que me adianta fazer qualquer tipo de julgamento?

Como eu não queria ver ninguém e nem mesmo queria ser visto, acomodei-me em pé mesmo, em um dos cantos mais escuros da pequena sala.

Eu olhava o semblante de todos os que estavam lá. Havia apenas seis comparecidos, com exceção do próprio Roberval, que se imiscuíam, assim como eu, na penumbra. Mas todos, pareciam refletir absortos. Na verdade, todos menos um, o antigo dono da casa.

Este, o Roberval, parecia absolutamente tranquilo; muito diferente de apenas alguns dias passados, quando se levantava em plena praça, na frente dos bares e urrava em tom beligerante contra o domínio escravizante do governo e a opressão das classes econômicas abastadas.

Bem no centro da sala, às vezes, parecia-me que o Roberval iria finalmente, falar como sempre o fazia, mas não. Nada se ouvia de sua boca arroxeada. Ele estava, decididamente, conformado. Seus olhos extáticos nem mesmo contemplavam a nesga de luz tosca que invadia pequena parte da sala, lúgubre, perto da porta escancarada. Agora não se preocupava mais com as pressões sociais e nem mesmo sua consciência lhe acusava de pressões que ele mesmo impôs a alguns mais fracos.
E todos nós, os seis, também não falávamos e na verdade parecia que eu ouvia o Roberval falando as mesmas coisas que sempre disse. Mas não… o silêncio era total.
De vez em quando alguém mudava de lugar.

O que mais preocupava a todos, assim me parecia, era, não as coisas que o Roberval apregoava, como a revolução das classes, mas preocupava a inércia do Roberval e possivelmente a inércia futura de todos que estavam reunidos em profunda solidão.

Parecia que nada mais iria acontecer por ali quando o ambiente se alterou marcadamente por um barulho de carro, apressado, que freou bem na entrada, de modo insensível, abrupto e irreverente.
O motorista desceu e entrou feito um louco, aos olhos de todos. Entre todos parecia que apenas ele, mais ninguém, tinha algum objetivo naquele dia.
Entrou, olhou de sobrolho, mas não cumprimentou ninguém. Dirigiu-se ao centro, onde estava o Roberval e colocou um artefato tão artificial quanto a própria vELÓRIOVelórioexistência de todos, escrito ao centro: In pace requiescat!
Velório
CARLOS DA TERRA·SÁBADO, 6 DE ABRIL DE 2019