{"id":31968,"date":"2020-06-13T12:15:35","date_gmt":"2020-06-13T15:15:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/?p=31968"},"modified":"2020-06-13T12:15:35","modified_gmt":"2020-06-13T15:15:35","slug":"carlos-carvalho-cavalheiro-como-chegamos-ate-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=31968","title":{"rendered":"Carlos Carvalho Cavalheiro: &#039;Como chegamos at\u00e9 aqui?&#039;"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F31968&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F31968&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_26459\" aria-describedby=\"caption-attachment-26459\" style=\"width: 164px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Carlos-Foto-Andre-Pinto-2018-1-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"26459\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=26459\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Carlos-Foto-Andr\u00e9-Pinto-2018-1-2.jpg\" data-orig-size=\"219,338\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;Andr\\u00e9 Pinto Fotografia&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1532262722&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;\\u00a9 2018 Andr\\u00e9 Pinto Fotografia&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Carlos Carvalho Cavalheiro\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Carlos Carvalho Cavalheiro&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Carlos Carvalho Cavalheiro&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Carlos-Foto-Andr\u00e9-Pinto-2018-1-2.jpg\" class=\" wp-image-26459\" src=\"https:\/\/www.jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Carlos-Foto-Andre-Pinto-2018-1-2-194x300.jpg\" alt=\"\" width=\"164\" height=\"254\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-26459\" class=\"wp-caption-text\">Carlos Cavalheiro<\/figcaption><\/figure>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Como chegamos at\u00e9 aqui?<\/strong><\/h2>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/fila-de-homens-autorit\u00e1rios.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-31971\" src=\"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/fila-de-homens-autorit\u00e1rios-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"671\" height=\"367\" \/><\/a><\/p>\n<p>A proposta de centraliza\u00e7\u00e3o de poder e, em consequ\u00eancia, a ascens\u00e3o de governos autorit\u00e1rios \u2013 o que se generalizou a chamar de fascismo \u2013 \u00e9, apesar da imprecis\u00e3o do termo, uma aberra\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 pr\u00f3pria democracia liberal que a utiliza como um processo de freio e contrapeso para conter o avan\u00e7o das ideias socialistas. De uma maneira mais simplista, o autoritarismo \u00e9 um c\u00e3o de guarda que aguarda a oportunidade de atacar o advers\u00e1rio de seu dono.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, como todo animal irracional, o c\u00e3o de guarda \u2013 o autoritarismo \u2013 n\u00e3o possui consci\u00eancia de seus atos, age por instinto, defende o dono ao mesmo tempo em que lhe usurpa o lugar. Combate o advers\u00e1rio do liberalismo e, depois, acostuma-se com o lugar em que chegou e volta-se contra o pr\u00f3prio dono.<\/p>\n<p>Portanto, o autoritarismo age sempre quando a democracia liberal (burguesa) se v\u00ea amea\u00e7ada. \u00c9 um oportunista que aparece no momento que lhe \u00e9 prop\u00edcio. O seu alimento \u00e9 a crise institucional, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social. O seu discurso, o latido do c\u00e3o de guarda, empresta-lhe a autoridade que convence momentaneamente o p\u00fablico. O c\u00e3o traz, portanto, a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a no momento de fragilidade das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A crise ocorre por um conjugado de situa\u00e7\u00f5es, das quais a econ\u00f4mica se destaca, mas n\u00e3o \u00e9 primordial, em que diversos setores da vida humana s\u00e3o atingidos. O dep\u00f3sito de credibilidade que parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o faz em rela\u00e7\u00e3o aos pol\u00edticos perde o seu capital. Os pol\u00edticos s\u00e3o incapazes de resolver ou mesmo administrar a crise e, ent\u00e3o, surge o desespero.<\/p>\n<p>Uma das li\u00e7\u00f5es que todos devemos ter na vida \u00e9 que ningu\u00e9m morre afogado por n\u00e3o saber nadar, mas sim por ter deixado o desespero tomar conta da situa\u00e7\u00e3o. Se a serenidade estivesse presente no momento da possibilidade do afogamento, bastava ao pretenso afogado que mantivesse seu corpo esticado e r\u00edgido para que boiasse, evitando assim o afogamento. Mas o desespero obstaculiza a raz\u00e3o e a v\u00edtima tenta sair da situa\u00e7\u00e3o da maneira menos \u00f3bvia: tentar nadar quando nunca aprendeu a fazer isso.<\/p>\n<p>A analogia com a ascens\u00e3o dos governos autorit\u00e1rios parece fazer algum sentido. No desespero de tentar sair de uma situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica, opta-se pelo discurso menos prov\u00e1vel: o da sa\u00edda da crise pelas m\u00e3os de um salvador autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Portanto, o autoritarismo torna-se uma alternativa vi\u00e1vel quando, em meio a uma crise, todas as outras alternativas conhecidas parecem ser ineficazes. A ascens\u00e3o do fascismo na It\u00e1lia, do nazismo na Alemanha, do salazarismo em Portugal, do franquismo na Espanha, do Estado Novo getulista no Brasil, do peronismo na Argentina&#8230; todos esses modelos de governos autorit\u00e1rios, praticamente subsidi\u00e1rios do fascismo italiano, alcan\u00e7aram o poder durante um momento de crise e de inviabilidade de solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por governos de esquerda e de direita. A aposta na centraliza\u00e7\u00e3o do poder por um chefe de Estado e de governo, ou seja, pela extrema-direita, \u00e9 um fen\u00f4meno inerente aos momentos de crise do liberalismo e na pouca credibilidade do socialismo.<\/p>\n<p>E nenhum desses governos autorit\u00e1rios citados nasceu sem antes ter uma chancela da \u201clegalidade\u201d e do apoio popular. Salazar, por exemplo, passou de Ministro das finan\u00e7as do governo militar portugu\u00eas a Primeiro-ministro de um regime ditatorial nomeado de Estado Novo. Hitler foi nomeado Chanceler (Primeiro Ministro) do governo alem\u00e3o do presidente Hinderburg. Quando este morreu, Hitler simplesmente concentrou o poder em suas m\u00e3os, com apoio de boa parte dos alem\u00e3es. Get\u00falio Vargas era presidente do Brasil, quando instaurou a ditadura do Estado Novo com a justificativa de que havia um plano comunista para dominar o pa\u00eds. Mussolini foi nomeado Primeiro-Ministro italiano pelo rei Vitor Emanuel III, ap\u00f3s realizar um ato de propaganda fascista em que demonstrava poder e apoio popular e que ficou conhecido como \u201cA marcha sobre Roma\u201d.<\/p>\n<p>Todos esses estadistas ascenderam ao poder com algum verniz de legalidade e com forte apoio popular. Esse fato garantiu a esses governos estabilidade por algum tempo. \u00c9 fato que houve governos autorit\u00e1rios que sobreviveram por d\u00e9cadas. O salazarismo e o franquismo, por exemplo, duraram at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>Atualmente, o autoritarismo \u00e9 um fantasma que assombra o Brasil. O atual governo brasileiro tem mostrado em seus discursos \u2013 tanto do chefe maior do Executivo quanto por meio de seus ministros, pol\u00edticos aliados e apoiadores \u2013 uma pretens\u00e3o de centraliza\u00e7\u00e3o e controle pol\u00edtico e social que se assemelha ao ide\u00e1rio fascista. A imprensa tem gerado um n\u00famero incr\u00edvel de registros desse fato que seria cansativo e improdutivo reproduzi-los aqui, especialmente quando o p\u00fablico leitor alvo \u00e9 exatamente o espectador do desenrolar dessa trama. Basta mencionar, apenas para salvaguardar a refer\u00eancia ao leitor do futuro, que o presidente tem participado e apoiado manifesta\u00e7\u00f5es de apoiadores que pedem o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, ou seja, dos representantes dos outros poderes da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>O clima de instabilidade pol\u00edtica gerado por esse apoio expl\u00edcito do presidente da rep\u00fablica a manifesta\u00e7\u00f5es que atentam contra a ordem democr\u00e1tica liberal e burguesa tem assustado aqueles que prezam pelo Estado de direito. Tanto analistas pol\u00edticos quanto o cidad\u00e3o comum anteveem nesse apoio a tentativa de concretiza\u00e7\u00e3o de um projeto de centraliza\u00e7\u00e3o do poder. E \u00e9 disso que se trata, pois esse \u00e9 o pedido escancarado das manifesta\u00e7\u00f5es de \u201capoio ao presidente\u201d.<\/p>\n<p>Mas como \u00e9 que chegamos a essa situa\u00e7\u00e3o? Esse \u00e9 um percurso que vem sendo realizado h\u00e1 algumas d\u00e9cadas. Em 2002, o Brasil apostava na \u201cesquerda\u201d para a solu\u00e7\u00e3o da crise pela qual passava e que resultava de longos anos de governos neoliberais, fase essa \u201cinaugurada\u201d com o governo Collor em 1990. O primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, foi de relativo sucesso, o que lhe garantiu um segundo mandato. At\u00e9 ent\u00e3o, o Brasil optava por uma linha ideol\u00f3gica liberal, com a privatiza\u00e7\u00e3o de estatais, diminui\u00e7\u00e3o do Estado, maior participa\u00e7\u00e3o da iniciativa privada.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, esse modelo acirrou as desigualdades sociais e n\u00e3o resolveu problemas estruturais graves que impedem o desenvolvimento de qualquer pa\u00eds, como a estrutra fundi\u00e1ria, a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (que estimula a troca de favores entre o Poder Legislativo e o Executivo), o sistema tribut\u00e1rio extremamente burocr\u00e1tico e o sistema educacional. Ao contr\u00e1rio, o que ocorreu foi a manuten\u00e7\u00e3o de parte desses problemas e o agravamento de outros. No caso da educa\u00e7\u00e3o, por exemplo, as medidas tomadas pelos governos neoliberais favoreceram o sucateamento do ensino p\u00fablico em proveito da educa\u00e7\u00e3o privada. Dentro da l\u00f3gica neoliberal, os \u201cservi\u00e7os\u201d devem ser prestados pela iniciativa privada, sendo papel do Estado o de regulador dessas presta\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o havia \u2013 e ainda n\u00e3o h\u00e1 \u2013 est\u00edmulo algum para a melhoria dos servi\u00e7os p\u00fablicos. Ao contr\u00e1rio, a precariza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os deve ser mantida para que seja viabilizada a op\u00e7\u00e3o pela terceiriza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o que favorecem o capital.<\/p>\n<p>No auge da crise, momento em que o Brasil se colocava no \u201cmapa da fome\u201d, por exemplo, a op\u00e7\u00e3o por um governo \u201csocialista\u201d e de \u201cesquerda\u201d parecia vi\u00e1vel. A aposta frutificou e o Brasil teve um de seus melhores momentos em termos de economia e de diminui\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais. Por\u00e9m, os governos do PT n\u00e3o atacaram de forma eficaz os entraves do pa\u00eds. N\u00e3o ocorreu a reforma agr\u00e1ria, nem a tribut\u00e1ria, nem a educacional, muito menos a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Pouca gente talvez se lembre, mas em 2006, depois de ter passado pelo abalo do esc\u00e2ndalo do \u201cMensal\u00e3o\u201d, o presidente Lula afirmou que um jovem de direita era t\u00e3o problem\u00e1tico quanto um socialista na idade madura. Ou algo que o valha, mas o que Lula disse foi que socialismo era um sonho de juventude e que n\u00e3o cabia no mundo adulto s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma das figuras de maior representa\u00e7\u00e3o dos anseios da \u201cesquerda\u201d naquele momento jogou fora duas coisas essenciais para a viabilidade pol\u00edtica da via socialista: a utopia (como um objetivo a se mirar) e o lastro moral da incorruptibilidade. Ao naturalizar \u2013 e at\u00e9 normatizar \u2013 a corrup\u00e7\u00e3o como algo que sempre ocorreu com os \u201coutros partidos\u201d e ao dizer que socialismo era um devaneio de juventude, Lula deu o primeiro passo para inviabilizar a possibilidade pol\u00edtica de um governo de esquerda. Com isso, enfraqueceu ainda mais a esquerda que se fragmentou em outros partidos (como o PSOL e a Rede), fazendo com que o PT perdesse personalidades importantes em seus quadros.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o foi sentido de imediato. O sucesso da economia, que continuou o plano neoliberal de maneira mais moderada, e o fisiologismo pol\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o a representantes dos movimentos sociais garantiu a continuidade dos governos do PT. Se de um lado houve uma diminui\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais, comprovadas pelo Coeficiente de Gini e outros \u00edndices, o fato \u00e9 que avan\u00e7os necess\u00e1rios n\u00e3o ocorreram. A estrutura fundi\u00e1rio continuou a representar o atraso colonial do Brasil, bem como a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ainda guardou ran\u00e7os da Primeira Rep\u00fablica e seu clientelismo.<\/p>\n<p>Movimentos sociais cooptados, ascens\u00e3o de classes menos favorecidas, pol\u00edticos recebendo a sua parcela de contribui\u00e7\u00e3o, tudo pacificado. Foi assim, mais ou menos, at\u00e9 o segundo mandato de Dilma Rousself. Apesar de ter sido reeleita, o fato \u00e9 que necessitou da presen\u00e7a de Lula em sua campanha para a vit\u00f3ria definitiva com uma diferen\u00e7a n\u00e3o t\u00e3o larga assim: 51,64% contra 48,36% dos votos para o candidato A\u00e9cio Neves, do PSDB.<\/p>\n<p>O ano \u00e9 2014 e a economia come\u00e7a a dar sinais de esgotamento. A crise econ\u00f4mica \u00e9 agravada por uma crise pol\u00edtica. A\u00e9cio Neves, representante do liberalismo pol\u00edtico, n\u00e3o aceitou a derrota, pediu recontagem de votos e ainda declarou que faria oposi\u00e7\u00e3o incans\u00e1vel e intransigente contra o governo petista.<\/p>\n<p>A\u00e9cio Neves nesse momento tornou invi\u00e1vel a op\u00e7\u00e3o liberal. Isso porque ele mesmo desconfiou das institui\u00e7\u00f5es que sustentam a democracia liberal. Solicitar recontagem de votos \u00e9 desconfiar da possibilidade de fraude. Ocorre que as elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o organizadas e fiscalizadas pelos Tribunais Eleitorais, pelo poder Judici\u00e1rio. A princ\u00edpio, esse Poder n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o e nem interesse em favorecer determinado partido para ocupar o poder Executivo. Ainda mais em se tratando do PT, partido que havia criado situa\u00e7\u00f5es de desconforto com o Judici\u00e1rio. Basta lembrar o epis\u00f3dio, ocorrido em 2003, no qual Lula disse ser necess\u00e1rio \u201cabrir a caixa preta do Judici\u00e1rio\u201d, defendendo um maior controle desse poder.<\/p>\n<p>A descabida desconfian\u00e7a das institui\u00e7\u00f5es que sustentam a democracia liberal burguesa abriu caminho para uma crise pol\u00edtica de ingovernabilidade que culminar\u00e1 com o Impeachment de Dilma Rousself. Mais do que isso, em rota de colis\u00e3o direta, PT e PSDB se autodestru\u00edram dando margem para o crescimento de outras tend\u00eancias pol\u00edticas. Gerou ainda uma crise de credibilidade das institui\u00e7\u00f5es e dos pol\u00edticos de maneira geral.<\/p>\n<p>Essa \u00faltima crise j\u00e1 era sinalizada em 2013 quando manifestantes tomaram as ruas para protestar contra a corrup\u00e7\u00e3o generalizada. Um fato que ficou marcante nesse epis\u00f3dio foi a expuls\u00e3o da manifesta\u00e7\u00e3o daqueles que carregassem distintivos pol\u00edticos, sejam eles quais fossem. Pol\u00edticos do PT, de outros partidos de esquerda e at\u00e9 do PSDB foram expulsos dessas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O caminho estava aberto para uma nova tend\u00eancia, com discurso centralizador, de \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d da situa\u00e7\u00e3o por via do autoritarismo. Ideologicamente, o campo j\u00e1 estava sendo arado h\u00e1 alguns anos pelo \u201cguru\u201d Olavo de Carvalho, que soube aproveitar bem os meios de comunica\u00e7\u00e3o com um discurso muito mais calcado em adere\u00e7os, como oo uso excessivo de palavras de baixo cal\u00e3o e entona\u00e7\u00f5es de voz que simulam o histerismo, do que em conte\u00fado. Desse modo, atinge um p\u00fablico que n\u00e3o necessita de consulta a outras fontes para entender a mensagem.<\/p>\n<p>Por outro lado, os avan\u00e7os alcan\u00e7ados pelos movimentos sociais durante os governos do PT, sem que houvesse um aprofundamento do debate na sociedade, acirrou os \u00e2nimos de quem v\u00ea amea\u00e7as ao seu direito quando o outro alcan\u00e7a um mesmo patamar. Ran\u00e7os e resqu\u00edcios do escravismo e do colonialismo, a sociedade brasileira ainda n\u00e3o se preparou para entender a supera\u00e7\u00e3o das desigualdades. Ao contr\u00e1rio, a chamada \u201cclasse m\u00e9dia\u201d apoia as desigualdades porque assim ela pode se sentir parte de uma \u201celite\u201d da qual nunca foi.<\/p>\n<p>\u00c9 sintom\u00e1tico, por exemplo, casos que ocorreram no Brasil nos \u00faltimos anos e que ilustram o que est\u00e1 escrito acima. N\u00e3o faz muito tempo, uma professora universit\u00e1ria fotografou um passageiro que aguardava no sagu\u00e3o de um aeroporto trajado com bermuda e chinelo. A professora postou nas redes sociais a foto do passageiro e comentou: \u201cIsto aqui est\u00e1 parecendo uma rodovi\u00e1ria\u201d. O que carrega a frase da professora? A indigna\u00e7\u00e3o dela em dividir o espa\u00e7o com outras \u201cclasses\u201d, ainda que, tanto ela quanto o outro passageiro, sejam, de fato, da mesma classe: a dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o n\u00edvel \u201cuniversit\u00e1rio\u201d faz com que a professora se sinta superior ao outro que est\u00e1 vestindo uma bermuda e cal\u00e7ando chinelos. Esse desconforto com a ascens\u00e3o social \u00e9 t\u00edpico de uma sociedade estruturada sob os alicerces da escravid\u00e3o. A mentalidade que impera \u00e9 a de que algu\u00e9m deve servir para que o outro possa se sentir um \u201csenhor\u201d.<\/p>\n<p>Esse conjugado de fatores, que v\u00e3o desde a inviabiliza\u00e7\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica liberal (tanto na op\u00e7\u00e3o pela esquerda quanto pelo liberalismo), a aus\u00eancia de \u00e2nimo pol\u00edtico para realiza\u00e7\u00e3o de reformas profundas e necess\u00e1rias (como a reforma agr\u00e1ria, a educacional, a tribut\u00e1ria e a pol\u00edtica), a coopta\u00e7\u00e3o de movimentos sociais com a cria\u00e7\u00e3o de um sistema de fisiologismo pol\u00edtico, a falta de aprofundamento de debates para a sustenta\u00e7\u00e3o dos avan\u00e7os sociais e a n\u00e3o supera\u00e7\u00e3o da mentalidade escravista e colonialista nos conduziu a este estado de coisas. Aqui estamos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Carlos Carvalho Cavalheiro<\/strong><\/p>\n<p>13.06.2020<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como chegamos at\u00e9 aqui?<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[1094,1254,1651],"class_list":["post-31968","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comunicacao","tag-artigo","tag-autoritarismo","tag-carlos-carvalho-cavalheiro"],"aioseo_notices":[],"aioseo_head":"\n\t\t<!-- All in One SEO 4.9.8 - aioseo.com -->\n\t<meta name=\"description\" content=\"Como chegamos at\u00e9 aqui? 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