{"id":43661,"date":"2021-08-08T07:47:42","date_gmt":"2021-08-08T10:47:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/?p=43661"},"modified":"2021-08-08T07:47:42","modified_gmt":"2021-08-08T10:47:42","slug":"carlos-carvalho-cavalheiro-derrubar-as-estatuas-as-prateleiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=43661","title":{"rendered":"Carlos Carvalho Cavalheiro: &#039;Derrubar as est\u00e1tuas, as prateleiras&#8230;&#039;"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F43661&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F43661&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><figure id=\"attachment_26459\" aria-describedby=\"caption-attachment-26459\" style=\"width: 107px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/fabio-avila-bras-um-distrito-de-sao-paulo\/carlos-foto-andre-pinto-2018-1-7\/\" rel=\"attachment wp-att-26459\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"26459\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=26459\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Carlos-Foto-Andr\u00e9-Pinto-2018-1-2.jpg\" data-orig-size=\"219,338\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;Andr\\u00e9 Pinto Fotografia&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1532262722&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;\\u00a9 2018 Andr\\u00e9 Pinto Fotografia&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Carlos Carvalho Cavalheiro\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Carlos Carvalho Cavalheiro&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Carlos Carvalho Cavalheiro&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Carlos-Foto-Andr\u00e9-Pinto-2018-1-2.jpg\" class=\" wp-image-26459\" src=\"https:\/\/www.jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Carlos-Foto-Andre-Pinto-2018-1-2-194x300.jpg\" alt=\"\" width=\"107\" height=\"165\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-26459\" class=\"wp-caption-text\">Carlos Cavalheiro<\/figcaption><\/figure>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Derrubar as est\u00e1tuas, as prateleiras&#8230;<\/strong><\/h2>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/carlos-carvalho-cavalheiro-derrubar-as-estatuas-as-prateleiras\/bb7iixqxlzgaxdwdqokrehhlgm\/\" rel=\"attachment wp-att-43662\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"43662\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=43662\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/BB7IIXQXLZGAXDWDQOKREHHLGM.jpeg\" data-orig-size=\"1960,1099\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"BB7IIXQXLZGAXDWDQOKREHHLGM\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/BB7IIXQXLZGAXDWDQOKREHHLGM.jpeg\" class=\"alignnone wp-image-43662\" src=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/BB7IIXQXLZGAXDWDQOKREHHLGM-300x168.jpeg\" alt=\"\" width=\"748\" height=\"419\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em 2001 o grupo extremista talib\u00e3 explodiu duas est\u00e1tuas de Buda, esculpidas em um pared\u00e3o de arenito, no Afeganist\u00e3o. As esculturas, produzidas em 507 a.C., eram consideradas as mais altas est\u00e1tuas de Buda do mundo. A justificativa dos talib\u00e3s foi a de que tais imagens ofendiam a religi\u00e3o mu\u00e7ulmana. Em 2016, em Salvador, v\u00e2ndalos depredaram o monumento \u00e0 ialorix\u00e1 Gild\u00e1sia dos Santos e Santos, conhecida por M\u00e3e Gilda, tamb\u00e9m por motivos de \u201cofensa\u201d \u00e0s cren\u00e7as religiosas \u201ccrist\u00e3s\u201d. No dia 15 de julho de 2020, novamente, o mesmo monumento, um busto colocado no Parque do Abaet\u00e9, foi vandalizado por um homem que se apresentava como \u201cevang\u00e9lico\u201d, representante de Deus.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2018, uma est\u00e1tua do l\u00edder pacifista indiano Mahatma Gandhi foi retirada da Universidade de Gana sob a acusa\u00e7\u00e3o de ter proferido pensamentos racistas quando da sua juventude. No dia 24 de julho foi a vez da est\u00e1tua a Borba Gato, em Santo Amaro (S\u00e3o Paulo), ser novamente depredada. Dessa vez ela foi incendiada.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, o \u00fanico elemento que unifica todos esses eventos \u00e9 a hostiliza\u00e7\u00e3o a monumentos. O \u201cbandeirante\u201d Borba Gato \u00e9 acusado de racista e de escravizador. Ao contr\u00e1rio, M\u00e3e Gilda era uma lideran\u00e7a religiosa do candombl\u00e9 e que teve seu templo atacado no ano 2000, o que contribuiu para o agravamento de seus problemas card\u00edacos que a levaram a \u00f3bito. Sidarta Gautama, o Buda, foi uma lideran\u00e7a religiosa que pregava a paz e o desapego. Com rela\u00e7\u00e3o a Gandhi, antes de se tornar um l\u00edder pacifista, teria dito que os indianos eram \u201csuperiores\u201d aos africanos.<\/p>\n<p>Pois bem, apesar de n\u00e3o haver muitos elementos em comum a todos esses atos, n\u00e3o se pode negar que todos foram movidos por uma avers\u00e3o ao outro. Ainda que se coloque que alguns dos casos acima estejam escorados em \u201cjusti\u00e7a\u201d ou \u201crepara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u201d, o fato \u00e9 que foram estimulados pela rejei\u00e7\u00e3o ao que o outro representa.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma confus\u00e3o do senso comum entre fato hist\u00f3rico, mem\u00f3ria e Hist\u00f3ria, uma vez que todos se alimentam, de certa maneira, do passado. Mais ainda: das a\u00e7\u00f5es humanas realizadas em outros tempos. Assim, o fato hist\u00f3rico se refere \u00e0 a\u00e7\u00e3o ocorrida ao longo do tempo e cujo acontecimento seja indiscut\u00edvel: o pr\u00edncipe Dom Pedro estava em S\u00e3o Paulo quando proclamou a Independ\u00eancia do Brasil. A mem\u00f3ria vai trabalhar com a forma como esse fato ser\u00e1 lembrado pelas futuras gera\u00e7\u00f5es. A imagem do quadro de Pedro Am\u00e9rico que pretende retratar aquele fato hist\u00f3rico n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m de um exerc\u00edcio de mem\u00f3ria. Dom Pedro est\u00e1 vestido com trajes de gala, montado em imponente cavalo, cercado por soldados ricamente fardados&#8230; A Hist\u00f3ria \u00e9 aquela criatura que vem para problematizar as coisas. Ela faz inquiri\u00e7\u00f5es em demasia, vasculha gavetas a procura de documentos (ela \u00e9 curiosa), pergunta para um e outro, conversa com outros cientistas sociais, e, ao fim, d\u00e1 o seu veredicto: o pr\u00edncipe e sua pequena comitiva estavam montados em mulas e n\u00e3o em imponentes corc\u00e9is (menos eficientes para uma viagem longa e em terrenos acidentados, como \u00e9 o caso da Serra do Mar, de Santos a S\u00e3o Paulo). Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 registro da presen\u00e7a da guarda dos \u201cdrag\u00f5es da independ\u00eancia\u201d acompanhando o pr\u00edncipe regente nessa viagem.<\/p>\n<p>No entanto, enquanto mem\u00f3ria a cena pintada por Pedro Am\u00e9rico ainda rouba suspiros de emo\u00e7\u00e3o em muita gente. H\u00e1 quem n\u00e3o consiga imaginar que o evento tenha sido diferente do que retrata o quadro. Assim sendo, os monumentos s\u00e3o lugares de mem\u00f3ria e s\u00edmbolos que carregam significado a parcelas da popula\u00e7\u00e3o. Enquanto existir essa rela\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo com as pessoas, qualquer ato de depreda\u00e7\u00e3o ser\u00e1 considerado como agress\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 diferente quando o resultado de um conflito se configura na aceita\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria de uma parte sobre a outra. No filme \u201c1492 \u2013 A conquista do Para\u00edso\u201d h\u00e1 uma cena emblem\u00e1tica de Colombo adentrando Granada ap\u00f3s a vit\u00f3ria dos crist\u00e3os. A entrada na cidade \u00e9 impedida por alguns momentos porque os \u201cvencedores\u201d est\u00e3o derrubando o s\u00edmbolo mu\u00e7ulmano da lua crescente e colocando em seu lugar a cruz dos crist\u00e3os. Os mouros derrotados aceitam tal ofensa porque n\u00e3o h\u00e1 mais condi\u00e7\u00f5es materiais para a resist\u00eancia.<\/p>\n<p>A fogueira que se fez aos p\u00e9s da est\u00e1tua de Borba Gato foi justificada pelo fato de ele, enquanto \u201cbandeirante\u201d, ter supostamente escravizado ind\u00edgenas e africanos. Ocorre que Borba Gato estava muito mais ligado ao chamado \u201cbandeirismo\u201d de prospec\u00e7\u00e3o, caracterizado pela extra\u00e7\u00e3o de metais e pedras preciosas. At\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, a prea\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas era algo lucrativo, pois as fazendas produtoras de a\u00e7\u00facar do Nordeste compravam constantemente esses escravizados. Era o que dava lucro aos sertanistas de S\u00e3o Paulo, tanto que, segundo o escritor Paulo Set\u00fabal, em seu livro \u201cO Ouro de Cuiab\u00e1\u201d, o \u201cbandeirante\u201d Paschoal Moreira Cabral teria desdenhado do ouro descoberto durante uma expedi\u00e7\u00e3o em que se buscava aprisionar ind\u00edgenas coxipon\u00e9s: \u201cNada de bobagem, mo\u00e7ada! A gente veio neste sert\u00e3o para prear \u00edndio, isso sim, que \u00edndio \u00e9 ouro\u201d (p\u00e1g. 25). Isso em 1718. Mas antes disso, em 1681, Borba Gato j\u00e1 estava no sert\u00e3o em busca de prata, juntamente com o sogro Fern\u00e3o Dias Paes Leme.<\/p>\n<p>Os metais e pedras preciosas efetivamente come\u00e7am a ser explorados no final do s\u00e9culo XVII e no s\u00e9culo XVIII, depois que o com\u00e9rcio de ind\u00edgenas escravizados decai pela entrada de africanos. At\u00e9 ent\u00e3o, os paulistas n\u00e3o se interessavam pelos metais e pedras porque sabiam que isso significaria perder sua autonomia, eis que o aparelhamento de fiscaliza\u00e7\u00e3o do Estado portugu\u00eas seria instalado t\u00e3o logo surgisse a not\u00edcia do ouro, da prata, das pedras preciosas. Foi assim que na antiga Araritaguaba, atual Porto Feliz, instalou-se pr\u00f3ximo ao porto da chegada das mon\u00e7\u00f5es a Casa da Alf\u00e2ndega que cobrava o imposto do quinto real.<\/p>\n<p>Sobre esse fato, o eminente S\u00e9rgio Buarque de Hollanda diz no seu livro \u201cVis\u00e3o do Para\u00edso\u201d: \u201cA mobiliza\u00e7\u00e3o da gente do planalto visando \u00e0 captura de fant\u00e1sticas riquezas para a Coroa constitui, sem d\u00favida, uma amea\u00e7a \u00e0 vida livre e sem sujei\u00e7\u00e3o de quem se tinha habituado, de longa data, a tamanha soltura\u201d (p\u00e1g. 63). E conclui, logo adiante: \u201cPara os moradores de S\u00e3o Vicente, faltos de escravaria de Guin\u00e9, o grande atrativo que podiam oferecer aquelas regi\u00f5es, t\u00e3o cobi\u00e7adas de in\u00edcio como portas de fabulosos tesouros, concentrava-se nos lucros proporcionados eventualmente por t\u00e3o largo viveiro de \u00edndios submissos e prestativos. A inclina\u00e7\u00e3o para as jornadas de ca\u00e7a ao gentio desponta assim nos \u00e2nimos dos habitantes da capitania, que aos poucos n\u00e3o querer\u00e3o saber de outros cabedais sen\u00e3o do que representavam aquelas pe\u00e7as da terra\u201d (p\u00e1g. 104).<\/p>\n<p>Borba Gato tornou-se afamado sertanista por sua liga\u00e7\u00e3o com a descoberta das jazidas em Minas Gerais. Em 28 de agosto de 1682, Borba Gato assassinou Dom Rodrigo Castel Blanco ou Castelo Branco, um fidalgo castelhano que tinha nomea\u00e7\u00e3o do rei portugu\u00eas para tomar posse das minas administradas pelo paulista. \u00c9 que a autoriza\u00e7\u00e3o anterior era de seu sogro, Fern\u00e3o Dias Paes Leme; e Borba Gato achava-se no direito de herdar a nomea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que com esse assassinato, o \u201cbandeirante\u201d paulista tornou-se um fugitivo, vivendo no meio do mato escondido. Dizem que viveu entre ind\u00edgenas e que chegou a estabelecer com eles a cria\u00e7\u00e3o de gado vacum. Tamb\u00e9m h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es \u2013 estas mais seguras \u2013 de que continuou na prospec\u00e7\u00e3o tendo encontrado minas de ouro e prata. Com essa informa\u00e7\u00e3o, negociou o seu perd\u00e3o junto ao rei, o qual a concedeu em 15 de outubro de 1698. Borba Gato foi nomeado Guarda-mor desse distrito do Rio das Velhas em 6 de mar\u00e7o de 1700. Participou, ainda, da Guerra dos Emboabas em 1708. Faleceu em 1718 aos 69 anos de idade.<\/p>\n<p>Assim, Borba Gato esteve quase toda a sua vida envolvido com a procura e explora\u00e7\u00e3o de minas de metais e pedras preciosas. O com\u00e9rcio de ind\u00edgenas escravizados esteve a cargo de outros sertanistas como atividade primordial, tais como Manoel Preto, Andr\u00e9 Fernandes, Raposo Tavares entre outros. N\u00e3o se trata aqui de tentar redimir a imagem de Borba Gato, mas, antes, de traz\u00ea-la para uma vis\u00e3o mais alicer\u00e7ada em fatos hist\u00f3ricos. Afinal, o debate que se pretendeu levantar com a queima de sua est\u00e1tua em Santo Amaro, conforme descreveu a imprensa, estava relacionado com a sua suposta a\u00e7\u00e3o de escravizador de ind\u00edgenas e africanos.<\/p>\n<p>Na Hist\u00f3ria do Brasil \u00e9 dif\u00edcil dissociar qualquer monumento ou s\u00edmbolo de mem\u00f3ria dos s\u00e9culos passados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. Afinal, a maior parte dos trabalhos realizados era por m\u00e3os escravizadas. Poder-se-ia dizer, ent\u00e3o, que os pr\u00e9dios da antiga Real F\u00e1brica de Ferro de S\u00e3o Jo\u00e3o do Ypanema, a primeira sider\u00fargica do Brasil, \u00e9 um \u201cmonumento\u201d que remete a um passado escravocrata. Bem como praticamente toda a cidade de Ouro Preto, Mariana, e Sabar\u00e1 (esta \u00faltima, coincidentemente, associada a Borba Gato que foi seu primeiro Guarda-Mor). Seria muita coisa para se queimar e se destruir. Mas qual a vantagem de um ato como esse?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que muita gente se empolga com eventos pontuais acreditando que sejam embri\u00f5es de uma revolu\u00e7\u00e3o. Sim, precisamos de mudan\u00e7as e urgentes. Mas como tudo o que ocorre neste mundo tridimensional de Euclides, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para \u201cmilagres\u201d. As passeatas de junho de 2013 e as ocupa\u00e7\u00f5es das escolas estaduais do Estado de S\u00e3o Paulo em 2015 n\u00e3o impediram a elei\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos ligados aos setores mais reacion\u00e1rios. E muita gente acreditou que est\u00e1vamos \u00e0 beira de uma revolu\u00e7\u00e3o social. A mesma euforia \u2013 um tanto ing\u00eanua e um tanto infantil \u2013 \u00e9 vista agora quando as redes sociais viralizam cenas de vandalismo a monumentos no mundo todo.<\/p>\n<p>Todos aqueles que foram considerados racistas, escravagistas, machistas, sexistas, autorit\u00e1rios, etc., est\u00e3o tendo seus monumentos pichados ou depredados. Mas, n\u00e3o seria anacronismo buscar em personalidades do passado as atitudes pr\u00f3prias do nosso tempo? Isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o devamos condenar a escravid\u00e3o, a ditadura, o sexismo e toda a opress\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, como seres humanos do s\u00e9culo XXI \u00e9 nosso dever repudiar a tudo isso. Por\u00e9m, essas atrocidades n\u00e3o desaparecem quando derrubamos as est\u00e1tuas.<\/p>\n<p>Metaforicamente, Caetano Veloso cantou esses versos em \u201c\u00c9 proibido proibir\u201d. Mas, sinceramente, n\u00e3o sei se a proposta do compositor baiano, naquela \u00e9poca ou hoje, seria a de literalmente derrubar est\u00e1tuas. Especialmente quando tais monumentos ainda possuem algum significado para uma parcela da popula\u00e7\u00e3o. O ato sempre ser\u00e1 visto por esse grupo como um vilip\u00eandio.<\/p>\n<p>Foi o que ocorreu com a queima da est\u00e1tua de Borba Gato em Santo Amaro. N\u00e3o demorou a aparecer monumentos e s\u00edmbolos progressistas que receberam o mesmo \u00f3dio e depreda\u00e7\u00e3o. Uma imagem de Marielle Franco num escad\u00e3o em Pinheiros apareceu pichada com a frase: \u201cViva Borba Gato\u201d. O monumento que marca o local da emboscada e morte de Marighella tamb\u00e9m foi vandalizado. Em Sorocaba, a tentativa de roubo da placa de bronze com o nome dos pracinhas da 2\u00aa Guerra Mundial foi classificada por uma leitora de um jornal local como \u201ccoisa de comunistas\u201d.<\/p>\n<p>Acirrou-se o \u00f3dio e, de quebra, elevou-se Borba Gato a her\u00f3i reivindicado pela extrema-direita. Antes, o \u201cbandeirante\u201d paulista nem era lembrado pelos reacion\u00e1rios. Agora, virou her\u00f3i por algo que nem estava entre as suas principais atividades: a escraviza\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas e negros africanos.<\/p>\n<p>As est\u00e1tuas cair\u00e3o por si s\u00f3 quando perderem seu significado. E nem precisar\u00e3o ser derrubadas. Converter-se-\u00e3o em imagens p\u00e1lidas de um passado ressignificado. Ser\u00e3o como os monumentos fara\u00f4nicos: n\u00e3o para admira\u00e7\u00e3o pela figura do fara\u00f3, mas para conhecimento das a\u00e7\u00f5es humanas num tempo distante. Mas para que isso tudo ocorra \u00e9 necess\u00e1rio que repensemos hoje a vis\u00e3o que temos sobre os fatos pret\u00e9ritos. Somente a pesquisa hist\u00f3rica pode dar novos significados ao nosso passado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Carlos Carvalho Cavalheiro<\/strong><\/h3>\n<p>02.08.2021<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Derrubar as est\u00e1tuas, as prateleiras&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[1094,1651,3491,4439],"class_list":["post-43661","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comunicacao","tag-artigo","tag-carlos-carvalho-cavalheiro","tag-estatuas","tag-hostilidade"],"aioseo_notices":[],"views":552,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":32091,"url":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=32091","url_meta":{"origin":43661,"position":0},"title":"Carlos Carvalho Cavalheiro: &#039;Derrubar as est\u00e1tuas&#039;","author":"Carlos Carvalho Cavalheiro","date":"19 de junho de 2020","format":false,"excerpt":"Derrubar as est\u00e1tuas \u00a0 Derrubar as prateleiras As estantes, as est\u00e1tuas As vidra\u00e7as, lou\u00e7as, livros, sim... 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