{"id":51138,"date":"2022-07-16T15:20:46","date_gmt":"2022-07-16T18:20:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/?p=51138"},"modified":"2022-07-16T15:20:46","modified_gmt":"2022-07-16T18:20:46","slug":"o-leitor-participa-tome-angelo-de-luanda-angola-a-poetica-de-neto-na-obra-dias-de-expiacao-de-orlando-ukuakukula-significado-e-perspectiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=51138","title":{"rendered":"O leitor participa: Tom\u00e9 Angelo, de Luanda (Angola): &#039;A Po\u00e9tica de Neto na obra Dias de Expia\u00e7\u00e3o, de Orlando Ukuakukula: significado e perspectiva&#039;"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F51138&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F51138&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><h2><a href=\"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/o-leitor-participa-tome-angelo-de-luanda-angola-a-poetica-de-neto-na-obra-dias-de-expiacao-de-orlando-ukuakukula-significado-e-perspectiva\/f8d68f03-4675-479e-9283-85e764c5fa3a\/\" rel=\"attachment wp-att-51139\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"51139\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=51139\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/f8d68f03-4675-479e-9283-85e764c5fa3a.jpg\" data-orig-size=\"1600,777\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"f8d68f03-4675-479e-9283-85e764c5fa3a\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/f8d68f03-4675-479e-9283-85e764c5fa3a.jpg\" class=\" wp-image-51139 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/f8d68f03-4675-479e-9283-85e764c5fa3a-300x146.jpg\" alt=\"\" width=\"584\" height=\"284\" \/><\/a><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><em>&#8220;Tal como a po\u00e9tica de Neto, Dias de Expia\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma obra que entendemos estar enquadrada na perspectiva neorrealista, uma vez que traz ao de cima, em forma de recria\u00e7\u00e3o, as situa\u00e7\u00f5es do quotidiano da popula\u00e7\u00e3o angolana.&#8221;<\/em><\/h2>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Antes de mais, gostar\u00edamos de avan\u00e7ar que esta an\u00e1lise \u00e9 feita com a consci\u00eancia de que a um texto liter\u00e1rio, pelo seu car\u00e1cter plur\u00edvoco, pode-se oferecer v\u00e1rias leituras\/an\u00e1lises, desde que se tenham em conta os crit\u00e9rios da literariedade. Ali\u00e1s, &#8220;n\u00e3o h\u00e1 um modelo \u00fanico de leitura do texto&#8221;, tal como postula Carlos Ceia, com o qual concordamos.<\/p>\n<p>Com isto, queremos dizer que esta nossa an\u00e1lise n\u00e3o esgota a possibilidade de poder haver outras com a mesma tem\u00e1tica, afinal, o texto liter\u00e1rio \u00e9 aberto. Todavia, esta \u00e9 uma que esperamos que o leitor possa achar interessante.<\/p>\n<p>A obra Dias de Expia\u00e7\u00e3o afigura-se transtextual, uma vez que se verifica uma rela\u00e7\u00e3o de copresen\u00e7a entre dois textos. Assim, em Dias de Expia\u00e7\u00e3o dialoga com os poemas: &#8220;\u00d3pio&#8221;, da obra Ren\u00fancias Imposs\u00edveis, &#8220;Havemos de Voltar&#8221;, &#8220;Contratado&#8221;, e &#8220;Sauda\u00e7\u00f5es&#8221;, todos da obra Sagrada Esperan\u00e7a, de Agostinho Neto.<\/p>\n<p>Desta forma, e tendo em conta que a arte \u00e9 feita com consci\u00eancia, entendemos que essa rela\u00e7\u00e3o textual n\u00e3o seja por mero acaso, mas sim com objectivos bem definidos. Destarte, eis, abaixo, algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a po\u00e9tica de Neto.<\/p>\n<p>A po\u00e9tica de Neto \u00e9 conhecida como neorealista, negritudinista, engajada e de combate.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 encarada na perspectiva neorrealista na medida em que &#8220;se preocupa com a observa\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise minuciosa da vida quotidiana e dos costumes das popula\u00e7\u00f5es, tendo como metodologia o [o inqu\u00e9rito da vida do negro] (&#8230;) (Akiz Neto, 2020:15 (grifos do autor ))&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 negritudinista porque nela &#8220;encontramos principalmente a manifesta\u00e7\u00e3o de uma atitude global virada para a negritude [e sendo que] a sua poesia sensibiliza densamente o leitor sobretudo o africano para, em conjunto, se identificarem com a luta contra o racismo e subjuga\u00e7\u00e3o colonial (idem, ibidem (grifo nosso ))&#8221;: &#8220;<em>A ti, negro qualquer<\/em>\/<em>Meu irm\u00e3o do mesmo sangue\/Eu sa\u00fado (&#8230;)&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>A po\u00e9tica netiana \u00e9 de combate tendo em conta que ela &#8220;tem no seu discurso o desejo de (&#8230;) lideran\u00e7a pol\u00edtica e de organiza\u00e7\u00e3o social tendente \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o independentista (Laranjeira, 2009)&#8221;: &#8220;<em>Esta \u00e9 a hora de junto marcharmos\/ Corajosamente\/ Para o mundo de todos\/Os homens.<\/em><\/p>\n<p>A po\u00e9tica netiana \u00e9, ainda, engajada porque &#8220;\u00e9 um instrumento de luta social. O poeta acredita em um mundo melhor e usa a poesia como arma para alcan\u00e7ar seus objectivos (Magru Floriano em Poesia Engajada: O papel social da literatura, dispon\u00edvel em www.magru.com.br.2015\/1, acedido aos 07\/07\/2 )&#8221;. E, como exemplo, trazemos o seguinte trecho: \u201c<em>Ningu\u00e9m nos far\u00e1 nada\/ Ningu\u00e9m poder\u00e1 nos impedir\/ O sorriso dos nossos l\u00e1bios\/ N\u00e3o \u00e9 o agradecimento pela morte\/ Com que nos matam\/ Vamos, com toda a humanidade\/ Conquistar o nosso mundo e a paz<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Posto isso, entendemos fazer a rela\u00e7\u00e3o entre a po\u00e9tica de Neto e Dias de Expia\u00e7\u00e3o, de Ukuakukula.<\/p>\n<p>Tal como a po\u00e9tica de Neto, Dias de Expia\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma obra que entendemos estar enquadrada na perspectiva neorrealista, uma vez que traz ao de cima, em forma de recria\u00e7\u00e3o, as situa\u00e7\u00f5es do quotidiano da popula\u00e7\u00e3o angolana.<\/p>\n<p>Na po\u00e9tica netiana, recriam-se as situa\u00e7\u00f5es bestiais do passado, a escravatura, impostas pelo colono, ao passo que em Dias de Expia\u00e7\u00e3o, com recurso ao inqu\u00e9rito social, ficcionam-se as situa\u00e7\u00f5es de barb\u00e1ries do per\u00edodo p\u00f3s-independ\u00eancia, no per\u00edodo conhecido como o da terceira rep\u00fablica, que conta com o seu terceiro presidente.<\/p>\n<p>De igual modo, enquadramos Dias de Expia\u00e7\u00e3o na perspectiva do engajamento, sendo certo que \u00e9 uma obra que denuncia, a nosso ver, situa\u00e7\u00f5es sociais hecat\u00f4mbicas e apela \u00e0 consci\u00eancia colectiva a tomar posi\u00e7\u00f5es que visem mudar o quadro incolor do presente: &#8220;<em>Hoje, Ngongo n\u00e3o come, sequer, um p\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es. Sai bichos na pata de estar em paragens h\u00famidas e descal\u00e7o. Banha uma vez a outra, l\u00e1 na lagoa do S\u00e3o Paulo (&#8230;). Nosso problema \u00e9 do tamanho da nossa fragilidade, do nosso medo. Sua resolu\u00e7\u00e3o \u00e9 do tamanho da nossa coragem e da nossa capacidade de viver mesmo depois de mortos. A menos, claro, que queiramos continuar no flutuar dos nossos dias de expia\u00e7\u00e3o <\/em>(Ukuakukula, p. 144)&#8221;.<\/p>\n<p>Neste trecho, faz-se uma sedu\u00e7\u00e3o moral aos co-cidad\u00e3os no sentido de se ir \u00e0 luta, incita-se a coragem para que n\u00e3o se fique imp\u00e1vido e sereno diante tamanhas barbaridades. E, nos dias de hoje, \u00e9 uma conscientiza\u00e7\u00e3o da sociedade, de formas a pautar pelo exerc\u00edcio da cidadania, exigir da parte do governo, que \u00e9 servidor do povo, a cumprir com as suas obriga\u00e7\u00f5es e prestar contas com o povo, detentor do poder.<\/p>\n<p>E, ainda, enquadramos Dias de Expia\u00e7\u00e3o como uma narrativa de combate, pois que estimula a combater ideias de domina\u00e7\u00e3o ou subalterniza\u00e7\u00e3o de uma minoria a uma maioria, incita-se o combate ao oligarquismo, de formas a que todos possam viver na igualdade. J\u00e1 a po\u00e9tica netiana apelava, naquela altura, \u00e0 consci\u00eancia social para que se expulsasse o colono portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Como exemplo do que escrevemos acima, fica, aqui, mais um trecho de dias de Expia\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>&#8220;(&#8230;) estudar para qu\u00ea? Saber para qu\u00ea? Para ficar calado e deixar as coisas passarem? Afinal, n\u00e3o s\u00e3o piores aqueles que deixam o mal acontecer, e n\u00e3o aqueles que o fazem? Esta era a posi\u00e7\u00e3o de Costa em todos os debates<\/em> (Ukuakukula, 2022)&#8221;.<\/p>\n<p>Gostar\u00edamos, ainda, de salientar que ao se trazer o facto do passado (a luta de liberta\u00e7\u00e3o) para o presente (contexto p\u00f3s-independ\u00eancia) n\u00e3o \u00e9 com o intuito de se trazer a mem\u00f3ria no sentido fotogr\u00e1fico, mas para levar a uma reflex\u00e3o sobre o presente, de formas a se encontrar caminhos para a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas presentes, visando um futuro risonho para todos. Assim, ao transportar-se o facto passado para o presente, ocorre a descontextualiza\u00e7\u00e3o e \u201cdessemantiza\u00e7\u00e3o\u201d e recontextualiza\u00e7\u00e3o e \u201cressemantiza\u00e7\u00e3o\u201d. Isto \u00e9, ao tirar o facto do passado (pertencente a um outro contexto) descontextualiza-se e dessemantiza-se (fora daquele contexto, o facto fica sem significado) e ao coloc\u00e1-lo no presente (num outro contexto), recontextualiza-se e ressemantize-se (passa a ter um outro significado, dado o novo contexto) para que se projecte um orizonte melhor, onde os que n\u00e3o t\u00eam voz e vez passem a ter. \u00c9 nisto em que consiste a teoria aleg\u00f3rica de walter Benjamim (1984). Assim, esta narrativa tamb\u00e9m tem como marcador a \u201cespera\u201d (c,f. Martinho, 2018), uma vez que se continua \u00e0 espera que se consume o projecto na\u00e7\u00e3o, \u201csonho sonhado\u201d aquando da luta pela Independ\u00eancia. Da\u00ed Costa, em Dias de Expia\u00e7\u00e3o, ter dito: &#8220;a luta continua&#8221;.<\/p>\n<p>Posto isso, urge-nos apresentar aqui os trechos dos poemas de Neto que foram incorporados na obra Dias de Expia\u00e7\u00e3o e fazer analogia entre as duas obras (mas o poema com t\u00edtulo \u201cContratados\u201d j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 descrito aqui, por entendermos ter a mesma linha de interpreta\u00e7\u00e3o o poema \u201c\u00d3pio\u201d). O primeiro trecho \u00e9 do poema &#8220;\u00d3pio&#8221;, da obra Ren\u00fancia Imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>O trecho foi introduzido numa altura em que av\u00f3 Ndembo contava aos seus netos, Costa e seus irm\u00e3os, sobre o contexto hist\u00f3rico-pol\u00edtico Angolano, marcado pela coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa sobre o povo angolano, isto na narrativa: &#8220;<em>Lutamo memo, m\u00f4 neto. Esse sinale que t\u00e1s a v\u00ea aqui, \u00e9 ferro que me entrou (&#8230;) Suko ng\u00f5! Mas, afinale, m\u00f4s filho tinha um grupo entre n\u00f3s que lutava pelo seu interesse (&#8230;). Mas, eu tinha um sonho, m\u00f4s filhos. Viver em paz, ter felicidade. Quando eu lutava, eu lutava na esperan\u00e7a da uni\u00e3o<\/em> (Ukuakukula, p. 6)&#8221;.<\/p>\n<p>Aqui, percebe-se que ter\u00e1 ocorrido a recria\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-pol\u00edtica e sociopol\u00edtica angolana, sendo que no passado, os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o lutaram para uma Angola livre e independente, uma Angola da qual todos se poderiam orgulhar. Mas, alcan\u00e7ada a Independ\u00eancia, tal desiderato n\u00e3o se cumpriu, uma vez que, depois da retirada do colono portugu\u00eas, as pr\u00e1ticas coloniais foram continuadas por um outro grupo local.<\/p>\n<p>Assim a ser, av\u00f3 Ndembo chorava de tristeza profunda pelo facto de que os objectivos que motivaram as suas lutas n\u00e3o serem concretizados e que, desta forma, a luta deve continuar. E \u00e9 exactamente aqui que Costa, ao ver a sua av\u00f3 triste e chorar, pegou no livro de Neto e p\u00f4s-se a declamar o \u00d3pio: &#8220;<em>Casaram-me com a tristeza!\/ N\u00e3o tive inf\u00e2ncia\/ Nem mocidade\/ N\u00e3o tive a alegria\/ da primeira idade\/ Por causa deste noivado prematuro\/ senil\/ Meus pesados dias s\u00e3o ilus\u00f5es\/ Meus prazeres amargura\/ a felicidade e a vida\/ Sonhos\/ Eu pr\u00f3prio sou uma ilus\u00e3o\/ Sou a irrealidade\/ Sou sonho\/ porque a realidade \u00e9 a tristeza\/ e n\u00e3o a quero assim<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Este poema entendemos ser um c\u00e2ntico de tristeza pela inf\u00e2ncia, juventude e alegria roubadas e de manifesta\u00e7\u00e3o do desejo de ver a realidade mudada. Assim, os sentimentos do sujeito po\u00e9tico e os da av\u00f3 Ndembo convergem: tristeza por uma realidade fustigante, com a particularidade de as realidades n\u00e3o serem contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>O outro trecho \u00e9 recortado do poema Havemos de Voltar. O mesmo foi introduzido na narrativa \u00e0 medida que Costa, nos seus habituais debates com os amigos, imaginava um pa\u00eds com um governo comprometido, que fazia a distribui\u00e7\u00e3o equitativa da riqueza e dava voz e vez a todos: \u201c(&#8230;)<em>\u00c0 bela p\u00e1tria angolana\/ Nossa terra, nossa m\u00e3e\/ Havemos de voltar\/ Havemos de voltar\/ \u00c0 Angola libertada\/ Angola verdadeiramente independente<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Neste poema, o sujeito po\u00e9tico evidencia uma situa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel do contexto em que se vivia, que era o per\u00edodo colonial, e n\u00e3o esconde a esperan\u00e7a em dias melhores.<\/p>\n<p>Este poema, ao ser transportado para Dias de Expia\u00e7\u00e3o, entendemos ser pelo facto de que, de acordo com o imagin\u00e1rio social angolano, nesta terceira Rep\u00fablica, a situa\u00e7\u00e3o de vida da popula\u00e7\u00e3o ser bastante cr\u00edtica: assimetria social, marginaliza\u00e7\u00e3o e injusti\u00e7as. E, por outro lado, revela-se a esperan\u00e7a de ver essa situa\u00e7\u00e3o fustigante mudada para melhor: uma Angola mais justa, mais democr\u00e1tica, com condi\u00e7\u00f5es humanas mais dignas.<\/p>\n<p>O outro poema \u00e9 &#8220;Sauda\u00e7\u00e3o&#8221;, que Ngongo, um dos personagens de Dias de Expia\u00e7\u00e3o, deixou como carta, para os vivos.<\/p>\n<p>Na narrativa, Ngongo e a sua fam\u00edlia: m\u00e3e, Ocikembe, irm\u00e3os, Ukuahali, Suku Akwete e Henda sa\u00edram do Huambo, uma das prov\u00edncias do centro de Angola, para Luanda, a capital, e hospedaram-se na casa da tia Rebeca, irm\u00e3 do seu pai, este j\u00e1 falecido.<\/p>\n<p>A ideia era a de fazer a vida na capital, uma vez que ap\u00f3s a morte de seu pai, a vida naquela prov\u00edncia esteve muito dif\u00edcil. Postos na capital, a tia que hospedou a fam\u00edlia acabou sendo morta pelo marido e a fam\u00edlia hospedada teve de se reinventar, virar-se a seu jeito.<\/p>\n<p>Ngongo, em meio as dificuldades, licenciou-se em Ensino do Portugu\u00eas, Ukuahali \u00e9 T\u00e9cnico M\u00e9dio pela Escola de Forma\u00e7\u00e3o de Professores, Kimamuenho, e Henda fez Puniv.<\/p>\n<p>Ngongo n\u00e3o tinha emprego, girava de cima \u00e0 baixo \u00e0 procura e com desespero a sua mente ficou atrofiada, em esp\u00e9cie de maluco.<\/p>\n<p>Ukuahali tamb\u00e9m \u00e9 desempregado, Henda, a menina entre os irm\u00e3os, idem e, por isso mesmo, teve de optar pela venda ambulante, que em Angola chamamos de &#8220;zunga&#8221;, tudo para ajudar a sua m\u00e3e, que se encontrava doente, e os seus irm\u00e3os. Os neg\u00f3cios faliram e a fam\u00edlia passou por muitas necessidades.<\/p>\n<p>Ngongo, como dissemos acima, acabou por morrer, mas deixou uma carta e esta era o poema de Neto: \u201c<em>Sauda\u00e7\u00e3o\/ A ti, negro qualquer\/ Meu irm\u00e3o do mesmo sangue\/ Eu sa\u00fado!\/ Esta mensagem seja o elo que me ligue ao teu sofrer\/ Indissoluvelmente\/ E te prenda ao meu ideal\/ (&#8230;)\/ E me obrigue a sentar-me ao teu lado\/ \u00c0 mesa suja dos excessos de s\u00e1bado \u00e0 noite\/ Para esquecer a nudez e a fome dos filhos\/ E sinta contigo a vergonha\/ De n\u00e3o ter p\u00e3o para lhes dar\/ (&#8230;)\/ E me transforme no homem-n\u00famero-abstrato\/ Desconhecedor dos objectivos\/ Na tarefa que nos consome \/ Como bastardo desprezado de certo mundo\/ Nesta madrugada de nosso dia\/ (&#8230;)\/ Esta \u00e9 a hora de juntos marcharmos\/ Corajosamente\/ Para o mundo de todos \/ Os homens<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>De maneira sucinta, compreendemos que este poema \u00e9 um apelo \u00e0 consci\u00eancia colectiva, \u00e0 uni\u00e3o, \u00e0 irmandade e \u00e0 coragem no sentido de todos estarem envolvidos pelas causas justas e de todos. Este apelo era em fun\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o hecat\u00f4mbica que se vivia, naquela altura, a situa\u00e7\u00e3o animalesca e objectificante a que o angolano ou o negro era submetido, com vista, ent\u00e3o, a ter uma sociedade ou um povo afirmado como humano na sua pr\u00f3pria terra e no mundo, um povo com cultura e identidade reconhecidas.<\/p>\n<p>Nos dias de hoje, a olhar para a situa\u00e7\u00e3o extra-textual, \u00e9 um apelo, de igual modo, \u00e0 uni\u00e3o, irmandade, coragem, enfim, \u00e0 consci\u00eancia colectiva no sentido de se lutar, pelo menos ideologicamente, para que os da periferia social sejam tidos em conta nos projectos de governa\u00e7\u00e3o, de formas a que haja equil\u00edbrio social.<\/p>\n<p>Portanto, a intertextualidade entre a po\u00e9tica de Neto e Dias de Expia\u00e7\u00e3o significa denunciar situa\u00e7\u00f5es sociais de barb\u00e1ries para despertar a cr\u00edtica social mediante tais situa\u00e7\u00f5es de modos a se empreender algum esfor\u00e7o para a invers\u00e3o deste quadro sinistro, perspectivando a efectiva\u00e7\u00e3o do projecto de sociedade outrora sonhado e iniciado, no sentido de que Angola seja um pa\u00eds onde todos possam caber, um pa\u00eds de todos e para todos.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/o-leitor-participa-tome-angelo-de-luanda-angola-a-poetica-de-neto-na-obra-dias-de-expiacao-de-orlando-ukuakukula-significado-e-perspectiva\/6c895bce-a23f-4273-844d-0dd9309a3c09\/\" rel=\"attachment wp-att-51140\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"51140\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=51140\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/6c895bce-a23f-4273-844d-0dd9309a3c09.jpg\" data-orig-size=\"479,623\" data-comments-opened=\"0\" 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Portuguesa, Activista Social, membro do\u00a0Movimento dos Estudantes Angolanos (MEA)<\/p>\n<p>E-mail: tomemagnanimo@gmail.com<br \/>\nWhatsApp: +244927302702<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Tal como a po\u00e9tica de Neto, Dias de Expia\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma obra que entendemos estar enquadrada na perspectiva neorrealista, uma vez que traz ao de cima, em forma de recria\u00e7\u00e3o, as situa\u00e7\u00f5es do quotidiano da popula\u00e7\u00e3o 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