{"id":55017,"date":"2023-05-19T23:02:27","date_gmt":"2023-05-20T02:02:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/?p=55017"},"modified":"2023-07-08T12:48:27","modified_gmt":"2023-07-08T15:48:27","slug":"carlos-carvalho-cavalheiro-religioes-afro-caipiras-de-sao-paulo-do-seculo-xviii-ao-inicio-do-seculo-xx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=55017","title":{"rendered":"Carlos Carvalho Cavalheiro: &#039;Religi\u00f5es afro-caipiras de S\u00e3o Paulo \u2013 Do s\u00e9culo XVIII ao in\u00edcio do s\u00e9culo XX&#039;"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F55017&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F55017&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div><div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><a href=\"http:\/\/www.jornalrol.com.br\/fabio-avila-bras-um-distrito-de-sao-paulo\/carlos-foto-andre-pinto-2018-1-7\/\" rel=\"attachment wp-att-26459\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"26459\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=26459\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Carlos-Foto-Andr\u00e9-Pinto-2018-1-2.jpg\" data-orig-size=\"219,338\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;Andr\\u00e9 Pinto Fotografia&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1532262722&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;\\u00a9 2018 Andr\\u00e9 Pinto Fotografia&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Carlos Carvalho Cavalheiro\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Carlos Carvalho Cavalheiro&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Carlos Carvalho Cavalheiro&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Carlos-Foto-Andr\u00e9-Pinto-2018-1-2.jpg\" src=\"https:\/\/www.jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Carlos-Foto-Andre-Pinto-2018-1-2-194x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-26459\" width=\"150\" height=\"231\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Carlos Cavalheiro<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><strong>Religi\u00f5es afro-caipiras de S\u00e3o Paulo \u2013 Do s\u00e9culo XVIII ao in\u00edcio do s\u00e9culo XX<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p id=\"viewer-72u2g\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><strong>RESUMO<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-71lma\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O presente artigo pretende analisar algumas informa\u00e7\u00f5es sobre as chamadas \u201cfeiti\u00e7arias\u201d ligadas \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es africanas e afro-brasileiras\/afro-diasp\u00f3ricas, restritas ao interior do Estado de S\u00e3o Paulo, do s\u00e9culo XVIII at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando tais pr\u00e1ticas religiosas v\u00e3o sendo superadas por formas mais estruturadas e organizadas de religiosidade como a Umbanda e o Candombl\u00e9. Pretende-se, ainda, produzir uma mem\u00f3ria de tais eventos de maneira a estabelecer um referencial hist\u00f3rico sobre as transforma\u00e7\u00f5es das religi\u00f5es (e da religiosidade) africana e afro-brasileira no Estado de S\u00e3o Paulo. A an\u00e1lise de diversos casos revelou a predomin\u00e2ncia da cultura religiosa dos grupos bantos no interior paulista.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fvp65\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Palavras-Chaves: <\/em>Macumba paulista; Religi\u00f5es Afro-caipiras; Umbanda; tradi\u00e7\u00f5es bantos; Batuque<\/span><\/p>\n\n\n\n<div data-hook=\"rcv-block6\">&nbsp;<span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/div>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fuj1d\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Novembro de 2012. Dentro da Igreja constru\u00edda pelo negro Jo\u00e3o de Camargo, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, em comemora\u00e7\u00e3o ao dia de Zumbi e da Consci\u00eancia Negra, ocorreu um ato ecum\u00eanico com a presen\u00e7a de um padre cat\u00f3lico, um pastor protestante e lideran\u00e7as do candombl\u00e9 e da umbanda. O evento, mesmo no s\u00e9culo XXI, pareceu inusitado, mas ocorreu com m\u00fatuo respeito entre os religiosos.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2v3of\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Um s\u00e9culo antes, o construtor daquele templo era processado e julgado por curandeirismo e charlatanismo. Jo\u00e3o de Camargo constituiu um culto espec\u00edfico, uma mescla de tradi\u00e7\u00f5es africanas, cat\u00f3licas e esp\u00edritas. O ajuntamento de pessoas ao redor de sua capela motivou a a\u00e7\u00e3o das for\u00e7as sociais e pol\u00edticas da cidade que n\u00e3o viam com bons olhos o que acreditavam ser um culto calcado na ignor\u00e2ncia e no fanatismo. Temia a elite da cidade, que se reproduzissem em Sorocaba, cidade do interior paulista, o mesmo que ocorrera com Ant\u00f4nio Conselheiro em Canudos ou com os monges m\u00edsticos da Guerra do Contestado. Pior ainda, pois a lideran\u00e7a desse novo culto apresentava o seu templo como a \u201cIgreja Negra e Misteriosa\u201d da \u00c1gua Vermelha (CAVALHEIRO, 2020).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-beeaq\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Jo\u00e3o de Camargo, por\u00e9m, n\u00e3o foi o primeiro e nem o \u00faltimo dos \u201csacerdotes\u201d de cultos religiosos de matriz africana a atemorizar as elites brancas de S\u00e3o Paulo. Pode-se mesmo dizer que houve uma infinidade de cultos dessa natureza que permearam a hist\u00f3ria paulista, permitindo-nos dizer que, em conjunto, tratava-se de religi\u00f5es afro-caipiras.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1c8nb\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> A proposta do nome adv\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o dessas tradi\u00e7\u00f5es que mesclam aquilo que foi gestado em algum tempo na \u00c1frica, mas sob uma releitura no Brasil, especialmente, no espa\u00e7o geogr\u00e1fico em que hoje se encontra o Estado de S\u00e3o Paulo. Por caipira, ent\u00e3o, entende-se a cultura que se formou a partir da experi\u00eancia de contato entre ind\u00edgenas e luso-brasileiros em plena decanta\u00e7\u00e3o nas terras piratininganas.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8lku8\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O soci\u00f3logo Roger Bastide preferiu chamar a esses cultos de \u201cmacumba paulista\u201d. O nome \u00e9 simp\u00e1tico e traduz uma totalidade que abarca as diferentes experi\u00eancias religiosas realizadas pelos africanos e seus descendentes no territ\u00f3rio paulista. Ocorre que, a despeito dessa funcionalidade, o termo \u201cmacumba\u201d parece n\u00e3o ter sido utilizado em S\u00e3o Paulo antes do s\u00e9culo XX.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1aaub\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Aparentemente, salvo engano, o termo \u201cmacumba\u201d foi mais utilizado no Rio de Janeiro. Em S\u00e3o Paulo era comum dizer-se de feiti\u00e7o, calundu, mandinga, caiumba, calunga, cabula, cambinda (cabinda), zang\u00fas ou zung\u00fas. Ainda assim, esses termos n\u00e3o s\u00e3o exatamente espec\u00edficos e podem ter conota\u00e7\u00f5es diferentes, mesmo em contextos parecidos.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5sj0l\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Caiumba, por exemplo, pode-se referir ao feiti\u00e7o realizado durante uma celebra\u00e7\u00e3o, como pode, tamb\u00e9m, se relacionar apenas a dan\u00e7a do batuque. Ant\u00f4nio Filog\u00eanio de Paula J\u00fanior salienta que \u201cBatuque de Umbigada \u00e9 o termo que foi utilizado pelos pesquisadores para denominar a dan\u00e7a-rito da Caiumba. A palavra Caiumba \u00e9 o termo utilizado pelos mais antigos membros desta tradi\u00e7\u00e3o e revela algo mais significativo para os seus praticantes, pois indica a celebra\u00e7\u00e3o de um encontro ancestral\u201d (PAULA J\u00daNIOR, 2022, p. 69).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-83sob\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O termo Calunga corresponde ao mesmo tempo \u00e0s sepulturas e t\u00famulos, como tamb\u00e9m a cruzes que indicam os locais derradeiros de pessoas, e, ainda, um culto realizado \u00e0s escondidas no cemit\u00e9rio (CAMPOS, FRIOLI, 1999).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6qng3\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Roger Bastide, apesar de cunhar o nome de \u201cmacumba paulista\u201d, chega a problematizar o seu uso:&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2ofs8\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>As casas em que se reuniam os negros para celebrar os cultos denominavam-se aqui, nessa \u00e9poca, batuques. \u00c9 um nome que permaneceu em todo o Sul para designar as cerim\u00f4nias fetichistas, em particular, em Porto Alegre. Se o termo macumba substituiu em S\u00e3o Paulo o de batuque, o \u00fanico empregado antigamente foi sob a influ\u00eancia do Rio e tamb\u00e9m em consequ\u00eancia da deturpa\u00e7\u00e3o, que teremos de analisar, da verdadeira religi\u00e3o (batuque) em magia negra (macumba). Ora, temos v\u00e1rias posturas de C\u00e2maras Municipais proibindo essas reuni\u00f5es rituais, como por exemplo uma de Campinas, datada de 1876 (BASTIDE, 1983, p. 195 \u2013 196).&nbsp;<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5m9fv\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O vulgo entende, at\u00e9 os dias atuais, que macumba seja a pr\u00e1tica de magias para o mal. Esse conceito \u00e9 totalmente permeado de uma cosmovis\u00e3o crist\u00e3 que diferencia o que \u00e9 bom daquilo que \u00e9 mau. Por\u00e9m, nas culturas africanas, sobretudo as de origem <em>bantu<\/em>, esse conceito n\u00e3o se ajusta.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1kc9j\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>A princ\u00edpio, o termo macumba designava o instrumento musical usado nos antigos terreiros afro-brasileiros, feito de um tubo de taquara ou ip\u00ea com cortes transversais, e tocado por duas varetas. Depois passou a identificar os cultos africanos praticados pelos escravos no Rio de Janeiro e, finalmente, foi associado \u00e0 umbanda. Para os leigos, macumba \u00e9 toda pr\u00e1tica de feiti\u00e7aria dedicada ao mal, o que, aos olhos da umbanda, est\u00e1 a cargo da quimbanda e de outras modalidades de culto (CORTEZ, [1986], p. 4).&nbsp;<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7qlqg\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> No entanto, o vulgo n\u00e3o somente que associa a macumba \u00e0s pr\u00e1ticas de feiti\u00e7aria para o mal, como, tamb\u00e9m, utiliza-se do termo para \u201cdesignar a totalidade dos cultos afro-brasileiros (candombl\u00e9 tradicional, candombl\u00e9 abrasileirado, umbanda popular, umbanda esot\u00e9rica, quimbanda e demais varia\u00e7\u00f5es), num sentido pejorativo, como sin\u00f4nimo de \u2018feiti\u00e7aria primitiva\u2019\u201d (DUBUGRAS <em>et al, <\/em>s\/d, p. 34).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-doitf\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Sobre esse artigo do C\u00f3digo de Posturas de Campinas, citado por Bastide (1983), o texto legal diz o seguinte: \u201cArt. 93. &#8211; S\u00e3o prohibidas as casas conhecidas vulgarmente pelos nomes de &#8211; zang\u00fas e batuques. Os donos ou chefes de taes casas ser\u00e3o punidos com a pena de oito dias de pris\u00e3o e 30$000 de multa, e o dobro nas reincid\u00eancias\u201d.<a class=\"_3Bkfb _1lsz7\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/92c1b246-3d52-4d9a-adb1-2786a42aa324\/blog\/59022415-9714-4908-bbef-2e3426182c9d\/edit?referralInfo=sidebar#_ftn1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-hook=\"linkViewer\">[1]<\/a> A C\u00e2mara Municipal de Santos publicou semelhante legisla\u00e7\u00e3o em 1870: \u201cArt. 44. &#8211; S\u00e3o prohibidas as casas de batuque, vulgarmente chamadas zung\u00fas, e bem assim os ajuntamentos dos escravos nas ruas e pra\u00e7as da Cidade: os donos das casas e os escravos ser\u00e3o punidos com dois dias de pris\u00e3o\u201d.<a class=\"_3Bkfb _1lsz7\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/92c1b246-3d52-4d9a-adb1-2786a42aa324\/blog\/59022415-9714-4908-bbef-2e3426182c9d\/edit?referralInfo=sidebar#_ftn2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-hook=\"linkViewer\">[2]<\/a><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-agfq6\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> \u00c9 dif\u00edcil captar os pormenores desses cultos. Primeiramente porque seus cultores n\u00e3o deixaram registrado por escrito os mist\u00e9rios e segredos de sua religi\u00e3o. O que sabemos s\u00e3o, na mais das vezes, informa\u00e7\u00f5es filtradas por olhares que, em geral, olhavam para tais manifesta\u00e7\u00f5es com desprezo, desconfian\u00e7a e presun\u00e7\u00e3o. Os que participavam do culto n\u00e3o tinham interesse em registrar por escrito as liturgias e cren\u00e7as de sua religi\u00e3o, quer por ser origin\u00e1ria de uma cultura \u00e1grafa, quer para evitar a produ\u00e7\u00e3o de provas contra si mesmo, uma vez que tais manifesta\u00e7\u00f5es religiosas eram reprimidas como visto acima.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fbdd1\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Por conseguinte, a posse de tais conhecimentos trazia para as lideran\u00e7as desses cultos \u2013 ou para quem tivesse acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es \u201csecretas\u201d \u2013 o <em>status <\/em>de poder sobre as demais pessoas.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1aa6s\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> H\u00e1 outro fator a ser considerado tamb\u00e9m para a dificuldade em se identificar precisamente esses cultos que Bastide chamou de Macumba Paulista. Devido a uma imposi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria estrutura criada pela escraviza\u00e7\u00e3o, diversas etnias \u2013 e com elas as mais variadas cren\u00e7as \u2013 tenderam a se amalgamar dando forma a rituais diversos. Abguar Bastos (1991, p. 7) alega sobre a Macumba que: \u201cadota orix\u00e1s de v\u00e1rias origens\u201d e que \u201cDif\u00edcil se torna evitar a miscel\u00e2nea de deidades que se apresentam ou s\u00e3o louvadas nos cultos, porquanto os povos aqui se misturavam como os mina, os hauss\u00e1, os jej\u00ea, os nag\u00f4, os cambinda e os ful\u00e1\u201d.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9k68d\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Por\u00e9m, sabendo-se de tudo isso, \u00e9, ainda, poss\u00edvel recuperar algumas informa\u00e7\u00f5es sobre essas religi\u00f5es afro-caipiras de S\u00e3o Paulo, de modo a compar\u00e1-las entre si e com o paradigma que hoje temos dos rituais afro-brasileiros, e produzir assim uma mem\u00f3ria sobre esses diversos cultos que proliferaram em terras paulistas.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f8i8b\"><br><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><strong>O medo da feiti\u00e7aria\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fs57n\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O imagin\u00e1rio do luso-brasileiro, desde a \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o, estava permeado pela cren\u00e7a supersticiosa no sobrenatural e na interven\u00e7\u00e3o m\u00e1gica no mundo. Subsidi\u00e1rio das persegui\u00e7\u00f5es da Inquisi\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, esse imagin\u00e1rio se constituiu no portugu\u00eas antes mesmo de aportar nesta terra de Pindorama.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3nmcp\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Ali\u00e1s, as Visita\u00e7\u00f5es do Tribunal do Santo Of\u00edcio farejavam nos tr\u00f3picos a degenera\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios crist\u00e3os que, acreditavam as autoridades cat\u00f3licas, se afrouxavam tanto pelo intenso calor do sol como pelo contato com culturas fetichistas dos ind\u00edgenas e dos africanos.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4je6c\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Na segunda metade do s\u00e9culo XVIII, a Visita\u00e7\u00e3o prendeu em Sorocaba um escravizado que portava um patu\u00e1. A documenta\u00e7\u00e3o sobre essa pris\u00e3o foi pesquisada por Luiz Mott que informou:&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d194k\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>O acusado era conhecido t\u00e3o-somente pelo nome de Jo\u00e3o, Mulato Escravo. Ao ser agarrado pela autoridade eclesi\u00e1stica, aberto o patu\u00e1 que trazia no pesco\u00e7o, dentro se encontrou um peda\u00e7o de sangu\u00edneo (esp\u00e9cie de guardanapo utilizado na missa para limpar as derradeiras gotas do sangue de Cristo conservadas no c\u00e1lice), um pedacinho de corporal (toalhinha destinada a abrigar part\u00edculas do corpo de Cristo ca\u00eddas no altar), al\u00e9m da folha de um missal com ora\u00e7\u00e3o e gravura de Jesus, uma h\u00f3stia consagrada \u2013 que, segundo declarou o r\u00e9u, foralhe ofertada por um sacrist\u00e3o \u2013 \u201ce muitas outras coisas, como ra\u00edzes, dentes de cobra, etc. que por n\u00e3o serem da Igreja, foram queimadas\u201d (MOTT, 2000, p. 120).&nbsp;<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d2og\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> A cren\u00e7a na interven\u00e7\u00e3o m\u00e1gica, portanto, estava presente em S\u00e3o Paulo, pelo menos, desde o s\u00e9culo XVIII. Considere-se que esse escravizado era pertencente a um senhor da cidade de Itu, vizinha de Sorocaba. O tr\u00e2nsito de escravizados \u2013 e mesmo libertos \u2013 entre cidades \u00e9 um fato curioso. Mais \u00e0 frente discorrer-se-\u00e1 sobre alguns casos em que os chefes de cultos transitavam por cidades diversas.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3khnd\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O feiti\u00e7o era temido e combatido em S\u00e3o Paulo por todo o s\u00e9culo XIX, praticamente. Quando se diz aqui em combate, especificamente est\u00e1 se falando em a\u00e7\u00f5es direcionadas e organizadas para tais fins e com o uso dos poderes institucionais. Assim, praticamente todas as cidades paulistas emitiram posturas reprimindo as feiti\u00e7arias.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cv4k3\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Na maior parte das posturas pesquisadas para este trabalho, o negro \u2013 escravizado ou liberto \u2013 n\u00e3o aparece explicitamente, dando a impress\u00e3o de que a feiti\u00e7aria n\u00e3o era uma pr\u00e1tica associada imediatamente aos africanos e seus descendentes, mas sim a qualquer pessoa. \u00c9 de bom alvitre retomar o que foi dito acima sobre o imagin\u00e1rio portugu\u00eas acerca da feiti\u00e7aria. Livros como o de S\u00e3o Cipriano, por exemplo, eram consultados e guardados por muitos colonos. Jo\u00e3o do Rio, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, afirmou que \u201ca base, o fundo de toda a sua ci\u00eancia [dos feiticeiros] \u00e9 o <em>Livro de S\u00e3o Cipriano<\/em>\u201d (RIO, 2015, p. 54).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8qim0\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Assim, as posturas municipais (c\u00f3digos de leis das C\u00e2maras Municipais) tentavam coibir a pr\u00e1tica da feiti\u00e7aria, impondo puni\u00e7\u00f5es como pris\u00f5es, multas entre outras.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-750ko\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Em 1865, o C\u00f3digo de Posturas de Sorocaba trazia o seguinte artigo: \u201cArt. 119. &#8211; Todo aquelle que se intitular advinhador ou curador de feiti\u00e7os illudindo o povo incauto, quer para isso receba estipendio, quer n\u00e3o, ser\u00e1 multado em oito mil r\u00e9is, e oito dias de pris\u00e3o\u201d. J\u00e1 a C\u00e2mara de Guaratinguet\u00e1 promulgou a seguinte postura no mesmo ano: <em>\u201cArt. 113. &#8211; Os indiv\u00edduos que se fingirem inspirados por algum ente sobrenatural, e prognosticarem acontecimentos que possam causar s\u00e9rias aprehens\u00f5es no animo dos credulos, incorrer\u00e3o na multa de 20 a 30$000 com pris\u00e3o de 6 a 8 dias\u201d. Por sua vez, Jundia\u00ed, na mesma \u00e9poca, emitiu esta: \u201cArt. 54. &#8211; Todo aquelle que se intitular advinhador ou curador de feiti\u00e7os illudindo o povo incauto, quer para isso receba estipendio, quer n\u00e3o ser\u00e1 multado em vinte mil r\u00e9is\u201d.&nbsp;<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d9do0\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Os textos variam pouco, mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticos a ponto se se pensar que tenham sido produzidos como c\u00f3pias. H\u00e1 uma varia\u00e7\u00e3o da penaliza\u00e7\u00e3o, bem como da descri\u00e7\u00e3o do que se entendia por \u201cfeiti\u00e7aria\u201d. Em Sorocaba o adivinhador e curador de feiti\u00e7os era o alvo principal dos vereadores, enquanto em Guaratinguet\u00e1, possivelmente por experi\u00eancia de ocorridos naquela localidade, ampliava-se o conceito para abarcar aqueles que se fingiam inspirados por algum ente sobrenatural. Por outro lado, amenizava a situa\u00e7\u00e3o ao informar que a repress\u00e3o se daria sobre quem prognosticasse acontecimentos que pudessem causar \u201cs\u00e9rias\u201d apreens\u00f5es nos cr\u00e9dulos.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9ob9g\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> A postura de Jundia\u00ed \u00e9 bem parecida, em seu texto, com a de Sorocaba. No entanto, n\u00e3o estipulava pris\u00e3o ao feiticeiro, como ocorria na outra cidade.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5mnvs\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Essas posturas foram reeditadas em outras d\u00e9cadas e em outras localidades. Pindamonhangaba traz uma descri\u00e7\u00e3o interessante sobre como os vereadores viam o que consideravam como exerc\u00edcio de feiti\u00e7aria: <strong><em>Art. 180. <\/em><\/strong><em>&#8211; Todo aquelle que se intitular adivinhador ou curandeiro de feiti\u00e7arias, e effectivamente empregar ora\u00e7\u00f5es, gestos ou qualquer embuste para curar, ou que se fingir inspirado ou prognosticador de cousas sobrenaturaes. Pena de 20$000 a 30$000 de multa.&nbsp;<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fqa3s\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Neste caso, verifica-se que o emprego de ora\u00e7\u00f5es e gestos comp\u00f5e o quadro que determina quem possa ser considerado como feiticeiro. O emprego de ora\u00e7\u00f5es, gestos, promessas de curas, inspira\u00e7\u00e3o sobrenatural, adivinha\u00e7\u00f5es, consultas a entidades, tudo isso acaba resvalando sobre as pr\u00e1ticas ritual\u00edsticas afro-brasileiras.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-clbri\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Nesse sentido, a cidade de Itu emitiu, d\u00e9cadas antes das posturas acima, uma em que associava a pr\u00e1tica da feiti\u00e7aria aos escravizados. Diz Francisco Nardy Filho que em 11 de abril de 1855 a C\u00e2mara Municipal promulgou uma postura contra os feiticeiros, a qual dizia: \u201co escravo que for encontrado comerciando ou tendo em seu poder qualquer objeto vulgarmente chamado \u2013 Feiti\u00e7aria \u2013 quer mineral, quer vegetal, quer animal, ser\u00e1 punido com 8 dias de pris\u00e3o e pela reincid\u00eancia 30\u201d (NARDY FILHO, 2000, p. 185).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-37rcu\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Os edis de Itu n\u00e3o se esqueceram de prever o uso da feiti\u00e7aria pelas pessoas livres. Na sequ\u00eancia do texto legal, \u201cas pessoas livres compreendidas no art. acima pela 1\u00aa vez ser\u00e1 [sic] punido com 15 dias de pris\u00e3o e 30$000 de multa e pela reincid\u00eancia em 30 dias de pris\u00e3o e 60$000 de multa\u201d (IDEM).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d0aum\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Apesar de citar as pessoas livres, \u00e9 bastante curioso que os escravizados apare\u00e7am por primeiro nessa postura. Aparentemente, havia em Itu uma associa\u00e7\u00e3o direta da pr\u00e1tica de feiti\u00e7aria aos africanos e seus descendentes.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5ub3d\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Essa mentalidade explicaria a pris\u00e3o, d\u00e9cadas depois, de um negro naquela cidade, sob a acusa\u00e7\u00e3o de feiti\u00e7aria. O jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, replicando uma nota publicada no jornal A Imprensa, conta que \u201cfoi preso alli [em Itu] um preto africano, <em>mezinheiro <\/em>e feiticeiro, tendo sido descoberto por haver medicado uma senhora estrangeira, que o procurara por inst\u00e2ncias de sua criada\u201d (A PROV\u00cdNCIA DE S. PAULO, 10 set 1878, p. 2).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8o3qc\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Este era outro problema enfrentado pelos curandeiros e \u201cfeiticeiros\u201d: a concorr\u00eancia com a medicina. Desde 1808 havia faculdades de Medicina no Brasil, na Bahia e no Rio de Janeiro, criadas pelo Pr\u00edncipe Regente Dom Jo\u00e3o logo ap\u00f3s a sua chegada ao pa\u00eds, fugindo de Portugal amea\u00e7ado pela invas\u00e3o de Napole\u00e3o Bonaparte. Em 1839 foi criada a Faculdade de Medicina de Ouro Preto. Assim, na d\u00e9cada de 1850, havia m\u00e9dicos formados no Brasil. Esses m\u00e9dicos disputavam com os curandeiros e feiticeiros a aten\u00e7\u00e3o dos precisavam de alguma cura.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fujrm\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Seja por qual motivo for, o importante \u00e9 atentar-se para o fato de que a feiti\u00e7aria era amplamente reprimida, especialmente no s\u00e9culo XIX, sendo perseguida pelas autoridades. Apesar de n\u00e3o se restringir aos africanos e seus descendentes, a pr\u00e1tica da feiti\u00e7aria tangenciava os rituais e pr\u00e1ticas religiosas africanas e afro-brasileiras.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c6q0j\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Dessa maneira, os praticantes das artes m\u00e1gicas e dos rituais de origem africana eram alvos da vigil\u00e2ncia e da repress\u00e3o institucional. Essa repress\u00e3o tender\u00e1 a se fortalecer a partir da vig\u00eancia da Rep\u00fablica, que trar\u00e1 consigo a vis\u00e3o de modernidade europeizante, incapaz de tolerar as pr\u00e1ticas de religiosidades que ferissem a hegemonia e o monop\u00f3lio do cristianismo cat\u00f3lico.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e0lsh\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> N\u00e3o se pode, tamb\u00e9m, perder de vista o poder amalgamador desses cultos, emprestando um car\u00e1ter de identidade a pessoas que haviam perdido seus referenciais de grupo por imposi\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es da escraviza\u00e7\u00e3o. E esse ponto \u00e9 crucial para entender o temor de uma revolta de escravizados, o haitianismo em solo brasileiro. Como ocorreu com o caso dos mal\u00eas na Bahia, a religi\u00e3o poderia ser usada como elemento organizador do grupo.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6n404\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Essa percep\u00e7\u00e3o pode ser vista na correspond\u00eancia do Ministro do Imp\u00e9rio ao Governador da Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo em 1832, tr\u00eas anos antes da Revolta dos Mal\u00eas na Bahia, solicitando provid\u00eancias para que os escravizados mouros fossem removidos das terras paulistas:&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1khqp\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>A S. Magd.e Se fez prez.te que nessa Cappitania andav\u00e3o alguns Mouros, q&#8217; for\u00e3o Levados a ella Como Negros e Mullatos, e por que n\u00e3o conv\u00e9m, que semelhante Gente pellos Seus maos Costumes Se conservem na dita Cappitania; he o mesmo Sr. Servido, q&#8217; todos Sej\u00e3o remetidos a este Reino declarando\u00e7e os nomes dos Senhores delles p.a se lhes restituir aos seus correspondentes o pre\u00e7o por que forem vendidos. Deos gd.e a V. S.a Lx. a Occ.al vinte e nove de Mar\u00e7o de mil Sete centos e trinta e dous.\u2014Sr. Governador, e Cap.m Gn.al da Capitania de S\u00e3o Paulo. Diogo de Mendon\u00e7a Corte Real.&nbsp;<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aqce7\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Mesmo depois da eclos\u00e3o da Revolta dos Mal\u00eas, as autoridades de S\u00e3o Paulo estavam preocupadas com a possibilidade de ocorr\u00eancia similar na Capitania. Diz o historiador Alu\u00edsio de Almeida que o presidente da Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo, o sorocabano Rafael Tobias de Aguiar, oficiou ao Juiz de Paz de Sorocaba, em assunto reservado, no dia 11 de abril de 1835, dando conta de que \u201chavendo not\u00edcia que da Bahia se enviaram emiss\u00e1rios para a Corte do Rio de Janeiro, e dela para algumas Prov\u00edncias com o fim de promoverem a insurrei\u00e7\u00e3o geral da escravatura\u201d, pelo que solicitava das autoridades que se conservassem &#8220;na maior vigil\u00e2ncia poss\u00edvel para obstarem a qualquer dilig\u00eancia&#8230;\u201d que pudesse ocorrer naquele sentido (ALMEIDA, 1950, p. 12).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-epqev\"><br><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><strong>Alguns casos de rituais afro-caipiras em S\u00e3o Paulo\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8p850\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Talvez um dos casos de maior repercuss\u00e3o sobre a ocorr\u00eancia de um ritual de culto afro-caipira seja o ocorrido em 1841 com escravizados da Fazenda Passa-Tr\u00eas, de propriedade de Gertrudes Eufrosina Aires de Aguiar, m\u00e3e de Rafael Tobias de Aguiar. Segundo Campos e Frioli (1999, p. 41) \u201cachando-se o referido administrador desta Vila pelos dias Santos do Natal, fora avisado por um escravo da casa que alguns outros escravos estavam reunidos para observarem certas ra\u00edzes com aguardente em presen\u00e7a de uma imagem do Senhor Crucificado, a fim de conhecerem e descobrirem qualidades de venenos\u201d.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4iugv\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Essa ocorr\u00eancia foi tamb\u00e9m citada por Roger Bastide (1983) ao lado de outras, como a de Manoel Jo\u00e3o, curandeiro vindo de S\u00e3o Paulo para residir na Vila de Santo Amaro, em 1839, e a de Policarpo, na mesma localidade, sendo este expulso em 1841 pela pr\u00e1tica de curandeirismo e feiti\u00e7aria (BASTIDE, 1983, p. 195). Bastide acrescenta alguns detalhes ao caso de Sorocaba: uso de raiz de mandioca misturada a aguardente; e a origem dos escravizados que eram mo\u00e7ambicanos.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-46qa3\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Alguns detalhes apresentados ajudam a compor uma ideia sobre como eram esses cultos. O uso de aguardente misturada com raiz de mandioca induz ao uso ritual\u00edstico do \u00e1lcool, possivelmente para atingir um estado alterado da consci\u00eancia. A presen\u00e7a de uma imagem de Cristo pode ser entendida como parte de um processo de encultura\u00e7\u00e3o e de escamotea\u00e7\u00e3o da devo\u00e7\u00e3o \u00e0s entidades ancestrais ou a seres divinizados como inquices e orix\u00e1s.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-51vbd\"><br><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><strong>O Dr. Bulc\u00e3o\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-852rs\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Alguns anos mais tarde, em 1854, ganhou fama um escravizado de Porto Feliz, interior de S\u00e3o Paulo, conhecido como Dr. Bulc\u00e3o. Conhecedor de ervas e de outras mezinhas, Dr. Bulc\u00e3o deve ter realizado diversas curas extraordin\u00e1rias, pois houve proposta do governo da Prov\u00edncia em remuner\u00e1-lo em troca das informa\u00e7\u00f5es que possu\u00eda.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-772ks\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Os jornais paulistanos protestaram contra esse projeto. Escravo de C\u00e2ndido Jos\u00e9 da Motta, Bulc\u00e3o era o que os historiadores chamam de \u201cescravo de ganho\u201d, ou seja, aquele que em acordo com o seu senhor trabalhava em semi-liberdade, sendo obrigado a entregar ao final de algum tempo um valor previamente combinado. Assim, por exemplo, havia quituteiras que moravam de aluguel em alguma casa e vendiam seus quitutes, entregando aos seus senhores parte do que arrecadavam com esse com\u00e9rcio. Tamb\u00e9m, escravizados que realizavam servi\u00e7os de limpeza, de consertos de ruas (para as C\u00e2maras Municipais), vendedores ambulantes, prestadores de servi\u00e7os&#8230;&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4uct5\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> No caso de Bulc\u00e3o, esse escravo realizava curas diversas: desde envenenamento \u2013 incluindo por picadas de aracn\u00eddeos ou mordida de cobras \u2013 at\u00e9 feiti\u00e7os e possess\u00f5es demon\u00edacas. Por seu sucesso, prop\u00f4s-se que ensinasse a uma junta de m\u00e9dicos os seus segredos, ficando, para isso, a C\u00e2mara Municipal obrigada a pagar-lhe a quantia de dois contos de r\u00e9is, um dinheiro consider\u00e1vel \u00e0 \u00e9poca. Com esse dinheiro era poss\u00edvel, em 1854, comprar at\u00e9 dois escravos. Uma p\u00e1gina da internet oferece uma convers\u00e3o hipot\u00e9tica de conto de r\u00e9is para a atual moeda brasileira do real: cerca de R$ 246.000,00 (duzentos e quarenta e seis mil r\u00e9is).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8865p\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Em contrapartida a essa proposta, um missivista enviou uma carta a imprensa, reclamando da atitude \u201ccomplacente\u201d do governo provincial:&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5rrr1\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Acha-se o cofre provincial pr\u00f3ximo \u00e1 levar uma sangria de 2:000$000, para a compra do segredo de um feiticeiro que por estes lugares \u00e9 conhecido pelo nome de Dr. Bulc\u00e3o!! Com licen\u00e7a de seu Sr., este Dr. negro (dizem) faz applica\u00e7\u00f5es. Sendo s\u00f3 obrigado em cada final de semana \u00e1 apresentar-se em casa com o jornal, \u00e1 raz\u00e3o de dois mil reis di\u00e1rios; com esc\u00e2ndalo das leis, e neglig\u00eancia das autoridades. Consentiu-se que um miser\u00e1vel escravo, sem o menor conhecimento scient\u00edfico, v\u00e1 curando, com esses rid\u00edculos ingredientes, e por meio de palavras misteriosas a gente enfeiti\u00e7ada, e indemoninhada, e dizem que envenenada. Dizem que este escravo vai ser examinado pelos m\u00e9dicos habilitados!! Um homem que possue um pergaminho, que se honre de possu\u00ed-lo, rebaixar-se a ponto de ir aprender de um escravo, sem princ\u00edpios scient\u00edficos, o modo porque se cura feiti\u00e7o! Que far\u00e7a rid\u00edcula, e que import\u00e2ncia n\u00e3o tem o tal Bulc\u00e3o!&#8230; (CORREIO PAULISTANO, 17 ago 1854, p. 4).&nbsp;<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f7qub\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O missivista alegou ainda que o delegado de pol\u00edcia daquela vila era conivente com as pr\u00e1ticas do Dr. Bulc\u00e3o porque ele mesmo, o delegado, \u201ccr\u00ea em feiti\u00e7os, em malef\u00edcios etc\u201d (IDEM). Em defesa do escravizado Dr. Bulc\u00e3o, apresentou-se o m\u00e9dico ingl\u00eas Ricardo Gumbleton Daunt, que residiu em Itu e, posteriormente, em Campinas, onde faleceu em 1893. Gumbleton Daunt alegou que n\u00e3o poderia <em>\u201cimaginar um maior benef\u00edcio \u00e1 prov\u00edncia, do que a vulgarisa\u00e7\u00e3o dos meios para combater os ali\u00e1s infalliveis effeitos dos lethiferos venenos do sapo, da cobra e de tantas substancias vegetaes que os envenenadores tem \u00e1 sua disposi\u00e7\u00e3o. O esp\u00edrito em que o correspondente argumenta trahe uma ignor\u00e2ncia da maneira em que os mais importantes conhecimentos therapeuticos for\u00e3o adquiridos \u00e1 sciencia pol\u00edtica. Mui poucos dos nossos agentes medicinaes s\u00e3o devidos \u00e1 um racioc\u00ednio \u00e1 priori por homens da arte; em geral os agentes therapeuticos for\u00e3o empiricamente conhecidos do povo e esse os transferio aos m\u00e9dicos\u201d<\/em> (CORREIO PAULISTANO, 5 set 1854, p. 3 \u2013 4).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7t89r\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Apesar da defesa do Dr. Ricardo Gumbleton, o fato \u00e9 que Dr. Bulc\u00e3o continuou sendo acusado de feiti\u00e7aria, de curandeirismo, de ignor\u00e2ncia e at\u00e9 de sedi\u00e7\u00e3o de escravizados:&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f02mt\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Consta que o tal intitulado Dr. Bulc\u00e3o tem incutido nos escravos ideais de liberdade em algumas reuni\u00f5es que tem promovido nos sub\u00farbios da Villa, dizendo-lhes que quando voltar do Rio, para onde tam de ir chamado por S. M. para ensinar os m\u00e9dicos, h\u00e1 de trazer ordem de liberdade para todos (CORREIO PAULISTANO, 26 set 1854, p. 3).&nbsp;<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-58ocq\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Pelo que se depreende do que se conseguiu levantar sobre essa hist\u00f3ria, o Dr. Bulc\u00e3o possu\u00eda conhecimento de ervas e de ant\u00eddotos para venenos \u2013 o que, na \u00e9poca, era um enorme trunfo, de acordo com o Dr. Gumbleton Daunt \u2013 e que era tido como praticante de feiti\u00e7os e contrafeiti\u00e7os. Por infelicidade, pouco se sabe sobre como se davam tais curas realizadas pelo Dr. Bulc\u00e3o. H\u00e1 uma breve men\u00e7\u00e3o, feita pelo Dr. Ricardo, na qual dizia o seguinte: \u201cN\u00e3o duvido que esse negro possa alguma vez empregar uma boa dose de aparato fant\u00e1stico na applica\u00e7\u00e3o de seus rem\u00e9dios&#8230;\u201d (CORREIO PAULISTANO, 5 set 1854, p. 3). Por\u00e9m, logo em seguida, o m\u00e9dico ressalva: \u201co dito negro \u00e9 bem comportado, leal, e parece muito mais livre de pr\u00e1ticas supersticiosas do que os mais de seus collegas, de quem tenho not\u00edcia\u201d (IDEM).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ansg\"><br><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><strong>Pai Gavi\u00e3o e a Ma\u00e7onaria Negra\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4cje5\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O caso do Pai Gavi\u00e3o, da cidade de S\u00e3o Roque, foi minuciosamente relatado pela reportagem do jornal Correio Paulistano. Contempor\u00e2neo do Dr. Bulc\u00e3o, o caso do Pai Gavi\u00e3o cont\u00e9m elementos interessantes que v\u00e3o desde a forma\u00e7\u00e3o de sociedades secretas de negros a organiza\u00e7\u00e3o de uma sedi\u00e7\u00e3o. Se bem que n\u00e3o se possa comprar plenamente o que diz o jornal \u2013 um discurso indireto e permeado de preconceitos e ignor\u00e2ncias acerca da religiosidade ali contida \u2013 pode-se, ao menos, pin\u00e7ar alguma informa\u00e7\u00e3o que ajude a compor uma ideia sobre o que foi o culto praticado por Pai Gavi\u00e3o.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9p7l4\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Diz o jornal Correio Paulistano que o nome de Pai Gavi\u00e3o \u00e9 na realidade Jos\u00e9 Cabinda e que ele era gr\u00e3o-mestre de uma ordem dividida em tr\u00eas lojas: Filhas das Hervas, Ma\u00e7onaria Negra e Campo Encantado. Numa dessas lojas havia uma rainha chamada Mambeque. Como na Ma\u00e7onaria convencional, essa ordem possu\u00eda diversos graus e, de acordo com a reportagem, os irm\u00e3os que chegavam ao grau de encantado recebiam um nome dado pelo Mestre (CORREIO PAULISTANO, 27 jul 1854, p. 2).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c5eki\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Esses \u201cencantados\u201d, aparentemente, representavam entidades ou esp\u00edritos de ancestrais. A reportagem informa que \u201cos nomes dos encantados s\u00e3o entre outros os seguintes: &#8211; Grande Apaga-fogo, Rompe-ferro, Gavi\u00e3osinho, Chupa-flor, Quinuano, Sette pombas, Quatro cantos, etc.\u201d (IDEM).&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-frpjj\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Interessante \u00e9 o fato de que alguns nomes, como Rompe-ferro, serem \u201creaproveitados\u201d (ou terem reaparecido) na Umbanda atual. H\u00e1 uma entidade de Umbanda que se denomina Caboclo Rompe-ferro, da linha de Ogum. Sete Pombas poderia ser uma refer\u00eancia a Pombagira Sete saias?&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-f563t\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Esses nomes est\u00e3o registrados num jornal que circulou em 1854, mais de cinquenta anos antes da organiza\u00e7\u00e3o da Umbanda pelo m\u00e9dium Z\u00e9lio Fernandino de Moraes, em 15 de novembro de 1908.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-58ndo\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Sobre uma das cerim\u00f4nias ritual\u00edsticas dessa ordem, o rep\u00f3rter do jornal assim a descreve, com alguns detalhes bastante curiosos:&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-eumga\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Para celebrar-se as sess\u00f5es, ou para a admiss\u00e3o de novos adeptos, os irm\u00e3os formam um grande c\u00edrculo.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-chrso\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Alguns dos assistentes tocam um tosco instrumento feito de caba\u00e7as com cabo de p\u00e1o (chocalhos) que na g\u00edria da ordem se \u2013 chama \u2013 Guay\u00e1-Cayumba.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-lms0\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Ao som do \u2013 Guay\u00e1-Cayumba, o gr\u00e3o-mestre dan\u00e7ando e cantando uma linguagem inintelligivel se dirige para o centro e ali colloca com todo o respeito uma luz, uma garrafa de aguardente, uma tigella diversas ra\u00edzes, uma figura de p\u00e1o, a meio corpo, sem bra\u00e7os e informe, que tem o nome de \u2013 Careta \u2013 e outra de cera com ventre t\u00e3o obeso como o do cavalo de Troya, pois lhe sahe do pesco\u00e7o e vai at\u00e9 os p\u00e9s. O umbigo \u00e9 formado por um peda\u00e7o de vidro. Collocam tamb\u00e9m ali uma raiz grande, a que d\u00e3o o nome de \u2013 Guin\u00e9 encantado \u2013 um corno de boi (de que j\u00e1 falamos) que tem o nome de \u2013 Vungo \u2013 um patu\u00e1 envolto em casca de lagarto, dois Santo Antonio de n\u00f3 de pinho, sendo um sem cabe\u00e7a, e finalmente uma penellinha vidrada, betumada de cera, coberta por um vidro, que \u00e9 conhecida pelo nome de Gallo (IDEM).<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-83sps\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Quem conhece o instrumento chamado de guai\u00e1, utilizado at\u00e9 hoje nos batuques de umbigada da regi\u00e3o do M\u00e9dio Tiet\u00ea, sabe da semelhan\u00e7a desse instrumento com o xer\u00ea de Xang\u00f4 (CAVALHEIRO, 2015). Tamb\u00e9m j\u00e1 foi dito aqui que caiumba \u00e9 o nome origin\u00e1rio do batuque. N\u00e3o deve ser coincid\u00eancia, apenas, que o guai\u00e1-caiumba estivesse presente nesse ritual da ordem criada por Jos\u00e9 Cabinda, tamb\u00e9m chamado de Coroado e conhecido pelo nome religioso de Pai Gavi\u00e3o.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3qn74\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> A mat\u00e9ria publicada no jornal d\u00e1 sequ\u00eancia \u00e0 descri\u00e7\u00e3o da cerim\u00f4nia de inicia\u00e7\u00e3o de um ne\u00f3fito da ordem. Como em outras sociedades secretas, essa inicia\u00e7\u00e3o \u00e9 repleta de ritos e de simbolismos.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-b4uhv\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>O Pai Gavi\u00e3o entorna a garrafa sobre a tigela, e ordena que o novo irm\u00e3o se aproxime.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cc0ee\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Interrompe-se o chocoalho do Guay\u00e1-Cayumba para a augusta cerim\u00f4nia.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8dfl1\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>O novo irm\u00e3o se ajoelha ante o gr\u00e3o-mestre, e despe a camisa.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4irfa\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>O grande chefe aponta a faca sobre o peito do novi\u00e7o, e o faz prestar um juramento solemne de fidelidade, e segredo inviol\u00e1vel, sob pena de morte, e ainda mesmo que seja estrangulado ou queimado.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-utot\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Depois abre-lhe uma cruz sobre o peito direito com a ponta da facca. Corre algumas gotas de sangue da epiderme rasgada. Passa-se alternadamente um patu\u00e1 e uma raiz de Guin\u00e9 encantada sobre a cissura da cruz, e depois esfrega-se uns p\u00f3s brancos (IDEM).<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bdlep\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Essa cena, descrita acima, lembra muitas outras semelhantes, descritas em documentos diversos como relatos jornal\u00edsticos e romances da literatura. O escritor J\u00falio Ribeiro, em seu famoso livro \u201cA Carne\u201d, descreveu uma cena de inicia\u00e7\u00e3o em culto de origem africana que guarda muitas semelhan\u00e7as com o que se apresenta em rela\u00e7\u00e3o a ordem do Pai Gavi\u00e3o. Eis o texto de J\u00falio Ribeiro:<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-33unr\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Que era muito bom, explicou Joaquim Cambinda na sua meia l\u00edngua, pertencer um preto \u00e0 irmandade de S\u00e3o Miguel das Almas, mas que tamb\u00e9m era perigoso; que quem n\u00e3o tinha peito n\u00e3o tomava mandinga; que o branco queria, por for\u00e7a, saber o segredo dos irm\u00e3os de S\u00e3o Miguel, e que para isso surrava o preto, mas que o preto que revelava o segredo de S\u00e3o Miguel morria sem saber de qu\u00ea. Fez o ne\u00f3fito beijar os p\u00e9s de S\u00e3o Miguel, f\u00ea-lo beijar os cornos de Satan\u00e1s a ele sotoposto, f\u00ea-lo beijar as partes genitais do manipan\u00e7o; ditou-lhe os juramentos solenes, cominou-lhe penas terr\u00edveis no caso de infra\u00e7\u00e3o. Recebeu dele dinheiro, trinta mil-r\u00e9is, seis notas de cinco mil-r\u00e9is, que estavam no bolso da cal\u00e7a, muito enleadas em um len\u00e7o de chita muito sujo. Passou \u00e0 parte doutrin\u00e1ria, entrou a inici\u00e1-lo na arte terr\u00edvel dos feiti\u00e7os e dos contras, a dar-lhe meios de matar, de curar. Ensinou-lhe que a semente do mamoninho bravo (datura stramonium), socada, macerada em aguardente, cega, enlouquece, mata dentro de poucas horas; que osso de defunto, cuja carne caiu podre, raspado e posto em uma comida qualquer, produz amarel\u00e3o incur\u00e1vel [&#8230;] (RIBEIRO, 1999, p. 64).<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-enat2\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> A cerim\u00f4nia observada na ordem de Pai Gavi\u00e3o abarcava ainda o uso de incenso, de bebidas e de transe ext\u00e1tico no qual o mestre consultava (e recebia respostas) de imagens e figuras. O famoso curandeiro Jo\u00e3o de Camargo, de Sorocaba, de quem se falar\u00e1 logo mais, tamb\u00e9m, diziam, conversava com as imagens dispostas dentro de sua igreja. Em edi\u00e7\u00e3o posterior, o jornal publicou uma retifica\u00e7\u00e3o sobre o processo de inicia\u00e7\u00e3o. De acordo com essa ressalva, a cruz feita no peito do iniciado n\u00e3o era riscada com a ponta, mas sim com o fio da l\u00e2mina da faca \u201cbatendo-se com um peda\u00e7o de p\u00e1u 3 pancadas na costas da l\u00e2mina. Do mesmo modo se faz mais duas cruzes, uma no bra\u00e7o e outra no p\u00e9 direito\u201d (CORREIO PAULISTANO, 1 ago 1854, p. 1).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-304ec\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Outra descri\u00e7\u00e3o dada sobre esse culto \u00e9 o de que Pai Gavi\u00e3o conversava com entidades por meio do vungo (corno) composto \u201cde vidro, ra\u00edzes e outras subst\u00e2ncias&#8230;\u201d (CORREIO PAULISTANO, 1 ago 1854, p. 2). Era utilizado como or\u00e1culo e, segundo relatado, n\u00e3o poderia ser profanado por m\u00e3os \u201ccontaminadas\u201d de infi\u00e9is e de \u201calgu\u00e9m que tivesse tido rela\u00e7\u00f5es com mulheres\u201d (IDEM). O intercurso sexual \u00e9 entendido pelo vulgo \u2013 e, tamb\u00e9m, por praticantes de magia \u2013 como imunizante das defesas \u201cespirituais\u201d. A palavra vungo, aparentemente, \u00e9 de origem banto.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-aaiuk\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Os seguidores de Pai Gavi\u00e3o acreditam que ele poderia transformar-se em pau, pedra, ave ou no que quisesse. Essa cren\u00e7a \u00e9 bastante popular no Brasil e, em diversas localidades, sobretudo no Nordeste, \u00e9 chamada de envultamento. Esse termo possui diversas acep\u00e7\u00f5es. C\u00e2ndido de Oliveira, em seu Dicion\u00e1rio Mor da L\u00edngua Portuguesa, diz que o envultamento refere-se ao \u201cfeiti\u00e7o pelo qual se representa uma pessoa num boneco a fim de que todo sofrimento causado nele seja transferido, magicamente, \u00e0 pr\u00f3pria pessoa\u201d (OLIVEIRA, 1967, p. 895). Seria uma pr\u00e1tica semelhante ao dos bonecos de vodu. Mas o mesmo lexic\u00f3grafo apresenta outra defini\u00e7\u00e3o: \u201cT\u00e9cnica de magia pela qual as pessoas se transformam em bruxas ou lobisomem\u201d (IDEM).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9jvfi\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Por\u00e9m, o envultamento refere-se tamb\u00e9m \u00e0 cren\u00e7a de que algumas pessoas, a partir do uso de ora\u00e7\u00f5es ou outros encantamentos, t\u00eam o poder de se \u201cenvultar\u201d, ou seja, de se tornar invis\u00edvel aos olhos dos demais, parecendo as esses como um toco de \u00e1rvore, um p\u00e9 de bananeira, uma pedra ou qualquer outra coisa assim. No livro de S\u00e3o Cipriano h\u00e1 men\u00e7\u00e3o aos feiti\u00e7os para se tornar invis\u00edvel aos demais.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ftmin\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Pai Gavi\u00e3o foi preso, juntamente com seus asseclas, acusado de feiti\u00e7aria, mas, tamb\u00e9m de tentativa de insurrei\u00e7\u00e3o. O temor de uma revolta de escravizados repercutiu em outras cidades, como Porto Feliz, na qual o tenente Pimenta, respons\u00e1vel pela ordem p\u00fablica, com \u201csuas patrulhas, de dia e com especialidade nos sanctificados cruz\u00e3o as ruas, e basta verem em qualquer casa de neg\u00f3cio reunidos tr\u00eas ou quatro pretos, cerc\u00e3o as portas, prendem-os e os lev\u00e3o para a cad\u00eaa\u201d (CORREIO PAULISTANO, 6 out 1854, p. 3).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bhqpl\"><br><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><strong>O Mestre Felisberto Cambinda<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7708r\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Em Sorocaba, na d\u00e9cada de 1870, descobriu-se a exist\u00eancia de um culto secreto cujo mestre era um liberto chamado Felisberto Cambinda. N\u00e3o parece ser apenas coincid\u00eancia que o nome Cambinda ou Cabinda, designativo de origem, esteja presente em tantos casos associados \u00e0 feiti\u00e7aria.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3vk9c\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Jo\u00e3o do Rio relata que os cabindas tinham culto pr\u00f3prio disseminado pelo Rio de Janeiro. A despeito da descri\u00e7\u00e3o preconceituosa \u2013 os cabindas s\u00e3o tratados como \u201cordin\u00e1rios\u201d, \u201cburros\u201d, \u201cignorantes\u201d \u2013 o relato de Jo\u00e3o do Rio traz como informa\u00e7\u00f5es curiosas o fato de que nesses cultos o nome dos orix\u00e1s e dos santos era mudado: \u201cOrixal\u00e1 \u00e9 Ganga-zumba; Obaluaci, Cangira-mungongo; Exu, Cubango; Orix\u00e1-oco, Pombagira; Oxum, a M\u00e3e-d\u2019\u00e1gua, Sinh\u00e1 Renga; Xapan\u00e3; Cargamella. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aos santos dos orix\u00e1s que os cabindas mudam o nome, \u00e9 tamb\u00e9m aos santos das igrejas. Assim S. Benedito \u00e9 Lingongo; S. Ant\u00f4nio, Verequete; N. S\u00aa das Dores, Sinh\u00e1 Samba\u201d (RIO, 2015, p. 35).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-qi42\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Esses nomes s\u00e3o refer\u00eancias que podem ajudar no rastreamento de cultos antigos e que foram suplantados pelas formas mais organizadas de religi\u00e3o como a Umbanda. \u201cA primitiva macumba\u201d, diz Jos\u00e9 Henrique Motta de Oliveira, \u201clonge de s\u00e9rum culto organizado, era um agregado de elementos da cabula, do candombl\u00e9, das tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e do catolicismo popular, sem o suporte de uma doutrina capaz de integrar os diversos peda\u00e7os que lhe davam forma\u201d (OLIVEIRA, 2008, p. 77).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-a4dqn\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Reencontrar esses \u201cpeda\u00e7os\u201d \u00e9, talvez, uma das formas de tentar recompor a trajet\u00f3ria hist\u00f3rica percorrida por esses cultos e rituais. \u00c9, de outra feita, a maneira como podemos identificar a influ\u00eancia das diferentes tradi\u00e7\u00f5es que ajudaram a amalgamar essas partes que compunham os rituais afro-brasileiros de antanho.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ekukm\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O caso de Felisberto Cambinda \u00e9 bastante curioso, at\u00e9 mesmo pelo contexto em que ocorreu. Naquela \u00e9poca, havia sido preso na Corte (Rio de Janeiro) o afamado Juca Rosa, acusado de pr\u00e1tica de feiti\u00e7aria, bem como de estelionato, defloramento, reuni\u00f5es secretas, sortil\u00e9gios entre tantos outros. Deve-se levar em considera\u00e7\u00e3o que a escravid\u00e3o ainda vigorava e os aparelhos de repress\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es e express\u00f5es dos negros eram constantes e institucionalizadas. Quase sem exce\u00e7\u00e3o, todos os C\u00f3digos de Posturas das cidades brasileiras contavam com artigos reprimindo os batuques, os ajuntamentos de negros, as diversas dan\u00e7as e express\u00f5es religiosas, a capoeira, os maracatus e congados (CAVALHEIRO, 2006).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3vjhe\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Copiando a imprensa das grandes metr\u00f3poles na constru\u00e7\u00e3o textual dos t\u00edtulos das mat\u00e9rias jornal\u00edsticas, o jornal \u201cO Colombo\u201d, de Sorocaba, referiu-se \u00e0 pris\u00e3o de Felisberto Cambinda como \u201cdilig\u00eancia importante\u201d, da mesma forma como fora descrito o caso de Juca Rosa. A descri\u00e7\u00e3o do fato, embora longa, \u00e9 importante por conta dos diversos elementos nela contidos.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-707r1\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Deligencia importante \u2013 Constando ao activo e intelligente delegado de pol\u00edcia sr. tenente Joaquim Marques da Silva, que em casa sita \u00e1 rua do Supiriry, abaixo do becco da Esta\u00e7\u00e3o, teria lugar, na noute de domingo 22, uma reuni\u00e3o de pretos, sob a direc\u00e7\u00e3o do preto Felisberto Cambinda, morador em S. Paulo e que para essa reuni\u00e3o cheg\u00e1ra a esta cidade no dia 9 do corrente, cujo fim era um arrem\u00eado do que fez na c\u00f4rte o celebre preto Juca Rosa, zeloso como \u00e9 no cumprimento dos deveres do cargo oneroso que occupa dirigiu-se nessa noute a referida casa acompanhado de algumas pra\u00e7as, e do official de justi\u00e7a, e penetrando nella com as formalidades legaes, encontrou na varanda, sobre um caix\u00e3o que servia de meza, coberto em parte com um panno branco, ou toalha, o seguinte:<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-n3k7\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>5 imagens, de diversos tamanhos que parecem ser de Santo Ant\u00f4nio, debaixo da maior estavam 13$000, em notas de 10$000, 2$000 e 1$000, aos lados estavam 2 notas de 500 r\u00e9is, e em cobre 520 r\u00e9is; em frente a imagem maior duas facas fincadas no caix\u00e3o, crusadas em f\u00f3rma de thesoura, entre as facas e as imagens, um pequeno papel contendo nomes de 3 pessoas. Aos lados 1 caramujo, uma raiz, uma lata com p\u00f3lvora, duas laranjas, com galhos de arruda fincados nellas, 1 embrulho com salamargo, 1 outro com ra\u00edzes e folhas socados, 1 masso de hervas diversas, uma tijella branca grande, com ra\u00edzes e folhas esmagadas misturadas em aguardente, uma garrafa contendo aguardente com ra\u00edzes e folhas diversas, uma dita com aguardente pura, uma dita com leite, uma caneca de lou\u00e7a branca, contendo flores, folhas, tomates, etc., 3 patu\u00e1s grandes, sendo o maior capeado com couro de lagarto, aberto elles continham, folhas e ra\u00edzes de cheiro muito activo, e duas continhas al\u00e9m das folhas e de cabellos negros, 2 casti\u00e7aes com vellas de cebo illuminavam, as imagens e os objectos descriptos.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e1qvd\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Foram presos o dito Felisberto Cambinda, Ant\u00f4nio Cyrino de Oliveira Lopes, e sua mulher Anna Maria do Esp\u00edrito-Santo, tendo-se escapado algumas pessoas pelo quintal, quando pela porta da rua entrava o delegado.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d7tls\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>O delegado deixou-se ficar na casa acompanhado de algumas pra\u00e7as e do official de justi\u00e7a. \u00c1s 11 e meia horas da noute bateram a porta e voz feminina pergunta pelo Mestre, aberta ella, entram, Florinda, Izabel e Luiza, escravas do sr. Jo\u00e3o Aguiar de Barros as quaes foram conduzidas \u00e0 cad\u00eaa. Continuando o delegado a permanecer na casa, \u00e1s 4 e meia da manh\u00e3 batendo de novo a porta perguntaram pelo Mestre e entra Marcelina, escrava da exma. sra. d. Guilhermina Grotildes da Cunha Soares, que teve o mesmo destino das outras. \u00c1s 7 horas da manh\u00e3, foi que retirou-se o sr. delegado, com o resto das pra\u00e7as.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-esotl\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>Foram soltos no dia 23 todos a excep\u00e7\u00e3o de Felisberto, e Marcelina, aquelle porque est\u00e1 sendo processado, e esta por n\u00e3o ter sua senhora reclamado a soltura.<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9s5ph\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>\u00c9 digno de louvor o acto do sr. tenente Marques que mais uma vez deu provas de sua perspic\u00e1cia em neg\u00f3cios desta ordem.( COLOMBO, 28 out 1876, p. 2).<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8okup\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Do material apreendido pela pol\u00edcia, alguns s\u00e3o recorrentes nas outras descri\u00e7\u00f5es aqui feitas: p\u00f3lvora, facas, patu\u00e1s com pele de lagarto, imagens de santos (como Santo Ant\u00f4nio), ervas e ra\u00edzes, tigelas, velas. Esses produtos e objetos s\u00e3o comumente encontrados nos relat\u00f3rios policiais de apreens\u00e3o realizada durante as a\u00e7\u00f5es repressivas. A presen\u00e7a de imagens de santos cat\u00f3licos pode indicar uma assimila\u00e7\u00e3o de culturas ou sincretismo, comum entre os bantos. Essa mistura de culturas entre os bantos n\u00e3o se restringe ao catolicismo e as tradi\u00e7\u00f5es africanas. Renato Ortiz afirma, sobre o grupo banto, que \u201c\u00c9 esta etnia que tende a sincretizar, com maior facilidade, suas cren\u00e7as com a corrente esp\u00edrita kardecista, dando assim nascimento ao que se costuma vagamente chamar de baixo espiritismo\u201d (ORTIZ, 1999, p. 36 \u2013 37).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-63guk\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Fato curioso \u00e9 que Felisberto Cabinda (ou Cambinda) residia na capital, mas era muito conhecido em Sorocaba. Ademais, ao seu culto ritual\u00edstico frequentavam escravizados que burlavam as vigil\u00e2ncias para participarem, durante a madrugada, das sess\u00f5es. Qual era a extens\u00e3o de sua influ\u00eancia?<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9hrl6\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> N\u00e3o se obteve maiores detalhes sobre as pr\u00e1ticas religiosas em que o mestre Felisberto Cabinda era lideran\u00e7a. Em busca por jornais da capital paulista, encontram-se, na mesma \u00e9poca, diversas cita\u00e7\u00f5es desse nome, associadas a pris\u00f5es por desordem e embriaguez, mas nenhuma em rela\u00e7\u00e3o a pr\u00e1tica de feiti\u00e7aria (A PROV\u00cdNCIA DE S. PAULO, 5 e 6 mar 1880, p. 2; 25 mar 1880, p. 2; A CONSTITUINTE, 25 mar 1880, p. 3; CORREIO PAULISTANO, 11 jan 1880, p. 3; 4 e 5 nov 1886, p. 1; JORNAL DA TARDE, 24 mar 1880, p. 1 e 27 nov 1880, p. 2). De um tal Felisberto Cabinda estava sendo cobrado o imposto predial sobre sua resid\u00eancia, na rua da Liberdade, n\u00ba 104, em S\u00e3o Paulo, no exerc\u00edcio dos anos 1886 a 1887 (CORREIO PAULISTANO, 21 out 1886, p. 2).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-16igl\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Assim como apareceu de repente, da mesma forma, na d\u00e9cada de 1890 em diante, as pistas sobre Felisberto Cabinda desaparecem.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6kf5p\"><br><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><strong>Jo\u00e3o de Camargo, de Sorocaba<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-etvih\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Dentre os mais afamados praticantes de religiosidades afro-brasileiras, possivelmente, desponta o nome de Jo\u00e3o de Camargo. Sobre ele publicaram-se diversos livros, disserta\u00e7\u00f5es e teses, reportagens de jornais e revistas. Esse personagem hist\u00f3rico foi interpretado no cinema por L\u00e1zaro Ramos no filme \u201cCafund\u00f3\u201d, dirigido por Paulo Betti.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2gq33\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Nasceu Jo\u00e3o de Camargo em uma fazenda no bairro dos Cocais, em Sarapu\u00ed, regi\u00e3o de Sorocaba, no dia 16 de maio de 1858. Ap\u00f3s a Aboli\u00e7\u00e3o, ou pouco antes, teria se mudado para Sorocaba. Casou-se com Escol\u00e1stica do Esp\u00edrito Santo, mas o matrim\u00f4nio durou pouco tempo.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-ce9lk\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Dizem \u2013 e o pr\u00f3prio Jo\u00e3o de Camargo confirmava \u2013 que trabalhava em trabalhos bra\u00e7ais, sendo um trabalhador dedicado, mas que ao final do expediente, embriagava-se todos os dias. Certa feita, ao sair do bar, completamente embriagado, teria se dirigido at\u00e9 a sua casa. Por\u00e9m, no caminho, resolveu acender uma vela em uma capelinha em devo\u00e7\u00e3o a alma de um menino que naquele local.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-28t3v\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Jo\u00e3o de Camargo disse, posteriormente, que teve uma vis\u00e3o do esp\u00edrito desse menino, chamado de Alfredinho, que juntamente com Nossa Senhora e o esp\u00edrito de Monsenhor Jo\u00e3o Soares ditaram a ele novas regras de vida, a qual dedicaria a partir daquele momento \u00e0 caridade e a cura.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-81hq2\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Por volta de 1906, constr\u00f3i uma capela na beira da estrada do c\u00f3rrego da \u00c1gua Vermelha (atual Avenida Bar\u00e3o de Tatu\u00ed, em Sorocaba), templo esse logo ampliado devido o n\u00famero elevado de fi\u00e9is que o procuravam.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bee7a\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Em 1913 \u00e9 preso e processado por curandeirismo e perturba\u00e7\u00e3o da ordem social. Para sua defesa atuou o advogado Juvenal Parada que n\u00e3o somente conseguiu absolv\u00ea-lo das acusa\u00e7\u00f5es, como, ainda, orientou-o a registrar a capela como uma Associa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita, de maneira a n\u00e3o ter mais problemas com a pol\u00edcia e a Justi\u00e7a. No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1920, Jo\u00e3o de Camargo seguiu a orienta\u00e7\u00e3o de seu advogado e, a despeito do preconceito da elite branca da cidade, n\u00e3o teve maiores problemas com a Justi\u00e7a (CAVALHEIRO, 2020).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bea0v\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Ant\u00f4nio Francisco Gaspar descreve Jo\u00e3o de Camargo como um curador que \u201cem estado de extase ou transe, tem a gra\u00e7a de poder responder a consultas e indicar rem\u00e9dios aos padecentes, subjugado por esse agente invis\u00edvel que d\u2019elle se serve como de um apparelho ou instrumento para curar enfermos\u201d (GASPAR, 2020, p. 66).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8tcav\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Originalmente, o testemunho de Gaspar foi registrado em 1925, data relativamente pr\u00f3xima do inicio do culto criado por Jo\u00e3o de Camargo, ou seja, cerca de 19 anos. Gaspar tamb\u00e9m descreve o cotidiano dos trabalhos realizados na igreja constru\u00edda por Jo\u00e3o de Camargo:<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5cie4\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>O DIA DE CONSULTAS. A capella da \u201c\u00c1gua Vermelha\u201d regorgita de povo. S\u00e3o seis horas da manh\u00e3. [&#8230;] Por entre o vozeio intensivo da multid\u00e3o que chega e espera abrir-se a porta principal da igreja, ouve-se, ao lado, o som brando das \u00e1guas do c\u00f3rrego da \u201c\u00c1gua Vermelha\u201d [&#8230;] Alli se encontra a m\u00e3e que chora ao ver o filhinho doente, sem esperan\u00e7a de salval-o; acol\u00e1, \u00e9 a jovem que vem pedir melhoras para seu velho pae; al\u00e9m \u00e9 o infeliz agricultor que, vendo a planta\u00e7\u00e3o rechitica, vem pedir a Jo\u00e3o de Camargo que lhe d\u00ea um \u201carranjo\u201d \u00e1 lavoura [&#8230;] No interior da capella, [&#8230;] Jo\u00e3o de Camargo ajoelha-se, concentra-se e, segurando a extremidade d\u2019uma fita que pende da m\u00e3o da imagem do Senhor Bom Jesus do Bomfim, intuitivamente ouve a voz occulta e vae ministrando e indicando o rem\u00e9dio para este ou aquelle consultante (GASPAR, 2020, p. 51 \u2013 53).<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-e6ls1\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> CAMPOS e FRIOLI (1999, p. 30) encontraram foi da influ\u00eancia angolana da macumba e do culto da calunga que desabrochou o culto de Jo\u00e3o de Camargo. Encontraram esses autores, tamb\u00e9m, elementos de diversas tradi\u00e7\u00f5es como o catolicismo popular e at\u00e9 mesmo do espiritismo.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dldqo\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Como ocorreu com os outros casos de curandeiros e feiticeiros, Jo\u00e3o de Camargo sofreu persegui\u00e7\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es. O ajuntamento de pessoas ao redor de sua igreja preocupou as autoridades que n\u00e3o desejavam ver surgir algum movimento religioso de \u201cfan\u00e1ticos\u201d. Ademais, ao redor de sua igreja, Jo\u00e3o de Camargo constituiu uma territorialidade negra que rivalizava com o ideal burgu\u00eas e branco do progresso industrial de Sorocaba (CAVALHEIRO, 2020).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8updn\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cn5i3\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Seria por demais de extenuante indicar outras refer\u00eancias de cultos de matriz africana ou afro-brasileira que tenham se desenvolvido no interior de S\u00e3o Paulo. Os casos aqui citados servem, ao menos, para que possamos formar uma s\u00edntese e, ainda, apontar para a forma\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria dos rituais afro-caipiras de S\u00e3o Paulo nos s\u00e9culos XIX e XX.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1dql\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> A maior parte dos casos apontados aqui s\u00e3o tidos como cultos de origem banto. Por banto, conforme dito antes, entende-se um grupo lingu\u00edstico dos quais participam os congos, angolas, mo\u00e7ambiques, macuas, cabindas, benguelas, monjolos, entre outros. Os nomes dos participantes, as palavras designativas de objetos ou a\u00e7\u00f5es cultuais, o nome das divindades, tudo indica a origem banto.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9n52e\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Ao tratar da \u201cmacumba paulista\u201d, Roger Bastide salienta que \u201cos negros paulistas eram em grande maioria bantos e que, no Brasil, \u00e9 entre os bantos que se encontra a maior parte dos fatos ligados aos cultos dos astros, em estado puro&#8230;\u201d (BASTIDE, 1983, p. 197). Os grupos bantos baseavam suas cren\u00e7as no culto aos antepassados (ORTIZ, 1999). Esse culto aos antepassados conheceu diversas formas e tend\u00eancias, como o culto da cabula, da macumba e da calunga, transformando-se e adaptando-se conforme as circunst\u00e2ncias, organizando-se posteriormente em uma nova religi\u00e3o. Com isso, conforme atesta Monique Augras, a macumba \u201cpassou a integrar uma nova religi\u00e3o que congrega elementos africanos, ind\u00edgenas, cat\u00f3licos, esp\u00edritas e ocultistas, ou seja, a umbanda\u201d (AUGRAS, 2008, p. 30).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6thbj\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Os rituais afro-caipiras de S\u00e3o Paulo ser\u00e3o combatidos a partir do temor da elite branca acerca de duas possibilidades: a do uso do feiti\u00e7o e a da aglutina\u00e7\u00e3o de negros para insurrei\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-d7los\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> A primeira est\u00e1 ligada ao imagin\u00e1rio criado desde a Europa acerca dos poderes \u201cdemon\u00edacos\u201d que as bruxas e feiticeiros exerciam. O Tribunal do Santo Of\u00edcio, numa perspectiva de manter o monop\u00f3lio sobre o \u201cmercado religioso\u201d,<a class=\"_3Bkfb _1lsz7\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/92c1b246-3d52-4d9a-adb1-2786a42aa324\/blog\/59022415-9714-4908-bbef-2e3426182c9d\/edit?referralInfo=sidebar#_ftn3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-hook=\"linkViewer\">[3]<\/a> prendeu e combateu os acusados de feiti\u00e7aria.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-c4qna\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O uso de for\u00e7as sobrenaturais para diversas finalidades povoou a imagina\u00e7\u00e3o popular dos luso-brasileiros, gerando um temor desmedido em rela\u00e7\u00e3o aos cultos afro-caipiras. Negr\u00e3o (1996, p. 47) recorda um fato ocorrido 1876, na cidade de Tiet\u00ea, em que o inspetor de quarteir\u00f5es n\u00e3o teve coragem de impedir a reuni\u00e3o na casa de Mam\u00e3 Catharina \u201cporque teve medo de feiti\u00e7os\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6tjk\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O ajuntamento de escravizados e libertos foi uma preocupa\u00e7\u00e3o que permeou toda a institui\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. Afinal, o chamado \u201chaitianismo\u201d \u2013 receio de uma insurrei\u00e7\u00e3o de escravizados ao modo de como ocorreu na Guerra de Independ\u00eancia do Haiti \u2013 tinha a sua raz\u00e3o de ser devido a crueldade e injusti\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es escravocratas.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dvj7k\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Esse temor se estender\u00e1 pelas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, alimentado pela ocorr\u00eancia de movimentos messi\u00e2nicos como o de Canudos e do Contestado, amparados por figuras religiosas que poderiam aglutinar um n\u00famero consider\u00e1vel de pessoas ao seu redor. Jo\u00e3o de Camargo, por exemplo, foi comparado a Ant\u00f4nio Conselheiro num relat\u00f3rio oficial de sa\u00fade p\u00fablica (CAVALHEIRO, 2020).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fgr1c\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> Procurando fugir das persegui\u00e7\u00f5es institucionais, alguns desses cultos afro-caipiras acabaram se organizando em irmandades e confrarias cat\u00f3licas, em sociedades \u201cesp\u00edritas\u201d e, posteriormente, assumindo o nome da Umbanda (CAVALHEIRO, 2020; OLIVEIRA, 2008; CAMPOS e FRIOLI, 1999; KOGURUMA, 2001; BASTIDE, 1983, NEGR\u00c3O, 1996; AMARAL, 1991; AUGRAS, 2008; ORTIZ, 1999).<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4jl10\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O fato de encontrarmos elementos nesses relatos do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX com os quais possamos relacionar com o que conhecemos hoje dos cultos e rituais afro-brasileiros demonstra uma resist\u00eancia cultural que atravessou os tempos:<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cuhel\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><em>A velha feiti\u00e7aria dos escravos negros, que come\u00e7ou quinhentos anos atr\u00e1s, noturnamente, \u00e0s escondidas, nos terreiros das senzalas e nos arredores das fazendas, e que passou \u00e0s rezas e comemora\u00e7\u00f5es nas confrarias cat\u00f3licas, nas igrejas e nos adros, acabando por dan\u00e7ar nos batuques das congadas, dos lundus e dos cateret\u00eas, essa feiti\u00e7aria foi persistindo nos calundus quase dois s\u00e9culos, at\u00e9 que ganhou seus templos nas casas das cidades e acabou desabrochando em seus m\u00faltiplos arranjos pelos Brasil afora (CAMPOS, FRIOLI, 1999, p. 34).<\/em><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8ajdu\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> O estudo dos rituais afro-caipiras do passado, portanto, permite olhar em perspectiva para a trajet\u00f3ria percorrida at\u00e9 os dias de hoje pelas diversas formas e modalidades da religiosidade africana no Brasil, especialmente dos grupos bantos, ocorridas por imposi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas, como apontou Ortiz (1999), culminando no surgimento, posteriormente, da Umbanda.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-co0n6\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6g4vd\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">AMARAL, Raul Joviano. <strong>Os pretos do Ros\u00e1rio de S\u00e3o Paulo. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Jo\u00e3o Scortecci Editora, 1991.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-7pjgp\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">AUGRAS, Monique. <strong>O duplo e a metamorfose \u2013 <\/strong>A identidade m\u00edtica em comunidades nag\u00f4. Rio de Janeiro: Vozes, 2008.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bkjhg\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">BASTIDE, Roger. <strong>Estudos afro-brasileiros. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Editora Perspectiva, 1983.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2rpmj\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">BASTOS, Abguar. Vocabul\u00e1rio dos ritos m\u00e1gico-brasileiros de origem africana. In: <strong>D.O. Leitura<\/strong>, 10 dez 1991.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fqpc2\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">BERGER, Peter. <strong>O dossel sagrado. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Paulus, 2009.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-332lr\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">CAMPOS, Carlos de., FRIOLI, Adolfo. <strong>Jo\u00e3o de Camargo de Sorocaba \u2013 O nascimento de uma religi\u00e3o<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Ed. Senac, 1999.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-9j7f6\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">CAMPOS JUNIOR, Jo\u00e3o de. <strong>As religi\u00f5es afro-brasileiras \u2013 Di\u00e1logo poss\u00edvel com o cristianismo. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Salesiana Dom Bosco, 1998.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-5as13\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">CAVALHEIRO, Carlos Carvalho. <strong>Vadios e Imorais<\/strong>. Sorocaba: Crearte, 2010.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-fub88\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">______. <strong>Scenas da Escravid\u00e3o<\/strong>. Sorocaba: Crearte, 2006.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-lklu\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">______. <strong>Jo\u00e3o de Camargo, o Homem da \u00c1gua Vermelha. <\/strong>Maring\u00e1 (PR): A. R. Publisher, 2020.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4p5nt\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">______. <strong>Tradi\u00e7\u00f5es negras sorocabanas e mem\u00f3ria. <\/strong>Sorocaba: Do autor, 2015.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3c26e\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">COUCEIRO, Luiz Alberto. <strong>Pai Gavi\u00e3o e a Coroa da Salva\u00e7\u00e3o: cren\u00e7a e acusa\u00e7\u00f5es de feiti\u00e7aria no Imp\u00e9rio do Brasil<\/strong>, Rio de Janeiro, Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia e Antropologia \u2013 IFCS\/UFRJ, 2004.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-dgvgu\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">CORTEZ, Edmundo Maranh\u00e3o. <strong>Religi\u00f5es africanas: Umbanda. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Editora Tr\u00eas, [1986].<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-cs3i8\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">DUBUGRAS, Elsie., GRAZIANO FILHO, Romeo., DOLIS, Ros\u00e2ngela Maria. <strong>Cultos afro-brasileiros. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Editora Tr\u00eas, s\/d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-61l65\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">GASPAR, Ant\u00f4nio Francisco. <strong>O Myst\u00e9rio da \u00c1gua Vermelha. <\/strong>(ed. Fac-similar). Sorocaba: Gilberto Tenor, 2020.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1itnb\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">KOGURUMA, Paulo. <strong>Conflitos do Imagin\u00e1rio<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Annablume, 2001.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-evou4\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">MOTT, Luiz. Paulistas e colonos de S\u00e3o Paulo nas garras da Inquisi\u00e7\u00e3o. In <strong>REVISTA USP<\/strong>, S\u00e3o Paulo, n.45, p. 116-128, mar\u00e7o\/maio 2000.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-bjd66\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">NARDY FILHO, Francisco. <strong>A cidade de Itu \u2013 <\/strong>vol. 3. Itu: Ottoni, 2000.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-1ev4g\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">OLIVEIRA, Jos\u00e9 Henrique Motta. <strong>Das macumbas \u00e0 umbanda. <\/strong>Limeira (SP): Editora do Conhecimento, 2008.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-895a8\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">ORTIZ, Renato. <strong>A morte branca do feiticeiro negro. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1999.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-4b0jl\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">NEGR\u00c3O, L\u00edsias Nogueira. <strong>Entre a cruz e a encruzilhada. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Edusp, 1996.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-2dubo\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">PAULA JUNIOR, Antonio Filogenio. <strong>Saberes no p\u00e9 do Tambu. <\/strong>Rio de Janeiro: Mal\u00ea Edi\u00e7\u00f5es, 2022.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-3sbs\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">RIBEIRO, J\u00falio. <strong>A Carne<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 1999.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-6jfrn\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\">RIO, Jo\u00e3o do. <strong>As religi\u00f5es do Rio. <\/strong>Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 2015.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p id=\"viewer-8s6sf\"><span class=\"_2PHJq public-DraftStyleDefault-ltr\"> <a class=\"_3Bkfb _1lsz7\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/92c1b246-3d52-4d9a-adb1-2786a42aa324\/blog\/59022415-9714-4908-bbef-2e3426182c9d\/edit?referralInfo=sidebar#_ftnref1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-hook=\"linkViewer\">[1]<\/a> Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 71 de 2 abr 1876 \u2013 C\u00f3digo de Posturas da C\u00e2mara Municipal de Campinas. Acervo ALESP, texto dispon\u00edvel em: https:\/\/www.al.sp.gov.br\/repositorio\/legislacao\/resolucao\/1876\/resolucao-71-02.04.1876.html Acesso em 29 jan 2023. Interessante perceber que essas Casas de Batuques n\u00e3o se confundem com os batuques que s\u00e3o dan\u00e7ados. Na mesma postura, aparece outro artigo reprimindo a dan\u00e7a do batuque: \u201cArt. 199. &#8211; Fic\u00e3o prohibidos dentro da Cidade, ou chacaras proximas \u00e1 Cidade, batuques, cantorias e dansas de pretos ou escravos que poss\u00e3o incommodar a vizinhan\u00e7a e o publico. O dono da casa ou chacara ser\u00e1 multado em 20$000\u201d. <a class=\"_3Bkfb _1lsz7\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/92c1b246-3d52-4d9a-adb1-2786a42aa324\/blog\/59022415-9714-4908-bbef-2e3426182c9d\/edit?referralInfo=sidebar#_ftnref2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-hook=\"linkViewer\">[2]<\/a> Resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 103 de 3 maio 1870 da C\u00e2mara Municipal de Santos. Acervo ALESP, texto dispon\u00edvel em: https:\/\/www.al.sp.gov.br\/repositorio\/legislacao\/resolucao\/1870\/resolucao-103-03.05.1870.html Acesso em 29 jan 2023. <a class=\"_3Bkfb _1lsz7\" href=\"https:\/\/manage.wix.com\/dashboard\/92c1b246-3d52-4d9a-adb1-2786a42aa324\/blog\/59022415-9714-4908-bbef-2e3426182c9d\/edit?referralInfo=sidebar#_ftnref3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-hook=\"linkViewer\">[3]<\/a> O termo \u00e9 emprestado do soci\u00f3logo Peter Berger que ensina que com o fim dos monop\u00f3lios religiosos (separa\u00e7\u00e3o entre o Estado e a Igreja), as institui\u00e7\u00f5es religiosas \u201cn\u00e3o podem mais contar com a submiss\u00e3o de suas popula\u00e7\u00f5es\u201d. Assim, \u201ca tradi\u00e7\u00e3o religiosa, que antigamente podia ser imposta pela autoridade, agora tem que ser colocada <em>no mercado\u201d<\/em> (BERGER, 2009, p<em>. <\/em>149). As diferentes tradi\u00e7\u00f5es religiosas, portanto, com o fim do monop\u00f3lio, disputam o mercado religioso entre os poss\u00edveis fi\u00e9is \/ consumidores.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><br><strong>Carlos Carvalho Cavalheiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><a href=\"carlosccavalheiro@gmail.com\" title=\"carlosccavalheiro@gmail.com\">carlosccavalheiro@gmail.com<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>WhatsApp: <\/strong><a href=\"http:\/\/15\/99174-6634\" title=\"15\/99174-6634\">15\/99174-6634<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><br>Voltar: <a href=\"http:\/\/www.jornalrol.com.br\" title=\"\">http:\/\/www.jornalrol.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Religi\u00f5es afro-caipiras de S\u00e3o Paulo \u2013 Do s\u00e9culo XVIII ao in\u00edcio do s\u00e9culo XX<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[1094,1651,9199],"class_list":["post-55017","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comunicacao","tag-artigo","tag-carlos-carvalho-cavalheiro","tag-religioes-afro-caipiras-de-sao-paulo-do-seculo-xviii-ao-inicio-do-seculo-xx"],"aioseo_notices":[],"views":1531,"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":29582,"url":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=29582","url_meta":{"origin":55017,"position":0},"title":"Obra sobre Porto Feliz \u00e9 doada ao acervo do Museu Afro","author":"Carlos Carvalho Cavalheiro","date":"11 de outubro de 2019","format":false,"excerpt":"Obra sobre Porto Feliz \u00e9 doada ao acervo do Museu Afro O Museu Afro Brasil, localizado na cidade de S\u00e3o Paulo, refer\u00eancia para a pesquisa e a mem\u00f3ria hist\u00f3rica dos negros brasileiros recebeu no final de setembro a doa\u00e7\u00e3o de livros do professor Carlos Carvalho Cavalheiro. 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