{"id":59395,"date":"2023-07-27T20:16:58","date_gmt":"2023-07-27T23:16:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalrol.com.br\/?p=59395"},"modified":"2023-07-27T20:36:11","modified_gmt":"2023-07-27T23:36:11","slug":"a-nau-dos-loucos-tupiniquim-confinamento-abandono-e-morte-no-colonia-maior-hospicio-que-o-brasil-ja-teve","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=59395","title":{"rendered":"Confinamento, abandono e morte no Col\u00f4nia, maior hosp\u00edcio que o Brasil j\u00e1 teve"},"content":{"rendered":"<div class=\"pdfprnt-buttons pdfprnt-buttons-post pdfprnt-top-right\"><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F59395&print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" ><\/a><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fposts%2F59395&print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" ><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/plugins\/pdf-print\/images\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\" \/><\/a><\/div>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Bruna Rosalem: Artigo &#8216;Confinamento, abandono e morte no Col\u00f4nia, maior hosp\u00edcio que o Brasil j\u00e1 teve&#8217;<br><br><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"55430\" data-permalink=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?attachment_id=55430\" data-orig-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Bruna-Rosalem.png\" data-orig-size=\"120,120\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Bruna-Rosalem\" data-image-description=\"&lt;p&gt;Bruna rosalem&lt;\/p&gt;\n\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Bruna Rosalem&lt;\/p&gt;\n\" data-large-file=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Bruna-Rosalem.png\" src=\"https:\/\/www.jornalrol.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Bruna-Rosalem.png\" alt=\"Bruna Rosalem\" class=\"wp-image-55430\" width=\"159\" height=\"159\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Bruna Rosalem<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">&nbsp;COLUNA PSICAN\u00c1LISE E COTIDIANO<\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\"><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">Falar que fulano \u00e9 louco, sicrana \u00e9 doida, talvez nos remeta a ideia de pessoas que expressam comportamentos no m\u00ednimo estranhos, descompensados, extravagantes, algo que destoa de uma certa \u201cnormalidade\u201d dos di\u00e1logos e das atitudes perante a sociedade.&nbsp; <br><br>De certo modo, a tem\u00e1tica da loucura nos \u00e9 cara, pois nem sempre a pessoa tem de fato alguma patologia mental, desordem ps\u00edquica que a faz transitar entre a comunidade, causando estranhamentos e desconfortos. Ela pode ser simplesmente \u201cdiferente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ousar, muitas vezes, pode ser loucura para uns, falar mais alto, cantarolar, dan\u00e7ar engra\u00e7ado, tatuar-se, pintar os cabelos coloridos, usar roupas que n\u00e3o \u201cornam\u201d, escolher um estilo de vida \u201cfora dos padr\u00f5es\u201d, enfim, h\u00e1 in\u00fameras possibilidades de, a qualquer momento, sermos considerados loucos ou loucas por apenas seguir sonhos e realizar desejos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, nas d\u00e9cadas de 60 e 70 n\u00e3o foi diferente. Muitas vezes vagar pelas ruas, n\u00e3o possuir documentos, ser alco\u00f3latra, se prostituir, gente que fazia enfrentamentos, principalmente quando o assunto era oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mulheres tra\u00eddas pelos seus maridos que as deixavam confinadas em casa, homossexuais, epil\u00e9ticos, gente t\u00edmida ou triste demais, jovens gr\u00e1vidas, crian\u00e7as invis\u00edveis \u00e0 fam\u00edlia. Ou seja, pessoas consideradas incomodas e imprest\u00e1veis eram fortes candidatas \u00e0 interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria no Hospital Col\u00f4nia, situado na cidade mineira de Barbacena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dados retirados do livro-reportagem de Daniela Arbex, \u201cHolocausto Brasileiro\u201d nos revela absurdas 60 mil mortes em um dos cap\u00edtulos mais tristes e desumanos da nossa hist\u00f3ria. Mais de 70% dos internados n\u00e3o tinham de fato uma doen\u00e7a mental, e mesmo que tivessem alguma perturba\u00e7\u00e3o, n\u00e3o seria este o melhor caminho para tratar e cuidar. <br><br>Quando os considerados loucos chegavam ao Col\u00f4nia, perdia-se a fr\u00e1gil identidade que ainda poderiam possuir. Tornavam-se o mais do mesmo, apenas n\u00fameros. Seus cabelos eram raspados, depois seus corpos despidos e seus nomes apagados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os ent\u00e3o pacientes para o resto da vida, confinados entre os muros do hosp\u00edcio, perambulavam por aqueles espa\u00e7os escuros, \u00famidos, f\u00e9tidos, insalubres. Comiam ratos, bebiam a pr\u00f3pria urina ou \u00e1gua de esgoto, dormiam ao relento no ch\u00e3o ou em amontoados de capim. Como se n\u00e3o bastasse tamanha neglig\u00eancia, eles ainda sofriam constantes torturas, viol\u00eancia e espancamentos. Relatos apontam que os eletrochoques eram t\u00e3o fortes que ocasionava sobrecarga, fazendo com que a rede de ilumina\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio ca\u00edsse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda n\u00e3o acabou. Cerca de 30 beb\u00eas foram roubados de suas m\u00e3es, pacientes do hosp\u00edcio. As mulheres passavam fezes em suas barrigas para que as enfermeiras n\u00e3o as tocassem, dessa forma, acreditavam que seus filhos fossem salvos. Ledo engano, ao nasceram eram arrancados de seus bra\u00e7os e doados a diversas fam\u00edlias. Jamais veriam seus rostos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Havia muitas maneiras de sucumbir naquele lugar pavoroso. Fome, frio, doen\u00e7as infectocontagiosas ou ainda, por n\u00e3o resistirem aos choques e as torturas. O hospital Col\u00f4nia de Barbacena em sua maior lota\u00e7\u00e3o, confirmava 16 mortes por dia. Os cad\u00e1veres eram muito lucrativos para os seus administradores, pois eram vendidos para 17 faculdades de medicina do pa\u00eds. <br><br>Se a \u201csafra\u201d de corpos estava em quantidade demasiada e o mercado n\u00e3o suportava comprar, outra ideia surgia: decompor os corpos em \u00e1cido, no p\u00e1tio, aos olhos de todos, para que as ossadas fossem comercializadas. Neste sistema valioso, tudo era aproveitado. Ningu\u00e9m questionava. Afinal, quem eram aqueles seres sen\u00e3o pe\u00e7as, peda\u00e7os ou instrumentos que poderiam ter alguma serventia mortos? J\u00e1 que em vida eram menos que nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas vezes, os corpos enterrados subiam repentinamente \u00e0 superf\u00edcie provocando indigna\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o proporcional ao tempo que ficavam expostos, ou seja, t\u00e3o breve que logo pedras empurravam-nos de volta ao solo e ao completo esquecimento. Nada acontecia. Nunca estiveram ali. Al\u00e9m de morrer pelas in\u00fameras mol\u00e9stias e viol\u00eancia di\u00e1ria, morriam por invisibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mat\u00e9rias foram feitas sobre o Col\u00f4nia. No ano de 1961, por exemplo, o fot\u00f3grafo Luiz Alfredo e o rep\u00f3rter Jos\u00e9 Franco contaram a rotina do hospital na revista <em>O Cruzeiro<\/em>. Diziam que l\u00e1 era a verdadeira \u201csucursal do inferno\u201d. <br><br>Em 1979 dois trabalhos se destacaram na m\u00eddia brasileira, a fot\u00f3grafa Jane Faria e o rep\u00f3rter Hiram Firmino publicaram no jornal <em>Estado de Minas <\/em>a reportagem \u201cOs por\u00f5es da loucura\u201d e \u201cEm nome da raz\u00e3o\u201d<em>, <\/em>document\u00e1rio de Helv\u00e9cio Ratton, tornou-se s\u00edmbolo da luta antimanicomial. A fala de um dos psiquiatras que trabalhava no hospital relatada no livro de D. Arbex, \u00e9 emblem\u00e1tica: \u201cO que acontece no Col\u00f4nia \u00e9 a desumanidade, a crueldade planejada. <br><br>No hosp\u00edcio, tira-se o car\u00e1ter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. \u00c9 permitido andar nu e comer bosta, mas \u00e9 proibido o protesto qualquer que seja a sua forma\u201d. O m\u00e9dico foi demitido pouco tempo depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente restam alguns poucos sobreviventes que tentam tocar a vida como podem. Cheios de traumas, vazios, tristezas, manias e rituais que adquiriram durante o longo per\u00edodo de interna\u00e7\u00e3o. Muitos deles vivem em resid\u00eancias terap\u00eauticas e s\u00e3o assistidos por equipes multidisciplinares. O Hospital Col\u00f4nia de Barbacena encerrou suas atividades, ou poder\u00edamos dizer, suas aberra\u00e7\u00f5es no final dos anos 80.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A loucura \u00e9 tema amplo de debate e discuss\u00f5es at\u00e9 hoje. Embora n\u00e3o tenhamos mais hospitais aos moldes do Col\u00f4nia, reavivar a tem\u00e1tica acerca do tratamento psiqui\u00e1trico no Brasil se faz urgente e necess\u00e1ria. O livro-reportagem \u201cHolocausto Brasileiro\u201d traz \u00e0 tona um epis\u00f3dio amargo e de dif\u00edcil digest\u00e3o testemunhado pela sociedade brasileira. Um verdadeiro genoc\u00eddio com a coniv\u00eancia de m\u00e9dicos, funcion\u00e1rios e pessoas da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Milhares de mortos ficaram para a hist\u00f3ria e os sobreviventes daqueles anos de horror e caos, hoje podem contar, atrav\u00e9s de sua fala outrora emudecida, seus enredos como verdadeiros protagonistas de um novo roteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>Bruna Rosalem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-blush-light-purple-gradient-background has-background\"><a href=\"mailto:brosalem@gmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"E-meio\">E-meio<\/a><\/h4>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-blush-light-purple-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/wa.me\/47999626203\" title=\"WhatsApp\">WhatsApp<\/a><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-blush-light-purple-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/@psicanalistabrunarosalem\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" title=\"Instagram\">Instagram<\/a><\/h4>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-blush-light-purple-gradient-background has-background\"><a href=\"https:\/\/www.psicanaliseecotidiano.com.br\" title=\"Saite\">Saite<\/a><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><br>Voltar: <a href=\"http:\/\/www.jornalrol.com.br\" title=\"\">http:\/\/www.jornalrol.com.br<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falar que fulano \u00e9 louco, sicrana \u00e9 doida, talvez nos remeta a ideia de pessoas que expressam comportamentos no m\u00ednimo estranhos, descompensados, extravagantes 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